quarta-feira, 29 de junho de 2016

Folha de Carvalho



A chegada da primavera começa a derreter a grossa camada de neve do inverno escandinavo. Depois de semanas de muito frio e comida escassa, Will e Evanlyn vislumbram a primeira chance de continuar com sua fuga. Mas Evanlyn é capturada por um misterioso cavaleiro. Quando Will parte em busca da jovem princesa, reencontra Halt e Horace. Juntos, eles descobrem os planos dos Temujai, um povo guerreiro das Estepes do Leste, que havia reunido um poderoso exército invasor no intuito de dominar a Escandinávia. Halt percebe que a invasão do reino gelado representa somente o início da investida dos Temujai, que, certamente, logo se lançariam contra Araluen. Por isso, ele decide oferecer ajuda aos escandinavos. Assim, resgatar Evanlyn passa a ser apenas o primeiro desafio no caminho de Will. O segundo, muito mais doloroso e imprevisível, será lutar lado a lado com os escandinavos, o povo que o escravizou, a fim de impedir a ascensão de um inimigo comum. Seria Ragnak, líder do povo escandinavo, capaz de deixar seu ódio de lado e aceitar o auxílio de arqueiros araluenses? Quais consequências uma aliança como essa pode trazer?

Capítulo 1

OBS.: Infelizmente recebemos uma notificação da Editora Fundamento solicitando que retirássemos Rangers - Ordem dos Arqueiros do site por não termos a permissão dela para publicá-los aqui. Assim, para evitar problemas, Rangers está fora do blog até segunda ordem.

Capítulo 39

O corpo de Ragnak foi cremado no dia seguinte ao da batalha. O oberjarl tinha morrido nos momentos finais, antes da retirada dos Temujai. Ele tinha morrido lutando contra um grupo de 18 guerreiros Temujai. Dois sobreviveram tão gravemente feridos que mal conseguiram se arrastar para longe da apavorante figura do líder escandinavo.
Não havia como saber quem tinha desferido o golpe fatal se, realmente, tinha havido um. Eles contaram mais de 50 ferimentos no oberjarl, meia dúzia dos quais poderia ter causado a morte em condições normais. Como era costume dos escandinavos, o corpo foi deitado na pira crematória como estava, sem qualquer tentativa de limpar o sangue ou a lama da batalha.
Os quatro araluenses foram convidados a prestar seus últimos respeitos para o oberjarl morto, e eles ficaram em silêncio por alguns momentos diante da enorme pilha de troncos de madeira encharcados de piche, olhando para a figura imóvel. Então, com educação, mas com firmeza, eles foram informados de que o funeral de um oberjarl e a subsequente eleição de seu sucessor eram assuntos que interessavam apenas aos escandinavos e eles voltaram para os aposentos de Halt para esperar os acontecimentos.
Os rituais do funeral duraram três dias. Aquela era uma tradição que tinha sido criada para permitir que os jarls de colônias distantes tivessem tempo de chegar a Hallasholm e participar da eleição do próximo oberjarl. Tinham apenas alguns jarls esperados das áreas por onde os Temujai já tinham passado, pois quase todos os outros tinham sido convocados para repelir a invasão. Mas a tradição exigia um período de três dias de luto, o que na Escandinávia tornava a forma de muita bebida e narrativa entusiasmada das proezas do morto na batalha.
E a tradição, é claro, era sagrada para os escandinavos, especialmente a que envolvia muita bebida e muita farra até tarde da noite. Notava-se que a bebida consumida e o grau de entusiasmo para contar as façanhas pareciam estar diretamente relacionados.
Na segunda noite, Evanlyn franziu o cenho ao som das vozes embriagadas que cantavam acompanhadas pelo barulho de madeira estilhaçada enquanto acontecia uma briga.
— Eles não parecem muito tristes com tudo isso — ela afirmou, e Halt apenas deu de ombros.
— É o jeito deles — ele disse. — Além disso, Ragnak morreu na batalha de um modo selvagem, e esse é um destino que todos os verdadeiros escandinavos invejam. Isso lhe dá o direito de entrar, no mesmo instante, no mais alto nível do que eles consideram o paraíso.
Evanlyn torceu a boca numa careta de desaprovação.
— Mesmo assim, parece muito desrespeitoso. E, afinal, ele salvou as nossas vidas.
Houve um silêncio estranho no aposento. Nenhum dos três conseguia pensar numa forma delicada de lembrar Evanlyn que Ragnak tinha jurado mata-la e que, se tivesse sobrevivido, ele o faria sem hesitar. No entanto, ao falar dele naquele momento, ela parecia ter perdido um velho e respeitado amigo. Horace olhou de Halt para Will várias vezes, esperando para ver se algum deles iria tocar no assunto. Tudo o que recebeu foi um gesto de cabeça quase imperceptível de Will quando se encararam. Horace deu de ombros. Se dois arqueiros achavam que não valia a pena tocar no assunto, quem era ele para discordar?
Finalmente, o período de luto terminou e os principais jarls se reuniram na Grande Mansão para eleger o novo oberjarl.
— Vocês acham que Erak tem chance? — Will perguntou esperançoso.
Mas suas esperanças caíram por terra quando Halt negou com um gesto de cabeça.
— Ele é um líder de guerra popular, mas é apenas um entre quatro ou cinco. Junte a isso o fato de que ele não é um administrador e nem um diplomata — ele acrescentou com veemência.
— Isso é importante? — Horace quis saber. — Pelo que eu vi, diplomacia não tem muita importância na lista de habilidades exigidas neste país.
— É verdade — Halt reconheceu com um sorriso. — Mas é preciso um pouco de conversa quando há uma eleição como esta entre colegas. Ninguém dá seu voto porque você é o melhor candidato. Eles votam em você quando pode fazer alguma coisa por eles.
— Acho que o fato de Erak ter passado os últimos anos como o coletor de impostos de Ragnak também não vai ajudar — Will ajuntou. — Afinal, ele ameaçou usar o machado para abrir a cabeça de muitas pessoas que estão votando.
— Não é uma atitude adequada se você pretende ser oberjarl algum dia — Halt concordou novamente.
Na verdade, o arqueiro estava se entregando a uma leve forma de superstição pessoal ao menosprezar as chances de Erak na eleição. Ainda havia algumas questões a serem resolvidas entre a Escandinávia e Araluen e ele preferia resolvê-las com Erak na posição de líder supremo. Ainda assim, quanto mais eles falavam, menores as chances de Erak se tornavam. Ele não tinha ouvido falar sobre a coleta de impostos até Will mencionar o fato. Isso parecia pôr um ponto final nas chances do jarl.
Ele também lembrou que Erak não tinha mostrado o menor interesse em se tornar oberjarl. E, afinal os três companheiros de Halt só estavam interessados em suas chances porque ele era um amigo e o único líder escandinavo que conheciam bem.
— Provavelmente ele não seria um bom oberjarl — Horace concluiu. — O que ele quer mesmo é voltar para o mar em seu navio e saquear alguma cidade por aí.
Todos os outros concordaram.
O que apenas serve para mostrar como se pode estar errado quando nos entregamos a discussões lógicas e racionais. No quinto dia, a porta do apartamento de Halt se abriu e um Erak perplexo entrou, olhou ao redor para os quatro rostos em expectativa e disse:
— Eu sou o novo oberjarl.
— Eu sabia — Halt disse no mesmo instante, e os outros três olharam para ele totalmente escandalizados.
— Você sabia? — Erak perguntou com a voz abalada, os olhos ainda mostrando o choque da repentina promoção ao mais alto posto na Escandinávia.
— Claro — o arqueiro disse dando de ombros. — Você é grande, mau e feio, e essas parecem ser as qualidades que os escandinavos mais valorizam.
Erak endireitou o corpo tentando mostrar o tipo de dignidade que imaginou que um oberjarl devia demonstrar.
— É assim que vocês, araluenses, se dirigem a um oberjarl? — ele perguntou, e Halt finalmente sorriu.
— Não. É assim que falamos com um amigo. Entre e tome uma bebida.


