terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo três


Existem lugares onde o mundo é sereno, mas o enorme saguão do Hotel Desenlace não era um deles. No dia em que os Baudelaire subiram a escadaria através da névoa branca do funil e entraram na grande arcada curva identificada como AꓷAЯTИꓱ – ou, no reflexo da enorme lagoa, ENTRADA –, o saguão fervilhava de atividade. Como Kit Snicket previra, os Baudelaire conseguiram passar despercebidos no hotel, porque todo mundo estava ocupado demais para reparar em qualquer coisa. Os hóspedes enfileiravam-se na frente de um enorme balcão de recepção – que por algum motivo tinha o número 101 brasonado na parede acima dele – para poder se registrar no hotel e ir para o quarto descansar. Mensageiros e mensageiras empilhavam montes de bagagens em carrinhos e os empurravam para os elevadores – que por algum motivo tinham o número 118 brasonado nas portas – para poder descarregar as malas nos quartos dos hóspedes e receber as gorjetas. Garçons e garçonetes levavam comida e bebida a pessoas sentadas nas cadeiras e bancos do saguão. Motoristas de táxi introduziam hóspedes no hall para entrar na fila, e cães arrastavam seus donos para fora do hotel para passear. Turistas confusos, em pé pelo saguão, olhavam para mapas em cômica perplexidade, e crianças indisciplinadas brincavam de esconde-esconde entre os vasos de plantas. Um homem de smoking, sentado a um piano de cauda brasonado com o número 152, tocava melodias tilintantes para entreter quem se interessasse em ouvir, e pessoas da equipe de limpeza poliam discretamente os pisos verdes de madeira gravados com o número 123, para quem se interessasse em ver os pés refletidos a cada passo. Havia uma enorme fonte em um canto do salão, da qual jorrava uma cascata de água que escorria por cima do número 131 que estava gravado em uma parede lisa e lustrosa, e havia uma mulher enorme no canto oposto, em pé sobre o número 176, bradando repetidamente um nome de homem em um tom de voz cada vez mais irritado. Os Baudelaire tentaram ser flâneurs enquanto andavam em meio ao caos do hotel, mas havia tanta coisa a observar, e tudo se mexia tão depressa que eles se perguntaram como poderiam começar a nobre incumbência.
“Eu não tinha ideia de que este lugar estivesse tão movimentado”, disse Violet, piscando atrás dos seus óculos escuros.
“Como diabos vamos conseguir espiar o impostor”, ponderou Klaus, “entre todos esses possíveis suspeitos?”
“Frank primeiro”, disse Sunny.
“Sunny está certa”, disse Violet. “O primeiro passo em nossa incumbência deveria ser localizar o nosso novo chefe. Se ele viu o nosso sinal daquela janela aberta, deve estar aguardando por nós.”
“A não ser que o seu irmão vilanesco Ernest esteja aguardando por nós no lugar dele”, disse Klaus.
“Ou ambos”, disse Sunny.
“Por que você acha que há tantos números...”, Violet começou a perguntar, mas antes que pudesse concluir a pergunta um homem veio saltitando na direção deles. Era muito alto e magro e seus braços e pernas se projetavam em ângulos esquisitos, como se ele fosse feito de canudinhos de refresco em vez de carne e osso. Vestia um uniforme semelhante ao dos Baudelaire, mas com a palavra GERENTE bordada em letras elegantes por cima de um dos bolsos do casaco.
“Vocês devem ser os novos concierges”, disse ele. “Bem-vindos ao Hotel Desenlace. Eu sou um dos gerentes.”
“Frank”, perguntou Violet, “ou Ernest?”
“Exatamente”, disse o homem, e piscou para eles. “Fico muito contente por vocês três estarem aqui, mesmo um de vocês sendo de estatura tão inusitadamente baixa, pois estamos inusitadamente carentes de mão-de-obra. Estou tão ocupado que vocês terão de descobrir sozinhos como funciona o sistema.”
“Sistema?”, perguntou Klaus.
