terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Escorregador de Gelo


Por mais azarados que sejam, até agora os órfãos Baudelaire pelo menos sempre estiveram juntos. Pois neste livro décimo a tragédia é ainda maior: separados do bebê Sunny, Klaus e Violet são obrigados a descer uma montanha escorregadia, enquanto tentam salvar a irmã mais nova das garras do temível conde Olaf.
Será que os Baudelaire finalmente descobrirão o significado da sigla C.S.C.? Será que, desta vez, o final será feliz? É provável que não. Como sempre, a história está repleta de mistérios e mensagens secretas, situações absurdas, desgraça e mal-estar para todos – menos para o leitor, é claro. Mas quem gosta de alegria não deve nem abrir este livro, avisa o autor, pois a vida dos Baudelaire é sempre uma desventura pior do que a outra.

Carta

Ao meu amável editor,

Peço desculpas pelo estado aquoso desta carta, mas receio que a tinta tenha se diluído, uma expressão que aqui significa “misturar-se à água salgada do mar e às lágrimas do autor”.
Tem sido difícil continuar a investigação sobre o que aconteceu aos Baudelaire enquanto viveram num submarino arruinado, e tudo o que posso esperar é que o resto desta carta não acabe sendo totalmente lavado pelas águas.

Meu próximo livro, que vai...

Capítulo treze


O conde Olaf engoliu em seco e ergueu sua única sobrancelha, enquanto encarava os dois Baudelaire e Quigley Quagmire. Seus olhos estavam mais brilhantes do que nunca. “Onde está?”, disse ele com um terrível e agudo sussurro. “Entreguem o açucareiro agora!”
Ainda mascarada, Violet sacudiu a cabeça. “Só o entregaremos quando você libertar Sunny Baudelaire”, disse.
“Nunca!”, retrucou o vilão. “Sem a fedelha dentuça não conseguirei pôr as mãos na fortuna Baudelaire. Ou vocês me entregam o açucareiro ou vou atirá-los montanha abaixo!”
“Se você nos atirar lá embaixo”, disse Klaus, “nunca saberá onde está o açucareiro.” Mas é claro que ele não revelou que os Baudelaire não tinham a menor ideia de onde estava o açucareiro, nem do motivo por que ele era tão importante.
Esmé Squalor avançou na direção de Olaf, fazendo seu vestido crepitar contra a terra. “Precisamos daquele açucareiro”, rosnou ela. “Solte o bebê. Depois faremos outro plano para roubar a fortuna.”
“Mas roubar a fortuna é uma causa maior”, disse o conde Olaf. “Não podemos soltar o bebê.”
“A causa maior é pegar o açucareiro”, disse Esmé, contrariada.
“É roubar a fortuna”, insistiu Olaf.
“É pegar o açucareiro”, retrucou Esmé.
“Fortuna!”
“Açucareiro!”
“Fortuna!”
“Açucareiro!”
“Chega!”, ordenou o homem com barba mas sem cabelo. “O plano de recrutamento está prestes a começar. Vocês não podem passar o dia discutindo.”
“Não íamos passar o dia discutindo”, disse Olaf, envergonhado. “Em umas poucas horas...”
“Nós dissemos chegai”, repetiu a mulher com cabelo mas sem barba. “Tragam o bebê aqui!”
“Tragam o bebê imediatamente!”, ordenou o conde Olaf às duas mulheres de cara branca. “Está tirando um cochilo no prato de forno.”
As duas mulheres de cara branca suspiraram, mas foram pegar a panela como se fossem duas cozinheiras retirando algum prato do forno, e não empregadas vilanescas encarregadas de trazer um uma prisioneira até o chefe dos vilões. Nesse meio-tempo, os dois visitantes sinistros enfiaram a mão por dentro do colarinho da camisa e puxaram alguma coisa que traziam pendurada no pescoço. Violet e Klaus se surpreenderam ao ver dois reluzentes apitos de prata, parecidos com o que Olaf usara para se disfarçar de treinador na Escola Preparatória Prufrock.
“Vejam só isso, voluntários”, disse o homem sinistro com sua voz rouca, e os dois vilões sopraram os respectivos apitos. Sobre as cabeças das crianças ouviu-se um enorme ruído farfalhante, como se as correntezas de ar das Montanhas de Mão-Morta estivessem tão assustadas com as pessoas sinistras quanto os jovens. E de repente tudo ficou muito escuro, como se também o sol da manhã tivesse colocado uma máscara. Mas quando olharam para cima, Violet, Klaus e Quigley viram que a razão por que o céu parecia emitir sons e a luz parecia ter sido abafada era mais estranha do que os ventos se assustarem e o Sol colocar uma máscara.
O céu do Monte Fraught estava coalhado de águias. Centenas e centenas delas voavam em círculos bem acima dos dois vilões sinistros. Para terem chegado tão depressa as águias deviam ter feito seus ninhos por perto, e deviam ter sido muito bem treinadas também, pois voavam em um silêncio tétrico. Algumas pareciam tão velhas que deviam pairar nos céus desde quando os pais dos Baudelaire eram crianças. Outras pareciam mais jovens, como se tivessem acabado de sair do ovo. Mas todas elas pareciam exaustas, e certamente preferiam estar em qualquer outro lugar que não o pico mais alto das Montanhas de Mão-Morta, obedecendo a ordens vilanescas.
“Olhem para aquelas criaturas!”, exclamou a mulher com cabelo mas sem barba. “Quando ocorreu a cisão, vocês voluntários podem ter ficado com os corvos-correio e os répteis amestrados.”
“Não mais”, disse o conde Olaf. “Todos os répteis, com exceção de um...”
“Não interrompa”, interrompeu a mulher sinistra. “Vocês podem ter os corvos-correio, mas nós temos os dois mamíferos mais poderosos e obedientes do mundo: os leões e as águias!”
“Águias não são mamíferos”, exclamou Klaus, exasperado. “Elas são aves!”
“Elas são escravas”, disse o homem com barba mas sem cabelo, e os dois vilões sacaram dois chicotes de dentro de seus bolsos. Violet e Klaus perceberam na hora que aqueles açoites eram muito parecidos com o que Olaf usara contra os leões no Parque Caligari. Exibindo escárnio, estalaram seus chicotes no ar, e quatro águias pousaram sobre os enchimentos que os vilões tinham nos ombros.
“Essas feras nos obedecem”, disse a mulher. “Hoje vão nos ajudar no maior dos nossos triunfos.” Desenrolou o chicote e mostrou com um gesto a terra em volta de si. As crianças notaram que por toda a extensão do cume havia uma rede no chão, que só acabava junto aos seus sapatos de alpinismo. “Ao meu sinal as águias erguerão a rede e a jogarão sobre um grupo de jovens que pensa estar aqui para celebrar a Falsa Primavera.”
“Os Escoteiros da Neve”, disse Violet, atônita.
“Não vai restar um só desses fedelhos uniformizados”, vangloriou-se o homem, “e vamos oferecer a cada um deles a emocionante oportunidade de juntar-se a nós.”
“Eles nunca se juntarão a vocês”, disse Klaus.
“É claro que sim”, disse a mulher sinistra com sua voz muito, muito profunda. “Ou eles entram para nossa trupe ou serão nossos prisioneiros. De todo modo, uma coisa é certa, as casas de seus pais serão incendiadas, uma por uma.”
Os dois Baudelaire estremeceram, e até o conde Olaf pareceu sentir um incômodo. “É claro”, disse ele depressa, “a principal razão por que estamos fazendo isso é pôr as mãos em todas as fortunas.”
“É claro”, disse Esmé com uma risadinha nervosa. “Teremos a fortuna Spats, a fortuna Kornbluth, a fortuna Winnipeg e muitas outras. Poderei me dar ao luxo de morar na cobertura de todo e qualquer edifício que não esteja em chamas!”
“Assim que nos contarem onde está o açucareiro”, disse o homem com barba mas sem cabelo, “vocês poderão partir com a sua amiguinha bebê. Isso é, se não preferirem se juntar a nós.”
“Não, obrigado”, disse Quigley. “Não temos interesse.”
“Não faz diferença se vocês têm ou não interesse”, disse a mulher com cabelo mas sem barba. “Olhem em volta. Vocês são minoria absoluta. Aonde quer que formos, encontraremos novos camaradas ansiosos por nos auxiliar.”
“Nós também temos camaradas”, disse Violet, corajosamente. “Assim que salvarmos Sunny vamos nos encontrar com os outros voluntários no último santuário e contar a eles sobre o seu horrível plano!”
“Tarde demais, voluntários”, disse o conde Olaf, triunfante. “Aí vêm os novos recrutas!”
Com uma horripilante gargalhada, o vilão apontou na direção do caminho pedregoso, e os Baudelaire viram, para além do prato de forno que as mulheres de cara branca traziam, a chegada dos Escoteiros da Neve, andando em uma perfeita fila dupla, mais parecendo ovos na embalagem do que jovens em excursão. Os escoteiros deviam ter notado que os mosquitos da neve estavam ausentes nessa parte das Montanhas de Mão-Morta, e já tinham retirado suas máscaras, portanto Violet e Klaus localizaram imediatamente Carmelita Spats, que vinha na frente de uma das filas com uma tiara na cabeça. “Tiara” é uma palavra que aqui significa “pequena coroa dada, sem uma boa razão para isso, a uma menina desagradável”. Ela ostentava um sorriso pretensioso e bobo. Ao seu lado, na frente da outra fila, vinha Bruce, com o Mastro da Primavera em uma das mãos e um grande charuto na outra. Havia algo em seu rosto que Violet e Klaus acharam familiar, mas estavam preocupados demais com o vilanesco plano de recrutamento para prestar atenção naquilo.
“O que vocês bisbórrias estão fazendo aqui?”, reclamou Carmelita com sua voz odiosa. “Sou a Rainha da Falsa Primavera, e lhes ordeno que vão embora!”