Durante os dias seguintes, começou a parecer que o conselho de jarls tinha feito uma escolha sensata. Erak rapidamente se dedicou a terminar velhas rixas com outros jarls, especialmente aqueles que tinha visitado na qualidade de coletor de impostos. E, surpreendentemente, conservou Borsa na função de hilfmann.
— Pensei que ele não suportasse Borsa — Will disse espantado.
Mas Halt simplesmente fez um gesto com a cabeça em reconhecimento à escolha de Erak.
— Borsa é um bom administrador, e é disso que Erak vai precisar. Um bom líder é alguém que conhece seus defeitos e contrata alguém com as qualidades que lhe faltam para cuidar das coisas para ele.
Will, Horace e Evanlyn tiveram que refletir um pouco sobre o assunto antes de enxergar a lógica dessas palavras. Horace, na verdade, ainda estava pensando nisso algum tempo depois que os outros as tinham assimilado e passado a discutir outras questões.
No papel de oberjarl, Erak não poderia mais participar das viagens anuais para saquear as redondezas como comandante do Wolfwind, e esse fato marcou a repentina promoção com uma certa dose de arrependimento. Mas ele anunciou que faria uma última viagem antes de entregar o navio aos cuidados de Svengal, seu principal companheiro de longa data.
— Vou levar vocês de volta a Araluen — ele anunciou. — Acho que é mais do que justo, já que fui o responsável pela vinda de vocês para cá.
Will ficou discretamente satisfeito com a novidade. Agora que era quase hora de voltar para casa, percebeu que ia ficar triste em se despedir do grande pirata impetuoso. Com alguma surpresa, reconheceu o fato de que tinha passado a considerar Erak como um bom amigo e via com prazer qualquer coisa que retardasse o momento da partida.
A primavera tinha chegado, os gansos estavam voltando do sul e havia cervos nas colinas outra vez, de modo que havia bastante carne fresca para substituir a carne seca e salgada, que era a principal refeição no inverno em Hallasholm.
Quando Will viu os primeiros grupos de caça voltando das montanhas no interior da capital escandinava, ele se lembrou de uma dívida que ainda precisava pagar. De manhã bem cedo subiu em Puxão e se afastou em silêncio subindo a trilha que ele e Evanlyn tinham seguido tantos meses antes debaixo de uma nevasca congelante.
Na cabana em que se abrigaram durante o inverno, ele encontrou o pequeno pônei, desgrenhado e conformado, que tinha salvado sua vida. A paciente criatura tinha rompido a leve corda que o prendia ao estábulo atrás da cabana e estava calmamente pastando a nova grama da estação quando Will chegou.
Puxão olhou de soslaio para o seu dono quando Will desamarrou um pequeno saco de aveia e deixou bem claro que era apenas para o pônei. Will consolou seu cavalo com um leve tapinha no focinho.
— Ele mereceu — Will disse para Puxão, e o cavalo deu de ombros, até onde um animal é capaz de fazer isso.
O fantástico pônei até podia ter merecido o saco de aveia, mas isso não impediu a boca de Puxão de salivar ao ver a aveia e sentir o cheiro dela. Quando o pônei terminou de comer, Will montou Puxão e, segurando a rédea principal, cavalgou de volta paia Hallasholm, onde devolveu o pônei ao estábulo de Erak.
Na noite anterior à partida deles, Erak tinha oferecido um banquete de despedida. Os escandinavos estavam ansiosos em mostrar seu agradecimento pelos esforços dos quatro araluenses para defender sua terra dos invasores. E, com a sombra do Vallasvow afastada de Evanlyn, eles deram especial atenção a ela – repetidamente brindando à sua coragem e habilidade em continuar a orientar o ataque dos arqueiros quando sua posição estava sendo invadida.
Halt, Borsa e Erak estavam sentados juntos e tranquilos à cabeceira da mesa discutindo questões importantes, como a repatriação dos escravos que tinham servido no corpo dos arqueiros. Infelizmente, muitos deles não tinham sobrevivido à batalha, mas a promessa de liberdade tinha sido feita também aos seus dependentes, e os detalhes tinham que ser resolvidos. Quando o assunto finalmente foi solucionado, Halt achou que o momento era adequado e disse com calma:
— Então, o que vai fazer quando os Temujai voltarem?
Houve um momento de ensurdecedor silêncio na cabeceira da mesa. Erak empurrou o banco para trás e encarou o pequeno homem de expressão sombria ao seu lado.
— Voltar? Por que eles iriam voltar? Nós derrotamos eles, não é?
— Para falar a verdade, não derrotamos, não — Halt respondeu. — Nós simplesmente fizemos que ficasse muito caro para eles continuarem. Desta vez.
Erak pensou no que ele disse e olhou para Borsa pedindo sua opinião. O hilfmann assentiu com alguma relutância.
— Acho que o arqueiro está certo, oberjarl — ele concordou. — Nós não íamos suportar muito tempo mais. Mas por que eles iriam voltar? — ele perguntou voltando-se para Halt.
Halt tomou um gole da forte cerveja escandinava antes de responder.
— Porque é assim que eles agem — ele respondeu com simplicidade. — Os Temujai não pensam em termos desta temporada, ou deste ano, ou do próximo. Eles pensam nos próximos dez ou vinte anos e têm um plano de longo prazo para dominar esta parte do mundo. Eles precisam de navios, portanto eles vão voltar.
Erak pensou no assunto torcendo uma ponta do bigode com os dedos.
— Então nós vamos derrotar eles outra vez — ele declarou.
— Sem arqueiros? — Halt perguntou devagar. — E sem o elemento-surpresa na próxima vez?
Outro silêncio se seguiu.
— Você poderia nos ajudar a treinar os arqueiros — Erak sugeriu esperançoso. — Você e o garoto.
Mas Halt fez que não com a cabeça, imediatamente, com determinação.
— Não estou preparado para fornecer uma arma tão poderosa para a Escandinávia — ele disse. — Depois de aprender essa técnica, nunca vou saber quando ela vai ser usada contra nós no futuro.
Erak teve que admitir que a afirmação do arqueiro tinha lógica. Afinal, a Escandinávia e Araluen eram inimigos tradicionais. Mas Borsa, com seu tino de negociador, tinha percebido uma insinuação na recusa de Halt.
— Mas você tem uma sugestão? — ele perguntou interessado, e Halt quase sorriu.
Ele tinha esperado que o hilfmann percebesse o que ele queria dizer.
— Eu estava pensando que uma força de... digamos, 300 arqueiros treinados poderia ficar aqui em caráter permanente. Os arqueiros poderiam passar os meses de primavera e verão aqui e depois voltarem para casa no inverno.
— Araluenses? — Erak perguntou começando a entender.
Halt assentiu.
— Nós poderíamos lhes oferecer uma força de arqueiros dessa forma. Porque, se houver hostilidades entre os dois países, eu acho muito mais seguro saber que os arqueiros não vão se voltar contra nós. Nós teríamos que estipular isso no tratado — ele acrescentou como quem não quer nada.
Erak olhou para seu hilfmann com cuidado. A palavra “tratado” parecia ter surgido na mesa a frente deles sem que percebessem. Borsa o encarou e deu de ombros pensativo.
— Estou propondo que a gente tenha um tratado mútuo de defesa por um período de... — Halt pareceu pensar e Erak repentinamente teve a nítida impressão de que ele tinha pesado cada palavra que iria dizer bem antes desse momento —... digamos, cinco anos. Você vai ter uma força adequada de arqueiros...
— E o que você vai ter? — Erak interrompeu abruptamente.
— Nós vamos ter um tratado de paz que vai dizer que a Escandinávia não vai lançar nenhum ataque-surpresa ao nosso país durante esse período — Halt começou sorrindo para ele. — E, no caso de as hostilidades se tornarem inevitáveis, nossos arqueiros vão ter permissão de voltar para casa.
— Nunca vou convencer meus homens a não participarem de saques — Erak retrucou indignado. — Eles vão acabar comigo se eu propuser isso.
Mas Halt ergueu a mão para acalmá-lo.
— Não estou falando de saques individuais — ele disse. — Podemos lidar com eles. Estou falando de ataques em massa, como o de Morgarath.
Houve outra longa pausa enquanto Erak refletia sobre a oferta. Quanto mais ele pensava no assunto, mais atraente a ideia lhe parecia. Tão bem quanto qualquer outro ali presente, ele sabia como tinham chegado perto de serem derrotados pelos Temujai. Trezentos arqueiros treinados proporcionariam uma força defensiva poderosa para a Escandinávia, especialmente se ela fosse posicionada nas passagens estreitas e desfiladeiros tortuosos na fronteira. Ele percebeu, com um choque, que estava começando a pensar como um estrategista. Talvez ele estivesse passando tempo demais perto do arqueiro.
— Você tem autoridade de assinar um tratado como esse? — ele perguntou e, pela primeira vez, Halt hesitou.
Na verdade, ele não tinha nenhuma autoridade. Como membro do Corpo de Arqueiros, ele teria poderes de assinar, mas tinha sido dispensado da corporação quando Duncan o expulsou. É claro que podia redigir o tratado. Ele tinha quase certeza de que Crowley ou o próprio Duncan iriam ratifica-lo. Mas, quando isso acontecesse, Erak iria saber que ele tinha agido de má fé e acharia que aquele não era um bom começo para qualquer relacionamento.
— Eu tenho — disse uma voz calma atrás dele e os três homens olharam para cima surpresos.
Evanlyn, escapando dos brindes e homenagens entusiasmados, tinha sido uma ouvinte interessada na conversa durante os últimos minutos.
— Como princesa real de Araluen, tenho autoridade de assinar em nome de meu pai — ela afirmou, e Halt soltou um suspiro de alívio.
— Acho melhor se fizermos desse jeito — ele disse. — Afinal, a princesa tem um pouco mais de autoridade do que eu.