“Este lugar é tão complicado quanto é enorme”, disse Frank, ou talvez Ernest, “e vice-versa. Eu detestaria pensar no que poderia acontecer se vocês não o entenderem.”
Os Baudelaire olharam cautelosos para o seu novo gerente, mas o rosto dele era absolutamente insondável, uma palavra que aqui significa “sem expressão nenhuma, de modo que os Baudelaire não podiam saber se ele estava lhes oferecendo um aviso amigável ou uma ameaça sinistra”.
“Tentaremos fazer o melhor que pudermos”, disse Violet, baixinho.
“Bom”, disse o gerente, levando as crianças para o outro lado do enorme saguão. “Vocês ficarão ao inteiro dispor dos nossos hóspedes”, continuou ele, usando uma frase que significava que os hóspedes iriam mandar e desmandar nos Baudelaire. “Se alguma pessoa, ou todas as pessoas aqui hospedadas, pedir ou pedirem ajuda, vocês imediatamente se oferecerão para ajudar.”
“Desculpe, senhor”, interrompeu um dos mensageiros. Estava segurando uma mala em cada mão com uma expressão confusa. “Esta bagagem chegou em um táxi, mas o motorista disse que o hóspede só vai chegar na quinta-feira. O que devo fazer?”
“Quinta-feira?”, disse Frank ou Ernest franzindo a testa. “Com licença, concierges. Acho que não preciso lhes dizer o quanto isso é importante. Volto logo.”
O gerente foi atrás do mensageiro no meio da multidão, deixando os Baudelaire sozinhos ao lado de um grande banco de madeira identificado com o número 128. Klaus correu a mão ao longo do banco, que tinha marcas circulares deixadas por pessoas que depositavam ali suas taças sem usar descansos para copos.
“Você acha que estávamos falando com Frank”, disse Klaus, “ou com Ernest?”
“Não sei”, disse Violet. “Ele usou a palavra ‘voluntário’. Talvez seja algum tipo de código.”
“Quintinteresse”, disse Sunny, o que queria dizer “Ele sabia que a quinta-feira era importante.”
“É verdade”, disse Klaus, “mas é importante para ele porque é um voluntário, ou porque é um vilão?”
Antes que qualquer das irmãs Baudelaire pudesse arriscar um palpite, uma expressão que aqui significa “tentar responder à pergunta de Klaus”, o gerente alto e magricelo reapareceu ao lado deles.
“Vocês devem ser os novos concierges”, disse ele, e as crianças se deram conta de que aquele era o outro irmão. “Bem-vindos ao Hotel Desenlace.”
“Você deve ser Ernest”, tentou Violet.
“Ou Frank”, disse Sunny.
“Sim”, disse o gerente, muito embora não estivesse nada claro com quem ele estava concordando. “Estou muito grato por vocês três estarem aqui. O hotel está muito cheio no momento, e estamos esperando mais hóspedes para quinta-feira. Agora, vocês vão ficar postados no balcão de concierges, número 175, logo ali. Sigam-me.”
As crianças seguiram-no até a parede oposta do lobby, onde havia um grande balcão de madeira bem abaixo do número 175, que fora pintado acima de uma enorme janela. Sobre o balcão havia uma pequena luminária em forma de rã, e através da janela as crianças podiam ver o horizonte cinzento e plano do mar.
“Temos uma lagoa de um lado”, disse Ernest, a não ser, é claro, que fosse Frank, “e o mar do outro. Não parece muito seguro, e no entanto algumas pessoas acham que este é sem dúvida um lugar muito seguro.” Frank, a não ser que fosse Ernest, olhou em volta apressadamente e baixou o tom de voz. “O que vocês acham?”
Mais uma vez, o rosto do gerente estava insondável, e as crianças não sabiam dizer se a sua referência a um lugar seguro fazia dele um voluntário ou um vilão.
“Humm”, disse Sunny, o que muitas vezes é uma resposta segura, apesar de na realidade não ser de todo uma resposta.
“Humm”, disse Frank ou Ernest em resposta. “Agora, deixem-me explicar como este hotel é organizado.”