“Vamos, vamos, Carmelita”, disse Bruce. “Tenho certeza de que essas pessoas estão aqui para ajudar a comemorar o seu dia especial. Vamos ser corteses. Você sabe, devíamos ser amorosos, bonzinhos, corteses, delicados, emblemáticos...”
Os escoteiros tinham começado a recitar o ridículo juramento, mas os dois Baudelaire sabiam que não havia tempo hábil para aquilo.
“Bruce”, interrompeu Violet, “essas pessoas não estão aqui para ajudar a comemorar a Falsa Primavera. Planejam sequestrar todos os Escoteiros da Neve.”
“O quê?”, perguntou Bruce com um sorriso, como se a mais velha dos Baudelaire estivesse brincando.
“É uma armadilha”, explicou Klaus. “Leve os escoteiros para longe daqui.”
“Não deem atenção a esses três idiotas”, disse depressa o conde Olaf. “O ar da montanha lhes subiu à cabeça. Cheguem só alguns passos mais perto e nos uniremos todos na comemoração especial.”
“Ficaremos felizes em colaborar”, disse Bruce. “Afinal, somos amorosos, bonzinhos, corteses...”
“Não!”, gritou Violet. “Não está vendo a rede no chão? E as águias no céu?”
“A rede é decorativa”, disse Esmé, com um sorriso tão falso quanto a Primavera, “e as águias são a vida selvagem.”
“Por favor, escutem!”, disse Klaus. “Vocês estão correndo perigo!”
Carmelita olhou com ferocidade para os dois Baudelaire e ajustou a tiara na cabeça. “Por que eu deveria dar ouvidos a bisbórrias? Vocês são tão idiotas que ainda estão de máscara, apesar de não haver nenhum mosquito da neve por aqui.”
Violet e Klaus se entreolharam através das máscaras. A reação de Carmelita fora bastante grosseira, mas era preciso admitir que ela tinha razão. Era improvável que conseguissem convencer os escoteiros de que diziam a verdade com os rostos cobertos. Não queriam sacrificar seus disfarces e revelar suas verdadeiras identidades ao conde Olaf e sua trupe, mas também não podiam permitir o rapto de todos os escoteiros, nem mesmo para salvar a irmã. Os dois Baudelaire balançaram a cabeça um para o outro, depois se voltaram e viram que Quigley também estava balançando a cabeça. Então as três crianças tiraram suas máscaras em nome de uma causa maior.
O conde Olaf deixou cair o queixo e sua boca se abriu de perplexidade. “Você está morta!”, disse ridiculamente à mais velha dos Baudelaire. “Você morreu no trailer, junto com Klaus!”
Esmé arregalou os olhos para Klaus, tão perplexa quanto seu namorado. “Você também está morto!”, exclamou. “Você caiu de uma montanha!”
“E você é um daqueles gêmeos!”, disse Olaf para Quigley. “Você já morreu há muito tempo!”
“Não sou um gêmeo”, disse Quigley, “nem estou morto.”
“E também não é um voluntário”, disse o conde Olaf com escárnio. “Nenhum de vocês é membro de C.S.C. Não passam de um bando de órfãos.”
“Nesse caso”, disse a mulher com cabelo mas sem barba com sua voz muito, muito profunda, “não temos nenhuma razão para nos preocupar com aquele bebê idiota.”
“É verdade”, disse Olaf, e voltou-se para as mulheres de cara branca. “Atirem o bebê montanha abaixo!”, ordenou.
Violet e Klaus soltaram um grito de horror, mas as duas mulheres de cara branca olharam para o prato de forno e depois se entreolharam. Lentamente, dirigiram seus olhares para o conde Olaf, sem no entanto se mexer.
“Vocês estão surdas?”, perguntou Olaf. “Atirem esse bebê!”
“Não”, disse uma delas, e os dois Baudelaire ficaram aliviados.
“Não?”, perguntou Esmé Squalor, atônita. “O que você quer dizer com não?”
“Queremos dizer não”, disse uma mulher de cara branca, e a sua companheira concordou. Juntas, colocaram o prato de forno no chão. Violet e Klaus imaginaram que Sunny devia estar assustada demais para sair dali de dentro, por isso a panela permanecia imóvel.
“Não queremos mais participar dos seus planos”, disse a outra mulher de cara branca, e suspirou. “Foi divertido combater fogo com fogo, mas já estamos satisfeitas.”
“Não acreditamos que foi mera coincidência nossa casa ter sido incendiada”, disse a primeira mulher. “O fogo levou nosso irmão, Olaf.”
O conde Olaf apontou para as duas mulheres com um dedo comprido e ossudo. “Obedeçam às minhas ordens!”, berrou ele, mas suas duas ex-cúmplices sacudiram a cabeça, viraram as costas e começaram a se afastar do vilão. Todos os presentes viram quando as duas mulheres de cara branca passaram pelo conde Olaf, por Esmé Squalor, os dois vilões sinistros com águias nos ombros, os dois Baudelaire e Quigley, o homem de mãos de gancho e os ex-empregados do Parque Caligari. Depois de passar por Bruce, Carmelita Spats e os outros Escoteiros da Neve, elas começaram a se afastar do Monte Fraught.
Olaf soltou um terrível rugido e começou a pular. “Vocês não podem escapar, suas caras brancas!”, gritou ele. “Eu mesmo vou destruí-las! Na verdade, posso fazer qualquer coisa eu mesmo! Sou um profissional liberal e não preciso da ajuda de ninguém para atirar esse bebê montanha abaixo!”. Com uma risadinha malévola, ele pegou o prato de forno e foi até a beira da queda d’água congelada.
“Não!”, gritou Violet.
“Sunny!”, gritou Klaus.
“Digam adeus a esse bebê, fedelhos Baudelaire!”, disse o conde Olaf, com um sorriso triunfante que deixava à mostra seus dentes imundos.
“Eu não sou bebê!”, gritou uma voz familiar debaixo do automóvel do vilão, e os dois Baudelaire viram com orgulho e alívio Sunny emergir de trás do pneu furado e correr ao encontro dos irmãos. Klaus teve de tirar os óculos para enxugar as lágrimas. “Não sou mais um bebê!”, repetiu Sunny, voltando-se triunfante para Olaf.
“Como é possível?”, disse o vilão, mas quando levantou a tampa da panela descobriu como era possível, pois o que estava lá dentro não era um bebê.
“Babaganuche!”, gritou Sunny, o que queria dizer alguma coisa do gênero de: “A berinjela acabou provando ser mais útil do que eu pensava”, mas não foi preciso ninguém traduzir, pois o grande legume escorregou para fora do prato de forno e aterrissou nos pés de Olaf.
“Nada está dando certo hoje!”, gemeu o vilão. “Estou começando a achar que lavar a cara foi total perda de tempo!”
“Não fique aborrecido, patrão”, disse Colette com uma contorção preocupada. “Tenho certeza de que Sunny irá cozinhar alguma coisa para nós com a berinjela.”
“É verdade”, disse o homem de mãos de gancho. “Ela está ficando uma cozinheira cada vez melhor. Os rolinhos Falsa Primavera estavam muito gostosos, e o lox estava uma delícia.”
“Ela podia ter carregado um pouco mais na cebolinha picada”, disse Hugo, mas os três Baudelaire viraram as costas para aquela conversa ridícula e encararam os Escoteiros da Neve.
“Agora você acredita?”, perguntou Violet a Bruce. “Você percebe que esse homem é um vilão horroroso?”
“Não está lembrada de nós?”, perguntou Klaus a Carmelita Spats. “Olaf armou um plano terrível na época da Escola Preparatória Prufrock, e agora está armando outro!”
“É claro que estou lembrada de vocês”, disse Carmelita. “São aqueles órfãos bisbórrias que causaram todos aqueles problemas ao vice-diretor Nero. E agora estão tentando arruinar o meu dia especial! Dê aqui esse Mastro da Primavera, tio Bruce!”
“Vamos, vamos, Carmelita”, disse Bruce, mas Carmelita já tinha agarrado o comprido mastro das mãos dele e estava marchando por cima da rede rumo à nascente do Arroio Enamorado. O homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba agarraram os chicotes malignos e levaram os apitos às suas bocas sinistras, mas os Baudelaire notaram que eles iriam aguardar que todos os escoteiros avançassem para só então acionar a armadilha.
“Eu me coroo Rainha da Falsa Primavera!”, anunciou Carmelita. Com uma gargalhada triunfal, afastou os Baudelaire a cotoveladas e fincou o Mastro da Primavera no topo meio congelado da queda d água. O gelo começou a se estilhaçar, e os Baudelaire viram com horror uma rachadura imensa abrir caminho pelo centro da queda d’água em direção à lagoa e os afluentes do Arroio Enamorado. Embora fosse apenas o gelo se quebrando, parecia que a montanha estava prestes a se partir ao meio, como se uma enorme cisão fosse dividir o mundo inteiro.
“O que vocês estão olhando?”, perguntou Carmelita com desdém. “Vocês deviam estar dançando em minha homenagem.”
“É isso mesmo”, disse o conde Olaf, “por que vocês não dançam em homenagem a essa adorável menininha?”
“Boa ideia”, disse Kevin, e foi até a rede com os colegas. “Afinal, tenho dois pés igualmente fortes.”
“E nós devíamos tentar ser amorosos, bonzinhos e corteses”, disse o homem de mãos de gancho. “Não é isso, tio Bruce?”
“Isso mesmo”, concordou Bruce dando uma baforada no seu charuto. Ele parecia aliviado com o fim da discussão, e o escoteiros finalmente tiveram oportunidade de fazer a mesma coisa que faziam todos os anos. “Avante! Vamos recitar o Juramento Alfabético dos Escoteiros da Neve e dançar em volta do Mastro da Primavera.”
