sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo três


A expressão “me arrepia o madeirame!” vem da cultura dos piratas, que se divertem com expressões interessantes quase na mesma medida em que gostam de pular a bordo de navios de outras pessoas e roubar seus objetos de valor. Expressa extremo assombro e é usada em circunstâncias nas quais a pessoa se sente como se seus próprios ossos, ou o “madeirame”, se arrepiassem. A última vez que usei essa expressão foi numa noite chuvosa em que, perplexo, precisei me fingir de pirata, mas quando o capitão Andarré contou aos Baudelaire para onde o Queequeg estava indo e o que procurava, surgiu a oportunidade perfeita para pronunciar aquelas palavras.
“Me arrepia o madeirame!”, gritou Sunny.
“O seu madeirame?!”, gritou de volta o capitão. “Então os Baudelaire estão praticando a pirataria? Positivo! Céus! Se seus pais soubessem que vocês estavam roubando tesouros de outras...”
“Nós não somos piratas, capitão Andarré”, disse rápido Violet. “Sunny está apenas usando uma expressão que aprendeu em um filme antigo. Ela só queria dizer que nós ficamos surpresos.”
“Surpresos?” O capitão começou a andar de um lado para o outro na frente deles, fazendo sua roupa à prova d’água enrugar-se a cada passo. “Vocês acham que o Queequeg fez todo esse esforço para navegar contra a corrente do Arroio Enamorado até aqui só para minha diversão pessoal? Vocês acham que eu iria enfrentar um perigo tão terrível simplesmente porque não tinha outros planos para esta tarde? Positivo? Vocês acham que deram com nosso periscópio por uma coincidência maluca? Positivo? Vocês acham que esse uniforme me faz parecer mais gordo? Positivo? Vocês acham que os membros de C.S.C, iriam ficar sentados, girando os polegares, enquanto a traição do conde Olaf recobre a Terra como a crosta de uma torta recobre o recheio? Positivo?”
“Você estava procurando por nós?”, perguntou Klaus, assombrado. Ele sentiu-se tentado a dizer “me arrepia o madeirame!”, como a irmã, mas não quis alarmar ainda mais o capitão.
“Por vocês!”, bradou o capitão. “Positivo! Pelo açucareiro! Positivo! Por justiça! Positivo! E liberdade! Positivo! Por uma oportunidade de deixar o mundo em paz! Positivo! E em segurança! Positivo! E talvez só até quinta-feira! Positivo! Estamos em grande perigo! Positivo! Portanto, mãos à obra!”
“Mistificaeu!”, gritou Sunny.
“Minha irmã está confusa”, disse Violet, “e também nós, capitão Andarré. Se pudéssemos apenas parar por um momento e ouvir sua história desde o começo...”
“Parar por um momento?”, repetiu o capitão, atônito. “Acabo de explicar nossas circunstâncias desesperadoras, e você me pede para vacilar? Minha querida menina, lembre-se da minha filosofia de vida! Positivo! Aquele ou aquela que vacila está perdido! Agora vamos lá!”
As crianças se entreolharam frustradas. Elas não queriam ir e vir mais do que já vinham indo e vindo. Os órfãos Baudelaire tinham a sensação de estar num incessante vaivém desde aquele dia terrível na praia, quando suas vidas foram viradas de ponta-cabeça. Eles foram de mudança para a casa do conde Olaf, e depois para a casa de diversos tutores. Eles foram para fora de uma cidade que tencionava queimá-los na fogueira, e foram para um hospital que explodira em chamas à sua volta. Eles foram para o sertão no porta-malas do carro do conde Olaf, e foram para fora do sertão disfarçados. Eles foram Montanhas de Mão-Morta acima, esperando encontrar um de seus pais, e depois Montanhas de Mão-Morta abaixo, achando que nunca mais iriam vê-los, e agora que vieram parar em um minúsculo submarino no Arroio Enamorado, queriam parar de ir e vir, só um pouquinho, e receber algumas respostas para as perguntas que vinham se fazendo desde que todo esse vaivém começara.
“Padrasto”, disse Fiona gentilmente, “por que você não aciona os motores do Queequeg enquanto eu mostro aos Baudelaire onde estão os uniformes de reserva?”