“Desculpe, senhor”, disse uma mensageira, cujo rosto não dava para ver atrás da pilha de jornais que carregava. “A última edição d’O Pundonor Diário chegou.”
“Deixe-me ver”, disse ou Ernest ou Frank, pinçando um exemplar do topo da pilha. “Ouvi dizer que Geraldine Julienne escreveu uma matéria atualizada sobre o caso Baudelaire.”
Os órfãos Baudelaire ficaram paralisados, mal se atrevendo a olhar um para o outro, que dizer para o voluntário ou vilão em pé na frente deles, lendo a manchete em voz alta.
‘“RUMORES ALERTAM: IRMÃOS BAUDELAIRE DE VOLTA À CIDADE’“, disse ele. “‘Conforme informação recentemente descoberta por esta repórter ao abrir um biscoito, Verônica, Klyde e Susie Baudelaire, os notórios assassinos do renomado ator conde Olaf, estão de volta à cidade, talvez para cometer mais assassinatos cruéis, ou para continuar com o seu mais recente passatempo: provocar incêndios criminosos. Aconselha-se aos cidadãos que fiquem alerta a essas três crianças sedentas de sangue e que as denunciem às autoridades quando avistadas. Se não forem avistadas, aconselha-se aos cidadãos que nada façam.’“ O gerente voltou-se para os Baudelaire, o rosto insondável como sempre. “O que vocês acham disso, concierges?
“Esta é uma pergunta interessante”, replicou Klaus, com mais uma resposta muito segura.
“Fico feliz por você achá-la interessante”, retrucou Ernest ou Frank, com uma resposta igualmente segura para a resposta segura de Klaus. Ele então voltou-se para a mensageira. “Vou lhe mostrar a banca de jornais na Sala 168”, disse ele, e desapareceu com os jornais no meio da multidão, deixando os Baudelaire sozinhos, em pé junto ao balcão e olhando para o mar.
“Acho que esse era Ernest”, disse Violet. “Seu comentário sobre a segurança do hotel soou muito sinistro.”
“Mas ele não pareceu ficar alarmado com a matéria d’O Pundonor Diário”, disse Klaus. “Se Ernest é um inimigo de C.S.C. ele deve estar prevenido contra nós. Portanto aquele homem provavelmente era Frank.”
“Talvez ele simplesmente não tenha nos reconhecido”, disse Violet. “Afinal, poucas pessoas reconhecem o conde Olaf quando ele está disfarçado, e seus disfarces não são muito melhores que os nossos. Talvez estejamos mais parecidos com concierges do que com os irmãos Baudelaire.”
“Ou talvez não estejamos parecidos de todo com os irmãos Baudelaire”, disse Klaus. “Como disse Kit, não somos mais crianças.”
“Nidícola”, disse Sunny, o que queria dizer algo do gênero de “Eu acho que ainda sou criança”.
“É verdade”, admitiu Klaus sorrindo para a irmã, “porém, quanto mais velhos ficamos, menor a probabilidade de que sejamos reconhecidos.”
“Isso irá facilitar as nossas incumbências”, disse Violet.
“O que você quer dizer com isso?”, perguntou uma voz familiar, e os Baudelaire viram que ou Frank ou Ernest havia retornado.
“O que a minha colega queria dizer”, respondeu Klaus, pensando depressa, “é que para nós seria mais fácil começar o nosso trabalho como concierges se nos explicasse como o hotel é organizado.”
“Acabei de dizer que faria isso”, disse Frank num tom de voz aborrecido, ou Ernest num tom de voz irritado. “Depois que vocês entenderem como funciona o Hotel Desenlace, serão capazes de desempenhar suas incumbências com a mesma facilidade com que encontrariam um livro em uma biblioteca. E se vocês sabem como encontrar um livro em uma biblioteca, então já sabem como este hotel funciona.”
“Elucide”, disse Sunny.
