sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo treze


É um fato conhecido, porém curioso, que a primeira mordida em uma maçã é sempre a mais gostosa, e é por essa razão que a heroína de um livro muito mais apropriado para se ler do que este passa uma tarde inteira comendo a primeira mordida de um alqueire de maçãs. Mas mesmo essa menininha anárquica – a palavra “anárquica” aqui significa “que adora maçãs” – nunca provou uma mordida tão maravilhosa quanto a primeira mordida dos Baudelaire na maçã da árvore que os seus pais hibridizaram com raiz-forte. A maçã não era tão amarga quanto os órfãos Baudelaire teriam adivinhado, e a raiz-forte dera ao suco da maçã um toque leve e pungente, como o ar em uma manhã de inverno. Mas é claro que o maior apelo da maçã oferecida pela Víbora Incrivelmente Mortífera era o seu efeito imediato sobre o fungo letal que crescia dentro deles. A partir do momento em que os dentes dos Baudelaire se cravaram na maçã – primeiro os de Violet, depois os de Klaus e então os de Sunny – os talos e píleos do Mycelium Medusoide começaram a encolher, e em instantes todos os vestígios do assustador cogumelo estavam murchos, e as crianças puderam respirar livre e facilmente. Abraçando um ao outro aliviados, os Baudelaire se puseram a rir, o que é uma reação comum entre pessoas que escaparam da morte por pouco, e a serpente também parecia estar rindo, embora talvez estivesse apenas desfrutando o cafuné que a mais jovem dos Baudelaire fazia atrás das suas pequeninas orelhas encapuzadas.
“Devíamos comer mais uma maçã cada um”, disse Violet levantando-se, “para ter certeza de que consumimos raiz-forte suficiente.”
“E devíamos colher maçãs suficientes para todos os ilhéus”, disse Klaus. “Eles devem estar tão desesperados quanto nós estávamos.”
“Caldeirão”, disse Sunny, e foi até o paneleiro pendurado no teto, de onde a serpente a ajudou a descer um enorme caldeirão de metal que poderia conter um grande número de maçãs, e que de fato tinha sido usado para fazer um enorme tacho de purê de maçã alguns anos antes.
“Vocês dois comecem a colher maçãs”, disse Violet indo para o periscópio. “Eu quero verificar como está Kit Snicket. A esta altura, a inundação da plataforma costeira já deve ter começado, e ela deve estar apavorada.”
“Espero que tenha escapado do Mycelium Medusoide”, disse Klaus. “Odeio pensar no que ele faria com o bebê dela.”
“Fearst”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Vamos salvá-la sem demora”.
“Os ilhéus estão em situação pior do que Kit”, disse Klaus. “Devíamos ir primeiro à tenda de Ishmael, e depois salvar Kit.”
Violet olhou pelo periscópio e franziu o cenho.
“Não devemos ir à tenda de Ishmael”, disse ela. “Precisamos encher aquele caldeirão de maçãs e chegar à plataforma costeira o mais rápido possível.”
“O que você quer dizer?”, disse Klaus.
“Eles estão partindo”, disse Violet, e lamento dizer que era verdade. Através do periscópio, a mais velha dos Baudelaire pôde ver a forma do catamarã e das figuras dos seus passageiros envenenados, que o empurravam ao longo da plataforma costeira em direção à balsa-biblioteca onde Kit Snicket ainda estava deitada. As três crianças olharam cada uma por sua vez pelo periscópio, e depois se entreolharam. Sabiam que tinham de se apressar, mas por um momento nenhum dos Baudelaire conseguiu se mexer, como se estivessem relutantes em ir além na sua triste história, ou ver mais uma parte dela chegar ao fim.
Se você leu a crônica dos órfãos Baudelaire até agora – e eu certamente espero que não tenha lido –, então sabe que chegamos ao décimo terceiro capítulo do décimo terceiro volume desta triste história, e assim sabe que o fim está próximo, muito embora este capítulo seja tão extenso que você possa jamais chegar ao seu fim. Mas talvez você ainda não saiba o que o fim realmente significa. “O fim” é uma expressão que se refere à conclusão de uma história, ou aos momentos finais de alguma realização, tal como uma missão secreta, ou uma pesquisa muito extensa, e de fato este décimo terceiro volume marca o término da minha investigação do caso Baudelaire, que exigiu muita pesquisa, uma grande quantidade de missões secretas e as realizações de numerosos camaradas, desde um condutor de bonde até um especialista em hibridização botânica, com muitos, muitos técnicos de máquinas de escrever entre eles. Mas não se pode dizer que O fim contenha o fim da história dos Baudelaire, não mais do que Mau começo continha o seu começo. A história das crianças começou muito antes daquele dia terrível na Praia de Sal, mas seria preciso mais um volume para registrar a crônica de quando os Baudelaire nasceram, quando seus pais se casaram, quem estava tocando violino no restaurante à luz de velas quando os pais Baudelaire puseram os olhos um no outro pela primeira vez, o que estava escondido dentro do violino, a infância do homem que deixou órfã a menina que pôs aquilo ali, e mesmo então não se poderia dizer que a história dos Baudelaire tinha começado, porque você ainda precisaria saber sobre o chá das cinco servido numa suíte de cobertura, o padeiro que fez os pãezinhos doces oferecidos com o chá, e o assistente do padeiro que introduziu furtivamente o ingrediente secreto na massa dos pãezinhos por meio de um tubo de drenagem muito fino, e como uma voluntária ardilosa criou a ilusão de um incêndio em uma cozinha simplesmente usando um certo vestido e pulando de um lado para outro, e mesmo então o começo da história estaria tão distante quanto os destroços do barco – que deixara os pais Baudelaire na plataforma costeira como náufragos – estão distantes do catamarã no qual os ilhéus iam partir. Pode-se dizer, de fato, que nenhuma história tem realmente um começo, e que nenhuma história tem realmente um fim, uma vez que todas as histórias do mundo estão tão embaralhadas quanto os itens no arboreto, com seus detalhes e segredos amontoados, do começo ao fim, dependendo de como você encara as coisas. Podemos até dizer que o mundo está sempre in médias res – uma frase latina que significa “no meio das coisas” ou “no meio de uma narrativa” – e que é impossível resolver qualquer mistério, ou encontrar a raiz de qualquer problema. Portanto O fim é na verdade o meio da história, pois muitas pessoas nesta história vão viver muito além da conclusão do capítulo treze, ou até mesmo vão começar uma nova história, já que uma nova criança chega ao mundo na conclusão do capítulo. Mas não se pode ficar plantado no meio das coisas para sempre. Mais cedo ou mais tarde as pessoas terão de encarar o fato de que o fim está próximo, e o fim de O fim está realmente muito próximo; portanto, se eu fosse você, não leria o fim de O fim porque ele contém o fim de um notório vilão mas também o fim de uma valente e nobre irmã, e o fim da temporada dos colonos na ilha, quando eles navegam para além do fim da plataforma costeira. O fim de O fim contém todos esses fins, e não depende de como você encara as coisas; por isso, poderia ser melhor você parar de olhar para O fim antes de chegar ao fim de O fim, e parar de ler O fim antes de ler o fim, porque as histórias cujo fim é O fim e que começaram em Mau começo estão agora começando a chegar ao fim.
