sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo um


Depois de passar um bocado de tempo examinando oceanos, investigando tempestades e perscrutando severamente diversos bebedouros, os cientistas do mundo desenvolveram uma teoria a respeito de como a água é distribuída pelo nosso planeta, a qual chamaram “ciclo das águas”. O ciclo das águas consiste em três fenômenos-chave: evaporação, precipitação e acumulação – todos igualmente maçantes.
É claro que ler sobre coisas maçantes é maçante, mas é melhor ler algo que faz você bocejar de tédio do que uma coisa que o fará chorar descontroladamente, dar murros no chão e deixar manchas de lágrimas espalhadas na fronha, nos lençóis e na sua coleção de bumerangues. Assim como o ciclo das águas, a história das crianças Baudelaire consiste em três fenômenos-chave, mas seria melhor se, em vez de ler esta lastimável história, você lesse alguma coisa sobre o ciclo das águas mesmo.
Violet, o fenômeno mais velho, estava perto dos quinze anos de idade e muito perto de ser a melhor inventora que o mundo já conheceu. Até onde posso dizer, era a melhor inventora que já se viu capturada pelas águas cinzentas do Arroio Enamorado, agarrando-se desesperadamente a um tobogã enquanto era arrastada para longe do Vale das Correntezas que Sopram Constantes. Se eu fosse você, preferiria me concentrar no maçante fenômeno da evaporação, que é o processo pelo qual a água se transforma em vapor para formar nuvens, em vez de pensar na confusão que a aguardava ao pé das Montanhas de Mão-Morta.
Klaus era o segundo Baudelaire mais velho, mas seria melhor para sua saúde que você se concentrasse no maçante fenômeno da precipitação, que é o processo pelo qual o vapor volta a se transformar em água para cair em forma de chuva, em vez de gastar um momento que seja pensando no fenômeno das excelentes habilidades de Klaus como pesquisador e na quantidade de problemas e infortúnios que essas habilidades lhe trouxeram, a partir do momento em que ele e suas irmãs conheceram o conde Olaf, o notório vilão que perseguia as crianças desde que seus pais pereceram em um incêndio terrível.
E até Sunny Baudelaire, recentemente saída da primeira infância, é um fenômeno em si, não apenas por seus dentes afiadíssimos, que ajudaram os Baudelaire em diversas circunstâncias desagradáveis, como também por suas recém-descobertas habilidades culinárias, que alimentaram os Baudelaire em diversas circunstâncias desagradáveis. Muito embora o fenômeno da acumulação, que descreve o ajuntamento da água da chuva em um só lugar para que ela evapore e recomece o tedioso processo, seja talvez o mais maçante do ciclo das águas, seria muito melhor para você se levantar e ir direto à biblioteca mais próxima passar vários dias maçantes lendo todos os fatos maçantes que encontrar sobre acumulação, pois o fenômeno do que acontece com Sunny Baudelaire no decurso destas páginas é o mais pavoroso que sou capaz de imaginar, e sou capaz de imaginar uma enorme quantidade deles. O ciclo das águas pode ser uma série de fenômenos maçantes, mas a história dos Baudelaire é totalmente diferente, e esta é uma excelente oportunidade para você ler alguma coisa maçante em vez de se inteirar do que aconteceu com os Baudelaire, quando as águas impetuosas do Arroio Enamorado os arrastaram para longe das montanhas.
“O que será de nós?”, perguntou Violet, erguendo a voz para se fazer ouvir por cima do estrondo das águas. “Eu não creio que possa inventar nada que detenha este tobogã.”
“Eu creio que você não deve nem tentar”, gritou Klaus em resposta à irmã. “A chegada da Falsa Primavera derreteu o gelo do arroio, mas a água ainda está muito fria. Se um de nós cair, não sei quanto tempo poderemos sobreviver.”
