sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo um


Se alguma vez você já descascou uma cebola, sabe que a primeira camada, fina e papirácea, revela outra, e mais outra, e antes que você perceba terá centenas de camadas espalhadas pela mesa da cozinha, e milhares de lágrimas nos olhos, e lamentará ter começado a descascá-la e desejará ter largado a cebola para murchar na prateleira da copa enquanto você prosseguia com a sua vida, mesmo que isso significasse nunca mais desfrutar o sabor difícil e avassalador dessa hortaliça estranha e pungente.
Desse ponto de vista, a história dos órfãos Baudelaire é como uma cebola, e se você insistir em ler cada uma das camadas finas e papiráceas destas Desventuras em Série, a sua recompensa será 170 capítulos de desgraças na sua biblioteca e incontáveis lágrimas em seus olhos. Mesmo que você tenha lido os primeiros doze volumes da história dos Baudelaire, não será tarde demais para cessar de descascar as camadas e botar este livro de lado enquanto lê algo menos difícil e avassalador. O fim desta crônica infeliz é como o seu mau começo, pois cada desventura só revela mais uma, e mais uma, e mais uma, e somente aqueles que têm estômago para esta estranha e pungente narrativa devem se aventurar ainda mais fundo na cebola dos Baudelaire. Sinto muito ter de dizer isso a vocês, mas a história é assim.
Os órfãos Baudelaire teriam ficado felizes em ver uma cebola, se alguma tivesse aparecido flutuando enquanto eles viajavam por um mar vasto e vazio em um barco do tamanho de uma cama grande, mas longe de ser confortável. Se uma hortaliça assim tivesse aparecido, Violet, a mais velha dos Baudelaire, teria prendido os cabelos com uma fita para afastá-los dos olhos e em instantes teria inventado algum dispositivo para tirar a cebola da água. Klaus, o irmão do meio e único menino, teria se lembrado de fatos úteis dentre os milhares de livros que leu, e teria sido capaz de identificar que tipo de cebola era aquela e se era ou não comestível. E Sunny, que mal tinha saído da primeira infância, com os seus dentes inusitadamente afiados teria fatiado a cebola em pedaços do tamanho de uma mordida, e posto as suas recém-desenvolvidas habilidades de cozinheira à disposição para transformar uma simples cebola em alguma coisa realmente muito saborosa. Os Baudelaire mais velhos podiam imaginar sua irmã anunciando “Soubise!”, que era o jeito dela de dizer “O jantar está servido”.
Mas as três crianças não tinham visto uma cebola. De fato, não tinham visto muita coisa durante aquela viagem pelo oceano, que começara quando os Baudelaire empurraram um grande barco de madeira para fora da cobertura do Hotel Desenlace, a fim de escapar das labaredas que engolfavam o edifício, bem como das autoridades que queriam prender as crianças por incêndio criminoso e assassinato. O vento e as marés rapidamente lançaram o barco para longe das chamas, e ao pôr-do-sol o hotel e todos os outros prédios da cidade já eram um borrão distante, muito afastado. Agora, na manhã seguinte, as únicas coisas que os Baudelaire viam eram a tranquila e silenciosa superfície do mar, e a luminescência cinzenta do céu. O tempo os lembrou daquele dia na Praia de Sal, quando eles ficaram sabendo da perda de seus pais e de seu lar em um terrível incêndio; as crianças ficaram em silêncio, pensando naquele dia assustador e em todos os dias assustadores que se seguiram. Teria sido quase tranquilo estar sentado em um barco à deriva, pensando na vida, não fosse o desagradável acompanhante dos Baudelaire.