Os escoteiros aplaudiram e seguiram Bruce, que inadvertidamente pisava na rede. “Os Escoteiros da Neve”, disseram os Escoteiros da Neve, “são amorosos, bonzinhos, corteses, delicados, emblemáticos, felizes, grandiosos, humanos, imbatíveis, jovens, limitados, modestos, nacionalistas, oficiais, perfeitos, queridos, recentes, sabidos, talentosos, unânimes, varonis, xilofones e zipados. De manhã, de tarde e de noite, o dia inteiro!”
É claro que não existe nada de errado em fazer um juramento e colocar em palavras o que você considera importante na vida. Por exemplo, se lhe parece que pessoas lidas têm menos probabilidade de ser más, e que um mundo cheio de pessoas que ficam sentadas com livros nas mãos é preferível a um mundo onde haja cisões, sirenes e outras coisas barulhentas e problemáticas, então você poderia dizer quando entrasse numa biblioteca: “Aqui o mundo é tranquilo”, como se fosse um juramento segundo o qual a leitura é uma causa maior. Mas se você acha que as pessoas lidas devem ser queimadas e suas fortunas roubadas, poderia adotar o lema “Combata fogo com fogo!” como seu juramento. Sejam quais forem as palavras que você escolher para descrever a sua própria vida, leve em conta estes dois conselhos básicos para compor um bom juramento. Um é que o juramento deverá fazer sentido – portanto, se o seu juramento contiver a palavra “xilofone”, isso deverá significar que um instrumento de percussão tocado com baquetas é muito importante na sua vida, e não que você simplesmente não é capaz de se lembrar de uma boa palavra que comece com X. O outro conselho é que o juramento deverá ser relativamente curto, pois se um grupo de vilões tentar atraí-lo para dentro de uma armadilha manipulada por águias exaustas, você terá tempo de fugir.
O Juramento Alfabético dos Escoteiros da Neve, infelizmente, não seguia nenhuma dessas orientações. Assim que prometeram ser “xilofones”, o homem com barba mas sem cabelo estalou o chicote no ar, e as águias que pousaram nos ombros dos dois vilões começaram a levantar voo. Quando o juramento estava prestes a terminar, e os escoteiros estavam tomando fôlego para fazer o som de neve, a mulher com cabelo mas sem barba soprou o seu apito estridente, lembrando aos Baudelaire as corridas em círculo que Olaf os obrigava a praticar na Escola Preparatória Prufrock. Os irmãos ficaram com Quigley, observando as águias mergulharem em alta velocidade para o chão e agarrarem a rede com as asas tremendo com o esforço. Como se removessem todos os pratos de uma mesa de jantar erguendo os cantos da toalha, as águias ergueram no ar todos os que estavam em cima da rede. Se você usar esse método inusitado para tirar a mesa, provavelmente será mandado para o seu quarto ou expulso do restaurante, e no Cume das Aflições os resultados também foram desastrosos. Em instantes, todos os Escoteiros da Neve e os comparsas de Olaf estavam reunidos em um amontoado aéreo, debatendo-se dentro da rede. A única pessoa que escapou ao recrutamento – além dos Baudelaire e de Quigley, é claro – foi Carmelita Spats, que estava ao lado do conde Olaf e sua namorada.
“O que está acontecendo?”, perguntou Bruce de dentro da rede para o conde Olaf. “O que você fez?”
“Triunfei”, disse Olaf, “pela segunda vez. A primeira foi há muito tempo, quando eu o enganei para ficar com uma coleção de répteis.” Os Baudelaire se entreolharam atônitos, lembrando de repente em que ocasião tinham visto Bruce pela primeira vez. “E agora, enganei você para ficar com uma coleção de crianças!”
“O que vai acontecer conosco?”, perguntou um dos Escoteiros da Neve, amedrontado.
“Para mim tanto faz”, disse outro escoteiro, que ao que tudo indica estava desenvolvendo a Síndrome de Estocolmo. “Todos os anos escalamos o Monte Fraught e é sempre a mesma coisa. Pelo menos este ano está sendo um pouco diferente!”
“Por que eu também estou sendo recrutado?”, perguntou o homem de mãos de gancho, e os Baudelaire viram que um dos seus ganchos se projetava para fora da rede. “Eu já trabalho para você.”
“Não se preocupe, ganchudo”, retrucou Esmé, zombeteira. “É tudo por uma causa maior!”
Mush!”‘, gritou o homem com barba mas sem cabelo, estalando o chicote. Grasnando de medo, as águias começaram a suspender a rede no céu, afastando-se do Cume das Aflições.
“Você trate de arrancar o açucareiro desses pirralhos, Olaf”, ordenou a mulher com cabelo mas sem barba, “e nos encontraremos no último santuário!”
“Com essas águias”, disse o homem sinistro com sua voz rouca, “poderemos alcançar aquela casa móvel autossustentável a ar quente e destruir aqueles voluntários!”
Os Baudelaire engoliram em seco e compartilharam um olhar atônito com Quigley. O vilão certamente estava falando da engenhoca que Hector construíra na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, dentro da qual Duncan e Isadora escaparam.
“Fogo se combate com fogo!”, bradou triunfante a mulher com cabelo mas sem barba, e as águias a levaram embora. O conde Olaf resmungou alguma coisa consigo mesmo, depois começou a avançar ameaçadoramente para os Baudelaire. “Só preciso de um de vocês para saber onde está o açucareiro”, disse com os olhos brilhando muito, “e para pôr as mãos na fortuna. Mas quem será?”
“Essa é uma decisão difícil”, disse Esmé. “Por um lado, tem sido divertido ter uma serva bebê. Mas mais divertido seria quebrar os óculos de Klaus e vê-lo tropeçar nas coisas.”
“Mas é Violet quem tem os cabelos mais compridos”, ofereceu-se Carmelita, enquanto os Baudelaire e Quigley recuavam para a queda d’água rachada. “Vocês poderiam ficar puxando os cabelos dela o tempo todo, ou então amarrá-los a qualquer coisa quando estivessem entediados.”
“As duas ideias são excelentes”, disse o conde Olaf. “Já tinha me esquecido da menina adorável que você é. Quer juntar-se a nós?”
“Juntar-me a vocês?”, perguntou Carmelita.
“Olhe só o meu vestido estiloso”, disse Esmé. “Se você se juntar a nós, vou comprar muitas roupas in para você.”
Carmelita ficou pensativa, olhando primeiro para as crianças, depois para os dois vilões, que sorriam ao seu lado. Os três Baudelaire olharam com horror e desapontamento para Quigley. Eles sabiam que Carmelita era monstruosa na escola, mas jamais lhes ocorrera que poderia se juntar a gente ainda mais monstruosa.
“Não acredite neles, Carmelita”, disse Quigley, e tirou o seu caderno roxo do bolso. “Eles vão tocar fogo na casa dos seus pais. Tenho as provas bem aqui, no meu livro de lugar-comum.”
“Em quem você prefere acreditar, Carmelita?”, perguntou o conde Olaf. “Num livro bobo de lugar-comum ou no que os adultos estão dizendo?”
“Olhe só para nós, menininha adorável”, disse Esmé, com o vestido amarelo, laranja e vermelho crepitando pelo chão. “Parecemos o tipo de gente que toca fogo nas casas dos outros?”
“Carmelita!”, gritou Violet. “Não lhes dê ouvidos!”
“Carmelita!”, gritou Klaus. “Não se junte a eles!”
“Carmelita!”, gritou Sunny, o que queria dizer alguma coisa na linha de: “Você está tomando uma decisão monstruosa!”.
“Carmelita”, disse o conde Olaf com uma voz tão doce que chegava a ser enjoativa. “Por que você não escolhe um órfão para continuar vivo e empurra os outros montanha abaixo? Depois poderemos ir todos juntos para um bom hotel.”
“Você seria a filha que nunca tivemos”, disse Esmé, fazendo um cafuné na tiara de Carmelita.
“Ou qualquer coisa assim”, acrescentou Olaf, que aparentemente preferia ter mais uma empregada a uma filha.
Carmelita deu mais uma olhadela para os Baudelaire, e então sorriu para os vilões. “Vocês me acham mesmo adorável?”, perguntou ela.
“Adorável, bonita, coisinha linda da mamãe, deliciosa, elegante, fotogênica, gracinha, harmoniosa, impecável, jovial, ketchup, luxuriante, magnificente, namoradeira, obviamente adorável, perfeitamente adorável, quintessencial, realmente adorável, sublime, todinha adorável, única, valente, wagneriana, xilofone, yin-yang e zelosamente adorável”, jurou Esmé. “De manhã, de tarde e de noite, o dia inteiro!”
“Não dê ouvidos a ela!”, implorou Quigley. “Uma pessoa não pode ser xilofone!”
“Não me importa!”, disse Carmelita. “Vou empurrar esses bisbórrias montanha abaixo, e começar uma vida nova, excitante e bem-vestida!”
Os Baudelaire recuaram mais um passo, e Quigley os seguiu, o que deixou claro que as crianças estavam em pânico. Acima delas, podiam ouvir os grasnidos das águias levando os novos recrutas cada vez mais para longe. Atrás, podiam sentir as quatro correntezas soprando vale abaixo, onde a base de operações fora destruída por pessoas que os pais dos Baudelaire tinham jurado deter mesmo ao custo de suas próprias vidas. Violet procurou a sua fita no bolso, tentando imaginar o que inventaria para livrá-los daquelas vilanescas pessoas e rumar para o último santuário. Seus dedos roçaram na faca de pão, e ela se perguntou se deveria tirá-la do bolso e ameaçar os vilões com ela, ou se isso também era uma atitude vilanesca.
“Pobres Baudelaire”, disse o conde Olaf, zombeteiro. “É melhor vocês desistirem. Vocês estão em minoria absoluta.”
“Não estamos em minoria nenhuma”, disse Klaus. “Somos quatro, e vocês são apenas três.”