“Quigley”, choramingou Sunny. A mais jovem dos Baudelaire muitas vezes falava de um jeito que podia ser difícil de entender, mas ultimamente sua fala vinha se desenvolvendo quase tão depressa quanto suas habilidades culinárias, e seus irmãos sabiam que ela estava se referindo a Quigley Quagmire, de quem os Baudelaire tinham se tornado amigos havia pouco tempo. Quigley ajudara Violet e Klaus a chegar ao alto do Cume das Aflições a fim de encontrar a base de operações de C.S.C. e salvar Sunny das garras do conde Olaf, mas um outro afluente do Arroio Enamorado o arrastara na direção oposta, e o cartógrafo – uma palavra que aqui significa “alguém muito bom em mapas, e por quem Violet Baudelaire sentia um afeto especial” – não tinha sequer um tobogã para mantê-lo fora da água gelada.
“Tenho certeza de que Quigley conseguiu sair da água”, disse depressa Violet, muito embora, naturalmente, não tivesse certeza de nada. “Eu só queria que soubéssemos aonde ele estava indo. Ele nos disse para encontrá-lo em algum lugar, mas o estrondo da cachoeira o interrompeu.”
O tobogã balançava na água enquanto Klaus enfiava a mão no bolso e tirava de lá um caderno azul-escuro. O caderno tinha sido um presente de Quigley, e Klaus o usava como livro de lugar-comum, um expressão que aqui significa “caderno no qual ele escrevia qualquer informação interessante ou útil”. “Nós decodificamos aquela mensagem que nos informava sobre um importante encontro de C.S.C. na quinta-feira”, disse ele, “e graças a Sunny sabemos que o encontro é no Hotel Desenlace. Talvez seja esse o lugar onde Quigley quer se encontrar conosco – o último santuário.”
“Mas não sabemos onde fica”, observou Violet. “Como podemos nos encontrar com alguém em um lugar desconhecido?”
Os três Baudelaire suspiraram e, por alguns momentos, os irmãos ficaram sentados em silêncio no tobogã, ouvindo o gorgolejar da correnteza. Há pessoas que gostam de observar uma correnteza por horas, olhando fixamente para a água rebrilhante e pensando nos mistérios do mundo. Mas as águas do Arroio Enamorado estavam sujas demais para rebrilhar, e cada mistério que as crianças tentavam resolver parecia levar a mais mistérios, e até esses mistérios continham outros mistérios; portanto, quando elas ponderavam aqueles mistérios, sentiam-se mais arrasadas que pensativas. Sabiam que C.S.C. era uma organização secreta, porém, ao que parecia, não conseguiam descobrir muita coisa sobre o que fazia a organização, nem por que ela deveria interessar aos Baudelaire. Sabiam que o conde Olaf estava ávido por colocar suas mãos imundas sobre certo açucareiro, porém não faziam ideia de por que o açucareiro era tão importante, nem onde diabos ele estava. Sabiam que havia pessoas no mundo que poderiam ajudá-las, porém muitas dessas pessoas – tutores, amigos, banqueiros – já tinham provado não ser de nenhuma ajuda, ou tinham desaparecido de suas vidas quando os Baudelaire mais precisaram delas. E sabiam que havia pessoas no mundo que não iriam ajudá-las – pessoas vilanescas, que pareciam se multiplicar na mesma medida que sua perfídia e perversidade escorriam sobre a terra, como um aterrador ciclo das águas do infortúnio e do desespero. Mas, no momento, o maior dos mistérios parecia ser o que fazer em seguida e, amontoados em cima do tobogã flutuante, os Baudelaire não conseguiam pensar em nada.
“Se ficarmos no tobogã”, disse Violet por fim, “para onde vocês acham que iremos?”
“Montanha abaixo”, disse Klaus. “A água corre para baixo. O Arroio Enamorado deve desembocar fora das Montanhas de Mão-Morta, no interior, e depois, por fim, em algum corpo d’água maior – um lago ou um oceano. De lá, a água se evaporará formando nuvens, cairá como chuva e neve, e assim por diante.”