O nome do acompanhante era conde Olaf, e estar na companhia daquele homem horrendo vinha sendo um infortúnio para os Baudelaire desde que se tornaram órfãos, e ele, seu tutor. Olaf armara esquema após esquema em uma tentativa de pôr as suas mãos imundas na enorme fortuna que os pais Baudelaire deixaram e, muito embora todos os esquemas tenham falhado, parecia que algo da perversidade do vilão roçara nas crianças, e agora Olaf e os Baudelaire estavam juntos no mesmo barco. Tanto as crianças como o conde eram responsáveis por diversos crimes pérfidos, mas os órfãos Baudelaire pelo menos tinham a decência de se sentir muito mal a propósito disso, enquanto tudo o que o conde Olaf fez nos últimos dias foi bravatear a respeito.
“Eu triunfei!”, o conde Olaf reiterou, uma palavra que aqui significa “anunciou pela enésima vez”. Ele estava orgulhosamente em pé na frente do barco, apoiado na escultura de um polvo atacando um homem com trajes de mergulho, que servia de figura de proa. “Vocês órfãos acharam que podiam escapar de mim, mas por fim estão nas minhas garras!”
“Sim, Olaf”, concordou Violet com um ar cansado. A mais velha dos Baudelaire não se deu ao trabalho de chamar a atenção para o fato de que, como eles estavam sozinhos no meio do oceano, dizer que Olaf estava nas garras dos Baudelaire seria precisamente tão acurado quanto dizer que eles estavam nas dele. Suspirando, ela ergueu os olhos para o alto mastro da embarcação, onde uma vela esfarrapada pendia flácida no ar parado. Por algum tempo, Violet estivera tentando inventar um jeito de fazer o barco se mover mesmo sem vento, porém o único material mecânico a bordo era um par de enormes espátulas do salão de bronzeamento da cobertura do Hotel Desenlace. As crianças as usavam como remos, mas remar é um trabalho muito duro, especialmente quando os companheiros de viagem estão ocupados demais com suas bravatas para ajudar. Violet, então, estava pensando em um modo de fazer o barco andar mais depressa.
“Eu toquei fogo no Hotel Desenlace”, gritou Olaf, gesticulando dramaticamente, “e destruí C.S.C. de uma vez por todas!”
“É o que você insiste em nos dizer”, resmungou Klaus sem erguer os olhos do seu livro de lugar-comum. Havia um bom tempo que Klaus estava anotando os detalhes da situação dos Baudelaire naquele caderno azul-escuro, inclusive o fato de que tinham sido os três irmãos, e não Olaf, que atearam fogo no Hotel Desenlace. C.S.C. era uma organização secreta sobre a qual os Baudelaire ouviram falar durante as suas viagens e que, até onde sabia o Baudelaire do meio, não tinha sido desbaratada – não completamente – muito embora um bom número de agentes C.S.C. estivesse no hotel quando ele pegou fogo. No momento, Klaus estava examinando suas anotações sobre C.S.C. e a cisão, que foi uma enorme briga envolvendo todos os seus membros e que tinha algo a ver com um açucareiro. O menino não sabia o que continha o açucareiro, nem qual era o paradeiro preciso de uma das mais corajosas agentes da organização, uma mulher chamada Kit Snicket. As crianças encontraram Kit uma única vez antes de ela se fazer ao mar, planejando encontrar os trigêmeos Quagmire, três amigos que os Baudelaire não viam fazia um bocado de tempo e que estavam viajando em uma casa móvel autossustentável a ar quente. Klaus esperava que as anotações no seu livro de lugar-comum o ajudassem a calcular exatamente onde eles poderiam estar, caso as estudasse o suficiente.
“E a fortuna dos Baudelaire finalmente é minha!”, vangloriava-se Olaf. “Por fim sou um homem muito rico, o que significa que todo mundo tem de fazer o que eu mando!”