“Eu valho por três, porque sou a Rainha da Falsa Primavera”, disse Carmelita, “portanto vocês estão em minoria, seus bisbórrias.”
Isso, é claro, não passava de mais um absurdo que saía dos lábios daquela menina cruel, mas, absurdo ou não, o fato de alguém ser ou não minoria nem sempre é decisivo. Por exemplo, quando Violet e Klaus estavam a caminho do Vale das Correntezas que Sopram Constantes, eram minoria em relação ao enxame de mosquitos da neve, mas conseguiram encontrar Quigley Quagmire, escalar o Caminho Secundário das Chamas até a base de operações e encontrar a mensagem oculta na geladeira. Sunny também era minoria em relação a todos aqueles vilões no topo do Monte Fraught, e mesmo assim conseguira manter-se viva, descobrir a localização do último santuário e preparar receitas deliciosas. E os membros de C.S.C., sempre foram minoria, porque o número de pessoas gananciosas e perversas está sempre aumentando, enquanto cada vez mais bibliotecas são incendiadas. Mas mesmo assim os voluntários conseguiram se sustentar, uma palavra que aqui significa “fazer reuniões e se comunicar por códigos ao mesmo tempo que reuniam provas para botar um fim nas armações de seus inimigos”. Nem sempre é importante saber se existem mais pessoas do seu lado da cisão do que do lado oposto, e quando os Baudelaire estavam ao lado de Quigley, e deram mais um passo atrás, sabiam o que era mais importante.
Rosebud!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Em certas situações, a localização de um determinado objeto pesa muito mais do que o fato de se estar em minoria”, e era verdade. Enquanto os vilões perdiam o fôlego de tão surpresos, Violet sentou-se no tobogã e agarrou as correias. Quigley sentou-se atrás dela e passou os braços em volta da sua cintura, e Klaus sentou-se ao lado, com os braços em volta de Quigley. O único espaço que sobrou foi preenchido por Sunny, que se abraçou ao irmão quando Violet os empurrou declive abaixo. Não tinha importância serem minoria. O que importava era que só podiam escapar de um fim monstruoso se deixassem de lado O escorregador de gelo e pegassem emprestado algumas páginas de um livro no qual os vilões não rugiam para crianças que tentavam fugir.
“Logo estaremos bem atrás de vocês, Baudelaire!”, rugiu o conde Olaf, enquanto o tobogã disparava para o Vale das Correntezas que Sopram Constantes, espalhando água ao colidir com o gelo rachado que se derretia.
“Ele não vai conseguir nos pegar”, disse Violet. “Furei o pneu dele com meus sapatos, lembram?”
Quigley concordou. “Ele terá de ir por aquele caminho”, disse. “Um automóvel não pode descer por uma queda d’água.”
“Temos uma certa vantagem”, disse Violet. “Talvez possamos chegar ao último santuário antes dele.”
“Ouvi!”, gritou Sunny. “Hotel Desenlace!”
“Bom trabalho, Sunny!”, disse Violet, orgulhosa, puxando as correias para desviar o tobogã de uma rachadura. “Eu sabia que você seria uma boa espiã.”
“Hotel Desenlace”, disse Quigley. “Acho que tenho isso em um dos meus mapas. Vou conferir no meu livro de lugar-comum assim que chegarmos lá embaixo.”
“Bruce!”, gritou Sunny.
“Isso é mais uma coisa para anotarmos nos nossos registros de trivialidades”, concordou Klaus. “Bruce estava na casa do dr. Montgomery no fim da nossa estada por lá. Ele disse que estava embalando a coleção Monty de répteis para a Sociedade Herpetológica.”
“Você acha que ele é um membro de C.S.C.?”, perguntou Violet.
“Não podemos ter certeza”, disse Quigley. “Conseguimos investigar muitos mistérios, no entanto ainda há coisas que não sabemos.” Ele suspirou, pensativo, e olhou para as ruínas da base de operações de que se aproximavam velozmente. “Meus irmãos...”
Mas os Baudelaire não chegaram a ouvir mais nada sobre os irmãos de Quigley, pois naquele momento o tobogã, a despeito de todos os esforços de Violet, resvalou contra uma porção derretida do escorregador de gelo, e o grande trenó começou a girar. As crianças gritaram, e Violet agarrou as correias com toda a força, mas só conseguiu que elas arrebentassem nas suas mãos. “A direção se quebrou!”, gritou ela. “Arrastar Esmé Squalor ladeira acima deve ter enfraquecido as correias!”
Oh-oh!”, gritou Sunny, o que queria dizer alguma coisa parecida com: “Isso não parece uma boa notícia”.
“A velocidade”, disse Violet, “empurrará o tobogã para muito além da lagoa, e se não conseguirmos freá-lo, cairemos direto na armadilha que cavamos.”
Klaus, que já estava ficando tonto de tanto girar, fechou os olhos atrás dos óculos. “O que podemos fazer?”, perguntou ele.
“Arrastar os sapatos contra o gelo!”, exclamou Violet. “Os garfos poderão ajudar a frear o tobogã!”
Rapidamente, os dois Baudelaire mais velhos esticaram as pernas e arrastaram os garfos dos sapatos contra o que restava de gelo na queda d’água. Quigley fez o mesmo, mas Sunny, que, é claro, não estava usando sapatos de alpinismo assistidos por garfos, nada podia fazer a não ser ficar ouvindo os sons de gelo raspado e água espirrando que os garfos em atrito contra o gelo semiderretido do arroio faziam. Mas a velocidade do tobogã diminuiu muito pouco.
“Não é suficiente!”, gritou Klaus. Enquanto o tobogã continuava a girar, ele pôde captar breves relances do buraco que tinham cavado e que estava ficando cada vez mais próximo conforme as quatro crianças despencavam rumo ao pé da queda d’água.
“Bicúspide?”, perguntou Sunny, o que queria dizer algo como: “Quer que eu tente brecar o tobogã com os meus dentes?”.
“Vale a tentativa”, disse Klaus, mas assim que a mais jovem dos Baudelaire cravou os dentes no gelo, os Baudelaire perceberam que na verdade a tentativa não valera nem um pouco, pois o tobogã continuava rodopiando e disparando para o fundo.
“Isso também não é suficiente”, disse Violet, e concentrou-se o mais que podia, lembrando-se de como tinha conseguido deter o trailer quando ela e Klaus se desprenderam do automóvel do conde Olaf. Não havia nada que fosse grande o bastante para ser usado como drag chute, e a mais velha dos Baudelaire começou a desejar que Esmé Squalor estivesse a bordo para que o seu enorme vestido imitando chamas detivesse o tobogã. Ela sabia que eles não dispunham de melaço de cana, mel de trevo silvestre, xarope de milho, vinagre balsâmico envelhecido, manteiga de maçã, geleia de morango, molho de caramelo, xarope de bordo, cobertura de caramelo, licor marasquino, azeite de oliva virgem e extravirgem, creme inglês de limão, damascos secos, chutney de manga, crema di noci, pasta de tamarindo, mostarda forte, marshmallows, creme de milho, manteiga de amendoim, uvas em conserva, puxa-puxa, leite condensado, recheio de torta de abóbora ou cola a bordo, e nem qualquer outra substância pegajosa, aliás. Mas de repente se lembrou da mesinha que usara como breque traseiro do trailer, e enfiou a mão no bolso.
“Segurem-se!”, gritou Violet, mas ela mesma não se segurou. Soltando as correias arrebentadas do tobogã, tirou a grande faca de pão do bolso. Só fazia alguns dias, mas a sensação era de que um longo tempo se passara desde que a recolhera do trailer e tentara imaginar como derrotaria os vilões que pairavam no alto da montanha, sem que para isso precisasse se tornar ela mesma uma vilã. Mas agora, por fim, havia algo que poderia fazer com a faca e que poderia salvar todos, sem no entanto machucar ninguém. Rangendo os dentes, Violet se debruçou para fora do tobogã rodopiante e cravou a faca com toda a força no escorregador de gelo.
A ponta da lâmina atingiu a rachadura causada pelo Mastro da Primavera de Carmelita, e então a faca afundou inteira, bem no momento em que o tobogã chegou ao pé da queda d’água. Fez-se um barulho como os Baudelaire jamais ouviram, como a combinação de uma vidraça enorme se estilhaçando com o som estentóreo de alguém disparando um canhão. A faca alargara a rachadura e, com um tremendo estrondo, o que restava do gelo se despedaçou, e nem todos os garfos, a luz do sol, os dentes e o próprio tobogã foram capazes de conter a força da queda d’água. Com um gigantesco chuáááá! as águas do Arroio Enamorado rolaram pelo declive, e em um instante os Baudelaire não estavam mais em uma lagoa congelada ao pé de um estranho arco de gelo, mas no fundo de uma cascata impetuosa, com milhares e milhares de litros de água sendo despejados sobre eles. Os órfãos só tiveram tempo para respirar fundo, antes de o tobogã ser engolido para debaixo d’água. Os três irmãos se agarraram um ao outro, mas quando o tobogã de madeira voltou à superfície, a mais velha dos Baudelaire sentiu que um par de mãos escorregava da sua cintura, e gritou o nome do amigo perdido.
“Quigley!”, chamou ela.
“Violet!”, os Baudelaire ouviram o trigêmeo gritar enquanto o tobogã começava a flutuar por um dos afluentes. Klaus apontou, e através da cortina de água que caía as crianças viram de relance o amigo. Tinha se agarrado a um pedaço de madeira que estava boiando, vindo das ruínas da base de operações. O pedaço de madeira se parecia com um corrimão, desses que uma pessoa pode precisar para subir uma escada que leva a um observatório astronômico. O ímpeto das águas arrastava Quigley e sua boia pelo afluente oposto ao Arroio Enamorado.
Quigley!”‘, gritou Violet de novo.