Capítulo 40

O Wolfwind seguiu o Rio Semath desde o Mar Estreito até o Castelo Araluen.
Foi uma visão espantosa para os moradores locais ver o navio deslizando, tranquilo e calmo, passando pelos campos e vilas até o interior. Os muitos fortes e fortalezas do rio, que normalmente impediriam tal avanço ao navio escandinavo, agora se submetiam ao fato de que o estandarte da princesa Cassandra, um falcão vermelho inclinado, se agitava no alto do mastro. Foi enviada uma mensagem sobre o progresso do navio para garantir que os comandantes locais reconhecessem o estandarte e soubessem que os viajantes subiam o rio em paz.
O fato também era novidade para Erak e sua tripulação.
Finalmente, eles percorreram a última curva do rio e ali, diante deles, estavam as elevadas pontas e torres do castelo Araluen. Erak respirou fundo maravilhado diante da visão. Ao observá-lo, Halt teve certeza de que, além da admiração que o castelo inspirava, o velho instinto de pirata do capitão entrou em ação calculando quantos tesouros o castelo poderia conter. Ele se aproximou do oberjarl e disse em voz baixa:
— Você não passaria nem da vala.
Surpreso, Erak se assustou e se virou para encarar o arqueiro. E sorriu um tanto arrependido.
— Era tão óbvio que eu estava pensando nisso? — ele perguntou, e Halt balançou a cabeça confirmando.
— Você não seria um escandinavo se não estivesse — o arqueiro ajuntou.
Cercado com bandeiras, em cima dele, um ancoradouro se projetava para o rio. Uma multidão esperava a chegada dos quatro araluenses. Ao verem o navio, as pessoas começaram a tocar cornetas e a dar vivas.
— Isso é inédito — Erak disse suavemente, fazendo Halt sorrir.
— E aquilo também — ele disse, apontando discretamente para um vulto alto e barbado parado um pouco atrás no ancoradouro e cercado por um séquito de damas e cavaleiros luxuosamente vestidos. — Aquele é o rei que veio lhe dar as boas-vindas, Erak.
— É mais provável que ele esteja aqui por causa da filha — o escandinavo respondeu.
Mas Halt notou que ele tinha ficado satisfeito com o fato.
Evanlyn já tinha visto o homem alto e estava parada na proa acenando entusiasmada. Os vivas vindos da margem redobraram quando o povo a viu e agora Duncan estava abrindo caminho para o ancoradouro a passos largos, quase correndo, não satisfeito em ficar atrás e preservar sua dignidade real.
— Remos! — Erak gritou, e os remadores levantaram os remos pingando água enquanto o navio deslizava suavemente ao longo do ancoradouro.
A tripulação escandinava passou as amarras para os que estavam na margem enquanto os dois grupos se examinavam mutuamente com profundo interesse. Era a primeira vez na história que araluenses e escandinavos ficavam frente a frente sem armas nas mãos. Will, com o rosto iluminado pela alegria do momento, saltou sobre a murada do navio enquanto Evanlyn corria para a entrada no meio do navio. Ela e o pai, com os corações cheios demais para falar, simplesmente sorriram um para o outro enquanto os marinheiros puxavam o navio para o ancoradouro. Então, as proteções de vime bateram e gemeram, e o navio ficou imobilizado. Svengal, com um largo sorriso no rosto, abriu a portinhola da balaustrada do navio e Evanlyn pulou nos braços do pai e enterrou o rosto em seu peito.
— Papai! — ela gritou uma só vez, a voz abafada pela camisa dele e pelos soluços que brotavam em sua garganta.
— Cassie! — ele murmurou o apelido carinhoso da filha desde que ela era um bebê, e os vivas aumentaram.
Duncan era um rei popular e o povo sabia quanta dor a perda da filha tinha causado a ele. Até os escandinavos estavam sorrindo diante da cena. Piratas rudes como eram, eles tinham um lado sentimental e valorizavam os laços de família.
Em meio a toda essa alegria e comemoração, apenas Halt ficou de fora. Seu rosto era uma máscara de dor e sofrimento e ele permaneceu discretamente junto do leme na popa do navio enquanto os demais corriam para a saída.
Duncan e Evanlyn, ou Cassandra, como o pai a conhecia, indiferentes aos que os cercavam, estavam abraçados. Will, observando a multidão, viu um vulto robusto nas fileiras atrás do rei: um homem de meia-idade que estava acenando animadamente para ele e gritava seu nome.
— Will! Seja bem-vindo em casa, garoto! Seja bem-vindo!
Por um momento, Will ficou surpreso, mas logo reconheceu o barão Arald: o homem que durante anos tinha sido uma figura com o rosto sério da autoridade. Agora lá estava ele, acenando e gritando como um estudante num feriado. Will desceu com facilidade pela prancha do ancoradouro e abriu caminho entre a multidão de simpatizantes do barão. Ele começou a fazer uma reverência formal quando o barão agarrou sua mão e a sacudiu com entusiasmo.
— Esqueça isso! Bem vindo a casa, rapaz! E parabéns! Muito bom! Meu Deus, pensei que nunca ia vê-lo outra vez! Não é mesmo, Rodney?
Ele falou isso para o cavaleiro que estava ao seu lado vestido com malha de ferro, e Will reconheceu sir Rodney, chefe da Escola de Guerra do Castelo Redmont. Ele percebeu que o cavaleiro estava ansiosamente procurando alguém entre os rostos no convés do navio.
— Sim, sim, meu senhor — ele concordou distraído.
Então agarrou o outro braço de Will e disse ansioso:
— Will, pensei que Horace estava com você. Não me diga que aconteceu alguma coisa a ele...
Atordoado, Will olhou para onde Horace estava apertando a mão da tripulação escandinava, despedindo-se dos amigos antes de descer a terra.
— Lá está ele — Will mostrou Horace para sir Rodney e teve a satisfação de ver o cavaleiro abrir a boca de surpresa.
— Meu Deus! Ele se transformou num gigante! — ele exclamou.
Então Horace reconheceu seu mentor e marchou rapidamente pela multidão, ficou em posição de sentido e fez continência com o punho no lado direito do peito.
— Aprendiz Horace se apresentando, chefe de guerra. Permissão para voltar ao serviço, senhor? — ele disse com energia.