“Feijões”, disse Sunny. A mais jovem dos Baudelaire não era mais um bebê, porém ainda falava de um jeito um pouco incomum, e com “feijões” ela queria dizer alguma coisa do tipo “O conde Olaf está vomitando asneira pura”, pois a fortuna dos Baudelaire não se encontrava na grande embarcação de madeira, portanto não se podia dizer que pertencia a quem quer que fosse. Mas quando Sunny disse “feijões” ela também quis dizer “feijões”. Uma das poucas coisas que as crianças tinham encontrado a bordo era um grande pote de barro selado com borracha, que fora introduzido à força embaixo de um dos bancos de madeira do barco. O pote estava muito empoeirado e parecia muito velho, mas o selo estava intacto, uma palavra que aqui significa “não quebrado, portanto com o alimento armazenado dentro dele ainda comestível”. Sunny ficou agradecida pelo pote, pois não havia nenhum outro alimento disponível a bordo, mas ela não pôde deixar de desejar que ele contivesse alguma outra coisa além de simples feijões-brancos. É possível preparar uma porção de pratos deliciosos com feijões-brancos – os pais Baudelaire costumavam fazer uma salada com feijões-brancos, tomates-cereja e manjericão fresco, tudo misturado com suco de limão, azeite de oliva e pimenta-do-reino, e era uma coisa deliciosa para se comer em dias quentes – mas, como não tinha nenhum outro ingrediente, Sunny só conseguira servir aos seus companheiros tripulantes um mingau ralo e branco, suficiente apenas para mantê-los vivos, certamente nada de que uma jovem chefe de cozinha pudesse se orgulhar. Enquanto o conde Olaf continuava a bravatear, a mais jovem dos Baudelaire examinava o pote, se perguntando como poderia fazer algo mais interessante com feijões-brancos e nada além disso.
“Acho que a primeira coisa que eu vou comprar será um reluzente automóvel!”, disse o conde Olaf. “Com um motor poderoso, para eu poder exceder o limite de velocidade, e um para-choque extraforte para eu poder abalroar as pessoas sem ficar todo esfolado! Vou chamar o carro de CONDE Olaf, em minha homenagem, e sempre que as pessoas ouvirem os freios cantando dirão: ‘Aí vem o CONDE Olaf! Órfãos, dirijam-se à mais próxima concessionária de carros de luxo!’“
Os Baudelaire se entreolharam. Sei que vocês sabem que é improvável encontrar uma concessionária de automóveis no meio do oceano, muito embora eu tenha ouvido falar de um vendedor de riquixás que instalara seu negócio em uma gruta oculta no fundo do mar Cáspio. É muito exaustivo viajar com alguém que fica o tempo todo fazendo exigências, sobretudo se elas são por coisas absolutamente impossíveis, e as crianças descobriram que não conseguiam mais segurar a língua, uma expressão que aqui significa “continuar confrontando Olaf com suas maluquices”.
“Não podemos ir para uma concessionária de automóveis”, disse Violet. “Não podemos ir para lugar nenhum. O vento acabou, e Klaus e eu estamos exaustos de tanto remar.”
“Preguiça não é desculpa”, rosnou Olaf. “Estou exausto de todos os meus esquemas, mas não estou me queixando.”
“Além disso”, falou Klaus, “não temos ideia de onde estamos, e portanto não temos ideia da direção a seguir.”
“Eu sei onde estamos”, disse Olaf sarcasticamente. “Estamos no meio do oceano.”
“Feijões”, disse Sunny.
“Já me cansei da sua pieguice sem graça!”, resmungou Olaf. “É pior do que aquela salada que os seus pais costumavam fazer! Considerando tudo, vocês órfãos são os piores comparsas que já contratei!”
“Nós não somos seus comparsas!”, gritou Violet. “Simplesmente estamos viajando juntos!”
“Acho que vocês estão esquecendo quem é o capitão aqui”, disse o conde Olaf, e bateu um punho sujo contra a figura de proa do barco. Com a outra mão, virou contra eles o lançador de arpões, uma arma terrível com um último arpão disponível para o seu uso traiçoeiro. “Se não fizerem o que estou mandando, vou arrebentar esse capacete e vocês todos estarão condenados.”