Violet!”, gritou Quigley por cima do barulho da água. Os irmãos puderam ver que ele tirara do bolso o seu livro de lugar-comum e o agitava desesperadamente. “Esperem por mim! Esperem por mim no...”
Mas os Baudelaire não conseguiram ouvir mais nada. O súbito degelo do Arroio Enamorado, devido à chegada da Falsa Primavera, arrastara o corrimão e o tobogã para direções opostas, por dois afluentes separados. Os irmãos tiveram um último vislumbre da capa roxa do caderno antes que Quigley fosse arrastado por uma correnteza. Os Baudelaire, por sua vez, foram arrastados por outra, e o trigêmeo desapareceu de suas vistas.
“Quigley!”, gritou Violet mais uma vez, e lágrimas brotaram dos seus olhos.
“Ele está vivo”, disse Klaus, e segurou Violet pelo ombro para ajudá-la a se equilibrar. Ela não sabia se o Baudelaire do meio também estava chorando ou se o seu rosto estava apenas molhado. “Ele está vivo, e isso é o que importa.”
“Intrépido”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Quigley Quagmire foi valente e engenhoso para sobreviver ao incêndio que destruiu seu lar. Tenho certeza de que também sobreviverá a isso”.
Violet não podia suportar o pensamento de seu amigo sendo arrastado para longe, ainda mais depois de tê-lo conhecido melhor. “Devemos nos encontrar com ele”, disse ela, “mas não sabemos onde.”
“Talvez ele tente encontrar seus irmãos antes que as águias o façam”, disse Klaus, “mas não sabemos onde eles estão.”
“Hotel Desenlace?”, arriscou Sunny. “C.S.C.?”
“Klaus”, disse Violet, “você leu uma parte da pesquisa de Quigley. Sabe se esses dois afluentes vão se encontrar de novo?”
Klaus sacudiu a cabeça. “Não sei”, disse. “O cartógrafo é Quigley.”
“Godot”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não sabemos aonde ir nem como chegar lá”.
“Sabemos algumas coisas”, disse Klaus. “Sabemos que alguém enviou uma mensagem a J.S.”
“Jacques”, disse Sunny.
Klaus assentiu. “E sabemos que a mensagem tratava de um encontro na quinta-feira no último santuário.”
“Matahari”, disse Sunny, e Klaus sorriu e puxou Sunny para perto, para evitar que ela caísse do tobogã. Ela não era mais um bebê, mas ainda era suficientemente jovem para sentar-se no colo do irmão.
“Sim”, concordou Klaus. “Graças a você, sabemos que o último santuário é o Hotel Desenlace.”
“Mas não sabemos onde ele fica”, disse Violet. “Não sabemos onde encontrar esses voluntários nem se de fato ainda há sobreviventes de C.S.C. Não temos certeza sequer do que significa C.S.C., ou se os nossos pais estão realmente mortos. Quigley estava certo. Investigamos muitos mistérios, e no entanto ainda há coisas que não sabemos.”
Seus irmãos concordaram tristemente, e se eu tivesse estado lá naquele momento, em vez de chegar muito tarde, tarde demais para ver os Baudelaire, eu também teria concordado. Até mesmo para um autor como eu, que dedicou a vida a investigar os mistérios do caso Baudelaire, ainda há muito o que escarafunchar. Não sei, por exemplo, o que aconteceu com as duas mulheres de cara branca que decidiram abandonar a trupe de Olaf e sair andando pelas Montanhas de Mão-Morta abaixo. Alguns dizem que elas ainda pintam a cara de branco, e que devem estar cantando tristes canções em algumas das casas de espetáculos mais deprimentes da cidade. Outros dizem que elas estão morando no sertão, insistindo em plantar ruibarbos na terra seca e estéril. E há aqueles que afirmam que elas não sobreviveram à descida do Monte Fraught, e que seus ossos podem ser encontrados em uma das muitas cavernas dos estranhos picos quadrados. Porém, eu já me sentei para ouvir canção após triste canção, e já provei alguns dos piores ruibarbos da minha vida, e levei osso após osso a uma especialista em esqueletos até ela me dizer que eu a estava deixando tão deprimida que era melhor não voltar mais, e apesar disso não consegui descobrir o que realmente aconteceu às duas mulheres. Não sei onde estão os destroços do trailer, como já contei, e tendo chegado ao fim do dicionário de rimas e lido a breve lista de palavras que rimam com “zuccbini”, começo a acreditar que deveria interromper a busca pelo veículo destruído e deixar de lado essa parte da minha pesquisa. Também não localizei a geladeira na qual os Baudelaire encontraram pistas sobre o Colóquio Secreto Criostático, ainda que existam boatos de que ela esteja em uma das cavernas das Montanhas de Mão-Morta, ou se apresentando em algumas das casas de espetáculos mais deprimentes da cidade.
Ainda que não tenha solucionado todos os mistérios, tenho algumas informações precisas, como por exemplo o paradeiro dos órfãos Baudelaire após as águas cinéreas do Arroio Enamorado arrastarem o seu tobogã velozmente para fora das Montanhas de Mão-Morta, assim como o açucareiro também foi arrastado depois que os voluntários o atiraram na água para salvá-lo do fogo. E embora eu saiba exatamente aonde foram os Baudelaire, e possa traçar o seu percurso em um mapa desenhado por um dos mais promissores jovens cartógrafos dos nossos tempos, não sou o melhor escritor para descrevê-lo. Quem faria isso com elegância e precisão seria um colega meu, que, assim como o homem que escreveu O caminho menos percorrido, está morto. Antes de morrer, no entanto, foi reconhecido como poeta, apesar de algumas pessoas acharem que seus escritos sobre religião eram um pouco maliciosos. Seu nome era Algernon Charles Swinburne, e a quadra final da décima primeira estrofe do seu poema, “O jardim de Proserpina”, descreve perfeitamente o que as crianças descobriram enquanto esse capítulo de sua história chegava ao fim e outro se iniciava. A primeira metade da quadra diz: Que não há vida que sempre viva; Que não há defunto que reviva; e de fato, os homens adultos da vida dos Baudelaire que estavam mortos, como Jacques Snicket ou o pai das crianças, jamais reviveriam. E a segunda metade da quadra diz: Que mesmo exausto o rio à deriva Tortuoso e seguro chega ao mar.
Alguns poemas se parecem um pouco com códigos secretos, pois você precisa estudar cuidadosamente para descobrir o significado. Uma poeta como Isadora, a irmã de Quigley Quagmire, naturalmente saberia de cara o que significam essas duas linhas finais, mas eu precisei de um bocado de tempo até decodificá-las. Contudo, ficou claro que “o rio exausto” se refere ao Arroio Enamorado, que de fato parecia exausto ao arrastar todas as cinzas da destruição da base de operações de C.S.C., e que “tortuoso e seguro chega ao mar” se refere ao último santuário onde todos os voluntários, inclusive Quigley Quagmire, deveriam se reunir. Como disse Sunny, ela e seus irmãos não sabiam aonde ir nem como chegar lá, mas os órfãos Baudelaire, por caminhos tortuosos, estavam indo para lá assim mesmo, e essa é uma das coisas de que tenho certeza.

Capítulo doze


Na cidade sueca de Estocolmo, há pouco tempo, uma quadrilha assaltou um banco e fez alguns funcionários prisioneiros. Durante vários dias, assaltantes e prisioneiros viveram em íntima proximidade, expressão que aqui significa “permaneceram juntos durante todo o tempo até que a polícia invadisse o banco e prendesse os assaltantes”. No entanto, quando os prisioneiros foram libertados, as autoridades descobriram que uma amizade havia florescido ente eles e os assaltantes, e desde então a expressão “Síndrome de Estocolmo” é usada para descrever essa estranha simpatia que se desenvolve entre vítima e algoz.
Outra expressão, contudo, descreve uma situação mais comum. É a chamada “Síndrome do Monte Fraught”, e se aplica nos casos em que um prisioneiro não fica amigo de seus algozes; ao contrário, despreza-os mais a cada momento que passa e não vê a hora de escapar de suas garras. Era essa a sensação que Sunny Baudelaire experimentava ali, em pé na beira do Monte Fraught, enquanto olhava fixamente para a queda d’água congelada e pensava na sua situação.
A menininha passara outra noite em claro no prato coberto, depois de lavar os restos de salmão com punhados de neve derretida. Era gelado, é claro, com os ventos das Montanhas de Mão-Morta soprando através dos buracos na tampa, e era doloroso, porque seus dentes começaram a bater de frio, causando pequenos cortes nos lábios. Porém havia mais uma razão para Sunny não ter dormido bem: ela estava frustrada. A despeito de todo o seu esforço, ela não conseguira descobrir a localização do último santuário onde C.S.C., iria se reunir, nem em que consistia o plano de recrutamento a que se referiram o homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba. Quando os vilões se reuniram em volta da pedra chata para o jantar, discutiram esses assuntos, mas toda vez que Sunny se aproximava eles a fulminavam com o olhar e mudavam rapidamente de assunto. Tudo o que conseguiu foi preparar um bom jantar para a trupe. Nenhuma das vilanescas figuras reclamou de seus rolinhos Falsa Primavera, e até repetiram quando Sunny voltou com a bandeja.
Mas algo crucial escapara à atenção do conde Olaf e seus comparsas, e Sunny estava muito grata por isso. Em homenagem à Falsa Primavera, a jovem Baudelaire preparara legumes sortidos enrolados em folhas de espinafre. Isso consumira o saco de cogumelos, a lata de tremoços e o bloco de espinafre congelado. Mas no último minuto Sunny decidira não usar a enorme berinjela. Quando Violet mencionou que a berinjela devia pesar quase tanto quanto Sunny, a mais jovem dos Baudelaire teve uma ideia. Em vez de picar o legume em tiras, ela o esconderia atrás do pneu murcho do carro do conde Olaf. Agora que o sol despontava no céu e o grupo de vilões logo começaria a costumeira briguinha matinal, Sunny resgatou a berinjela e a levou, rolando, para junto do prato de forno. Ao passar ao lado do carro com o enorme legume, olhou para a queda d’água congelada e notou que ela parecia menos congelada. Sabia que seus irmãos estavam lá embaixo com Quigley, e, embora não pudesse vê-los, sentia-se melhor por saber que estavam por perto e que logo estaria com eles.
