sábado, 3 de setembro de 2016

Capitulo treze


O ciclo das águas consiste em três fenômenos – evaporação, precipitação e acumulação –, e a acumulação, o terceiro dos três fenômenos, é o terceiro fenômeno que forma aquilo que geralmente se conhece como “o ciclo das águas”. Esse fenômeno, conhecido como “acumulação” é o processo de reunião das águas nos oceanos, lagos, rios, lagoas, reservatórios e poças do mundo, para que passe pelos processos de evaporação e precipitação, recomeçando assim o ciclo das águas. Trata-se de algo tedioso de ler, é claro, e espero que essas descrições do ciclo das águas já o tenham feito largar este livro há muito tempo, para que você não leia mais do capítulo treze de A Gruta Gorgônea do que os órfãos Baudelaire leram do capítulo trinta e nove de Cogumelos e suas minúcias, por mais crucial que fosse esse capítulo. Mas por mais tedioso que seja o ciclo das águas para os leitores, ele deve ser muito mais tedioso para as gotas d’água, que têm de participar do ciclo vezes e vezes seguidas. Ocasionalmente, quando faço uma pausa ao escrever minha crônica dos órfãos Baudelaire, e meus olhos e costas se erguem da escrivaninha e olho para o céu do entardecer lá fora – cuja cor púrpura explica a expressão “a hora violeta” –, imagino a mim mesmo como uma gota d’água, ainda mais se estiver chovendo ou se minha escrivaninha estiver flutuando em um reservatório. Penso em como deve ser horrível a sensação de ser arrancado dos meus camaradas, quando estamos todos reunidos em um lago ou poça, e ser forçado a ir para o céu cumprir a etapa da evaporação. Penso em como deve ser terrível a sensação de ser expulso de uma nuvem pelo processo da precipitação e despencar na terra como um açucareiro. E penso em como eu ficaria de coração partido ao me ver acumulado em um corpo d’água, sabendo que seria só chegar ao último santuário para que a sorte virasse e eu evaporasse para o céu mais uma vez, recomeçando o tedioso ciclo das águas. É horrível contemplar esse tipo de vida, em que a pessoa é sempre forçada ao movimento por uma variedade de forças misteriosas e poderosas, sem jamais poder permanecer por muito tempo em um lugar, sem jamais encontrar um santuário, um lugar seguro que se possa chamar de lar, sem jamais conseguir virar a sorte por muito tempo, exatamente como os Baudelaire acharam horrível contemplar suas próprias vidas quando Fiona os traiu ou quando tantos de seus companheiros os traíram bem quando parecia que eles poderiam quebrar o tedioso ciclo de desventuras em que estavam aprisionados.
“Conte a eles, Olhos de Triângulo”, disse o conde Olaf com um sorriso maldoso. “Conte aos Baudelaire que você se uniu a mim.”
“É verdade”, disse Fiona, mas atrás dos óculos triangulares ela se mantinha de olhos baixos, uma expressão que aqui significa “olhava com tristeza para o chão”. “O conde Olaf disse que se eu o ajudasse a destruir o último santuário, ele me ajudaria a encontrar o meu padrasto.”
“Mas o conde Olaf e o seu padrasto são inimigos!”, exclamou Violet. “Estão em lados opostos da cisão.”
“Eu não estaria tão certa disso”, disse Esmé Squalor, arrastando suas ventosas pelo chão enquanto entrava pela vigia quebrada. “Afinal, o capitão Andarré abandonou vocês. Talvez ele tenha decidido que os voluntários estão out – e nós estamos in.”
“Meu irmão, meu padrasto e eu poderemos ficar juntos de novo”, disse Fiona baixinho. “Vocês não entendem, irmãos Baudelaire?”
“É claro que eles não entendem!”, exclamou o conde Olaf. “Re re retardados! Esses fedelhos passam a vida enfiados nos livros, em vez de correr atrás de fortunas! Agora, vamos remover todos os objetos de valor do Queequeg e pôr os órfãos a ferros!”
“Dessa vez vocês não vão escapar!”, disse o homem de mãos de gancho, pegando o tagliatelle grande atrás das costas e girando o macarrão no ar.
“Da última vez, nós não escapamos”, disse Klaus. “Você nos ajudou a entrar aqui sorrateiramente para salvar Sunny. Você disse que queria vir conosco quando escapássemos no Queequeg e nos juntássemos a C.S.C, no último santuário.”
“C.S.C.”, disse o homem de mãos de gancho com escárnio. Com um piparote desdenhoso do gancho, ele estourou um dos balões que Phil usara para decorar o salão principal para o aniversário de Violet. “Todos aqueles patetas voluntários, com suas bibliotecas bobas e códigos complicados, são uns idiotas, todos. Não quero ficar sentado pelos cantos lendo livros cretinos! Aquele que vacila está perdido!”
“Ou aquela”, disse Fiona. “Positivo!”
“Sim”, disse o conde Olaf, “não vamos vacilar nem mais um momento, Ganchito. Vamos dar uma volta por este submarino e roubar tudo aquilo que quisermos!”
“Eu também quero ir!”, disse Esmé. “Preciso de uma nova roupa estilosa!”
“É claro, patroa”, disse o homem de mãos de gancho, caminhando na direção da porta do salão principal. “Siga-me.”