Os Baudelaire olharam para a figura de proa, desalentados. Dentro do capacete havia alguns esporos do Mycelium Medusoide, um fungo terrível que podia envenenar qualquer um que o respirasse. Sunny teria morrido com o poder letal do cogumelo pouco tempo antes, se os Baudelaire não tivessem conseguido ajuda no wasabi, um condimento japonês que diluía o veneno.
“Você não se atreveria a liberar o Mycelium Medusoide”, disse Klaus, esperando soar mais seguro do que se sentia. “Você seria envenenado tão depressa quanto nós.”
“Flotilha equivalente”, disse Sunny severamente para o vilão.
“Nossa irmã tem razão”, falou Violet. “Estamos no mesmo barco, Olaf. O vento acabou, não sabemos para onde ir e nossos suprimentos estão no fim. De fato, sem um destino, um modo de navegar e um pouco de água fresca, provavelmente vamos morrer em questão de dias. Você podia tentar nos ajudar, em vez de ficar dando ordens.”
O conde Olaf olhou furiosamente para a mais velha dos Baudelaire, e então saiu pisando duro em direção à traseira do barco.
“Vocês três que inventem um jeito de nos tirar daqui”, disse ele, “e eu vou dar um jeito de mudar o nome do barco. Não quero mais que o meu iate se chame Carmelita.”
Os Baudelaire espiaram por cima da borda do barco e notaram pela primeira vez uma placa presa à popa com fita adesiva grossa. Na placa, escrita em garatujas toscas, estava a palavra CARMELITA, presumivelmente referindo-se a Carmelita Spats, uma menininha detestável que os Baudelaire encontraram em uma horrível escola que foram forçados a frequentar, e que depois tinha sido mais ou menos adotada pelo conde Olaf e sua namorada Esmé Squalor, abandonada no hotel pelo vilão. Pondo de lado o lançador de arpões, o conde Olaf começou a esgaravatar a fita com as unhas incrustadas de sujeira, arrancando a placa para revelar outro nome embaixo. Embora não se importassem com o nome do barco que agora chamavam de lar, os Baudelaire ficaram gratos pelo fato de o vilão ter encontrado alguma coisa para ocupar o seu tempo, permitindo-lhes conversar entre eles por alguns minutos.
“O que podemos fazer?”, sussurrou Violet para os irmãos. “Você acha que consegue pegar alguns peixes para a gente comer, Sunny?”
A mais jovem dos Baudelaire balançou a cabeça.
“Sem isca”, disse ela, “e sem rede. Mergulho em águas profundas?”
“Acho que não”, disse Klaus. “Não se deve nadar lá embaixo sem equipamento adequado. Você pode encontrar toda sorte de coisas sinistras.”
Os Baudelaire estremeceram, pensando em algo que tinham encontrado quando estavam a bordo de um submarino chamado Queequeg. Tudo o que as crianças tinham visto fora uma forma curva em uma tela de radar que parecia um ponto de interrogação, mas o capitão do submarino lhes dissera que aquilo era algo ainda pior do que o próprio Olaf.
“Klaus está certo”, disse Violet. “Não se deve nadar lá embaixo. Klaus, há alguma coisa nas suas anotações que possa nos levar até os outros?”
Klaus fechou o seu livro de lugar-comum e balançou a cabeça.
“Receio que não”, disse ele. “Kit nos contou que ia contatar o capitão Andarré e encontrá-lo em um certo aglomerado de algas marinhas, mas mesmo se soubéssemos exatamente a qual aglomerado ela se referia não saberíamos como chegar lá sem o equipamento apropriado de navegação.”
“Eu poderia fazer uma bússola”, disse Violet. “Tudo de que preciso é um pedacinho de metal magnetizado e um pivô simples. Mas talvez não devêssemos nos juntar aos outros voluntários. Afinal, nós lhes causamos um bocado de problemas.”