Os Baudelaire rapidamente encheram o caldeirão de maçãs e correram para a plataforma costeira, atravessando às pressas a escarpa, o mais rápido que podiam. Passava da hora do almoço, e as águas do mar já estavam inundando a plataforma, portanto a água estava muito mais funda do que de costume, desde a chegada das crianças. Violet e Klaus tiveram de segurar o caldeirão alto no ar, e Sunny e a Víbora Incrivelmente Mortífera subiram nos ombros dos Baudelaire mais velhos para viajar junto com as maçãs amargas e pungentes. As crianças puderam ver Kit Snicket no horizonte, ainda deitada em cima da balsa-biblioteca, enquanto as águas subiam encharcando as primeiras camadas de livros, e lado a lado com o estranho cubo estava o catamarã. Quando eles se aproximaram, viram que os ilhéus tinham parado de empurrar o barco e estavam subindo a bordo, fazendo pausas de quando em quando para tossir. Na frente do catamarã estava a figura de Ishmael, sentado em sua cadeira de barro, olhando fixamente para os seus colonos envenenados e observando a aproximação das crianças.
“Parem!”, gritou Violet quando eles estavam perto o bastante para ser ouvidos. “Nós descobrimos um meio de diluir o veneno!”
“Irmãos Baudelaire!”, veio o grito débil de Kit no topo da balsa-biblioteca. “Graças a Deus vocês estão aqui! Acho que estou entrando em trabalho de parto!”
Como estou certo de que você sabe, “trabalho de parto” é o termo para o processo pelo qual uma mulher dá à luz, e é uma tarefa hercúlea, uma expressão que aqui quer dizer “uma coisa que você preferiria não fazer em cima de uma balsa-biblioteca a flutuar em uma plataforma costeira que está se inundando”. Sunny pôde ver, do seu lugar no caldeirão, Kit segurando a barriga e fazendo uma careta de dor para a mais jovem dos Baudelaire.
“Nós vamos ajudá-la”, prometeu Violet, “mas precisamos dar estas maçãs para os ilhéus.”
“Eles não vão aceitar!”, disse Kit. “Tentei dizer a eles que o veneno pode ser diluído, mas eles insistem em partir!”
“Ninguém os está forçando”, disse Ishmael calmamente. “Eu apenas sugeri que a ilha não era mais um lugar seguro, e que deveríamos zarpar para outra.”
“Foram você e os Baudelaire que nos meteram nesta enrascada”, ouviu-se a voz sonolenta do sr. Pitcairn, pastosa de fungo e cordial de coco, “mas Ishmael vai nos tirar daqui.”
“Esta ilha era um lugar seguro”, disse o professor Fletcher, “longe da perfídia do mundo. Mas desde que vocês chegaram ela se tornou perigosa e complicada.”
“Não é nossa culpa”, disse Klaus, caminhando mais e mais para perto do catamarã enquanto a água continuava a subir. “Vocês não podem viver longe da perfídia do mundo, porque mais cedo ou mais tarde a perfídia acabará dando nas suas praias.”
“Exatamente”, disse Alonso, e bocejou. “Vocês vieram dar aqui e estragaram a ilha para sempre.”
“Então nós a estamos deixando para vocês”, disse Ariel, que tossia violentamente. “Vocês podem ficar com este lugar perigoso. Nós vamos navegar para a segurança.”
“Seguro aqui!”, gritou Sunny mostrando uma maçã.
“Vocês já nos envenenaram o suficiente”, disse Erewhon, e os ilhéus arquejaram concordando.
“Não queremos mais nem ouvir nenhuma das suas ideias pérfidas.”
“Mas vocês estavam prestes a se amotinar”, disse Violet. “Vocês não queriam aceitar as sugestões de Ishmael.”
“Isso foi antes de o Mycelium Medusoide chegar”, disse Finn, rouquejante. “Ishmael é quem está aqui há mais tempo, portanto sabe como nos manter seguros. Por sugestão dele, todos nós bebemos um bocado de cordial enquanto ele decifrava a raiz do problema.” Ela fez uma pausa para recuperar o fôlego enquanto o fungo sinistro continuava a crescer. “E a raiz do problema, irmãos Baudelaire, são vocês.”