“Não, você me segue!”, disse o conde Olaf, forçando passagem à frente dele. “Eu estou no comando!”
“Mas condinho”, lamuriou-se Carmelita, pulando da mesa de madeira com um rodopio desajeitado. “Eu quero ir na frente porque sou uma princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada!”
“É claro que você vai na frente, preciosa”, disse Esmé. “Tudo o que o seu adorável coraçãozinho desejar, certo, Olaf?”
“Acho que sim”, resmungou Olaf.
“E diga à Olhos de Triângulo para ficar aqui e vigiar os órfãos”, disse Carmelita. “Não quero que ela pegue para ela todas as coisas boas.”
“Vigie os órfãos, Olhos de Triângulo”, disse o conde Olaf. “Embora eu não ache que vocês órfãos realmente precisem ser vigiados. Afinal, vocês não têm para onde ir! Ré ré ré tração!”
“Ri ri ridícula”, berrou Carmelita, saindo do salão principal na frente dos outros.
“Ra ra rabo preso!”, bramiu Esmé, e foi atrás dela.
“Ru ru uvulectomia!”, uivou o conde Olaf, atrás da namorada.
“Eu também acho tudo isso divertido!”, urrou o homem de mãos de gancho, e bateu a porta atrás dele, deixando os Baudelaire sozinhos com Fiona.
“Traidora”, disse Sunny.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Não faça isso, Fiona. Ainda dá tempo de mudar de ideia e ficar do lado nobre da cisão.”
“Nós recebemos um boletim do Correio Sub-reptício Cooperativo”, disse Klaus, mostrando o telegrama. “C.S.C. precisa desesperadamente dos nossos serviços para um assunto da maior urgência. Vamos encontrar os voluntários na Praia de Sal. Você podia vir conosco, Fiona.”
“Greenhut!”, exclamou Sunny. Ela queria dizer algo como: “Você pode ser de enorme ajuda”, mas Fiona nem aguardou pela tradução.
“Vocês não abandonariam sua irmã”, disse a micetologista. “Positivo! Vocês arriscaram suas vidas para salvar Sunny. Como podem me pedir para abandonar o meu irmão?”
“O seu irmão é uma pessoa vil”, disse Violet.
“As pessoas não são nem vis nem nobres”, disse Fiona. “Elas são como saladas do chefe.”
Klaus pegou a fotografia em cima da mesa e entregou a Fiona. “Isso não me parece uma salada do chefe”, disse ele. “Parece mais uma família. É isso que a sua família gostaria que você fizesse, Fiona? Mandar pôr três crianças a ferros, enquanto você ajuda um vilão em seus pérfidos planos?”
Fiona olhou para a foto e piscou, contendo as lágrimas atrás dos óculos triangulares. “Minha família está perdida”, disse ela. “Minha mãe está morta. Positivo! Meu padrasto me abandonou. Positivo! Meu irmão pode não ser tão maravilhoso como vocês, irmãos Baudelaire, mas ele é a única família que tenho. Positivo! Vou ficar com ele. Positivo!”
“Fique com ele, se você precisa”, disse Violet, “mas deixe-nos ir.”
Rendezvous”, disse Sunny.
“Leve-nos para a Praia de Sal”, traduziu Klaus. “Podemos estar em lados opostos da cisão, Fiona, mas isso não significa que não podemos ajudar uns aos outros.”
Fiona suspirou e olhou primeiro para os Baudelaire e depois para a fotografia de sua família. “Eu poderia virar as costas”, disse ela, “em vez de vigiar vocês”.
“E nós poderíamos tomar o Queequegdisse Violet, “e escapar”.
Fiona franziu o cenho e pôs a fotografia de volta na mesa. “Se eu deixar vocês irem para a Praia de Sal”, disse ela, “o que vocês farão por mim?”
“Ensinarei a você como consertar submarinos”, disse Violet com um gesto na direção do dispositivo telegráfico. “Você poderia devolver ao Queequeg sua antiga glória.”
“Eu não preciso mais do Queequegdisse Fiona. “Positivo! Faço parte da tripulação do Carmelita.”
“Darei a você o meu livro de lugar-comum”, disse Klaus, estendendo o caderno azul-escuro. “Está cheio de segredos importantes.”
“O conde Olaf sabe mais segredos do que vocês jamais conhecerão”, respondeu Fiona.
“Mmpff!” As crianças olharam para baixo e viram Sunny, que escapulira enquanto os outros falavam e estava agora passando de volta, vacilante, pela porta identificada como COZINHA, arrastando o seu capacete de mergulho.
“Não toque nisso, Sunny!”, gritou Violet. “Há um fungo muito perigoso aí dentro, e não temos mais o antídoto!”
“Micetolo”, disse Sunny, e depôs o capacete aos pés de Fiona.
“Sunny tem razão”, disse Klaus, olhando para o capacete com medo. “Dentro desse capacete está o bicho-papão de todo o panteão micetológico – o Mycelium Medusoide.”
“Pensei que vocês o tivessem destruído”, disse Fiona.
“Não”, disse Violet. “O Mycelium Medusoide cresce melhor em um espaço fechado. Você disse que o veneno de um fungo letal pode ser a fonte de alguns remédios milagrosos. Esse é um espécime muito valioso para uma micetologista como você.”