“O que você está fazendo, bebê?” Sunny acabara de escamotear a berinjela dentro do prato de forno quando ouviu a voz de uma das comparsas de Olaf. As duas mulheres de cara branca estavam se espreguiçando na frente da barraca.
“Aubergine”, respondeu Sunny, o que queria dizer: “Tenho planos para essa berinjela, e mesmo que conte do que se trata vocês não entenderão uma só palavra”.
“Mais tatibitate”, disse uma mulher de cara branca com um suspiro. “Estou começando a achar que Sunny é um bebê indefeso, e não uma espiã.”
“Gugu-ga...”, começou Sunny, mas a aba da barraca do conde Olaf se abriu antes que ela pudesse emitir o último “ga”. O vilão e a sua namorada apareceram, e ficou claro que eles esperavam que o sábado fosse um grande dia, pois estavam paramentados para a ocasião, uma expressão que aqui significa “usando roupas tão estranhas que a mais jovem dos Baudelaire perdeu a fala quando os viu”. Parecia que o conde Olaf tinha lavado a cara, o que era incrível, e estava vestindo um terno novo de um material que, à primeira vista, parecia ter estampa de bolinhas. Mas quando Sunny olhou com mais atenção, notou que cada bolinha era um pequeno olho, assim como a tatuagem de Olaf, a insígnia de C.S.C., e todos os outros olhos que vinham atormentando os Baudelaire desde aquele dia terrível na praia. Por isso, a visão do terno novo do conde Olaf produziu em Sunny a sensação de ser espionada não por um, mas por uma multidão de vilões. Mas não importa quão absurda fosse a indumentária de Olaf, a de Esmé Squalor era ainda pior. Sunny não conseguiu se lembrar de nenhum vestido tão enorme, e ficou surpresa por ele ter cabido na barraca, deixando ainda espaço suficiente para os vilões dormirem. O vestido era feito de camadas e camadas de tecido brilhante, amarelo, laranja e vermelho, cortadas em formas triangulares de tal modo que cada camada parecia penetrar na seguinte. Erguendo-se acima dos ombros, pilhas enormes de renda preta enrolavam-se no ar como estranhas volutas. O vestido parecia tão imenso e esquisito que Sunny não pôde imaginar por que alguém usaria aquilo, mas quando a malfazeja namorada avançou para fora da barraca, tudo ficou claro: Esmé Squalor estava fantasiada de um enorme incêndio.
“Que manhã maravilhosa!”, exultou o conde Olaf. “Pense só, no final do dia terei mais novos membros na minha trupe do que jamais tive!”
“E nós precisamos deles”, concordou Esmé. “Temos que trabalhar juntos pela causa maior, que é tocar fogo no último santuário!”
“Só de pensar em ver o Hotel Desenlace em chamas eu já fico excitado! Vou abrir uma garrafa de vinho!”, anunciou o conde Olaf, e Sunny cobriu a boca com as mãos para que os vilões não ouvissem seu gritinho de susto. O Hotel Desenlace devia ser o último santuário para o encontro dos voluntários, e Olaf estava tão excitado que pronunciara o nome inadvertidamente, uma palavra que aqui significa “sem perceber que a mais jovem dos Baudelaire estava por perto”.
“A ideia de todas aquelas águias encobrindo o céu me deixa tão excitada que vou fumar um daqueles cigarros verdes!”, anunciou Esmé, e em seguida fechou a cara. “Só que não tenho nenhum. Droga!”
“Mil perdões, vossa Esmecelência”, disse uma das mulheres de cara branca, “mas vejo aquela fumaça verde no pé da queda d’água.”
“É mesmo?”, disse Esmé, ansiosa, e olhou na direção em que a empregada de Olaf apontava. Sunny também olhou, e reconheceu o penacho de fumaça verde no fundo do declive. A mais jovem dos Baudelaire se perguntou por que seus irmãos estariam sinalizando e o que estariam tentando dizer.
“É estranho”, disse Olaf. “Não devia ter sobrado nada por queimar na base de operações.”
“Olhe só a quantidade de fumaça”, disse Esmé, gulosa. “Deve haver um maço inteiro de cigarros lá embaixo. O dia está ficando cada vez melhor!”
Olaf sorriu, depois desviou os olhos da queda d’água e notou a presença de Sunny. “Vou mandar o bebê descer e buscar os cigarros para você”, disse o conde Olaf.
Ye-sss!”, disse Sunny, entusiasmada.
“O bebê roubaria todos os cigarros”, disse Esmé, lançando um olhar feroz para a menininha. “Vou eu mesma.”
“Mas essa descida pode levar horas”, disse Olaf.
“Você não quer estar presente para o recrutamento? Eu amo pegar pessoas em armadilhas.”
“Eu também”, concordou Esmé, “mas não se preocupe, estarei de volta em instantes. Não vou andando. Um dos tobogãs me levará até lá num minuto.”
“Droga!”, Sunny não pôde deixar de exclamar. Ela queria dizer algo no gênero de: “Era o que eu planejava fazer”, porém ninguém entendeu.
“Cale a boca, dentuça”, disse Esmé, “e saia da minha frente.” Ela passou em disparada pela mais jovem dos Baudelaire, e Sunny percebeu que havia alguma coisa costurada na barra do vestido que produzia um som crepitante, como o barulho de um incêndio. Jogando um beijo para o conde Olaf, Esmé pegou o tobogã dos vilões sinistros. “Volto já, querido”, disse ela. “Mande esse bebê tirar um cochilo antes que veja o que estamos armando.”
“Esmé tem razão”, disse Olaf, dirigindo a Sunny um sorriso cruel. “Já para o prato. Uma criatura tão feia e indefesa como você tem que ficar longe das minhas vistas.”
“Falou e disse, bonitão”, disse Esmé, e deu uma risadinha malvada, enquanto se preparava para escorregar pela queda d’água. As duas mulheres de cara branca saíram correndo para empurrar o tobogã enquanto Sunny desaparecia das vistas de Olaf.
Como você pode imaginar, a visão de uma mulher adulta, usando um enorme vestido que imitava chamas, descendo de tobogã da nascente do Arroio Enamorado para os dois afluentes e a lagoa semicongelada ao pé da queda d’água não é o tipo de coisa que passe despercebida. Violet foi a primeira a reparar no borrão colorido descendo em disparada, e guardou o espelho de Colette que usara para acender os Cilindros Sempre-verdes Combustíveis empilhados na frente do buraco. Franzindo o nariz por causa do cheiro de fumaça, Violet se voltou para Klaus e Quigley, que terminavam de colocar os últimos pedaços de madeira sobre a armadilha.
“Vejam”, disse Violet, apontando para o vulto.
“Você acha que é Esmé?”, perguntou Klaus.
Violet apertou os olhos. “Acho que sim”, disse. “Ninguém, a não ser Esmé, usaria uma roupa dessas.”
“É melhor nos escondermos”, disse Quigley, “antes que ela nos veja.”
Os dois Baudelaire concordaram, e foram andando até a entrada da biblioteca.
“Fico feliz em não enxergar mais o buraco”, disse Klaus. “Olhar para aquela escuridão me lembrou a horrível passagem secreta na Avenida Sombria 667.”
“Foi lá que Esmé capturou os seus irmãos”, disse Violet para Quigley, “e depois nos capturou.”
“E agora que estamos combatendo fogo com fogo, nós é que vamos raptá-la”, disse Quigley, incomodado.
“É melhor não pensar nisso”, disse Violet, embora ela mesma não tivesse parado de pensar na armadilha. “Logo teremos Sunny de volta, e é isso que importa.”
“Talvez isso também importe”, disse Klaus, e apontou para a arcada. “Eu nunca tinha notado, até agora.”
Violet e Quigley ergueram os olhos para ver ao que ele se referia, e viram quatro palavrinhas acima das suas cabeças, gravadas logo abaixo do grande letreiro que dizia “Biblioteca C.S.C.”
“O mundo aqui silencia’’, leu Quigley. “O que vocês acham que isso significa?”
“Parece um lema”, disse Klaus. “Na Escola Preparatória Prufrock eles tinham um gravado perto da entrada, para que todos se lembrassem dele quando entrassem lá.”
Violet sacudiu a cabeça. “Não era nisso que eu estava pensando”, disse. “Lembro vagamente de alguma coisa a respeito dessa frase.”
“O mundo parece mesmo silencioso por aqui”, disse Klaus. “Não ouvimos o zumbido de um só mosquito da neve desde que chegamos.”
“O cheiro da fumaça os espanta, lembra?”, disse Quigley.
“É claro”, disse Klaus, e deu uma espiada pelo canto da arcada para conferir o progresso de Esmé. O borrão colorido estava mais ou menos a meio caminho da queda d’água, indo diretamente para a armadilha. “Havia tanta fumaça aqui na base de operações que os mosquitos podem nunca mais voltar.”
“Sem mosquitos da neve”, disse Quigley, “os salmões do Arroio Enamorado vão ficar com fome. Eles comem mosquitos da neve.” Ele tirou do bolso o seu livro de lugar-comum. “E sem salmões”, completou, “as águias das Montanhas de Mão-Morta vão ficar com fome. A destruição da sede de operações de C.S.C, causou danos ainda maiores do que eu imaginava.”
Klaus concordou. “Quando caminhávamos ao longo do Arroio Enamorado”, disse, “os peixes estavam tossindo por causa das cinzas na água. Lembra, Violet?”