A esta altura, as crianças já tinham alcançado o catamarã. Elas olharam para Ishmael, que ergueu as sobrancelhas e encarou de volta os frenéticos Baudelaire.
“Por que você está fazendo isso?”, perguntou Klaus ao facilitador. “Você sabe que não somos a raiz do problema.”
In médias res!” gritou Sunny.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “O Mycelium Medusoide já estava por aí antes de nascermos, e nossos pais se prepararam para a sua chegada acrescentando raiz-forte às raízes da macieira.”
“Se eles não comerem estas maçãs amargas”, implorou Klaus, “terão um fim amargo. Conte aos ilhéus a história inteira, Ishmael, para que possam se salvar.”
“A história inteira?”, disse Ishmael, e inclinou-se para baixo em sua cadeira para poder falar com os Baudelaire sem que os outros ouvissem. “Se eu contasse aos ilhéus a história inteira, eu não os estaria mantendo seguros contra os terríveis segredos do mundo. Eles quase ficaram sabendo a história inteira esta manhã durante o desjejum. Se eles souberem de todos os segredos da ilha, haverá uma cisão em três tempos.”
“Melhor uma cisão que a morte”, disse Violet.
Ishmael balançou a cabeça e passou os dedos nas mechas desgrenhadas da sua barba lanuda.
“Ninguém vai morrer”, disse ele. “Este catamarã pode nos levar até uma praia perto do Mau Caminho, de onde poderemos viajar até uma fábrica de raiz-forte.”
“Vocês não têm tempo para uma viagem tão longa”, disse Klaus.
“Eu acho que temos”, disse Ishmael. “Mesmo sem bússola, acho que posso fazer com que cheguemos a um lugar seguro.”
“Você precisa é de uma bússola moral”, disse Violet. “Os esporos do Mycelium Medusoide podem matar na próxima hora. A colônia inteira pode morrer envenenada, e mesmo que vocês consigam chegar à costa o fungo poderá se espalhar sobre todos com quem se encontrarem. Você não está mantendo ninguém seguro. Você está pondo em perigo o mundo inteiro, só para proteger alguns dos seus segredos. Isso não é ser paternal! Isso é horrendo e errado!”
“Acho que depende de como você encara as coisas”, disse Ishmael. “Adeus, irmãos Baudelaire.” Ele sentou-se com as costas retas e gritou para os ilhéus arquejantes, “Sugiro que vocês comecem a remar”, e os colonos esticaram os braços para a água e impeliram o catamarã a braçadas para longe das crianças. Os Baudelaire se agarraram a um dos lados do barco e chamaram a ilhoa que primeiro os encontrara na plataforma costeira.
“Sexta-Feira!”, gritou Sunny. “Pegue maçã!”
“Não sucumba à pressão dos pares”, implorou Violet.
Sexta-Feira voltou-se para as crianças, e os irmãos puderam ver que ela estava terrivelmente assustada. Klaus rapidamente agarrou uma maçã do caldeirão, e a menininha inclinou-se para fora do barco para tocar-lhe a mão.
“Sinto deixar vocês para trás, irmãos Baudelaire”, disse ela, “mas preciso ir com a minha família. Já perdi meu pai, e não aguentaria perder mais ninguém.”
“Mas o seu pai...”, Klaus começou a dizer, mas a sra. Caliban lançou-lhe um olhar terrível e puxou a filha da beira do catamarã.
“Não balance o barco”, disse ela. “Venha cá e beba o seu cordial.”
“Sua mãe está certa, Sexta-Feira”, disse Ishmael com firmeza. “Você devia respeitar a vontade dos seus pais. É mais do que os Baudelaire jamais fizeram.”
“Nós estamos respeitando a vontade dos nossos pais”, disse Violet, erguendo as maçãs o mais alto que pôde. “O que eles queriam não era nos proteger contra as perfídias do mundo. Eles queriam que sobrevivêssemos a elas.”
Ishmael pôs a mão no caldeirão de maçãs.
“O que sabem os seus pais”, perguntou ele, “sobre sobrevivência?” E com um gesto firme e cruel o velho órfão empurrou o caldeirão, e o catamarã se moveu para fora do alcance das crianças. Violet e Klaus tentaram dar mais um passo na direção dos ilhéus, mas a água tinha subido demais; os pés dos Baudelaire escorregaram na superfície da plataforma costeira e os irmãos então começaram a nadar. O caldeirão se inclinou, e Sunny deu um gritinho e desceu para os ombros de Violet enquanto várias maçãs caíam do caldeirão na água com um splash. Ao ouvir o splash, os Baudelaire se lembraram do miolo de maçã que Ishmael deixara cair, e se deram conta da razão pela qual o facilitador estava tão calmo diante do fungo letal e por que a sua voz era a única entre os ilhéus que não estava obstruída por talos e píleos.
“Temos de ir atrás deles”, disse Violet. “Talvez sejamos a sua única chance!”
“Não podemos ir atrás deles”, disse Klaus, ainda segurando a maçã. “Temos de ajudar Kit.”
“Separados”, disse Sunny olhando fixamente para o catamarã que se afastava.
Klaus sacudiu a cabeça.
“Todos nós precisamos ficar, se pretendemos ajudar Kit a dar à luz.” O irmão do meio dos Baudelaire olhou para os ilhéus e ouviu a tosse e os arquejos que vinham do barco confeccionado com capim selvagem e ramos de árvores. “Os ilhéus tomaram a decisão deles”, disse Klaus por fim.