“É verdade”, admitiu Fiona em voz baixa, e olhou para dentro do capacete. Os Baudelaire também olharam para baixo, lembrando-se da terrível jornada dentro da gruta. Eles se lembraram de como estava frio e escuro quando deixaram o Queequeg para flutuar pela caverna e de como era horripilante assistir ao Mycelium Medusoide aprisioná-los dentro da caverna fantasmagórica, enquanto seus talos e píleos não minguavam. Eles se lembraram da gélida jornada de regresso ao submarino, quando descobriram que a tripulação tinha desaparecido, que os cogumelos terríveis estavam brotando no capacete de Sunny, que a imagem do submarino-polvo estava aparente na tela do sonar e que um vilão os aguardava quando tombaram para dentro.
“Estamos de volta!”, anunciou o conde Olaf, irrompendo no salão principal seguido de seus camaradas. Esmé e Carmelita espiavam uma caixinha brilhante, e o homem de mãos de gancho cambaleava embaixo do peso dos uniformes e capacetes de mergulho que carregava. “Receio que não haja muito o que roubar – este submarino não está mais à altura de sua antiga glória. Ainda assim, encontrei uma caixinha de joias escondida nos alojamentos, e alguns itens de valor.”
“Acho que o anel de rubi é muito in”, ronronou Esmé. “Vai ficar maravilhoso com meu vestido de imitação de chamas.”
“Isso era da minha mãe”, disse Fiona pausadamente.
“Ela teria desejado que pertencesse a mim”, disse rápido Esmé. “Éramos amigas íntimas na escola.”
“Eu quero o colar!”, exigiu Carmelita. “Combina com o meu estetoscópio veterinário! Dê para mim, condinho!”
“Eu gostaria que ainda tivéssemos conosco todas aquelas aberrações do parque”, disse o homem de mãos de gancho. “Poderiam me ajudar a carregar alguns uniformes.”
“Nós os veremos no Hotel Desenlace”, disse o conde Olaf, “junto com o resto dos meus camaradas. Bem, vamos dar o fora daqui! Temos montes de coisas a fazer antes de chegar lá! Olhos de Triângulo, leve os órfãos para o calabouço! Ha ha ha hu-la hula!”
Cantarolando uma melodia ridícula, o vilão executou passos de uma dança de triunfo e tropeçou no capacete de mergulho que estava no chão. Carmelita deu uma risadinha maldosa quando Olaf se abaixou para esfregar o tornozelo tatuado.
“Cá cá cá condinho!”, gritou Carmelita. “Meu recital de dança foi melhor que o seu!”
“Tire esse chapéu daqui, Olhos de Triângulo”, rosnou o conde Olaf. Ele se abaixou, pegou o capacete e fez menção de entregá-lo a Fiona, mas o homem de mãos de gancho o impediu.
“Acho que você vai querer esse capacete para seu próprio uso, patrão”, disse o homem de mãos de gancho.
“Prefiro um chapéu menor e mais leve”, disse Olaf, “mas agradeço o gesto de generosidade.”
“O que meu irmão está querendo dizer”, explicou Fiona, “é que dentro desse capacete está o Mycelium Medusoide.”
Os Baudelaire engasgaram e se entreolharam horrorizados, enquanto o conde Olaf espiava através da minúscula janela do capacete, os olhos arregalados embaixo da sobrancelha. “O Mycelium Medusoide”, murmurou ele, e passou a língua pelos dentes, pensativo. “Será mesmo?”
“Impossível”, disse Esmé Squalor. “Aquele fungo foi destruído muito tempo atrás.”
“Eles o trouxeram de volta”, disse o homem de mãos de gancho. “É por isso que a bebê estava doente.”
“Mas isso é maravilhoso”, disse Olaf, a voz rascante e sibilante como se tivesse sido envenenado. “Assim que vocês Baudelaire estiverem a ferros, vou abrir esse capacete e jogá-lo no calabouço! Vocês vão sofrer como eu sempre quis que sofressem.”
“Não é isso o que devemos fazer!”, exclamou Fiona. “Esse é um espécime muito valioso!”
Esmé deu um passo à frente e enrolou dois tentáculos em volta do pescoço de Olaf. “Olhos de Triângulo está certa”, disse ela. “Você não vai querer desperdiçar o fungo nesses órfãos. Além disso, precisa de um deles vivo para conseguir a fortuna.”
“É verdade”, concordou Olaf, “mas a ideia de esses órfãos não conseguirem respirar é bastante atraente.”
“Mas pense nas fortunas que poderemos roubar!”, disse Esmé. “Pense nas pessoas em que poderemos mandar! Com o Mycelium Medusoide em nossas mãos, quem poderá nos deter?”
“Ninguém!”, grasnou o conde Olaf, triunfante. “Hu hu hu hunos de Hunan! Ho ho ho homentas-chen! Ho hoho hors-d’oeuvres! Ha ha ha...”
Mas as crianças Baudelaire nunca souberam que palavra ridícula Olaf ia pronunciar, pois ele se interrompeu e apontou para uma tela na parede do outro lado do salão principal. A tela parecia um pedaço de papel milimetrado, iluminado com luz verde, e no centro havia uma letra Q luminescente, representando o Queequeg, e também um olho luminescente, representando o terrível submarino-polvo que os devorara. Mas no topo da tela havia mais uma forma – uma que elas tinham quase esquecido. Era um enorme tubo recurvo com um pequeno círculo na ponta, resvalando lentamente tela abaixo como uma serpente, ou um enorme ponto de interrogação, ou alguma malevolência terrível que as crianças não podiam nem imaginar.