“O Hotel Desenlace é organizado de acordo com o Sistema Decimal Dewey”, explicou Frank ou Ernest. “É o mesmo modo de organização dos livros em muitas bibliotecas. Por exemplo, se vocês quisessem encontrar um livro sobre poesia alemã, começariam na seção da biblioteca marcada com o número 800, que contém livros sobre literatura e retórica. De modo similar, o oitavo andar deste hotel é reservado aos nossos hóspedes retóricos. Dentro da seção 800 de uma biblioteca, vocês encontrariam livros sobre poesia alemã rotulados com o número 831, e se tomassem o elevador e entrassem no quarto 831, encontrariam uma reunião de poetas alemães. Entenderam?”
“Acho que sim”, disse Klaus. Os três Baudelaire tinham passado tempo suficiente em bibliotecas para estar familiarizados com o Sistema Decimal Dewey, porém mesmo a vasta experiência de Klaus em pesquisas não significava que ele guardara na memória o sistema inteiro. Não é necessário, é claro, memorizar o Sistema Decimal Dewey a fim de usar uma biblioteca, porque a maioria das bibliotecas possui catálogos, nos quais todos os livros estão listados em fichas ou em uma tela de computador para torná-los fáceis de encontrar. “Onde podemos encontrar o catálogo dos serviços do Hotel Desenlace?”
“Catálogo?”, repetiu Frank ou Ernest. “Vocês não vão precisar de um catálogo. Toda a seção 100 de uma biblioteca é dedicada à filosofia e à psicologia, assim como o primeiro andar do nosso hotel, do balcão de recepção, que é rotulado como 101, ou teoria da filosofia, ao balcão de concierges, que é rotulado como 175, ou ética da recreação e do lazer, e até os sofás ali adiante, que são rotulados como 135, ou sonhos e mistérios, caso os nossos hóspedes desejem dar um cochilo ou esconder alguma coisa embaixo das almofadas do sofá. O segundo andar é dos 200, ou religião, e ali temos uma igreja, uma catedral, uma capela, uma sinagoga, uma mesquita, um templo, um santuário, uma quadra de malha, e o quarto 296, atualmente ocupado por um rabino meio excêntrico. O terceiro andar é das ciências sociais, onde se encontram os salões de baile e as salas de reunião; o quarto andar é dedicado à linguagem, portanto a maioria dos nossos estrangeiros fica lá. Os 500 são dedicados à matemática e à ciência, e o sexto andar é dedicado à tecnologia, da sauna na Sala 613, que representa o fomento à saúde, à Sala 697, que é onde mantemos os controles de aquecimento, ventilação e ar-condicionado. Agora, se o sétimo andar representa as artes, o que vocês acham que vamos encontrar na Sala 792, que representa as apresentações cênicas?”
Violet quis amarrar o cabelo com uma fita para ajudá-la a pensar, mas ficou com medo de ser reconhecida.
“Um teatro?”, disse ela.
“Você obviamente já visitou uma biblioteca antes”, disse o gerente, muito embora as crianças não pudessem dizer se ele as estava elogiando ou ficando desconfiado. “Receio que isto não se aplique a todos os nossos hóspedes. Então, quando eles precisam de algum dos serviços de vocês, eles tocam a sineta para chamar um ou uma concierge em vez de ficar perambulando sozinhos pelo hotel. Amanhã ou depois de amanhã, no mais tardar, vocês provavelmente terão percorrido cada seção do hotel, do observatório astronômico na Sala 999 ao alojamento dos empregados no subsolo, Sala 000.”
“É lá que vamos dormir?”, perguntou Klaus.
“Bem, o turno de vocês é de vinte e quatro horas por dia”, disse Ernest, ou talvez tenha sido Frank. “Mas o hotel fica muito silencioso à noite, quando os hóspedes vão dormir, ou passam a noite inteira acordados lendo. Vocês podem tirar um cochilo atrás do balcão, e quando alguém tocar a sineta, ela servirá de despertador.”
Frank parou de falar, ou quem sabe tenha sido Ernest, e correu os olhos rapidamente pelo salão antes de se inclinar para perto dos Baudelaire. Os três irmãos, nervosos, olharam de volta para Ernest através dos seus óculos escuros, ou talvez tenha sido para Frank.