“E verdade”, admitiu Klaus. “Eles podem não ficar felizes em nos ver, especialmente se nós estivermos com o conde Olaf.”
Sunny olhou para o vilão, que ainda estava esgaravatando a placa com o nome.
“A não ser...”, disse ela.
Violet e Klaus trocaram um olhar nervoso.
“A não ser o quê?”, perguntou Violet.
Sunny ficou em silêncio por um momento e baixou os olhos para o uniforme de concierge que usava desde que estivera no hotel.
“... Olaf ao mar”, sussurrou ela.
Os Baudelaire mais velhos engasgaram, não só por causa do que Sunny havia dito, mas porque podiam facilmente visualizar o ato pérfido descrito por ela. Atirando o conde Olaf ao mar, os Baudelaire poderiam navegar para algum local a salvo da interferência do vilão, ou de suas ameaças de liberar o Mycelium Medusoide. Haveria uma pessoa a menos para dividir os feijões remanescentes e, se conseguissem chegar a Kit Snicket e os Quagmire, Olaf não estaria com eles. Em um silêncio incômodo eles voltaram os olhos para a parte de trás da embarcação, onde Olaf estava debruçado para arrancar a placa. Todos os três Baudelaire puderam imaginar como seria simples empurrá-lo, com força suficiente apenas para fazer o vilão perder o equilíbrio e despencar na água.
“Olaf não hesitaria em nos atirar ao mar”, disse Violet, tão baixinho que seus irmãos mal puderam ouvir. “Se não precisasse de nós para governar o barco, ele nos atiraria ao mar.”
“C.S.C. também poderia não hesitar”, disse Klaus.
“Pais?”, perguntou Sunny.
Os Baudelaire trocaram um olhar constrangido. Recentemente as crianças souberam de mais um fato misterioso a respeito de seus pais e o passado sombrio deles – um boato sobre seus pais e uma caixa de dardos envenenados. Violet, Klaus e Sunny, como qualquer criança, sempre quiseram acreditar no melhor acerca dos pais, mas com o passar do tempo estavam ficando cada vez menos seguros. O que os irmãos precisavam era de uma bússola, mas não do tipo que Violet mencionara. A mais velha dos Baudelaire estava falando de uma bússola de navegação, que é um dispositivo que permite a uma pessoa verificar qual a direção apropriada para viajar no oceano. Eles estavam precisando é de uma bússola moral, que é algo que fica dentro da pessoa, no cérebro ou talvez no coração, que diz qual a coisa apropriada a fazer em uma certa situação. A de navegação, como sabe qualquer bom inventor, é feita com um pedacinho de metal magnetizado e um pivô simples, mas os ingredientes de uma bússola moral não são tão claros. Alguns acreditam que todas as pessoas já nascem com uma dentro delas, assim como um apêndice ou o medo de vermes. Outros acreditam que a bússola moral se desenvolve com o tempo, assim como uma pessoa aprende a respeito das decisões alheias observando o mundo e lendo livros. Qualquer que seja o caso, uma bússola moral parece ser um dispositivo delicado e, à medida que as pessoas amadurecem e se aventuram no mundo, vai ficando cada vez mais difícil calcular em que direção a bússola moral está apontando, portanto é cada vez mais difícil ter ideia da coisa apropriada a fazer. Quando os Baudelaire se encontraram com o conde Olaf pela primeira vez, suas bússolas morais nunca lhes teriam dito para se livrar do homem terrível, fosse empurrando-o para fora de seu misterioso quarto na torre, fosse atropelando-o com o seu longo automóvel preto. Mas agora, no Carmelita, os órfãos Baudelaire não tinham certeza do que deveriam fazer com aquele vilão que estava tão debruçado na borda da embarcação que bastaria um leve empurrão para mandá-lo ao seu túmulo de água.