“O que é aquela bisbórria daquela forma?”, perguntou Carmelita Spats. “Parece uma vírgula.”
“Shhhh!”, sibilou o conde Olaf, cobrindo a boca de Carmelita com sua mão imunda. “Silêncio, todo mundo!”
“Temos de dar o fora daqui”, murmurou Esmé. “O polvo não é páreo para aquela coisa.”
“Você está certa”, resmungou Olaf. “Esmé, vá açoitar os nossos remadores, precisamos andar mais depressa! Ganchito, vá guardar esses uniformes! Olhos de Triângulo, ponha os órfãos a ferros!”
“E eu?”, perguntou Carmelita. “Sou a mais engraçadinha, portanto eu devia fazer alguma coisa.”
“Acho que é melhor você vir comigo”, disse o conde, enfastiado. “Mas nada de sapatear! Não queremos aparecer no sonar deles!”
“Tchau tchau, bisbórrias!”, disse Carmelita, acenando sua vara de condão rosada para os três irmãos Baudelaire.
“Você é tão estilosa, querida”, disse Esmé. “É como eu sempre digo: você não pode ser rica demais, nem in demais!”
As duas fêmeas perversas pularam a vigia quebrada e saíram do Queequeg seguidas pelo homem de mãos de gancho, que acenou desajeitadamente para os Baudelaire. Mas antes que o conde Olaf saísse, ele ficou em pé em cima da mesa de madeira e sacou a comprida e afiada espada, que apontou para as crianças. “A sorte de vocês finalmente acabou”, disse ele com um tom horrível. “Já faz tempo que vocês vêm derrotando meus planos e escapando das minhas garras – um ciclo feliz para vocês órfãos, e nada lucrativo para mim. Mas agora a sorte virou, fedelhos Baudelaire. Vocês não têm mais para onde fugir. E assim que escaparmos daquilo’, ele apontou para a tela do sonar com um movimento rápido de espada e então ergueu ameaçadoramente a sobrancelha, “vocês verão que esse ciclo foi enfim quebrado. Vocês deviam ter desistido muito tempo atrás, órfãos. Eu triunfei no momento em que vocês perderam a sua família.”
“Nós não perdemos a nossa família”, disse Violet. “Só os nossos pais.”
“Vocês perderão tudo, órfãos”, retrucou o conde Olaf. “Aguardem e verão.”
Sem mais palavra, ele saltou para fora da vigia e desapareceu dentro do horrendo polvo mecânico, deixando os Baudelaire sozinhos com Fiona.
“Você vai nos pôr a ferros?”, perguntou Klaus.
“Não”, disse Fiona. “Vou deixar vocês escaparem – positivo! – se puderem. É melhor se apressarem. Não temos tempo!”
“Posso traçar o curso”, disse Violet, “e Klaus pode ler as cartas náuticas.”
“Servebolo”, disse Sunny.
Fiona sorriu e correu tristemente os olhos pelo salão principal. “Cuidem bem do Queequegdisse ela. “Vou sentir saudades dele. Positivo!”
“Vou sentir saudades de você”, disse Klaus. “Não quer vir conosco, Fiona? Agora que Olaf tem o Mycelium Medusoide, vamos precisar de toda a ajuda que pudermos conseguir. Você não quer terminar a missão do submarino? Ainda não encontramos o açucareiro. Não encontramos o seu padrasto. Nem sequer terminamos o código que íamos inventar.”
Fiona assentiu com tristeza e caminhou para a mesa de madeira. Pegou o Cogumelos e suas minúcias e depois agiu contrariamente a sua filosofia de vida, uma expressão que aqui significa “vacilou por um momento, depois encarou o Baudelaire do meio”. “Quando você pensar em mim”, disse ela, “pense em uma comida de que você gosta muito.”
Ela se inclinou para a frente, beijou Klaus delicadamente na boca e desapareceu pela vigia sem sequer um “positivo!”. Os três Baudelaire ouviram os passos da micetologista quando ela foi se juntar ao conde Olaf e seus camaradas, deixando-os para trás.
“Ela se foi”, disse Klaus, como se não pudesse acreditar. Ele levou ao rosto a mão trêmula, como se Fiona tivesse lhe dado um tabefe em vez de um beijo. “Como ela pôde ir embora?”, perguntou ele. “Ela me traiu. Ela traiu a todos nós. Como uma pessoa tão maravilhosa pôde fazer uma coisa tão horrível?”
“Acho que o irmão dela estava certo”, disse Violet, passando o braço em volta do irmão. “As pessoas não são vis nem nobres.”
“Correcionando”, disse Sunny, o que queria dizer: “Fiona também tinha razão – é melhor nos apressarmos se quisermos escapar do Carmelitaantes que Olaf perceba que não estamos a ferros”.
“Vou marcar um curso para a Praia de Sal”, disse Violet.
Klaus deu uma última olhada para a vigia por onde Fiona desaparecera e balançou a cabeça. “Vou examinar as cartas náuticas”, disse ele.