“Tédio”, disse Sunny.
“O ciclo das águas é mesmo bem tedioso”, concordou Klaus, “mas pode ser o meio mais fácil de nos afastarmos do conde Olaf.”
“É verdade”, disse Violet. “Olaf disse que estaria bem atrás de nós.”
“Esmelita”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Junto com Esmé Squalor e Carmelita Spats”, e os Baudelaire franziram as sobrancelhas ao pensar na namorada de Olaf, que participava dos esquemas do vilão porque acreditava que traição e fraude eram coisas muito elegantes, ou in, e na ex-colega de classe dos Baudelaire que se juntara recentemente a Olaf por suas próprias razões egoístas.
“Então vamos apenas ficar sentados neste tobogã e ver aonde ele nos leva?”, perguntou Violet.
“Não é um grande plano”, admitiu Klaus, “mas não consigo imaginar um melhor.”
“Passivo”, disse Sunny, e seus irmãos assentiram, taciturnos. “Passivo” é uma palavra inusitada na boca de um bebê e, na verdade, seria uma palavra inusitada na boca de um Baudelaire ou de qualquer outra pessoa que leve uma vida interessante. Significa apenas “aceitar o que está acontecendo sem fazer nada a respeito”, e certamente todo mundo tem momentos passivos de vez em quando. Talvez você já tenha vivenciado um momento passivo na loja de calçados, enquanto o vendedor forçava seus pés para dentro de uma série de sapatos feios e desconfortáveis, sendo que o tempo todo você queria um par vermelho-vivo com fivelas esquisitas que ninguém no mundo compraria para você. Os Baudelaire tinham vivenciado um momento passivo na Praia de Sal, quando receberam a terrível notícia sobre seus pais e, entorpecidos, foram conduzidos pelo sr. Poe para suas novas vidas de desventuras. Recentemente eu mesmo vivenciei um momento passivo, sentado em uma cadeira enquanto um vendedor forçava meus pés para dentro de uma série de sapatos feios e desconfortáveis, sendo que o tempo todo eu queria um par vermelho-vivo com fivelas esquisitas que ninguém no mundo compraria para mim. Porém, um momento passivo no meio de uma correnteza impetuosa, quando pessoas vilanescas estão na sua cola em furiosa perseguição, é um momento difícil de aceitar, e foi por isso que os Baudelaire estremeceram em cima do tobogã, enquanto o Arroio Enamorado os levava cada vez mais longe, montanha abaixo, exatamente como eu estremeci quando tentava planejar minha fuga daquela sinistra loja de calçados. Violet estremeceu e pensou em Quigley, esperando que ele tivesse conseguido escapar da água fria e estivesse em segurança. Klaus estremeceu e pensou em C.S.C. esperando ainda poder aprender sobre a organização, apesar de sua base de operações ter sido destruída. E Sunny estremeceu e pensou nos peixes do Arroio Enamorado, que ocasionalmente punham a cabeça para fora da água cinzenta e tossiam. Ela se perguntava se as cinzas, que foram deixadas na água por um incêndio recente nas montanhas e tornavam difícil a respiração dos peixes, também estragariam o sabor deles, mesmo se fosse usada uma receita com bastante manteiga e limão.
Os Baudelaire estavam tão concentrados em pensar e estremecer que, quando o tobogã contornou uma das estranhas vertentes quadradas dos picos das montanhas, passou-se um instante antes que eles notassem o panorama que se descortinava abaixo deles. Foi só depois de alguns fragmentos de jornal passarem voando diante de seus rostos que os Baudelaire olharam para baixo, e o que viram quase os deixou sem fôlego.
“O que é isso?”, disse Violet.
“Não sei”, disse Klaus. “Dessa altura é difícil dizer.”