“Kontiki”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa do gênero de “Não tem jeito de eles sobreviverem à jornada”, mas a mais jovem dos Baudelaire estava errada. Tinha um jeito. Tinha um jeito de levar aos ilhéus uma única maca que poderiam compartilhar, cada qual dando uma mordida na preciosa fruta amarga que poderia quebrar um galho – a expressão “quebrar um galho”, como você provavelmente sabe, significa “ajudar a lidar com uma situação difícil” – até eles chegarem a algum lugar ou a alguém que pudesse ajudá-los, assim como os Baudelaire dividiram uma maçã no espaço secreto onde seus pais lhes possibilitaram sobreviver a uma das desventuras em série mais fatais que já foram dar nas praias da ilha. Quem quer que levasse a maçã aos ilhéus precisaria nadar muito furtivamente até o catamarã – ajudaria se fosse alguém bem pequeno e esbelto, para poder escapar ao olho vigilante do facilitador do catamarã. Os Baudelaire não notariam o desaparecimento da Víbora Incrivelmente Mortífera por um bom tempo, pois sua atenção estaria focalizada em ajudar Kit, e assim jamais poderiam saber com certeza o que acontecera com a serpente. Como minha pesquisa sobre a história do réptil é incompleta, não sei que outros capítulos ocorreram em sua história enquanto Ink, como alguns preferem chamar a serpente, coleava de um lugar para o próximo, às vezes se protegendo da perfídia do mundo e às vezes cometendo os seus próprios atos pérfidos – uma história que não é muito diferente da dos órfãos Baudelaire, que alguns chamaram de pouco mais que o registro de crimes, desatinos e desventuras da humanidade. A não ser que você tenha investigado o caso dos ilhéus por conta própria, não há como apurar o que aconteceu com eles quando zarparam da colônia que tinha sido seu lar. Mas havia um meio de eles poderem sobreviver à jornada, um meio que pode parecer fantástico, porém não menos fantástico do que três crianças ajudarem uma mulher a dar à luz. Os Baudelaire se apressaram para a balsa-biblioteca e ergueram Sunny e o caldeirão para o topo do lugar onde Kit estava deitada, para que a mais jovem dos Baudelaire pudesse segurar a mão enluvada da mulher ofegante e as maçãs amargas pudessem diluir o veneno dentro dela enquanto Violet e Klaus empurravam a balsa de volta para a praia.
“Coma uma maçã”, ofereceu Sunny, mas Kit balançou a cabeça.
“Não posso”, disse ela.
“Mas você foi envenenada”, disse Violet. “Você deve ter pego um esporo ou dois dos ilhéus quando eles passaram flutuando.”
“As maçãs vão prejudicar o bebê”, disse Kit. “Há alguma coisa no híbrido que é prejudicial às pessoas que ainda não nasceram. Foi por isso que a sua mãe nunca provou uma das suas próprias maçãs amargas. Ela estava grávida de você, Violet.” Uma das mãos enluvadas de Kit deslizou para baixo, de cima do topo da balsa, e afagou os cabelos da mais velha dos Baudelaire. “Espero vir a ser pelo menos metade da tão boa mãe que foi a sua, Violet”, disse ela.
“Você vai ser”, disse Klaus.
“Não sei”, disse Kit. “Eu deveria ter ajudado vocês, crianças, naquele dia em que vocês finalmente chegaram à Praia de Sal. Eu não queria nada além de levá-los no meu táxi para algum lugar seguro. Em vez disso, eu os joguei para dentro de um mundo de perfídia no Hotel Desenlace. E eu não queria nada mais do que reuni-los com os seus amigos Quagmire. Em vez disso, eu os deixei para trás.” Ela soltou um suspiro ofegante e silenciou.
Violet continuou a guiar a balsa em direção à ilha, e notou pela primeira vez que suas mãos estavam empurrando a lombada de um livro cujo título ela reconheceu da biblioteca que tia Josephine escondia embaixo da cama – Ivan Lacrimoso, o Explorador do Lago –, enquanto seu irmão empurrava Cogumelos e suas minúcias, um livro que tinha sido parte da biblioteca micológica de Fiona.
“O que aconteceu?”, perguntou ela, tentando imaginar que estranhos eventos teriam trazido aqueles livros às praias.
“Eu decepcionei vocês”, disse Kit tristemente, e tossiu. “Quigley conseguiu alcançar a casa móvel autossustentável a ar quente, como eu esperava que ele fizesse, e ajudou seus irmãos e Hector a prender as águias traiçoeiras em uma rede enorme, enquanto eu me encontrava com o capitão Andarré e seus enteados.”
“Fernald e Fiona?”, disse Klaus, referindo-se ao homem de mãos de gancho que outrora trabalhara para o conde Olaf, e a jovem que partira o seu coração. “Mas eles o traíram – e a nós.”
“O capitão perdoou as falhas daqueles que amou”, disse Kit, “como eu espero que vocês perdoem as minhas, irmãos Baudelaire. Fizemos uma tentativa desesperada de consertar o Queequeg e alcançar os Quagmire enquanto a sua batalha aérea prosseguia, e chegamos bem a tempo de ver estourar os balões da casa móvel autossustentável a ar quente debaixo dos bicos cruéis das águias em fuga. Eles desabaram para a superfície do mar, e caíram estrondosamente em cima do Queequeg. Em momentos, éramos todos náufragos, pedalando na água, no meio de todos os itens que sobreviveram ao naufrágio.” Ela ficou em silêncio por um momento. “Fiona estava dão desesperada para alcançá-lo, Klaus”, disse ela. “Ela queria que você a perdoasse também.”
“Será que ela...” Klaus não aguentou terminar a pergunta. “Quero dizer, o que aconteceu em seguida?”