“Amenesi!”, exclamou Sunny. Ela queria dizer algo como: “Você está esquecendo uma coisa!”, e apontou um dedinho para o círculo de vidro caído no chão.
“Sunny tem razão”, disse Klaus. “Não podemos submergir o submarino sem consertar a vigia, ou nos afogaremos.”
Mas Violet já estava a meio caminho, escalando a escada de corda que levava aos controles do Queequeg. “Você vai ter de consertar aquilo você mesma, Sunny”, gritou ela para baixo.
“Cozinha”, disse Sunny. “Cozinha e dentes.”
“Não temos tempo para discutir”, disse Klaus, implacável, apontando para a tela do sonar. O ponto de interrogação se aproximava aos poucos do Q luminescente.
“Positivo”, disse Sunny, e correu para o círculo de vidro no chão. Ele ainda estava intacto, mas a mais jovem dos Baudelaire não conseguia pensar em nada que pudesse reincorporá-lo à parede do submarino.
“Acho que encontrei o dispositivo localizador”, gritou Violet de cima dos controles do Queequeg. Rapidamente, ela acionou um interruptor e aguardou impaciente que a tela se acendesse. “Parece que estamos a catorze milhas náuticas a sudoeste da Gruta Gorgônea. Isto ajuda?”
“Positivo”, disse Klaus, correndo o dedo sobre uma das cartas. “Precisamos seguir diretamente para o Norte, até a Praia de Sal. Não deve estar longe. Mas como vamos sair do Carmelita?”
“Vou simplesmente acionar os motores”, disse Violet, “e tentar nos conduzir para o túnel.”
“Você já manobrou um submarino antes?”, perguntou Klaus, nervoso.
“É claro que não”, disse Violet. “Estamos em águas não cartografadas, positivo?”
“Positivo”, disse Klaus, e ergueu os olhos orgulhosamente para a irmã. Os dois Baudelaire não puderam deixar de sorrir por um momento antes de Violet puxar uma grande alavanca, e o som sussurrante do Queequeg invadir o salão principal.
“Abrealas!”, bradou Sunny, espremendo-se para passar por Klaus e chegar até a cozinha. Violet e Klaus ouviram a irmã remexer alguma coisa por um momento, até que a mais jovem dos Baudelaire retornou, trazendo duas caixas que os irmãos reconheceram de sua primeira vez na cidadezinha de Paltryville. “Chiclete!”, gritou ela, triunfante, já rasgando as embalagens em diversos pedaços e enfiando os chicletes na boca.
“Boa ideia, Sunny!”, exclamou Violet. “O chiclete pode funcionar como adesivo e grudar o vidro da vigia de volta no lugar.”
“Aquela coisa está chegando mais perto”, disse Klaus, apontando para a tela do sonar. “É melhor a gente pôr o submarino em movimento. Sunny pode fazer o conserto enquanto nos movemos através do túnel.”
“Vou precisar da sua ajuda, Klaus”, disse Violet. “Fique junto à vigia e me avise para que lado virar. Positivo?”
“Positivo!”, respondeu Klaus.
“Positivo!”, gritou Sunny, com a boca cheia de chicletes. Os Baudelaire mais velhos se lembraram de que sua irmã era jovem demais para mascar chiclete quando as crianças trabalhavam na serraria, e mal podiam acreditar que ela crescera o suficiente para enfiar mancheias daquela substância grudenta na boca.
“Para que lado eu vou?”, gritou Violet da plataforma de controle.
Klaus espiou pela vigia. “Direita!”, gritou de volta, e o Queequeg guinou para a direita, progredindo com dificuldade na exígua camada de água no fundo do túnel. Houve um violento ruído de atrito, e os Baudelaire ouviram um barulho forte de água dentro de uma das tubulações. “Eu queria dizer, esquerda!”, disse Klaus rapidamente. “Você e eu estamos de frente para direções opostas! Esquerda!”
“Positivo!”, gritou Violet, e o submarino guinou para a direção oposta. Através da vigia, os Baudelaire viram que estavam se afastando da plataforma onde Olaf os recebera de início. Sunny cuspiu um grande bolo de chiclete em cima do círculo de vidro e espalhou-o com as mãos pelas beiradas ao redor do círculo.
“Direita!”, gritou Klaus, e Violet virou de novo o Queequeg, quase perdendo a curva do corredor. A mais velha dos Baudelaire olhou nervosa para a tela do sonar, onde a forma sinistra se aproximava cada vez mais.
“Esquerda!”, gritou Klaus. “Esquerda e para baixo!” O submarino guinou e afundou, e através da vigia o Baudelaire do meio viu de relance a sala dos remadores, onde Esmé segurava ameaçadoramente o tagliatelle grande com um tentáculo falso. Sunny enfiou rapidamente mais chiclete na boca, apertando com força os dentes enormes para amaciar a goma de mascar.
“Esquerda de novo!”, gritou Klaus. “E depois, uma curva muito fechada para a direita quando eu disser já!”
“Já?”, gritou de volta Violet.
“Não”, disse Klaus, e ergueu uma das mãos enquanto Sunny cuspia mais chiclete no círculo de vidro. “Já!
O submarino guinou violentamente para a direita, fazendo diversos objetos rolarem da mesa de madeira. Sunny se esquivou para evitar ser atingida na cabeça pelos poemas de T. S. Eliot.