Batendo continência, Rodney retribuiu o cumprimento.
— Permissão concedida, aprendiz.
Então, concluídas as formalidades, ele envolveu o musculoso aprendiz num abraço de urso e dançou com ele alguns passos constrangedores enquanto gritava:
— Que diabos, garoto, você nos deixou muito orgulhosos! E como foi que ficou tão alto assim?
Mais uma vez, a multidão aplaudiu deliciada. Então, de repente, todos ficaram em silencio e Will se virou para descobrir o motivo. Erak Starfollower, oberjarl dos escandinavos, estava desembarcando.
Instintivamente, os que estavam mais perto recuaram um pouco. Era difícil esquecer velhos hábitos. Will, não desejando que seu amigo fosse insultado, se moveu impulsivamente, mas outra pessoa na multidão foi mais rápida do que ele. Duncan, rei de Araluen, se aproximou para cumprimentar seu colega escandinavo com a mão estendida num gesto de amizade.
— Bem vindo a Araluen, oberjarl — ele disse. — E obrigado por trazer minha filha para casa em segurança.
E, ao dizer isso, os dois líderes trocaram um aperto de mão.
Em seguida, os vivas recomeçaram, desta vez para Erak e sua tripulação, fazendo-os olhar ao redor satisfeitos. Will pensou que isso iria dificultar um pouco a tarefa de saquear a região no futuro. Duncan deixou os aplausos continuarem por mais algum tempo e então ergueu a mão pedindo silêncio. Ele observou os rostos no cais e, ao não ver o que estava procurando, olhou para o navio.
— Halt — ele disse devagar, finalmente vendo o arqueiro envolto, como sempre, em sua capa de arqueiro, parado sozinho perto do grande leme.
O rei estendeu a mão e fez um gesto na direção das docas.
— Venha para terra, Halt. Você está em casa.
Mas Halt ficou parado, constrangido e incapaz de esconder a tristeza que sentia. Sua voz tremeu quando começou a falar, mas ele se recuperou e recomeçou.
— Majestade... ainda faltam três semanas para terminar o ano de expulsão — ele disse finalmente.
A multidão murmurou. Will, incapaz de se conter, reagiu totalmente surpreso.
— Expulsão? Você foi expulso? — ele disse sem acreditar.
Ele olhou para o rei. Era impensável que Halt, com sua inabalável lealdade para com Araluen e seu povo, tivesse sido expulso.
— Por quê? — ele quis saber.
A palavra ficou no ar. Duncan balançou a cabeça encerrando a questão.
— Algumas palavras descuidadas, isso foi tudo. Ele estava embriagado, e nós já esquecemos o que ele disse, e eu o perdoo. Por isso, pelo amor de Deus, homem, venha para a terra.
Mas Halt ficou onde estava.
— Majestade, nada me deixaria mais feliz. Mas o senhor deve cumprir a lei — ele disse em voz baixa.
Então outra pessoa concordou: lorde Anthony, o tesoureiro do rei.
— Halt está certo, majestade — ele afirmou.
Anthony era um homem de boas intenções, mas costumava ser um pouco exagerado quando se tratava de interpretar a lei.
— Afinal, ele disse que o senhor era o resultado de um encontro de seu pai com uma dançarina.
A multidão soltou murmúrios abafados.
— Obrigado por nos lembrar, Anthony — Duncan retrucou com um sorriso frio entre dentes semicerrados.
Mas uma gargalhada incontida estourou e a princesa Cassandra dobrou o corpo, gritando de uma forma nada real. Todos olharam para ela e, lentamente, a garota se recuperou o suficiente para falar.
— Peço desculpas a todos, mas, se vocês tivessem conhecido a minha avó, entenderiam por que meu avô pode ter ficado tentado! A vovó parecia um cachorro raivoso, e o temperamento dela combinava com a cara!
— Cassie! — o pai disse em tom desaprovador, mas ela estava segurando os lados do corpo e rindo outra vez, e ele não conseguiu evitar que um sorriso se formasse em seus lábios.
Então ele sentiu o olhar de crítica de lorde Anthony sobre ele, recobrou-se e cutucou Cassandra até que o riso se transformou numa serie de fungadelas e resfôlegos abafados. Contudo, o riso tinha sido contagioso e foi preciso algum tempo para que a multidão ali reunida voltasse à ordem. Durante todo esse tempo, Halt permaneceu parado no convés do navio.
— Certamente, Anthony, meus poderes me permitem perdoar Halt pelas últimas três semanas de sua sentença, não? — o rei perguntou ao tesoureiro num tom extremamente conciliador.
— Seria muito irregular, majestade — ele disse rígido e de cenho franzido. — Esse fato iria criar precedentes desastrosos na lei.
— Rei Duncan! — Erak trovejou e recebeu a atenção de todos no mesmo instante.
Ele percebeu que tinha falado com um pouco mais de veemência do que pretendia, ainda estava se acostumando a essas ocasiões formais. E continuou num tom mais moderado.
— Será que eu poderia pedir que o senhor concedesse o perdão a Halt como um gesto de boa vontade para selar o tratado entre nossos dois países?
— Ótima ideia! — Duncan resmungou.
Ele se virou rapidamente para lorde Anthony.
— E então? — ele perguntou.
O tesoureiro apertou os lábios pensativo. Ele nunca quis deixar de satisfazer os desejos do rei. Simplesmente tentava cumprir seu dever e obedecer a lei. Agora viu uma brecha e a agarrou agradecido.
— Esse pedido não criaria nenhum precedente, majestade — ele afirmou. — E, afinal, essa é uma ocasião muito especial.
— Pois então, que seja! — Duncan disse rapidamente e se virou para encarar a figura no navio — tudo bem, Halt, você está perdoado. Então, pelo amor de Deus, desembarque e vamos tomar alguma coisa para comemorar!
Halt, com lágrimas nos olhos, colocou os pés em solo araluense mais uma vez, depois de onze meses e cinco dias de expulsão. Quando ele desembarcou e ouviu os novos vivas da multidão, os que estavam perto dele viram outro homem vestido com uma capa cinza-esverdeada. Ele veio à frente e colocou uma coisa na mão de Halt.
— Acho que você vai precisar disto outra vez — disse Crowley, comandante do Corpo de Arqueiros.
E, quando Will olhou para a mão, viu uma corrente fina com a insígnia da Folha de Carvalho de prata.
Então ele soube que estava realmente em casa.