Ele voltou-se para a irmã, mas Violet não estava ouvindo. Ela ainda tentava se lembrar onde tinha ouvido as palavras inscritas na arcada. “As únicas palavras que consigo ouvir agora”, disse ela, “são O mundo aqui silencia.” Ela fechou os olhos. “Acho que foi há muito tempo, Klaus, antes de você nascer.”
“Talvez alguém as tenha dito para você”, disse Quigley.
Violet tentou se remeter ao passado mais remoto de que se lembrava, mas tudo parecia tão nebuloso quanto as montanhas. Podia ver o rosto de sua mãe, seu pai em pé ao lado dela, usando um terno preto como as cinzas da base de operações. Sabia que eles tinham dito alguma coisa, mas não conseguia se lembrar o que era. Não importava o quanto tentasse, a memória continuava silenciosa como uma tumba. “Ninguém falou isso para mim”, disse ela, afinal. “Alguém cantou. Acho que os meus pais cantaram as palavras ‘o mundo aqui silencia’ muito tempo atrás, mas não sei por quê.” Ela abriu os olhos e encarou os dois meninos. “Talvez estejamos fazendo a coisa errada”, disse.
“Mas nós tínhamos concordado”, disse Quigley, “em combater fogo com fogo.”
Violet assentiu, e ao enfiar as mãos nos bolsos esbarrou de novo na faca de pão. Pensou na escuridão do buraco e no grito que Esmé daria ao cair dentro dele. “Sei que tínhamos concordado”, disse Violet, “mas se C.S.C., de fato significa, como já nos ocorreu, Corporação pelo Salvamento das Chamas, então se trata de uma organização que extingue incêndios. Se todo mundo combatesse fogo com fogo, o mundo inteiro se acabaria em fumaça.”
“Entendo o que você quer dizer”, disse Quigley. “Se o lema de C.S.C, é O mundo aqui silencia, devíamos fazer alguma coisa menos barulhenta e violenta do que pegar alguém em uma armadilha.”
“Quando eu estava olhando para dentro do buraco”, disse Klaus mansamente, “lembrei de um livro escrito por um filósofo famoso. Ele disse: ‘Quem enfrenta monstros deve cuidar para que, no processo, não se transforme em monstro também. Quando você olha longamente para o abismo, o abismo também olha para você’.” Klaus olhou para a irmã, depois para Esmé, que já se aproximava, e por fim para a madeira que cobria o buraco. “Um ‘abismo’ é, de fato, um ‘buraco’“, disse ele. “Nós construímos um abismo para Esmé. Isso é algo que só um monstro faria.”
Quigley estava copiando as palavras de Klaus no seu livro de lugar-comum. “O que aconteceu com esse filósofo?”, perguntou.
“Está morto”, disse Klaus. “Acho que você tem razão, Violet. Nós não queremos ser tão vilanescos e monstruosos quanto o conde Olaf.”
“Mas o que vamos fazer?”, perguntou Quigley. “Sunny ainda é prisioneira de Olaf, e Esmé estará aqui em pouco tempo. Se não pensarmos na coisa certa agora, será tarde demais.”
Assim que o trigêmeo terminou de falar, as três crianças ouviram algo que as fez perceber que já poderia ser tarde demais. Detrás da arcada, Violet, Klaus e Quigley ouviram o ruído áspero do tobogã chegando ao pé da queda d’água, e a risadinha triunfante de Esmé Squalor. Os voluntários espiaram por detrás da arcada e viram a traiçoeira namorada sair do tobogã com um sorriso no rosto. Quando Esmé ajeitou o seu enorme vestido de chamas e deu um passo na direção dos Cilindros Sempre-verdes Combustíveis, Violet não estava mais olhando para ela. Olhava para o chão, a uns poucos passos de onde estava. As três máscaras contra mosquitos da neve que eles tinham dispensado logo que chegaram às ruínas estavam empilhadas. Tinham presumido que não precisariam mais delas, mas Violet se deu conta de que tinham se enganado. Quando Esmé deu mais um passo na direção da armadilha, Violet correu até as máscaras, colocou uma delas no rosto e saiu do esconderijo.
“Pare, Esmé!”, gritou ela. “É uma armadilha!”
Esmé se deteve e olhou com curiosidade para Violet. “Quem é você?”, perguntou ela. “Você não devia aparecer de repente na frente das pessoas desse jeito. E uma coisa vilanesca.”
“Sou uma voluntária”, disse Violet.
A boca de Esmé, pintada de batom cor de laranja para combinar com o vestido, se abriu em um sorriso de escárnio. “Não há mais voluntários aqui”, disse ela. “A base de operações está destruída!”
Klaus foi o seguinte a pegar uma máscara e confrontar a pérfida companheira de Olaf. “A nossa base de operações pode estar destruída”, disse, “mas C.S.C, está firme e forte como sempre!”
Esmé franziu o cenho para os dois irmãos como se não conseguisse decidir se deveria ou não ficar assustada. “Vocês podem ser fortes”, disse ela, nervosa, “mas são baixinhos.” Seu vestido crepitou quando ela fez menção de dar mais um passo na direção do buraco. “Quando eu puser as mãos em vocês...”
“Não!”, gritou Quigley, e saiu de trás da arcada com a sua máscara. “Não chegue perto, Esmé. Se der mais um passo, cairá na nossa armadilha.”
“Você está inventando essa história”, disse Esmé, mas não se mexeu. “Você está tentando ficar com os cigarros para você.”
“Não são cigarros”, disse Klaus, “e nós não somos mentirosos. Embaixo daquela madeira há um buraco muito fundo.”
Esmé olhou desconfiada para eles. Precavida, uma palavra que aqui significa “sem cair em um buraco fundo”, ela se inclinou, puxou um pedaço de madeira e olhou para dentro da armadilha. “Bem, bem, bem...”, disse. “Vocês construíram mesmo uma armadilha. Eu jamais teria caído nela, é claro, mas devo admitir que vocês cavaram um buraco e tanto.”
“Queríamos pegá-la”, disse Violet, “para podermos trocá-la por Sunny Baudelaire. Mas...”
“Mas não tiveram coragem de ir até o fim”, disse Esmé com um sorriso zombeteiro. “Voluntários não são corajosos o bastante para fazer algo por uma causa maior.”
“Atirar pessoas em buracos não é uma causa maior!”, exclamou Quigley. “É uma traição.”
“Se você não fosse tamanho idiota”, disse Esmé, “perceberia que as duas coisas são mais ou menos a mesma.”
“Ele não é um idiota”, disse Violet, furiosa. Ela sabia, é claro, que não valia a pena se aborrecer com os insultos de uma pessoa tão ridícula, mas gostava demais de Quigley para permitir que o xingassem. “Ele nos trouxe até a base de operações usando um mapa que ele mesmo desenhou.”
“Ele é muito lido”, disse Klaus.
Ao ouvir as palavras de Klaus, Esmé jogou a cabeça para trás e gargalhou, sacudindo as camadas crepitantes do enorme vestido. “Muito lido!”, repetiu ela em um tom de voz desagradável. “Ser muito lido não vai ajudá-lo em nada. Muitos anos atrás, queriam que eu desperdiçasse o verão inteiro lendo Ana Karenina, mas eu sabia que aquele livro bobo nunca iria me ajudar, portanto o joguei na lareira.” Ela esticou o braço e recolheu mais alguns pedaços de madeira, que atirou longe com uma risadinha abafada. “Olhem para a sua preciosa base de operações, voluntários! Virou cinzas, assim como aquele livro. E olhem para mim. Sou bonita, elegante, e fumo cigarros!” Gargalhou de novo e apontou para as crianças. “Se vocês não ficassem o tempo todo de cabeça enfiada em livros, já teriam de volta aquele precioso bebê.”
“Nós vamos tê-la de volta”, disse Violet, com firmeza.
“É mesmo?”, zombou Esmé. “E como vocês pretendem fazer isso?”
“Vou falar com o conde Olaf”, disse Violet, “e ele vai entregá-la de volta para mim.”
Esmé começou a rir, embora sem o mesmo entusiasmo de antes. “O que você quer dizer com isso?”, disse ela.
“Exatamente o que eu disse”, respondeu Violet.
“Hum...”, desconfiou Esmé. “Deixe-me pensar.” A perversa namorada começou a andar de um lado para outro sobre a lagoa congelada, fazendo crepitar seu enorme vestido.
Klaus se inclinou para cochichar com a irmã. “O que você está fazendo?”, perguntou. “Acha mesmo que podemos tirar Sunny do conde Olaf com uma simples conversa?”
“Não sei”, Violet cochichou de volta, “mas é melhor do que atrair alguém para uma armadilha.”
“Eu estava errado em cavar aquele buraco”, concordou Quigley, “mas não estou seguro de que ir diretamente para as garras de Olaf seja a coisa certa a fazer.”
“Vai levar algum tempo para chegar ao Cume das Aflições de novo”, disse Violet. “Pensaremos em alguma coisa durante a escalada.”
“Assim espero”, disse Klaus, “mas se não conseguirmos pensar em alguma coisa...”
Klaus não teve chance de completar a frase, pois Esmé bateu palmas para chamar a atenção das crianças.
“Se vocês querem falar com o meu namorado”, disse, “acho que posso levá-los até lá. Se não fossem tão bocós, saberiam que ele está muito perto.”
“Eu sei onde ele está, Esmé”, disse Klaus. “Está no topo da queda d’água, na nascente do Arroio Enamorado.”
“Então imagino que vocês saibam chegar lá”, disse Esmé, parecendo um pouco tola. “O tobogã não sobe ladeiras, portanto eu não tenho ideia de como poderíamos chegar até o pico.”
“Ela dará um jeito”, disse Quigley, apontando para Violet.