“Desculpem os trancos”, gritou Violet do topo da escada de corda. “Ainda estou tentando entender esses controles. E agora?”
Klaus espiou pela vigia. “Continue em frente”, disse ele, “e deveremos sair do polvo.”
“Socorro!”, gritou Sunny, espalhando o que restava do chiclete pela beirada do círculo. Klaus correu para o lado dela, e Violet desceu a escada de corda às pressas para ajudar, abandonando os controles do submarino, que seguia em linha reta. Juntos, os três Baudelaire pegaram o círculo de vidro e subiram na mesa de madeira, para que pudessem colocar o vidro da vigia de volta no lugar.
“Espero que segure”, disse Violet.
“Se não segurar”, disse Klaus, “logo saberemos.”
“No três”, disse Sunny, o que queria dizer algo como: “Depois de eu dizer um e dois”. “Uno! Due!”
Três!”, disseram em uníssono os órfãos Baudelaire, e pressionaram o círculo de vidro contra o buraco que Olaf cortara, alisando a goma em cima da fresta para ficar firme, no momento exato em que o Queequeg deixava para trás o polvo mecânico e se lançava nas águas gélidas do oceano. Os Baudelaire empurraram juntos a vigia, os braços esticados contra o vidro como se tentassem impedir alguém de entrar por uma porta. Alguns fios d’água – uma expressão que aqui significa “minúsculos cursos de água” – escorriam através da goma, mas Sunny apressadamente esfregou a substância grudenta no vazamento. Suas mãozinhas alisaram a goma sobre as bordas do círculo, garantindo o resultado firme da vedação que impediria as crianças de se afogarem, mas quando ouviu os irmãos engasgando, ergueu os olhos do trabalho e olhou através da vigia consertada. Espantada, cravou os olhos no que viu.
Em última análise – uma expressão que aqui significa “depois de muito pensar e debater com meus colegas” –, o capitão Andarré estava errado quanto a uma grande quantidade de coisas. Ele estava errado quanto à sua filosofia de vida, porque existem muitas situações em que uma pessoa deve vacilar. Estava errado quanto à morte de sua esposa, porque, como suspeitava Fiona, a sra. Andarré não morrera em um acidente com um manati. Estava errado também em chamar Phil de Cuque, já que é mais educado chamar uma pessoa pelo seu nome próprio, e estava errado em abandonar o Queequeg, não importa o que tivesse ouvido da mulher que veio buscá-lo. O capitão Andarré estava errado em confiar no seu enteado durante tantos anos, e errado em participar da destruição da Aquáticos Anwhistle, e estava errado em insistir, como fez tantos anos atrás, em que a matéria d’O Pundonor Diário era verdadeira, e em mostrar essa matéria para tantos voluntários, inclusive os pais dos Baudelaire, os irmãos Snicket e a mulher pela qual, coincidentemente, eu estava apaixonado. Mas o capitão Andarré estava certo em relação a uma coisa. Em dizer que existem segredos neste mundo que são terríveis demais para que gente jovem os conheça, pela simples razão de que existem segredos neste mundo que são terríveis demais para que qualquer um os conheça, seja jovem como Sunny Baudelaire seja velho como Gregor Anwhistle – segredos tão terríveis que deveriam ser mantidos em segredo, que provavelmente é como os segredos se tornam segredos, e um desses segredos é a comprida e estranha forma que os órfãos Baudelaire viram, primeiro no sonar do Queequeg, e depois quando estavam segurando a vigia no lugar e olhando para as águas do mar. A noite caíra – noite de segunda-feira –, portanto a visibilidade estava obscurecida, e os Baudelaire mal podiam distinguir aquela forma enorme e sinistra. Eles não conseguiam nem dizer, assim como eu nunca vou dizer, se aquilo era um horrendo dispositivo mecânico, como um submarino, ou alguma apavorante criatura do mar. Eles apenas viram uma sombra enorme que se enrolava e desenrolava na água, como se a única sobrancelha do conde Olaf tivesse crescido e se transformado em uma besta enorme que circulava pelo mar, uma sombra tão enregelante quanto o olhar penetrante do vilão, e tão soturna quanto a própria vilania. Os órfãos Baudelaire nunca tinham visto algo tão absolutamente sinistro, e ficaram paralisados como estátuas, pressionando a vigia em silêncio absoluto. Foi talvez esse silêncio que os salvou, pois a forma sinistra se enrodilhou mais uma vez e começou a desaparecer no negrume da água.