“A posição de concierge”, disse ele em seu tom insondável, “constitui uma excelente oportunidade para observar silenciosamente os arredores. As pessoas tendem a tratar os funcionários do hotel como se fossem invisíveis, portanto vocês terão a oportunidade de ver e ouvir um bocado de coisas interessantes. No entanto, vocês devem se lembrar de que também terão muitas oportunidades de ser observados. Será que fui claro?”
Dessa vez foi Violet que precisou dar uma resposta segura.
“Humm”, disse ela. “Esta é uma pergunta interessante.”
Fosse Frank ou Ernest, ele apertou os olhos para a mais velha dos Baudelaire, e parecia estar prestes a dizer alguma coisa quando os órfãos subitamente ouviram alguns sons fortes e penetrantes.
“A-rá!”, exclamou o gerente. “O trabalho começou!”
Os irmãos deram a volta, seguindo Ernest ou Frank, até o outro lado do balcão, e Frank ou Ernest apontou para uma grande rede de sinetas diminutas, cada qual não maior que um dedal, que forravam a parte de trás de um balcão, onde deveriam estar puxadores de gavetas. Cada sineta tinha um número, de 000 a 999, com uma sineta extra que não tinha número nenhum. Aquela sineta extra estava tocando, juntamente com a sineta de número 371 e a sineta de número 674.
“Tocando!”, exclamou ele, fosse Ernest ou Frank. “Tocando! Eu não deveria precisar dizer a vocês que a sineta é o sinal. Não podemos deixar os nossos hóspedes esperando nem por um instante. Vocês podem saber qual hóspede está chamando pelo número da sineta. Se o número escrito na sineta for 469, por exemplo, vocês ficam sabendo que um dos nossos hóspedes portugueses requer a sua ajuda. Vocês estão prestando atenção? A sineta número 674 se refere aos nossos associados na indústria madeireira, assim como o número 674 significa processamento de madeira ou produtos de madeira no Sistema Decimal Dewey. Não podemos transformar em inimigos os nossos hóspedes importantes! O número 371 indica hóspedes educacionais. Por favor, sejam gentis com eles também, muito embora sejam muito menos importantes. Atendam a todos os nossos hóspedes, sempre que ouvirem aquela sineta!”
“Mas a que se refere aquela sineta sem identificação?”, perguntou Klaus. “O Sistema Decimal Dewey não vai além de 999.”
O gerente fechou a cara, como se o Baudelaire do meio tivesse lhe dado a resposta errada.
“É do salão de bronzeamento da cobertura”, disse ele. “As pessoas que tomam banho de sol normalmente não estão interessadas em biblioteconomia, portanto não são tão exigentes quanto à localização do salão. Agora, mexam-se!”
“Mas aonde vamos primeiro?” disse Violet. “Há hóspedes requerendo ajuda em três lugares ao mesmo tempo.”
“Vocês vão ter de se separar, é claro”, respondeu Frank ou Ernest, tão insondável como sempre. “Cada concierge escolhe um hóspede e corre para o local indicado. Peguem os elevadores – eles estão no 118, ou força e energia.”
“Desculpe, senhor”, disse mais um mensageiro, dando um tapinha nas costas de Ernest ou Frank. “Um banqueiro está ao telefone, e quer falar com um dos gerentes imediatamente.”
“É melhor eu ir trabalhar”, disse o gerente, “e vocês também, concierges. Circulando!!”