Capítulo 41

Will sabia que alguma coisa estava acontecendo. Depois da primeira rodada de comemorações e depois que Erak e sua tripulação tinham partido de volta à Escandinávia com os detalhes administrativos da distribuição da força de arqueiros de Araluen acertados para a próxima primavera, houve muitas consultas entre o rei e seus conselheiros, incluindo Halt, Crowley, barão Arald e sir Rodney.
Durante esse período, Will e Horace foram deixados bastante à vontade, embora não faltassem admiradores para cumprimenta-los e ouvir, fascinados, as histórias sobre o tempo passado na Escandinávia e a feroz batalha contra os Temujai. Mas até essa adulação diminuiu um pouco.
Horace, agora que suas aventuras como o Cavaleiro da Folha de Carvalho tinham terminado, voltara a usar o casaco branco simples de um aprendiz de guerreiro.
Evanlyn, é claro, tinha voltado a usar sua verdadeira identidade como princesa Cassandra. Ela foi levada aos apartamentos da família real, em uma das torres do Castelo Araluen, e sempre que Will a via ela estava cercada por um séquito de cavaleiros e damas. E ele percebeu que ela também era uma jovem linda, imaculadamente vestida e à vontade entre os jovens nobres e moças que a rodeavam.
Entristecido, ele sentiu a distância entre eles crescer cada vez mais quando se deu conta de que sua companheira de tantas aventuras e perigos era, na realidade, a mulher mais bem-nascida do reino, enquanto ele era um órfão, filho de um sargento do exército e uma mulher do campo. Nas cada vez mais esparsas e raras ocasiões em que falou com Cassandra, ele ficou sem jeito e sem saber o que dizer. As palavras desapareciam na presença dela, e ele balbuciava respostas monossilábicas às suas tentativas de conversar.
Sua reação frustrava e enfurecia Cassandra. Ela estava realmente tentando fazer a amizade voltar a ser o que era antes, mas era jovem demais para perceber que todos os adornos da realeza e da riqueza, coisas que para ela eram normais e às quais não dava importância, apenas serviam para afastar Will.
— Será que ele não vê que eu sou a mesma pessoa que sempre fui? — ela perguntou ao espelho frustrada.
Mas, na verdade, estava diferente. Evanlyn tinha sido uma garota assustada que, com a vida sempre em risco, foi obrigada a confiar, durante meses, na inteligência e coragem do jovem companheiro para mantê-la em segurança. De repente, numa reviravolta, ela se tornou a salvadora, a que cuidou de um garoto confuso e assustado para que voltasse à vida.
Cassandra, por outro lado, era uma princesa linda e impecavelmente arrumada, cuja posição na vida estava tão acima da de Will que ele nunca iria alcançá-la. Um dia, ele percebeu que ela seria rainha no lugar do pai. Não era a personalidade dela que tinha mudado. Era a posição. E tanto ela quanto Will eram jovens e inexperientes demais para superar a inevitável tensão que esse abismo social colocava no relacionamento deles.
Por mais estranho que parecesse, na mesma época ela ficou cada vez mais próxima de Horace. Acostumado à formalidade da vida como aprendiz de guerreiro e à severidade e aos protocolos da vida na corte no Castelo Redmont, Horace não se perturbava com a posição de Cassandra. É claro que ele se submetia à vontade dela e a tratava com muito respeito, mas, até ali, sempre tinha agido assim. A abordagem simples e descomplicada em relação à vida fazia Horace aceitar as coisas como eram e não procurar complicações. Evanlyn tinha sido sua amiga. Agora, a princesa Cassandra também era. Havia certas diferenças na forma como ele deveria abordá-la e falar com ela, mas esse tipo de formalidade tinha feito parte de seu treinamento.
Quando ela finalmente tocou no assunto do abismo que aumentava entre ela e Will, Horace simplesmente lhe aconselhou paciência.
— Ele vai se acostumar com as coisas como são — ele garantiu. — Afinal, ele é um arqueiro, e eles são meio... diferentes... no modo de agir. Dê um tempo para ele se acostumar.
Então Cassandra resolveu dar tempo ao tempo. Mas o comentário de Horace sobre os arqueiros ficou em sua lembrança e ela decidiu fazer algo sobre essa situação. E ela sabia que haveria uma oportunidade perfeita para que isso acontecesse num futuro muito próximo.