“Shhhh”, disse Violet, muito embora ninguém tivesse falado. Era o doce, suave pedido de silêncio que alguém poderia fazer para tranquilizar um bebê chorando no meio da noite por causa de alguma dessas tragédias que mantêm os bebês acordados em seus berços, e os outros membros da família em guarda, uma expressão que aqui significa “ficar por perto para ter certeza de que todos estão a salvo”. Na verdade, esse pedido de silêncio não significa nada, e no entanto os Baudelaire mais jovens não perguntaram à irmã o que ela queria dizer, simplesmente ficaram em vigília com ela, enquanto a forma desaparecia no oceano da noite e deixava as crianças em segurança mais uma vez. Sem palavras, Violet afastou as mãos do vidro, desceu da mesa e retomou seu lugar nos controles do Queequeg. Durante o resto da jornada, nenhuma das crianças falou, como se o encanto sobrenatural daquela terrível forma secreta ainda pairasse sobre elas. Durante toda a noite e o começo da manhã, Violet operou as alavancas e comandos do submarino, para se certificar de que ele mantinha o curso, e Klaus traçou a rota nas cartas náuticas, para se certificar de que se dirigiam para o lugar certo, e Sunny serviu fatias do bolo de aniversário de Violet para seus companheiros voluntários, mas nenhum dos três Baudelaire falou, até que um delicado bump! fez Queequeg oscilar, e o submarino parou suavemente. Violet desceu a escada de corda e se esquivou para baixo de uma tubulação para espiar através do periscópio, assim como o capitão Andarré deve ter espiado os Baudelaire no topo das Montanhas de Mão-Morta. “Estamos aqui”, disse ela, e os três Baudelaire saíram do salão principal e caminharam pelo corredor cheio de vazamentos até a sala onde, pela primeira vez, tinham descido a bordo do submarino.
“Válvula?”, perguntou Sunny.
“Não vamos precisar ativar a válvula”, disse Violet. “Quando olhei através do periscópio, vi a Praia de Sal, portanto é só subir a escada...”
“E voltar para onde estávamos”, completou Klaus, “muito tempo atrás.”
Sem mais conversa, as crianças Baudelaire subiram a escada, seus passos ecoando pela estreita passagem, até que chegaram à escotilha. Violet agarrou a alavanca para abri-la e descobriu que seus irmãos também faziam o mesmo, todos ao mesmo tempo, assim como tinham virado a alavanca juntos, aberto a escotilha juntos e, juntos, tinham subido para fora da passagem, descido do submarino e pulado na areia da Praia de Sal. Era de manhã – a mesma hora da manhã em que as crianças Baudelaire estiveram lá na última vez, quando receberam as assustadoras notícias sobre o incêndio, e estava tão cinzento e enevoado como naquele dia terrível. Violet chegou até a pegar do chão uma pedra delgada e lisa, exatamente como fizera tanto tempo atrás, e a jogou sobre a água, sem imaginar que a pedra logo estaria explorando as terríveis profundezas do mar. Os irmãos piscaram, ofuscados pelo sol da manhã, e sentiram-se como se algum ciclo estivesse para recomeçar – mais uma vez receberiam notícias terríveis, mais uma vez seriam levados para um novo lar, e mais uma vez seriam rodeados pela vilania, como vinha ocorrendo desde a última vez em que estiveram na Praia de Sal –, da mesma forma que você também sentiria isso, se a história desgraçada dos Baudelaire fosse contada novamente, e novamente você fosse advertido por mim de que, caso estivesse procurando finais felizes, seria melhor ler outro livro. Não é uma sensação agradável imaginar que a sorte nunca vai virar e que um ciclo tedioso vai começar de novo, e isso fez os Baudelaire sentirem-se passivos enquanto corriam os olhos pela praia inalterada, como se sentiram nas águas do Arroio Enamorado, quando aceitaram o que estava acontecendo sem fazer nada a respeito.
“Argh!”, disse Sunny, o que queria dizer: “Olhem só a figura misteriosa que está emergindo da névoa!”, e os Baudelaire olharam para a forma familiar, parada diante deles, que tirava a cartola alta e tossia num lenço branco.
“Irmãos Baudelaire!”, disse o sr. Poe, depois que parou de tossir. “Cáspite! Mal posso acreditar! Mal posso acreditar que vocês estão aqui!”
“Você?”, perguntou Klaus, fitando atônito o banqueiro. “É você a pessoa com quem devíamos nos encontrar?”
“Acho que sim”, disse o sr. Poe, franzindo a testa e tirando do bolso um pedaço de papel amarrotado. “Recebi uma mensagem dizendo que vocês estariam hoje aqui na Praia de Sal.”
“Quem mandou a mensagem?”, perguntou Klaus.
O sr. Poe tossiu mais uma vez e depois encolheu os ombros com um ar cansado. As crianças notaram que ele parecia um pouco mais velho do que na última vez, e se perguntaram o quanto elas mesmas pareciam mais velhas.
“A assinatura na mensagem era J.S.”, disse o sr. Poe. “Presumo que seja aquela repórter d’ O Pundonor Diário, Geraldine Julienne. Como diabo vocês vieram parar aqui? Onde diabo estiveram? Tenho de admitir, jovens Baudelaire, que já tinha perdido toda a esperança de um dia encontrar vocês de novo! Foi lamentável pensar que a fortuna Baudelaire iria simplesmente ficar no banco, acumulando poeira e juros! Bem, isso agora não importa. É melhor vocês virem comigo – meu carro está estacionado aqui perto. Vocês têm muita coisa que explicar.”
“Não”, disse Violet.
“Não?”, disse o sr. Poe, perplexo, e tossiu com força no lenço. “É claro que sim! Vocês desapareceram há um bocado de tempo, crianças! Foi muita falta de consideração fugir sem me contar onde estavam, especialmente depois que foram acusadas de assassinato, incêndio criminoso, sequestro e mais algumas contravenções sortidas! Vocês vão entrar direto no meu carro, e eu vou levá-los para a delegacia de polícia e...”