“Eu não sei”, admitiu Kit. “Das profundezas do mar, uma figura misteriosa se aproximou – quase como um ponto de interrogação, erguendo-se para fora da água.”
“Nós vimos aquilo em uma tela de radar”, lembrou-se Violet. “O capitão Andarré recusou-se a contar para nós o que era.”
“Meu irmão costumava chamar aquilo de ‘O Grande Desconhecido’“, disse Kit, segurando a barriga enquanto o bebê chutava violentamente. “Eu estava aterrorizada, irmãos Baudelaire. Rapidamente confeccionei um vaporetto segundo a técnica de Construção por Seleção de Cacos, como fui treinada a fazer.”
Vaporetto?”, perguntou Sunny.
“É um termo italiano para ‘barco’“, disse Kit. “Foi uma das muitas palavras italianas que Monty me ensinou. Um vaporetto confeccionado segundo a técnica de Construção por Seleção de Cacos é um modo de se salvar e salvar as suas coisas preferidas ao mesmo tempo. Juntei todos os livros ao meu alcance de que tinha gostado, jogando os maçantes no mar, mas todos os outros queriam se arriscar com o grande desconhecido. Implorei que subissem a bordo enquanto o ponto de interrogação se aproximava, mas somente Ink conseguiu me alcançar. Os outros...” Sua voz emudeceu e, por um momento, Kit não fez nada a não ser arquejar. “Um instante depois eles se foram – engolidos ou resgatados por aquela coisa misteriosa.”
“Você não sabe o que aconteceu com eles?”, perguntou Klaus.
Kit sacudiu a cabeça.
“Tudo o que ouvi”, disse ela, “foi um dos Quagmire chamando o nome de Violet.”
Sunny olhou no rosto da mulher transtornada.
“Quigley”, não pôde deixar de perguntar a mais jovem dos Baudelaire, “ou Duncan?”
“Eu não sei”, disse Kit novamente. “Sinto muito, irmãos Baudelaire. Eu os decepcionei. Vocês tiveram sucesso em suas nobres missões no Hotel Desenlace, e salvaram Dewey e os outros, mas não sei se tornaremos a ver os Quagmire e seus companheiros. Espero que vocês perdoem as minhas falhas, e quando eu reencontrar Dewey, espero que ele também me perdoe.”
Os órfãos Baudelaire se entreolharam tristemente, percebendo que afinal chegara a hora de contar a Kit Snicket a história inteira, como ela lhes contara.
“Perdoaremos as suas falhas”, disse Violet, “se você perdoar as nossas.”
“Nós também a decepcionamos”, disse Klaus. “Tivemos de atear fogo no Hotel Desenlace, e não sabemos se alguém escapou para um lugar seguro.”
Sunny tomou as mãos de Kit entre as suas.
“E Dewey está morto”, disse ela, e todos explodiram em lágrimas. Existe um tipo de pranto que espero que você nunca tenha vivenciado, e não é apenas pranto por uma coisa terrível que aconteceu, mas por todas as coisas terríveis que aconteceram, não só a você mas a todos os que você conhece e todos os que você não conhece, e até pessoas que você não quer conhecer, um pranto que não pode ser diluído por um feito de coragem ou uma boa palavra, mas unicamente por alguém que o ampare enquanto os seus ombros tremem e as lágrimas escorrem pelo seu rosto. Sunny segurou Kit, e Violet segurou Klaus, e por um minuto os quatro náufragos não fizeram nada além de chorar, deixando escorrer as lágrimas pelas suas faces para dentro do mar, que, há quem diga, não passa de uma biblioteca de todas as lágrimas da história. Kit e as crianças deixaram a sua tristeza juntar-se à tristeza do mundo, e choraram por todas as pessoas que estavam perdidas para eles. Eles choraram por Dewey Dénouement, pelos trigêmeos Quagmire, por todos os seus companheiros e tutores, amigos e associados, por todas as falhas que podiam perdoar e todas as perfídias que podiam suportar. Eles choraram pelo mundo e, mais que tudo, é claro, os órfãos Baudelaire choraram por seus pais a quem, sabiam, jamais voltariam a ver. Muito embora Kit Snicket não tivesse trazido notícias de seus pais, a história dela sobre o Grande Desconhecido os fez ver por fim que as pessoas que tinham escrito todos aqueles capítulos do Desventuras em Série haviam partido para dentro do grande desconhecido para sempre, e que Violet, Klaus e Sunny também seriam órfãos para sempre.
“Parem”, disse Kit finalmente por entre as lágrimas que cessavam pouco a pouco. “Parem de empurrar a balsa. Eu não posso continuar.”
“Nós temos de continuar”, disse Violet.
“Estamos quase na praia”, disse Klaus.
“A plataforma está inundando”, disse Sunny.
“Que inunde”, disse Kit. “Eu não posso, irmãos Baudelaire. Já perdi gente demais – meus pais, meu verdadeiro amor, meus irmãos.”
À menção dos irmãos de Kit, Violet lembrou-se de enfiar a mão no bolso, e tirou de lá o anel floreado, brasonado com a inicial R.
“Às vezes, coisas que você perdeu podem ser encontradas novamente em lugares inesperados”, disse ela, e ergueu o anel para Kit ver. A mulher transtornada tirou as luvas e segurou o anel na mão nua e trêmula.
“Isto não é meu”, disse ela. “Pertencia à sua mãe.”
“Antes de pertencer à nossa mãe”, disse Klaus, “pertenceu a você.”
“Sua história começou antes de nascermos”, disse Kit, “e deve continuar depois que morrermos. Deem o anel ao meu bebê, irmãos Baudelaire. Que o meu bebê seja parte da minha história, mesmo sendo um órfão e totalmente sozinho no mundo.”