Porém, do modo como aconteceu, Violet, Klaus e Sunny não tiveram de tomar essa decisão, porque naquele instante, como em tantos outros na vida dos Baudelaire, a decisão foi tomada quando o conde Olaf se endireitou e arreganhou um sorriso triunfante para eles.
“Eu sou um gênio!”, anunciou ele. “Resolvi todos os nossos problemas! Vejam!”
O vilão fez um gesto para trás com um polegar grosso, e os Baudelaire espiaram por cima da borda e viram que o nome Carmelita tinha sido removido, revelando uma placa onde estava escrito Conde Olaf, muito embora essa placa também estivesse presa com fita e aparentemente houvesse mais uma placa embaixo dessa.
“Mudar o nome do barco não resolve nenhum dos nossos problemas”, disse Violet em tom cansado.
“Violet está certa”, disse Klaus. “Ainda precisamos de um destino, um modo de navegar e algum tipo de alimento.”
“A não ser...”, dizia Sunny, mas o conde Olaf interrompeu a mais jovem dos Baudelaire com uma risadinha zombeteira.
“Vocês três são realmente obtusos”, disse o vilão. “Olhem para o horizonte, seus néscios, e vejam o que está se aproximando! Nós não precisamos de um destino nem de um modo de navegar, porque iremos aonde o barco nos levar! E estamos prestes a obter mais água fresca do que poderíamos beber em uma vida inteira!”
Os Baudelaire olharam para o mar ao longe e viram do que Olaf estava falando. Espalhando-se pelo céu como uma mancha de tinta sobre um documento precioso, havia um imenso banco de nuvens pretas. No meio do oceano, uma tempestade bravia pode surgir do nada, e aquela prometia ser bravia de verdade – muito mais bravia que o Furacão Hermano, o qual ameaçara os Baudelaire algum tempo atrás durante uma viagem através do Lago Lacrimoso que terminara em tragédia. As crianças já podiam ver as linhas finas e nítidas da chuva caindo a alguma distância, e aqui e ali as nuvens cintilavam com os relâmpagos furiosos.
“Não é maravilhoso?”, perguntou o conde Olaf, com os cabelos desgrenhados já esvoaçando por causa do vento que se aproximava. Por cima da risadinha nefanda as crianças puderam ouvir o som dos trovões se avizinhando. “Uma tempestade como esta é a resposta para todas as suas lamentações.”
“Ela pode destruir o barco”, disse Violet, olhando nervosa para as velas esfarrapadas. “Um barco deste tamanho não é projetado para suportar uma tempestade violenta.”
“Não sabemos aonde ela vai nos levar”, disse Klaus. “Podemos acabar ainda mais longe da civilização.”
“Todos ao mar”, disse Sunny.
O conde Olaf olhou para o horizonte de novo e sorriu para a tempestade como se ela fosse uma velha amiga de visita.
“Sim, essas coisas podem acontecer”, disse ele com um sorriso malévolo. “Mas o que vocês vão fazer a respeito, órfãos?”
Os Baudelaire acompanharam o olhar que o vilão dirigia para a tempestade. Era difícil de acreditar que momentos atrás o horizonte estava vazio, e agora aquela enorme massa negra de chuva e vento manchava o céu à medida que chegava cada vez mais perto. Violet, Klaus e Sunny não podiam fazer nada a respeito. Uma mente inventiva, as anotações de um pesquisador e os talentos culinários surpreendentemente competentes não eram páreo para o que os cercava. As nuvens de tempestade se desdobravam por uma área cada vez maior, como as camadas de uma cebola sendo descascada, ou um segredo sinistro se tornando cada vez mais misterioso. O que quer que a sua bússola lhes tivesse dito sobre a coisa apropriada a fazer, os órfãos Baudelaire sabiam que naquela situação só existia uma escolha, que era não fazer nada enquanto eles e o vilão ali, juntos no mesmo barco, eram tragados pela tempestade.

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