“Não!”, disse novamente Violet, e enfiou a mão no bolso do uniforme. Ela mostrou o telegrama aos irmãos e leu:

À hora rosada, quando os olhos e as costas
Da mesa voltam-se para cima, quando a máquina humana aguarda
Qual festa pulsante de pônei...

“Isso é o que estava no telegrama.” Ela fez uma pausa e correu os olhos pelo horizonte da praia. Alguma coisa lhe chamou a atenção, e ela sorriu de leve para os irmãos. “O verdadeiro poema”, disse ela, “é assim:

À hora violeta, quando os olhos e as costas
Da mesa voltam-se para cima, quando a máquina humana aguarda
Qual táxi pulsante aguardando

“Comunicação por Semiflutuações em Cânticos”, disse Klaus.
“Código”, disse Sunny.
“Do que vocês estão falando?”, perguntou o sr. Poe. “O que está acontecendo?”
“As palavras que faltam”, disse Violet para os irmãos, como se o banqueiro com tosse não tivesse falado, “são ‘violeta’, ‘táxi’ e ‘aguardando’. Nós não devemos ir com o sr. Poe. Devemos ir de táxi.” Ela apontou para o outro lado da praia, e as crianças conseguiram enxergar, quase invisível no meio da névoa, um carro amarelo estacionado junto ao meio-fio. Os Baudelaire assentiram, e Violet afinal voltou-se para o banqueiro.
“Não podemos ir com o senhor”, disse Violet. “Há uma outra coisa que precisamos fazer.”
“Não diga absurdos!”, disse o sr. Poe entre perdigotos. “Não sei onde vocês andaram, nem como chegaram aqui, nem por que estão usando camisas com um retrato de Papai Noel, mas...”
“É Herman Melville”, disse Klaus. “Adeus, senhor Poe.”
“Você vem comigo, rapazinho!”, ordenou o sr. Poe.
“Saionara”, disse Sunny, e os três Baudelaire saíram rapidamente para o outro lado da praia, deixando o banqueiro tossindo de perplexidade.
“Esperem!”, ordenou ele, depois de guardar o lenço. “Voltem aqui, irmãos Baudelaire! Vocês são crianças! São menores! São órfãos!”
A voz do sr. Poe foi ficando cada vez mais fraca enquanto as crianças seguiam pela areia. “O que você acha que significa a palavra ‘violeta’?”, murmurou Klaus para a irmã. “O táxi não é roxo.”
“Mais código”, adivinhou Sunny.
“Talvez”, disse Violet. “Ou então, quem sabe, Quigley quis apenas escrever meu nome.”
“Órfãos Baudelaire!” A voz do sr. Poe estava quase inaudível, como se aquele encontro tivesse sido um sonho.
“Você acha que ele está no táxi, aguardando por nós?”, perguntou Klaus.
“Espero que sim”, disse Violet, e saiu correndo. Seus irmãos apertaram o passo atrás dela, que espalhava areia com suas botas. “Quigley”, disse ela baixinho, quase consigo mesma, e depois mais alto: “Quigley! Quigley!”
Por fim os Baudelaire chegaram ao táxi, mas os vidros do carro tinham sido tingidos, uma palavra que aqui significa “escurecidos para que as crianças não pudessem ver quem estava dentro”.
“Quigley?”, perguntou Violet, e abriu a porta de repente, mas seu amigo não estava dentro do táxi.
No assento do motorista, havia uma mulher que os Baudelaire nunca tinham visto, vestida com um casaco preto e comprido, abotoado até o queixo. Ela usava luvas brancas de algodão e levava no colo dois livros finos, provavelmente para se distrair enquanto aguardava. A mulher se assustou um pouco quando Violet abriu a porta, mas ao avistar as crianças inclinou a cabeça educadamente e sorriu de leve, como se não fosse uma estranha – mas também sem parecer uma amiga. Seu sorriso era daqueles que se podem oferecer a um associado, ou a um outro membro de uma organização à qual você pertence.
“Olá, irmãos Baudelaire”, disse ela, e fez um pequeno aceno para as crianças. “Subam a bordo.”
Os Baudelaire se entreolharam. Sabiam, é claro, que nunca se deve entrar no carro de um estranho, mas sabiam também que tais regras não se aplicam necessariamente a táxis, já que o motorista é quase sempre um estranho. Além disso, quando a mulher ergueu a mão para acenar, as crianças viram de relance os nomes dos livros que ela estava lendo para se distrair. Eram dois livros de poemas: A morsa e o carpinteiro e outros poemas, de Lewis Carroll, e A terra desolada, de T. S. Eliot. Talvez se um dos livros tivesse sido escrito por Edgar Guest, as crianças tivessem virado as costas e corrido de volta para o sr. Poe, mas é raro encontrar neste mundo alguém que aprecie a boa poesia, e nesse caso as crianças se permitiram vacilar.
“Quem é você?”, perguntou Violet por fim.
A mulher piscou e depois sorriu o discreto sorriso para as crianças mais uma vez, como se estivesse esperando que os Baudelaire respondessem a essa pergunta por eles mesmos. “Sou Kit Snicket”, disse ela, e os órfãos Baudelaire subiram a bordo, virando a sorte de suas vidas e rompendo o ciclo de desventuras pela primeiríssima vez.


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