“Subjavik”, disse Sunny, e era verdade. Daquele lado das Montanhas de Mão-Morta, os Baudelaire esperavam ver uma região silvestre, a vasta extensão de paisagem plana onde tinham passado um bom tempo. Em vez disso, parecia que o mundo se transformara em um mar muito, muito escuro. Até onde a vista podia alcançar, havia redemoinhos cinzentos e pretos movendo-se como estranhas enguias na água sombria. De quando em quando, um dos redemoinhos liberava um pequeno e frágil objeto que flutuava qual pluma na direção dos Baudelaire. Alguns desses objetos eram fragmentos de jornal. Outros pareciam pedacinhos de pano. E alguns, de tão escuros, eram absolutamente irreconhecíveis, uma expressão que Sunny preferia enunciar como “subjavik”.
Klaus apertou os olhos para baixo por trás dos óculos e depois voltou-se para as irmãs com uma expressão de desespero. “Eu sei o que é isso”, disse mansamente. “São as ruínas de um incêndio.”
Os Baudelaire olharam novamente para baixo e viram que Klaus tinha razão. Daquela altura, as crianças levaram um momento para se dar conta de que um enorme incêndio devastara toda a região, deixando para trás somente restos cinzentos.
“É claro”, disse Violet. “É estranho não termos reconhecido antes. Mas quem atearia fogo no mato?”
“Nós”, disse Klaus.
“Caligari”, disse Sunny, lembrando Violet de um horrível parque de diversões onde os Baudelaire tinham passado algum tempo disfarçados. Infelizmente, como parte do disfarce, fora necessário ajudar o conde Olaf a tocar fogo no parque de diversões, e agora eles podiam ver os frutos de seus esforços, uma expressão que aqui significa “os resultados da coisa horrível que fizeram, muito embora não tivessem a menor intenção”.
“O incêndio não é culpa nossa”, disse Violet. “Não inteiramente. Nós tínhamos de ajudar Olaf, pois de outra forma ele teria descoberto nossos disfarces.”
“Ele descobriu nossos disfarces mesmo assim”, observou Klaus.
“Neresculpa”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Mas mesmo assim a culpa não é nossa”.
“Sunny está certa”, disse Violet. “Nós não inventamos o plano. Olaf inventou.”
“Mas também não o impedimos”, observou Klaus. “E uma porção de gente acha que somos totalmente responsáveis. Aqueles pedaços de jornal são provavelmente d’O Pundonor Diário, que já nos culpou por toda sorte de crimes terríveis.”
“Você está certo”, disse Violet com um suspiro, muito embora eu tenha descoberto que Klaus estava errado e que os fragmentos de jornal que passavam voando pelos Baudelaire eram de uma outra publicação, que teria sido de enorme ajuda caso eles tivessem juntado os pedaços. “Talvez devamos ser passivos por algum tempo. Ser ativos não nos ajudou muito.”
“Qualquer que seja o caso”, disse Klaus, “devemos continuar no tobogã. O fogo não pode nos fazer mal se estivermos flutuando em um arroio.”
“Parece que não temos escolha”, disse Violet. “Olhem.”
Os Baudelaire olharam, e viram que o tobogã se aproximava de uma espécie de convergência, onde outro afluente do Arroio Enamorado se encontrava com o deles. O arroio estava agora muito mais largo, e a água ainda mais turbulenta, de modo que os Baudelaire tinham de se agarrar firme no tobogã para não ser atirados às águas cada vez mais fundas.
“Devemos estar nos aproximando de um corpo d’água maior”, disse Klaus. “Avançamos mais no ciclo das águas do que eu imaginava.”
“Você acha que é o mesmo afluente que arrastou Quigley para longe?”, disse Violet, esticando o pescoço para procurar o amigo desaparecido.
“Egosolo!”, exclamou Sunny, o que queria dizer: “Não podemos pensar em Quigley agora, temos de pensar em nós mesmos”, e a mais jovem dos Baudelaire tinha razão. Com um sonoro vupt! o arroio contornou mais uma vertente quadrada, e momentos depois suas águas ficaram tão violentamente agitadas que os Baudelaire tiveram a sensação de estar não sobre um tobogã quebrado, mas cavalgando um potro selvagem.