Duncan tinha anunciado um banquete formal para comemorar a volta em segurança da única filha, e convites foram levados aos 50 baronatos do reino. Seria um acontecimento imponente.
Levou um mês para que os convidados se reunissem e então o imenso salão de jantar do Castelo Araluen viu uma noite sem rival desde a coroação do próprio Duncan, vinte anos antes.
O banquete transcorreu durante horas, e criados do castelo carregaram bandejas de carne assada, legumes frescos e quentes. Imensas tortas e doces que tinham a intenção de deslumbrar não só os olhos como também o paladar. O chefe Chubb, o chefe da cozinha do Castelo Redmont e um dos melhores chefes do reino, havia viajado para a capital para supervisionar o acontecimento. Ele estava parado na porta da cozinha, de onde observava satisfeito os nobres e suas esposas devorarem e destruírem o fruto do trabalho de horas do pessoal da cozinha na última semana, e preguiçosamente batia com sua colher na cabeça de qualquer garçom ou criado descuidado que ficava ao seu alcance.
— Nada mal, nada mal — ele murmurava para si mesmo e logo mandava outro criado levar mais um prato especial para apreciação do “jovem arqueiro Will”, como o chamava.
Por fim, o banquete fenomenal acabou e a festa ia começar. O harpista do rei tocava as cordas de seu instrumento nervosamente, o calor do salão lotado tinha leito com que se esticassem de modo irregular, e mentalmente lembrava a letra do poema heroico que tinha escrito, celebrando o resgate da princesa real das mandíbulas da morte por três dos mais importantes heróis do reino. Ele ainda desejava ter conseguido uma rima melhor para “Halt”. A melhor que tinha encontrado até aquele momento foi dizer que ele era um homem que representava um “salto” na história do país, o que, diante dos acontecimentos, parecia ser pouco para o valor do lendário arqueiro.
Antes de ser chamado, porém, o rei Duncan se levantou de sua cadeira para se dirigir à imensa multidão. Como sempre, o vigilante lorde Anthony estava ao seu lado e, a um sinal de seu monarca, bateu seu cajado revestido de aço nas pedras do salão de jantar.
— Silêncio para o rei! — ele pediu e, no mesmo instante, o murmúrio de conversas e risos no enorme aposento desapareceu.
Todos os olhares se viraram para a mesa principal.
— Damas e cavaleiros — Duncan começou com a voz grave que chegava sem esforço a todos os cantos do salão — esta ocasião me dá imenso prazer. Para começar, estamos aqui para comemorar a volta de minha filha, princesa Cassandra, em segurança. Um acontecimento que me traz mais alegria do que vocês poderiam entender.
O salão quase veio abaixo com gritos de “Muito bem!”, “Bravo!” e aplausos entusiasmados.
— A outra fonte de satisfação para mim, nesta noite, é a oportunidade de recompensar os responsáveis pela sua volta.
Dessa vez, os aplausos foram mais fortes e prolongados. Os ouvintes estavam deliciados em ver Cassandra de volta em segurança junto do pai. Mas eles sabiam que o principal motivo da festa era recompensar os três companheiros que a tinham trazido.
— Primeiro — Duncan falou — peço ao arqueiro Halt que se aproxime.
Houve um murmúrio de interesse na multidão quando a figura franzina, desta vez sem o anonimato de sua capa cinza-esverdeada, parou diante do rei. Várias pessoas do fundo se levantaram para enxergar melhor. A reputação de Halt era conhecida em todo o reino, mas poucos dos presentes já o tinham visto em carne e osso. Em parte, isso se devia à predileção do arqueiro pela discrição. Agora havia muitas expressões de surpresa diante do pequeno tamanho do arqueiro. A maioria dos presentes tinha formado uma imagem mental de um herói de corpo robusto e quase 2 metros de altura carregando um arco longo.
Naquele momento, ele curvou a cabeça para o rei. Não pela primeira vez, Duncan se viu analisando o corte irregular do cabelo do arqueiro. Era óbvio que ele tinha sido aparado recentemente em honra ao evento no Castelo Araluen, mas Duncan não conseguiu evitar um sorriso. Halt tinha estado no castelo durante mais de um mês, cercado por criados, camareiros e, acima de tudo, barbeiros habilidosos. No entanto, pelo que parecia, ele ainda preferia cortar o próprio cabelo com sua faca de caça. Duncan se deu conta de que a multidão estava esperando enquanto ele observava os esforços de Halt como cabeleireiro. Ele recompôs o pensamento e continuou.
— Halt já afirmou que sua volta às fileiras do Corpo de Arqueiros é recompensa suficiente — Duncan disse e, mais uma vez, houve murmúrios de surpresa. — Como em muitas ocasiões antes desta, estou em dívida com um dos meus mais leais servidores e concordo com seus desejos sobre essa questão. Halt, eu lhe devo mais do que qualquer rei jamais deveu a um homem. Nunca vou esquecer o que você tem feito.
Nesse momento, Halt inclinou a cabeça mais uma vez e voltou para seu lugar, tão depressa e discretamente que a maioria dos presentes não percebeu que ele tinha saído e seus aplausos espantados morreram antes de começar.
— Em seguida — Duncan continuou elevando um pouco a voz para acalmar os murmúrios de conversas que tinham começado — peço ao aprendiz de guerreiro Horace que se aproxime.
Will deu um tapa nas costas de Horace quando o amigo, com uma expressão apreensiva no rosto, se levantou e foi ficar diante do rei em posição de sentido. A multidão esperou curiosa.
— Horace — Duncan começou sério, mas com um leve sorriso no olhar — chegou ao nosso conhecimento que você viajou pela Gálica disfarçado de cavaleiro... — ele fingiu consultar uma nota na mesa à sua frente e então acrescentou: — O Chevalier de Feuille du Chène, o Cavaleiro da Folha de Carvalho.
Horace engoliu em seco nervoso. Ele sabia que suas aventuras tinham sido contadas, mas esperava que o mundo oficial fechasse os olhos para o fato de que ele não tinha o direito de se fazer passar por cavaleiro.
— Majestade, sinto muito... Eu achei necessário na época e...
Ele se deu conta de que Duncan o olhava com calma, uma sobrancelha levantada, e então lhe ocorreu que tinha cometido uma grave quebra de protocolo ao interromper o rei. Tarde demais, ele parou e ficou em posição de sentido outra vez quando o rei recomeçou.
— Tenho certeza de que você sabe que é extremamente irregular que um aprendiz exiba uma insígnia ou se faça passar por cavaleiro, de modo que agora é necessário retificar essa irregularidade.
Ele fez uma pausa.
Horace estava prestes a dizer “Sim, senhor”, quando percebeu que estaria interrompendo novamente e se calou.
— Conversei com o barão, com seu chefe de guerra e com o arqueiro Halt — Duncan continuou — e todos concordamos que o melhor é regularizar a situação.
Horace não tinha certeza do que isso queria dizer, mas não parecia bom. Duncan fez um sinal, e Horace ouviu passos pesados se aproximando por trás. Olhou para o lado e viu o chefe de Guerra Rodney parar ao seu lado segurando uma espada e um escudo. Atordoado, Horace viu o emblema no escudo: uma folha de carvalho verde num campo branco. Admirado, ele acompanhou Duncan descer do estrado, pegar a espada e tocar seu ombro de leve com ela.
— Ajoelhe-se — Rodney sussurrou com o canto da boca, Horace obedeceu e ouviu as próximas palavras como se fossem sinos em seus ouvidos. — Levante-se, sir Horace, Cavaleiro da Folha de Carvalho e integrante da Guarda Real de Araluen.
Um grande tumulto se formou entre a multidão. Praticamente nunca se tinha ouvido falar de um aprendiz ser nomeado cavaleiro no segundo ano e ser indicado como oficial da Guarda Real, a força de elite que defendia o Castelo Araluen. Os nobres e suas esposas deliraram encantados.
— Levante-se — Rodney sussurrou novamente e devagar, com um enorme sorriso espalhado no rosto, Horace se ergueu e apanhou a espada da mão do rei.
— Muito bem, Horace — o rei disse em voz baixa. — Você mais do que mereceu.
Então ele apertou a mão de seu mais novo cavaleiro e mostrou que o rapaz poderia voltar ao seu lugar. Horace obedeceu mal enxergando os rostos ao seu redor. Ele viu apenas um sorriso enorme e deliciado no rosto de Will quando o amigo o cumprimentou com um soco nas costas, em seguida, a multidão se acalmou e desta vez os dois garotos ouviram a voz do rei.
— Aprendiz de arqueiro Will, aproxime-se.
Embora soubesse que algo parecido pudesse acontecer, Will foi pego desprevenido. Ele se levantou apressado, tropeçou e finalmente recuperou o equilíbrio para se postar diante do rei.
— Will, o Corpo de Arqueiros tem modo de agir e regulamentos próprios. Falei com seu mentor Halt e com o comandante da corporação e infelizmente está além de meu poder rescindir seu período de treinamento e declará-lo um arqueiro totalmente qualificado. Halt e Crowley insistem em que você complete o período total de treinamento e avaliação.
Nervoso, Will engoliu em seco e assentiu. Ele sabia disso. Ainda havia muito a aprender e muitas técnicas que devia desenvolver. O talento natural de Horace era suficiente para que o rei o dispensasse do treinamento. Mas Will sabia que esse nunca seria o caso para ele.
— Entretanto — Duncan continuou — posso oferecer uma alternativa. Está em meu poder aponta-lo como tenente dos Patrulheiros Reais. Os seus mestres concordaram que você está totalmente qualificado para essa tarefa e vão liberá-lo do aprendizado, se desejar.
As pessoas reunidas abafaram uma exclamação de surpresa. Will ficou sem saber o que dizer. Os Patrulheiros Reais eram uma força de elite da cavalaria ligeira cuja responsabilidade era treinar os arqueiros do reino e patrulhar à frente do exército do rei em batalha. Oficiais e recrutas geralmente vinham da classe nobre, e a indicação era equivalente à de cavaleiro. Ela significava honra, prestígio, posição e reconhecimento, comparados a outros três anos de estudos e aplicação pesados como aprendiz.
E, mesmo assim...
No fundo do coração, Will sabia que aquilo não era para ele. Era tentador, realmente. Mas pensar na liberdade das florestas verdes, nos dias passados com Puxão, Halt e Abelard, na fascinação de aprender e aperfeiçoar novas habilidades e no estímulo de sempre estar no centro dos acontecimentos... Aquela era a vida de um arqueiro e, quando a comparou ao protocolo e à etiqueta, à formalidade e às restrições impostas pela vida no Castelo Araluen, ele soube, pela segunda vez no intervalo de alguns anos, o que realmente queria.
Will se virou para ver se Halt sinalizava com algum conselho, mas seu mestre estava sentado, o olhar pousado na mesa, assim como Crowley, alguns lugares adiante. Então, com a voz parecendo artificialmente alta no silêncio em expectativa do aposento, ele respondeu:
— É uma grande honra, majestade. Mas meu desejo é continuar meu treinamento como aprendiz.
Um burburinho de surpresa se ergueu a um ponto fervilhante no salão. Os arqueiros eram, como todos concordavam, diferentes. E a maioria das pessoas presentes simplesmente não conseguia entender a escolha de Will. Duncan, porém, compreendeu. Ele agarrou o ombro de Will e falou somente para ele.
— Isso vale muito, Will, acho que você fez uma escolha sensata. E, para somente você ouvir, os seus mestres de ofício me disseram que acreditam que no futuro você será um dos melhores arqueiros que já tivemos.
Will arregalou os olhos. Para ele, saber disso era recompensa suficiente. Ele sacudiu a cabeça.
— Não tão bom quanto Halt, não é mesmo, majestade?
— Duvido que alguém possa ser tão bom quanto ele, não concorda? — o rei retrucou sorrindo.
E, com a mão ainda no ombro do garoto, ele o virou na direção em que Crowley e Halt estavam sorrindo calorosamente para ele, abrindo espaço entre eles. O aplauso que se seguiu quando Will se sentou foi educado, mas um pouco confuso. Afinal, ninguém podia realmente entender os arqueiros.
Duncan sentiu uma leve pontada de tristeza no coração quando se virou paia o lugar em que a filha estava sentada. Seus lábios já estavam formando as palavras, “Eu tentei”, mas, quando ele olhou, Cassandra tinha deixado o aposento.