“O bebê não estará sozinho”, disse Violet, arrebatada. “Se você morrer, Kit, nós criaremos essa criança como se fosse nossa.”
“Eu não poderia pedir nada melhor”, disse Kit mansamente. “Batizem o bebê com o nome de um dos seus pais, irmãos Baudelaire. É costume na minha família dar ao bebê o nome de alguém já falecido.”
“Na nossa também”, disse Sunny, lembrando-se de algo que seu pai lhe dissera quando ela perguntou sobre o seu próprio nome.
“Nossas famílias sempre foram próximas”, disse Kit, “mesmo tendo de ficar longe uma da outra. Agora, finalmente, estamos todos juntos, como se fôssemos uma só família.”
“Então deixe-nos ajudá-la”, disse Sunny, e, com um aceno de cabeça choroso e ofegante, Kit Snicket deixou os Baudelaire empurrarem o seu vaporetto confeccionado segundo a técnica de Construção por Seleção de Cacos para fora da plataforma costeira e para as praias da ilha, aonde mais cedo ou mais tarde tudo vai dar, bem quando o catamarã ia desaparecendo no horizonte. As crianças olharam para os ilhéus pela última vez – pelo menos até onde sei – e então para o cubo de livros, e tentaram imaginar como a mulher ferida, grávida e transtornada poderia ser levada a um lugar seguro para dar à luz.
“Você consegue descer?”, perguntou Violet.
Kit balançou a cabeça.
“Está doendo”, disse ela com a voz pastosa de fungos venenosos.
“Podemos carregá-la”, disse Klaus, mas Kit balançou a cabeça de novo.
“Sou pesada demais”, disse ela com a voz fraca. “Poderia escapar das mãos de vocês e machucar o bebê.”
“Podemos inventar um modo de descê-la para a praia”, disse Violet.
“Sim”, disse Klaus. “Podemos correr até o arboreto e achar o que precisamos.”
“Não dá tempo”, disse Sunny, e Kit balançou a cabeça concordando.
“O bebê está prestes a chegar”, disse ela. “Encontrem alguém para ajudá-los.”
“Estamos sozinhos”, disse Violet, mas então ela e seus irmãos olharam ao longe na praia onde a balsa aportara, e os Baudelaire viram, se arrastando para fora da tenda de Ishmael, a única pessoa por quem eles não tinham derramado uma lágrima sequer. Sunny deslizou para a areia, trazendo o caldeirão com ela, e as três crianças correram ladeira acima em direção à figura alquebrada do conde Olaf.
“Olá, órfãos”, disse ele, a voz ainda mais arquejante e áspera por causa do veneno do Mycelium Medusoide, que se alastrava. O vestido de Esmé tinha caído do seu corpo magrelo e ele rastejava na areia trajando suas roupas normais, segurando uma concha de cordial com uma das mãos e apertando o peito com a outra. “Vocês estão aqui para se curvar perante o rei de Olaflândia?”
“Não temos tempo para as suas asneiras”, disse Violet. “Precisamos da sua ajuda.”
A sobrancelha do conde Olaf se ergueu, e ele deu uma mirada atônita nas crianças.
“Vocês precisam da minha ajuda?”, perguntou ele. “O que aconteceu com todos aqueles ilhéus idiotas?”
“Eles nos abandonaram”, disse Klaus.
Olaf começou a arfar de um modo horripilante, e os irmãos levaram um momento para se dar conta de que ele estava rindo.
“Então, que tal lhes parece a atual conjuntura?”, disse, usando uma expressão que aqui significa: “Estou achando esta situação realmente notável”.
“Daremos maçãs”, disse Sunny fazendo um gesto para o caldeirão, “se você ajudar.”
“Não quero frutas”, rosnou Olaf, e tentou sentar-se, a mão ainda apertando o peito. “Quero a fortuna que os seus pais deixaram.”
“A fortuna não está aqui”, disse Violet. “Nenhum de nós nunca viu um centavo daquele dinheiro.”
“Mesmo se estivesse aqui”, disse Klaus, “você talvez não vivesse para desfrutá-la.”
“McGuffin”, disse Sunny, o que queria dizer: “Os seus esquemas não significam nada neste lugar”.
O conde Olaf levou a concha aos lábios, e os Baudelaire puderam ver que ele estava tremendo.
“Então talvez eu simplesmente fique por aqui”, roufenhou ele. “Já perdi demais para continuar – meus pais, meu verdadeiro amor, meus comparsas, uma quantidade enorme de dinheiro que não ganhei, e até o barco com o meu nome.”
As três crianças se entreolharam, lembrando-se do tempo passado naquele barco, quando tinham pensado em atirá-lo ao mar. Se Olaf tivesse se afogado no mar, talvez o Mycelium Medusoide jamais viesse a ameaçar a ilha, muito embora o fungo letal, mais cedo ou mais tarde, viria dar nas suas praias e, se o vilão estivesse morto, não haveria ninguém ali que pudesse ajudar Kit Snicket e seu bebê.
Violet se ajoelhou na areia e agarrou os ombros do vilão com ambas as mãos.
“Nós temos de continuar”, disse ela. “Faça uma única coisa boa na vida, Olaf.”
“Já fiz montes de coisas boas na minha vida”, rosnou ele. “Uma vez acolhi três órfãos, e já fui considerado para diversos prêmios teatrais de prestígio.”
Klaus se ajoelhou ao lado da irmã e olhou o vilão nos olhos brilhantes. “Em primeiro lugar, foi você quem nos tornou órfãos”, disse ele, pronunciando em voz alta pela primeira vez um segredo que os três Baudelaire vinham guardando em seus corações por quase tanto tempo quanto podiam se lembrar.