“Você consegue conduzir o tobogã na direção da margem?”, gritou Klaus por cima do barulho da correnteza.
“Não!”, gritou Violet. “O mecanismo de direção quebrou quando descemos a cachoeira, e o arroio é largo demais para remarmos até lá!” Violet encontrou uma fita no bolso e parou um instante para prender os cabelos com ela, o que a fazia pensar melhor. Ela baixou os olhos para o tobogã e tentou lembrar dos diversos projetos mecânicos que examinara na infância, quando seus pais estavam vivos e incentivavam seu interesse por engenharia mecânica. “Os patins do tobogã”, disse ela, e depois repetiu num brado para ser ouvida por cima do barulho da água. “Os patins! Eles ajudam o tobogã a manobrar na neve, e talvez possam nos ajudar a manobrá-lo na água!”
“Onde estão os patins?”, perguntou Klaus, olhando em volta.
“No fundo do tobogã!”, gritou Violet.
“Impossiakto?”, perguntou Sunny, o que significava alguma coisa do tipo: “Como vamos alcançar o fundo do tobogã?”.
“Não sei”, disse Violet, e começou a procurar freneticamente nos bolsos algum material para invenções. Trouxera consigo uma comprida faca de pão, mas ela se fora desde que a usara pela última vez – provavelmente arrastada pela correnteza, junto com Quigley. Ela olhou para a frente, para a torrente de água espumante que ameaçava engolfá-los. Violet contemplou as margens distantes do arroio, que ficavam cada vez mais distantes à medida que ele continuava a se alargar. E olhou para os irmãos, que aguardavam para ser salvos por suas habilidades inventivas. Seus irmãos olharam de volta, e os três Baudelaire se entreolharam por um momento, piscando para expulsar a água escura dos olhos enquanto pensavam em alguma coisa para fazer.
Justo naquele momento, contudo, mais um olho chegou, também piscando para expulsar a água escura enquanto se erguia para fora da correnteza, bem na frente dos Baudelaire. De início parecia o olho de alguma terrível criatura marinha, encontrável somente em livros de mitologia e nas piscinas de certos balneários. Mas quando o tobogã chegou mais perto, as crianças puderam ver que o olho era feito de metal, empoleirado no topo de um comprido mastro metálico que se curvava na ponta para proporcionar um ângulo melhor de visão. É muito inusitado ver um olho de metal se erguendo do meio das águas turbulentas de um arroio, e no entanto aquele olho era algo que os Baudelaire já tinham visto muitas vezes, desde o seu primeiro encontro com um olho tatuado no tornozelo esquerdo do conde Olaf. O olho era uma insígnia e, se você olhasse para ele de um determinado modo, também se parecia com três letras misteriosas.
“C.S.C.!”, gritou Sunny, quando o tobogã se aproximou ainda mais.
“O que é isso?”, perguntou Klaus.
“É um periscópio!”, disse Violet. “São usados por submarinos, para olhar as coisas que estão na superfície da água!”
“Isso quer dizer”, gritou Klaus, “que há um submarino abaixo de nós?”
Violet não precisou responder, pois o olho se ergueu mais acima da água e os órfãos puderam ver que o mastro estava preso a uma grande peça chata de metal, a maior parte da qual estava submersa. O tobogã chegou mais perto, até o periscópio ficar ao alcance da mão, e então parou, como uma jangada pararia ao atingir uma grande pedra.
“Olhem!”, gritou Violet enquanto as águas precipitavam-se à volta deles. Ela apontou para uma escotilha bem na base do periscópio. “Vamos bater, talvez possam nos ouvir!”
“Mas não temos ideia de quem está lá dentro”, disse Klaus.