Violet sorriu para o seu amigo, grata pelo apoio, e fechou os olhos por trás da máscara. Mais uma vez pensava em uma música que alguém cantara quando ela era muito pequena. Violet já sabia o que fazer para levar Esmé com eles na escalada, mas pensar na complicada expedição trouxe à sua mente uma canção muito antiga. E possível que quando você era muito jovem alguém tenha cantado essa canção para fazê-lo dormir, distraí-lo durante uma longa viagem de carro ou a fim de transmitir um código secreto. A canção se chama “A aranhinha tão pequenininha”, e é muito triste. Conta a história de uma pequena aranha que estava tentando escalar um chafariz, mas sempre que estava prestes a concluir sua jornada, um jato de água, seja da chuva, seja da mangueira do jardim, acabava jogando-a para baixo, até que no final da canção a aranha decide tentar mais uma vez alcançar o topo do chafariz, de onde, provavelmente, voltará a cair.
Violet Baudelaire não podia evitar sentir-se como aquela pobre aranha enquanto escalava a queda d’água pela última vez, acompanhada de Quigley, Klaus e Esmé Squalor, sentada no seu tobogã. Depois de afixar os dois últimos garfos aos sapatos de Klaus, Violet dissera aos companheiros que amarrassem as correias do tobogã em volta da cintura, para que pudessem puxar a namorada de Olaf atrás de si. Chegar desse modo ao Cume das Aflições era exaustivo, especialmente depois de passar a noite inteira cavando um buraco, e a sensação era de que podiam ser arrastados de volta para baixo a qualquer momento, como a aranha da canção. O gelo do declive estava enfraquecido depois das garfadas de Violet e Quigley, a viagem de tobogã de Esmé e a elevação da temperatura com a iminente chegada da Falsa Primavera. A cada passo da invenção de Violet, o gelo parecia se mover ligeiramente. O escorregador de gelo estava quase tão exausto quanto eles, e logo o gelo iria se derreter por completo.
“Mush!”, gritava Esmé. Essa era uma interjeição que os exploradores do Ártico costumavam gritar para os cães que puxavam seus trenós, e isso certamente não tornava a escalada mais fácil para os voluntários.
“Eu gostaria que ela parasse de dizer isso”, murmurou Violet por atrás da máscara. Ela bateu com o candelabro no gelo à sua frente, e um pequeno pedaço se destacou da queda d’água e despencou em direção às ruínas da base de operações. Violet ficou observando até ele desaparecer abaixo dela e suspirou. Jamais veria a base de operações em toda a sua glória. Nenhum dos Baudelaire veria. Violet jamais experimentaria a sensação de cozinhar contemplando os dois afluentes do Arroio Enamorado, enquanto batia papo com os outros voluntários. Klaus jamais saberia qual era a sensação de aprender todos os segredos de C.S.C, no conforto de uma das poltronas da biblioteca, com os pés sobre os escabelos C.S.C. Sunny jamais operaria o projetor da sala de projeção, praticaria a arte dos falsos bigodes na central de disfarces, ou relaxaria na sala de estar na hora do chá, comendo biscoitos de amêndoas feitos segundo a receita da minha avó. Violet jamais estudaria composições químicas em um dos seis laboratórios, e Klaus jamais utilizaria as barras fixas do ginásio, e Sunny jamais ficaria atrás do balcão da sorveteria preparando sundaes com calda de caramelo para as baratas nadadoras quando fosse o seu turno. E nenhum dos Baudelaire jamais chegaria a conhecer os voluntários mais amados: o instrutor de mecânica CM. Kornbluth, o dr. Isaac Anwhistle, conhecido como Ike, e o bravo voluntário que atirara o açucareiro pela janela da cozinha para que não fosse destruído no incêndio e ficara observando enquanto ele flutuava para longe em um dos afluentes do Arroio Enamorado. Os Baudelaire jamais conheceriam nenhuma dessas pessoas, assim como eu não voltarei jamais a ver minha bem-amada Beatrice ou recuperarei o meu pepino em conserva da geladeira, onde o deixei, para devolvê-lo ao seu devido lugar, um importante sanduíche codificado. Violet, é claro, não tinha consciência de todas as coisas que jamais faria, nem das pessoas que jamais conheceria, mas ao contemplar os vastos e cinéreos escombros da base de operações, sentiu-se como se toda a jornada pelas Montanhas de Mão-Morta tivesse sido tão inútil quanto a jornada da aranhinha na canção que ela jamais gostou de ouvir.
“Mush!”, gritou Esmé com uma risadinha cruel.
“Por favor, Esmé, pare de falar isso”, gritou Violet, impaciente. “Essa história de mush está atrasando a escalada.”
“Uma escalada lenta pode ser vantajosa para nós”, murmurou Klaus para a irmã. “Quanto mais tempo levarmos para chegar ao topo, mais tempo teremos para pensar no que dizer ao conde Olaf.”
“Podíamos dizer que ele está cercado”, sugeriu Quigley, “e que há voluntários por toda parte, prontos para prendê-lo caso ele não liberte Sunny.”
Violet sacudiu a máscara. “Ele não acreditaria nisso”, disse ela ao cravar seu sapato no gelo. “Do alto do Cume das Aflições ele pode ver tudo e todos. Verá que somos os únicos voluntários na área.”
“Deve haver alguma coisa que possamos fazer”, disse Klaus. “Não partimos para essa jornada para dar com os burros n’água.”
“É claro que não”, disse Quigley. “Encontramos um ao outro e resolvemos alguns mistérios.”
“Será que isso será suficiente”, perguntou Violet, “para derrotar todos aqueles vilões lá em cima?”
A pergunta de Violet era difícil, e nem Klaus nem Quigley tinham a resposta. Em vez de arriscar um palpite, uma expressão que aqui significa “continuar a gastar verbo com o assunto”, eles decidiram arriscar a escalada, uma expressão que aqui significa “continuar em silêncio até chegarem à nascente do Arroio Enamorado”. Ao chegar no cume achatado, sentaram-se na beirada e puxaram as correias com toda a força que tinham. Içar Esmé Squalor e o tobogã para cima do Monte Fraught foi uma tarefa tão difícil que as crianças nem notaram quem estava por perto. Mas acabaram por ouvir uma voz rascante e familiar bem atrás delas.
“Quem vem aí?”, bradou o conde Olaf.
Sem fôlego, as três crianças se voltaram e deram de cara com o vilão e duas sinistras figuras plantadas junto ao seu comprido automóvel.
“Pensamos que vocês chegariam aqui pelo caminho normal”, disse o homem com barba mas sem cabelo, “e não pela queda d’água.”
“Não, não, não”, disse depressa Esmé. “Eles não são as pessoas que estávamos esperando. São voluntários que encontrei na base de operações.”
“Voluntários?”, disse a mulher com cabelo mas sem barba, mas sua voz não estava tão profunda como de costume. Os vilões franziram o cenho do mesmo jeito confuso que Esmé tinha franzido há pouco, como se não tivessem certeza se deviam ficar assustados ou não, e o homem de mãos de gancho, as duas mulheres de cara branca e os três ex-empregados do parque de diversões se reuniram em volta para ver o que fizera Olaf silenciar de repente. Embora exaustos, os Baudelaire desamarraram as correias do tobogã da cintura e plantaram-se ao lado de Quigley, para enfrentar juntos seus inimigos. Os órfãos estavam assustados, é claro, mas com os rostos ocultos podiam falar abertamente, uma expressão que aqui significa “confrontar o conde Olaf e seus comparsas como se não estivessem com medo deles”.
“Olaf, construímos uma armadilha para capturar sua namorada”, disse Violet, “mas não queríamos nos transformar em monstros como você.”
“Eles não passam de uns mentirosos imbecis!”, gritou Esmé. “Eu os encontrei metendo a mão nos cigarros. Eu é que os capturei e obriguei a me arrastar até aqui, como cães de trenó.”
O Baudelaire do meio ignorou a bobagem da namorada vilanesca. “Estamos aqui para levar Sunny Baudelaire”, disse Klaus, “e não vamos embora sem ela.”
Olaf fechou a cara e fitou-os com os seus olhos muito, muito brilhantes, como se tentasse enxergar através das máscaras. “E o que faz vocês terem tanta certeza”, disse ele, “de que vou entregar a minha prisioneira?”
Violet fez um esforço tremendo para pensar no que iria fazer. Estava claro que o conde Olaf acreditava que as três pessoas mascaradas na frente dele eram membros de C.S.C, e ela tinha a impressão de que, se pronunciasse as palavras certas, poderia derrotá-lo sem se tornar tão vilanesca quanto ele. Mas nem ela nem o seu irmão e o seu amigo sabiam o que dizer. As correntezas das Montanhas de Mão-Morta sopravam gélidas, e Violet enfiou as mãos nos bolsos para se proteger do frio, e então esbarrou pela terceira vez na grande faca de pão. Ela começou a pensar que talvez a coisa certa fosse ter capturado Esmé na armadilha. Com a demora da resposta de Violet, a carranca do conde Olaf começou pouco a pouco a se converter em um sorriso triunfante, mas assim que ele abriu a boca para falar, Violet viu duas coisas que a encheram de esperança. A primeira foi a visão de dois cadernos, um roxo e o outro azul, aparecendo para fora dos bolsos dos seus companheiros. Eram os livros de lugar-comum onde Klaus e Quigley tinham anotado as informações que encontraram na biblioteca devastada da base de operações de C.S.C. A outra foi uma coleção de pratos espalhados por cima da pedra chata onde a trupe de Olaf vinha tomando as refeições. Sunny fora forçada a lavar aqueles pratos, e usara punhados de neve derretida para isso. Agora os pratos estavam espalhados do lado de fora para secar sob o sol da Falsa Primavera. Violet viu a pilha de pratos, uma fileira de xícaras de chá e uma jarrinha de creme, todas as louças adornadas com desenhos de olhos. Mas o conjunto de chá não estava completo, e isso fez Violet sorrir quando se voltou novamente para o conde Olaf.
“Você vai libertar Sunny”, disse ela, “porque sabemos onde está o açucareiro.”