Olaf fechou os olhos por um momento, fazendo uma careta de dor, e depois olhou bem devagar para as três crianças, uma de cada vez. “E isso que vocês pensam?”, disse ele afinal.
“Nós sabemos”, disse Sunny.
“Vocês não sabem nada”, disse Olaf. “Vocês não mudaram desde que pus os olhos nos três pela primeira vez. Pensam que podem triunfar neste mundo sem nada além de uma mente aguda, uma pilha de livros e uma ocasional refeição gourmet.” Ele despejou um último gole de cordial na boca envenenada antes de atirar a concha na areia. “Vocês são exatamente iguais aos seus pais”, disse ele, e da praia as crianças ouviram os gemidos de Kit Snicket.
“Você tem de ajudar Kit”, disse Violet. “O bebê está chegando.”
“Kit?”, perguntou o conde Olaf e, com um gesto repentino, agarrou uma maçã do caldeirão e deu uma mordida selvagem. Ele mascou, encolhendo-se de dor, e os Baudelaire ouviram os seus arquejos se acalmarem, e o fungo venenoso foi diluído pela invenção de seus pais. Ele deu mais uma mordida, e mais outra, e então, com um grunhido horrível, o vilão se pôs em pé e as crianças viram que o seu peito estava empapado de sangue.
“Você está ferido”, disse Klaus.
“Já fui ferido antes”, disse o conde Olaf, e saiu cambaleando ladeira abaixo para entrar nas águas da plataforma costeira inundada. Com um gesto suave, ele ergueu Kit da balsa e carregou-a para as praias da ilha. Os Baudelaire correram para junto da amiga; os olhos da mulher transtornada estavam fechados e não dava para ter certeza se ela estava viva, até que Olaf a depositou cuidadosamente nas areias brancas da praia e as crianças viram o seu peito subir e descer com a respiração. O vilão ficou olhando para Kit por um longo momento, e então se inclinou para baixo e fez uma coisa estranha. Com os Baudelaire olhando, o conde Olaf beijou Kit Snicket gentilmente nos lábios trêmulos.
“Eca”, disse Sunny, enquanto os olhos de Kit estremeciam e se abriam.
“Eu falei”, disse Olaf fracamente. “Eu falei que ainda faria isso uma última vez.”
“Você é um homem mau”, disse Kit. “Você acha que uma boa ação vai me fazer perdoá-lo pelas suas falhas?”
O vilão se afastou com alguns passos cambaleantes, então sentou-se na areia e soltou um profundo suspiro.
“Eu não me desculpei”, disse ele, olhando primeiro para a mulher grávida e depois para os Baudelaire.
Kit estendeu o braço e tocou o tornozelo do homem, bem no olho tatuado que vinha assombrando as crianças desde que o viram pela primeira vez. Violet, Klaus e Sunny olharam para a tatuagem, lembrando-se de todas as vezes em que ela estivera disfarçada, e de todas as vezes em que fora revelada, e pensaram em todos os outros lugares em que a viram, pois, se você olhar com atenção, o desenho de um olho também forma as iniciais C.S.C. e quando as crianças investigaram a Corporação pelo Salvamento das Chamas, primeiro tentando decodificar os mistérios sinistros da organização e depois tentando participar das suas nobres missões, parecia que aqueles olhos as observavam, embora saber se eles eram nobres ou pérfidos, bons ou maus, permanece como um mistério até agora. A história inteira daqueles olhos, ao que tudo indica, pode ser sempre escondida das crianças, mantida nas trevas junto com todos os outros olhos que vigiam todos os outros órfãos, todos os dias e todas as noites.
“‘A noite tem mil olhos’“, disse Kit com a voz rouca, e ergueu a cabeça para encarar o vilão. Os Baudelaire perceberam pela voz dela que a amiga estava recitando as palavras de outra pessoa. ‘“E o dia apenas um; contudo, a luz do mundo radiante morre com o sol morrente. A mente tem mil olhos, o coração apenas um; porém, a luz de uma vida inteira morre quando é feito o amor.’“
O conde Olaf sorriu debilmente para Kit.
“Você não é a única pessoa capaz de recitar as palavras dos nossos associados”, disse ele, e então olhou ao longe para o mar. A tarde estava quase acabando e logo a ilha seria coberta pelas trevas. “‘O homem ao homem transmite a miséria’“, disse o vilão. “‘Ela se aprofunda qual plataforma costeira. Saia o mais cedo que puder...’“ Nesse momento ele tossiu, um som macabro, e suas mãos apertaram o peito. “‘E não tenha filhos você mesmo’“, terminou ele, emitindo uma risada curta e estridente. Então a história do vilão chegou ao fim. Olaf deitou-se na areia, longe da perfídia do mundo, e as crianças, em pé na praia, olharam para o seu rosto. Os olhos dele brilharam forte e a boca se abriu, como se quisesse contar-lhes alguma coisa, mas os Baudelaire não o ouviram dizer nem mais uma palavra.