“Vamagir!”, guinchou Sunny, o que queria dizer: “É nossa única possibilidade de viajar por essas águas em segurança”, então se inclinou para a escotilha e começou a raspá-la com os dentes. Seus irmãos juntaram-se a ela, preferindo usar os punhos para esmurrar a escotilha de metal.
“Olá!”, gritou Violet.
“Olá!”, berrou Klaus.
“Shalom!”, guinchou Sunny.
Por cima do barulho da torrente impetuosa, os Baudelaire ouviram um som muito abafado vindo de trás da escotilha. O som era uma voz humana, que ressoava e fazia eco, como se viesse do fundo de um poço. “Amigo ou inimigo?”, disse a voz.
Os Baudelaire se entreolharam. Eles sabiam, assim como estou certo de que você sabe, que “amigo ou inimigo?” é uma saudação tradicional, dirigida a visitantes que se aproximam de um lugar importante, como um palácio real ou uma loja de calçados fortemente guardada, e precisam se identificar como amigos ou inimigos das pessoas que estão dentro. Mas os irmãos não sabiam se eram amigos ou inimigos pela simples razão de que não tinham a menor ideia de quem estava perguntando.
“O que vamos dizer?”, perguntou Violet, baixando o tom de voz. “O olho pode querer dizer que o submarino é do conde Olaf, e nesse caso somos inimigos.”
“O olho pode significar que o submarino é C.S.C.”, disse Klaus, “e nesse caso somos amigos.”
“Óbvio!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Só existe uma resposta que nos faça entrar no submarino”, e gritou para a escotilha: “Amigo!”.
Houve uma pausa, e então a voz ecoante falou de novo: “Senha, por favor”.
Os Baudelaire se entreolharam mais uma vez. Uma senha, como se sabe, é uma certa palavra ou frase que alguém pronuncia a fim de receber informações ou adentrar um lugar secreto, e os irmãos, é claro, não faziam ideia do que dizer para adentrar um submarino. Por um momento, eles não disseram nada, apenas tentaram pensar, muito embora desejassem estar em um lugar mais tranquilo, para poder pensar sem os ruídos das águas revoltas a correr e dos peixes a tossir. Desejavam que, em vez de estar abandonados à própria sorte em um tobogã no meio do Arroio Enamorado, estivessem em alguma sala silenciosa, como a biblioteca dos Baudelaire, onde pudessem ficar sentados em silêncio, lendo tudo a respeito de qual poderia ser a senha. Mas enquanto os três irmãos pensavam em uma biblioteca, uma das irmãs lembrou-se de outra: a biblioteca destruída de C.S.C. lá em cima, no Vale das Correntezas que Sopram Constantes, onde antes se erguia a base de operações. Violet pensou em uma arcada de ferro, um dos poucos remanescentes da biblioteca, e no lema ali gravado. A mais velha dos Baudelaire olhou para seus irmãos, inclinou-se para a escotilha e repetiu as palavras misteriosas que tinha visto e que, assim esperava, a levariam, junto com os irmãos, à segurança.
“O mundo aqui silencia”, disse ela.
Houve uma pausa e, com um estridente créc! metálico, a escotilha se abriu, e os irmãos olharam para dentro de um buraco escuro onde uma escada presa à parede lhes permitiria descer. Eles estremeceram, e não apenas por causa da friagem que vinha dos ventos gélidos da montanha e das águas escuras e apressadas do Arroio Enamorado. Eles estremeceram porque não sabiam para onde estavam indo, nem quem iriam encontrar se descessem a escada para dentro do buraco. Em vez de entrar, os Baudelaire queriam gritar uma coisa para baixo através da escotilha – as mesmas palavras que alguém lhes gritara para cima. Amigo ou inimigo? é o que queriam perguntar. Amigo ou inimigo? Seria mais seguro entrar no submarino ou arriscar a vida do lado de fora, nas águas impetuosas do Arroio Enamorado?
“Entrem, jovens Baudelaire”, disse a voz, e, pertencesse ela a amigo ou inimigo, os Baudelaire decidiram entrar.

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