“Circulando” é uma expressão usada por pessoas incapazes da cortesia de dizer alguma coisa mais polida, como Se você não precisa de mais nada, tenho de ir, ou Sinto muito, mas vou ter de lhe pedir que vá embora, por favor, ou até mesmo Desculpe, mas creio que você confundiu a minha casa com a sua, e os meus mais valiosos pertences com os seus, e devo solicitar-lhe que me devolva os itens em causa, e saia da minha casa, depois de me desamarrar desta cadeira, pois não consigo fazer isso sozinho, se não for incômodo. As crianças não ficaram felizes em ser dispensadas de um modo tão grosseiro, nem ficaram felizes em saber que o emprego como concierge iria envolver um método organizacional tão complicado em um hotel tão imenso e desconcertante. Eles não ficaram felizes por não ter conseguido distinguir entre o gerente que era Frank e o que era Ernest, e não ficaram felizes em saber que O Pundonor Diário estava alertando os cidadãos da cidade sobre a chegada dos Baudelaire, e com o fato de que alguém poderia reconhecê-los a qualquer momento e mandar prendê-los pelos crimes que não tinham cometido. Porém, mais que tudo, os Baudelaire não ficaram felizes com a ideia de se separar e desempenhar incumbências diferentes naquele hotel desconcertante. Eles esperavam desempenhar suas obrigações como concierges flâneurs juntos, e a cada passo na direção dos elevadores ficavam mais infelizes com a ideia de deixar os outros para trás.
“Eu vou para o salão de bronzeamento da cobertura”, disse Violet tentando ser valente. “Klaus, por que você não fica com o quarto 674, e você, Sunny, com o quarto 371? Vamos nos encontrar no balcão de concierges quando terminarmos.”
“Desse jeito, conseguiremos observar mais”, disse Klaus, esperançoso. “Se nós três ficarmos em andares diferentes, poderemos encontrar o impostor muito mais depressa.”
“Inseguro”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa parecida com “Eu prefiro não encontrar o impostor se estiver sozinha”.
“Você estará em segurança, Sunny”, disse Klaus. “Este hotel é muito parecido com uma grande biblioteca.”
“Sim”, disse Violet. “E qual é a pior coisa que pode acontecer em uma biblioteca?”
Os dois Baudelaire mais jovens não responderam, e os três concierges ficaram em silêncio por alguns momentos, olhando fixamente para uma pequena placa perto das portas deslizantes dos elevadores. Quando um par de portas finalmente se abriu, as crianças entraram e pressionaram os botões apropriados para chegar a seus hóspedes, e quando o pequeno elevador começou a subir, lembraram-se do poço do elevador na Avenida Sombria 667que fora preciso escalar diversas vezes. Os Baudelaire tinham aprendido qual a pior coisa que pode acontecer em um poço de elevador, que era ser atirado num deles por uma namorada vilanesca. Os Baudelaire tinham aprendido qual a pior coisa que pode acontecer em uma serraria, que era ser forçado a causar um acidente violento por meio do poder sinistro do hipnotismo. E os Baudelaire tinham aprendido qual a pior coisa que pode acontecer em uma escola, que era encontrar alguns amigos queridos, somente para vê-los arrastados para longe em um comprido automóvel negro. Os órfãos tinham aprendido qual a pior coisa na casa de um herpetologista, e qual a pior coisa numa cidade pequena, e num hospital, e num parque de diversões, e no pico de uma montanha, e num submarino, e numa caverna, e no meio das correntezas de uma torrente impetuosa, e dentro do porta-malas de um carro, e num fosso cheio de leões, e numa passagem secreta, e em muitos, muitos outros lugares sinistros nos quais preferiam nem pensar.
Em todos esses perigos que encontraram, e nos incontáveis outros perigos além desses, eles sempre acharam uma biblioteca de um tipo ou de outro, onde conseguiram descobrir as informações necessárias para salvar a pele, uma expressão que aqui significa “mantê-los vivos para o próximo capítulo terrível de suas vidas”. Mas agora o novo lar dos Baudelaire era uma biblioteca – estranha, é claro, mas mesmo assim uma biblioteca –, e, enquanto o elevador silencioso os conduzia aos seus diversos destinos, eles não sentiram vontade de perguntar a si mesmos qual a pior coisa que poderia acontecer em uma biblioteca, especialmente depois de ler as primeiras quatro palavras da pequena placa afixada na parede. EM CASO DE INCÊNDIO, dizia a placa; e, enquanto os órfãos Baudelaire seguiam cada um o seu caminho, não sentiram vontade nenhuma de pensar naquilo.

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