Kit deu um grito de dor, pastoso de fungos venenosos, e segurou a barriga arfante, e os Baudelaire correram para ajudá-la. Eles nem notaram quando o conde Olaf fechou os olhos pela última vez, e talvez este seja um bom momento para você também fechar os seus, não apenas para evitar o fim da história dos Baudelaire, mas para imaginar o começo de uma outra. É provável que os seus olhos estivessem fechados quando você nasceu, abandonando o lugar seguro do útero da sua mãe – ou, se você for um cavalo-marinho, o saco vitelino do seu pai – e se juntando à perfídia do mundo sem ver exatamente aonde estava indo. Você ainda não conhecia as pessoas que o estavam ajudando a chegar até aqui, ou as pessoas que o acolheriam assim que sua vida começasse, quando você era ainda menor, mais delicado e exigente do que é agora. Parece estranho que você tivesse feito uma coisa dessas e deixado a si mesmo sob os cuidados de estranhos por tanto tempo, só abrindo os olhos pouco a pouco para ver o motivo de todo aquele alvoroço – e, contudo, é desse modo que quase todas as pessoas vêm ao mundo. Talvez se víssemos o que está à nossa frente, e tivéssemos um vislumbre dos crimes, desatinos e desventuras que acontecerão conosco mais adiante, ficaríamos no útero da nossa mãe, e então não haveria mais ninguém no mundo a não ser um grande número de mulheres muito gordas e muito irritadas. Qualquer que seja o caso, é assim que todas as nossas histórias começam, nas trevas com os olhos fechados, e todas as nossas histórias terminam também, com todos nós pronunciando nossas últimas palavras – ou talvez as de outro alguém – antes de escorregar de volta para as trevas enquanto as nossas desventuras em série chegam ao fim. E deste modo, com a jornada iniciada pelo bebê de Kit Snicket, chegamos ao fim das Desventuras em Série. Por algum tempo, o trabalho de parto de Kit Snicket foi muito difícil, e às crianças pareceu que as coisas estavam tomando um rumo aberrante – a palavra “aberrante” aqui significa “muito, muito errado e causando muito pesar”. Mas, finalmente, veio ao mundo uma menininha, ao mesmo tempo que, lamento muito, muito dizer, sua mãe e minha irmã escorregava para fora do mundo depois de uma longa noite de sofrimento – mas uma noite igualmente de alegria, pois o nascimento de um bebê é sempre uma boa notícia, não importam quantas más notícias esse bebê ouvirá no futuro. O sol ergueu-se sobre a plataforma costeira, que não iria ser novamente inundada por mais um ano, e os órfãos Baudelaire seguraram a bebezinha na praia e viram os seus olhos se abrirem pela primeira vez. A filha de Kit Snicket apertou os olhinhos para a alvorada e tentou imaginar onde é que estava, e é claro que, quando se perguntou isso, começou a chorar. A menina, batizada com o nome da mãe dos Baudelaire, gritou e gritou, e, ao começarem as suas desventuras em série, termina esta história dos órfãos Baudelaire.
Isso não quer dizer que os órfãos Baudelaire morreram naquele dia. Estavam ocupados demais para isso. Embora ainda fossem crianças, os Baudelaire agora eram pais, e havia um bocado de coisas para fazer. Violet projetou e construiu o equipamento necessário para criar um bebê, usando a biblioteca de detritos armazenada à sombra da macieira. Klaus esquadrinhou a enorme estante de livros à procura de informações sobre educação infantil e acompanhava cuidadosamente o progresso da menininha. Sunny cuidava dos carneiros selvagens e da ordenha, para nutrir a bebê, e usava o batedor que Sexta-Feira lhe dera para preparar alimentos macios quando os dentes da criancinha começaram a aparecer. E todos os três Baudelaire plantaram sementes das maçãs amargas por toda a ilha, para expulsar quaisquer vestígios do Mycelium Medusoide – muito embora se lembrassem de que ele crescia melhor em espaços pequenos e fechados – e assim o fungo letal não teria chance de fazer mal à criança, e a ilha permaneceria segura como era no dia em que chegaram. Essas tarefas tomavam o dia inteiro e, à noite, enquanto a bebê estava aprendendo a dormir, os Baudelaire sentavam-se juntos nas duas grandes poltronas de leitura e se revezavam para ler em voz alta o livro que os pais tinham deixado para trás; às vezes, eles pulavam para o fim e acrescentavam umas poucas linhas à história por conta própria. Enquanto liam e escreviam, os irmãos encontraram muitas respostas que estiveram procurando, apesar de cada resposta só trazer mais um mistério, pois havia muitos detalhes da vida dos Baudelaire que pareciam uma estranha, ilegível forma de algum grande desconhecido. No entanto, isso não os preocupava tanto quanto você poderia pensar. Não se pode ficar sentado para sempre resolvendo os mistérios da própria história e, não importa quanto se lê, a história inteira jamais poderá ser contada. Mas era o suficiente. Ler as palavras dos pais, naquelas circunstâncias, era o melhor que os órfãos Baudelaire poderiam esperar.
Quando a noite ia mais avançada, eles caíam no sono, assim como seus pais faziam, nas poltronas do espaço secreto embaixo das raízes da macieira amarga, no arboreto de uma ilha distante, muito distante da perfídia do mundo. Algumas horas depois, a bebê acordava e preenchia o espaço com gritos confusos e famintos. Os Baudelaire se revezavam e, enquanto as outras duas crianças dormiam, um Baudelaire carregava a bebezinha em uma tipoia que Violet projetara, para fora do arboreto e para o alto da escarpa, onde se sentavam, criança e seu pai ou sua mãe, e tomavam o desjejum olhando para o mar. Às vezes eles visitavam o túmulo de Kit Snicket, onde depositavam algumas flores silvestres, ou o túmulo do conde Olaf, onde simplesmente ficavam em silêncio por alguns momentos. De muitos modos, a vida dos órfãos Baudelaire naquele ano não era muito diferente da minha própria, agora que concluí minha investigação. Como Violet, como Klaus e como Sunny, eu visito certos túmulos, e muitas vezes passo minhas manhãs sobre uma escarpa, olhando para o mesmo mar. Não é a história inteira, é claro, mas é o suficiente. Nessas circunstâncias, é o melhor que se pode esperar.


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