Dois dias depois, Will e Halt partiram do Castelo Araluen a cavalo e se dirigiram para a cabana perto do Castelo Redmont. De tempos em tempos, Halt olhava com carinho para o jovem amigo. Ele sabia que Will tinha tomado uma decisão importante e que sua mente estava confusa. Ele suspeitava que isso tinha algo a ver com a princesa. Desde o banquete, Will tinha tentado vê-la várias vezes para explicar sua decisão. Mas ela não o recebeu.
Halt sentiu que Will queria ficar só com seus pensamentos ao cavalgarem para o sudoeste, e ele o deixou tranquilo, mas decidiu mergulhar o garoto num regime de incessante trabalho e treinamento duro que não lhe daria tempo para refletir sobre o coração partido.
Atrás dos viajantes, duas figuras num terraço do imenso castelo estavam observando, praticamente invisíveis por causa das torres e contrafortes. Evanlyn levantou a mão num gesto de despedida e Horace pôs um braço reconfortante ao redor dos ombros dela.
— Ele é um arqueiro — disse o cavaleiro recém-nomeado solidário. — E pessoas como nós nunca poderemos entender os arqueiros. Eles ocultam uma parte de si das outras pessoas.
Incapaz de falar, a garota concordou. A névoa da manhã que envolvia os cavaleiros pareceu ficar mais densa por um momento, então ela piscou rapidamente e se deu conta de que eram lágrimas que turvavam sua vista. Enquanto observavam, o sol finalmente atravessou as nuvens e cobriu o Castelo Araluen com uma luz pálida e dourada.
Mas Will estava cavalgando para o sul e não percebeu.

Capítulo 37

Nit’zak, comandante de campo da força Temujai que atacava a posição de Will, tinha enviado seus homens para o ataque com um descaso irresponsável. Enquanto os kaijin se ocupavam dos arqueiros, seus lanceiros e espadachins se atiravam contra a linha de guerreiros escandinavos que os protegiam.
Nit’zak tinha percebido que esse ataque era a última cartada de seu comandante. Se eles não conseguissem romper o cerco, sabia que Haz’kam iria ordenar uma retirada geral, pois estava relutante em provocar mais baixas em sua campanha. A ideia de retirada e de fracasso era impensável para Nit’zak. Por isso, ele incitou os homens a seguirem em frente, desejando que atravessassem a linha escandinava e destruíssem a pequena, mas altamente eficiente, força de arqueiros que se abrigava atrás dela.
O chão na frente das defesas escandinavas estava coberto com os corpos de seus homens e cavalos. Contudo, aos poucos, eles estavam empurrando os homens do norte para trás, enquanto diminuíam em número e a linha defensiva ficava mais frágil. Desmontados agora, os Temujai subiam a ladeira como formigas, atacando e cortando com seus sabres de lâminas compridas. Com o semblante carregado, os escandinavos revidavam.
— General! — um dos soldados agarrou seu braço e apontou para o pequeno grupo de cavaleiros se afastando da batalha. — Os kaijin estão batendo em retirada.
Nit’zak praguejou contra eles enquanto se afastavam. “Mimados e privilegiados”, ele pensou. O comandante sabia que eles se consideravam membros de elite da força Temujai. Os atiradores kaijin eram dispensados dos perigos do combate direto para que pudessem ficar à vontade e escolher os comandantes inimigos com relativa segurança. Agora, enfrentando um contra-ataque preciso e mortal pela primeira vez na vida, eles se afastaram e desertaram. Ele jurou que os veria morrer por sua covardia.
Mas isso teria que esperar. Agora, tinha percebido que, os arqueiros escandinavos estavam lançando uma nuvem de setas depois da outra para as últimas fileiras do grupo principal mais uma vez. Eles tinham que parar. O repentino reinício das saraivadas mortais poderia muito bem desequilibrar a batalha.
Haz’kam tinha dito que seu segundo no comando não tinha senso do quadro geral quando se tratava de um conflito armado. Mas Nit’zak tinha uma habilidade que o tornava um excelente comandante tático. Ele sabia perceber qual era o momento crucial em uma batalha, o momento em que tudo estava equilibrado e no qual um determinado esforço de qualquer um dos lados podia representar a diferença entre vitória e derrota. Agora, observando seus homens lutarem com os escandinavos e vendo, pela primeira vez, um elemento de incerteza no inimigo, ele sentia esse momento. Tirou o sabre da bainha e se virou para a sua escolta pessoal, meio ulan de 30 experientes soldados.
— Venham! — ele gritou e os conduziu numa corrida em direção à linha escandinava.
O instinto de Nit’zak estava certo. Os escandinavos, exaustos e sangrando, com suas fileiras esvaziadas, continuavam a lutar com as últimas reservas de força e determinação. A quantidade de soldados Temujai parecia infinita. Para cada um que caía sob as achas escandinavas, parecia surgir outro que vinha substituí-lo, soltando gritos de guerra, cortando e perfurando com seus sabres. Agora que uma nova força tinha penetrado na linha de defesa, desmontando e revolvendo a proteção de terra, o equilíbrio oscilava. Primeiro um e em seguida outro escandinavo cedia. Logo, estavam recuando em grupo, à medida que os Temujai passavam pela brecha que finalmente tinham conseguido abrir a força, derrubando os escandinavos enquanto tentavam escapar.
Nit’zak agitou o sabre na direção da linha de arqueiros que ainda disparava uma saraivada atrás da outra sobre a força de ataque principal.
— Os arqueiros! Matem os arqueiros! — ele ordenou aos seus homens e disparou na direção dos arqueiros.
Na posição de comando, Horace jogou no chão o escudo imenso e difícil de manejar que vinha usando e agarrou o próprio escudo. Sua espada deslizou da bainha com um assobio de expectativa quando ele saltou sobre o parapeito.
— Fique aqui — ele disse para Will e desceu a rampa para ir ao encontro do primeiro grupo de Temujai que subia em sua direção.
Desta vez foi Will que olhou admirado o amigo partir para o ataque. Sua espada se movia de forma atordoante, disparando para a frente e para trás, por cima, à esquerda e à direita, enquanto ele derrubava os inimigos. O primeiro ataque foi repelido e um grupo maior de Temujai se aproximou do alto guerreiro. Novamente se ouviu o choque de aço contra aço, mas agora, quando ameaçaram cercar Horace, ele foi obrigado a recuar. Will olhou para a caixa de flechas. Restavam cinco e ele começou a atirar: disparos firmes e deliberados para atingir os Temujai que tentavam rodear o amigo.
Ele olhou para os arqueiros. Os escudeiros tinham apanhado as suas armas e estavam se aproximando para protege-los. Além disso, alguns escandinavos que tinham se afastado se reagruparam na posição dos arqueiros. Evanlyn ainda estava ordenando as saraivadas.
— Continue assim! — ele gritou, ela olhou para ele, concordou e retomou sua tarefa.
Horace já estava quase de volta à posição elevada de comando, ainda enfrentando os ataques determinados dos Temujai. Mas lutava sozinho e estava vulnerável pelas costas. Will, tendo usado seu estoque de flechas, apanhou as duas facas e foi proteger a retaguarda do amigo.


No centro da linha escandinava, Erak pressentiu um momento de oportunidade semelhante. Os Temujai estavam lutando arduamente, mas a intensidade selvagem tinha desaparecido de seu ataque.
Enfraquecidas e desmoralizadas pelas constantes chuvas de flechas vindas do flanco direito, suas fileiras de apoio estavam recuando e deixando as tropas em luta com as linhas escandinavas sem os reforços regulares de que precisavam para manter o ritmo do ataque.
Ele derrubou um capitão Temujai que tinha passado por cima das trincheiras aos gritos e se virou para procurar Halt. O arqueiro estava posicionado atrás dele, parado sobre um parapeito e tranquilamente atirando nos Temujai à medida que se aproximavam. A tática de Haz’kam de retirar os atiradores de seus ulans estava se voltando contra os Temujai. Para variar, eram eles que estavam perdendo seus comandantes para tiros precisos e certeiros, enquanto os líderes escandinavos continuavam a derrubar todos os que ficavam ao alcance de suas achas.
Livrando-se de um inimigo, Erak saltou para o lado de Halt. Ele fez um gesto para a ala esquerda, até aquele momento ainda não comprometida.
— Acho que, se atacarmos pela lateral, talvez possamos acabar com eles — Erak disse.
Halt analisou a ideia por um momento. Era arriscado, mas Halt sabia que batalhas eram ganhas assumindo riscos. Ou eram perdidas. Ele tomou uma decisão.
— Vá em frente — ele concordou.
Então Erak olhou para trás de Halt e praguejou. O arqueiro se virou imediatamente para olhar na mesma direção e juntos viram os Temujai romperem a linha abaixo da posição de Will. Os dois sabiam que, se a chuva de flechas parasse, as últimas fileiras Temujai poderiam muito bem recuperar a união, e a oportunidade se perderia.
Teriam que agir imediatamente.
— Traga o flanco esquerdo — Halt disse apenas.
Ele apanhou uma aljava de flechas sobressalente e começou a correr na direção do posto de comando de Will. Erak o viu se afastar, sabendo que um homem não faria diferença. Desesperado, ele olhou ao redor, e seu olhar se iluminou ao ver Ragnak parado no meio de um círculo de Temujai caídos. Os olhos do oberjarl estavam perturbados e parados. Ele tinha se livrado do escudo e estava agitando sua imensa acha com as duas mãos. Sangue escorria de meia dúzia de ferimentos em seus braços, pernas e corpo, mas ele parecia não se importar com o fato. Erak sabia que ele estava a ponto de enlouquecer. E sabia também que um homem como aquele fazia toda a diferença no mundo.
Erak abriu caminho para chegar até o oberjarl, conseguindo uma folga quando os Temujai caíram para longe dos dois imensos guerreiros. Ragnak olhou para cima, reconheceu-o e mostrou os dentes num sorriso triunfante e selvagem.
— Nós estamos acabando com eles, Erak! — ele gritou com o olhar ainda tresloucado.
Erak agarrou-o pelo braço e o sacudiu para que prestasse atenção.
— Estou trazendo o flanco esquerdo! — ele gritou e o oberjarl sorriu e deu de ombros.
— Bom! Deixe que eles também se divirtam um pouco! — ele berrou em resposta.
Erak apontou para a batalha que continuava violenta no lado do mar.
— A ala esquerda está com problemas. Eles conseguiram passar. O arqueiro precisa de ajuda.
Parecia estranho dar ordens para o supremo comandante, mas ele percebeu que Ragnak seria incapaz de dirigir o ataque do flanco naquele estado de espírito. Ele era bom numa coisa: um ataque devastador sobre um inimigo que atrapalhava o caminho.
Agora, ao ouvir as palavras de Erak, Ragnak assentiu repetidas vezes.
— O sarcástico pequeno sabe-tudo precisa de ajuda, não é? Então eu sou o homem de que ele precisa!
E, com um rugido e seguido por sua comitiva de 12 guerreiros, ele disparou na direção de Halt.
Erak sussurrou uma rápida oração para os Vallas. Uma dúzia de homens podia não ser muito, mas com Ragnak naquele estado de quase loucura poderia ser suficiente. Então ele afastou os problemas do flanco direito para o fundo da mente e começou a gritar para um mensageiro. O flanco direito teria que cuidar de si mesmo por mais alguns minutos. Naquele exato momento, ele precisava que o flanco esquerdo atacasse o inimigo pela lateral.