“Eu sou o capitão!”, anunciou o capitão. “Quem dá as ordens aqui sou eu!” Então ele encolheu os ombros e apertou os olhos na direção das crianças. Pela primeira vez, os Baudelaire repararam numa escada de corda pendurada junto à parede lateral. Levava a uma pequena plataforma, onde as crianças podiam ver uma grande roda, usada provavelmente para manobrar o submarino, e umas poucas alavancas e chaves de metal enferrujado, cujo propósito era bizantino, uma palavra que aqui significa “tão complicado que talvez até mesmo Violet Baudelaire teria dificuldade em manusear”. “Ordeno a mim mesmo que suba a escada”, continuou um pouco envergonhado o capitão, “e acione os motores do Queequeg.” Com um último “positivo!” o capitão tratou de alçar-se para o teto, e os Baudelaire ficaram sozinhos com Fiona e Phil.
“Vocês devem estar exaustos, jovens Baudelaire”, disse Phil. “Lembro-me do primeiro dia a bordo do Queequeg. Fez a Serraria Alto-Astral parecer calma e tranquila!”
“Phil, que tal servir uns refrigerantes para os Baudelaire enquanto eu encontro uniformes para eles?”, disse Fiona.
“Refrigerantes?”, disse Phil com uma olhadela nervosa para o capitão, que já estava na metade da escada. “Não deveríamos guardar os refrigerantes para uma ocasião especial?”
“Esta é uma ocasião especial”, disse Fiona. “Estamos dando as boas-vindas a mais três voluntários a bordo. Que tipo de refrigerante vocês preferem, irmãos Baudelaire?”
“De qualquer coisa, menos de salsa”, disse Violet, referindo-se a uma bebida apreciada por Esmé Squalor.
“Vou trazer alguns de lima limão”, disse Phil. “Os marinheiros devem sempre se assegurar de que haja cítricos em abundância em seu organismo. Estou tão contente em rever vocês, crianças. Sabem, eu não estaria aqui se não fossem vocês. Fiquei tão horrorizado depois do que aconteceu em Paltryville que não pude mais continuar na Alto-Astral, e desde então minha vida tem sido uma grande aventura!”
“Sinto muito por sua perna não ter sarado”, disse Klaus, referindo-se ao andar claudicante de Phil. “Eu não sabia que o acidente com a prensa tinha sido tão sério. “
“Não é por isso que estou mancando”, disse Phil. “Fui mordido por um tubarão na semana passada. Doeu um bocado, mas tive muita sorte. A maioria das pessoas nunca tem uma oportunidade de chegar tão perto de um peixe tão letal!”
Os Baudelaire observaram enquanto ele manquitolava de volta pela porta da cozinha, assobiando uma melodia animada.
“Phil era assim, sempre otimista, quando vocês o conheceram?”, perguntou Fiona.
“Sempre”, disse Violet, e seus irmãos balançaram a cabeça em concordância. “Nunca conhecemos ninguém capaz de continuar assim tão alegre, não importa que coisas horríveis tenham ocorrido.”
“Para dizer a verdade, eu às vezes acho isso um pouco cansativo”, disse Fiona, e ajustou seus óculos triangulares. “Vamos procurar alguns uniformes?”
Os Baudelaire assentiram e seguiram Fiona para fora do salão principal, de volta ao corredor estreito. “Sei que vocês têm uma porção de perguntas a fazer”, disse ela, “portanto vou tentar contar tudo o que sei. Meu padrasto acredita que aquele ou aquela que vacila está perdido, mas eu tenho uma filosofia de vida mais cautelosa.”
“Ficaríamos muito agradecidos se você pudesse nos contar algumas coisas”, disse Klaus. “Primeiro, como vocês sabem quem somos nós? E por que estavam nos procurando? Como sabiam em que parte nos encontrar?”
“Vamos por partes”, disse Fiona com um sorriso. “Acho que vocês Baudelaire se esquecem de que seus feitos não são exatamente um segredo. Quase todos os dias saía uma matéria sobre vocês em algum dos jornais mais populares.”
O Pundonor Diário!”, perguntou Violet. “Espero que não tenha acreditado nas mentiras horríveis que eles têm publicado sobre a gente.”
“É claro que não”, disse Fiona. “Mas até a mais ridícula das histórias pode conter um grãozinho de verdade. O Pundonor Diário disse que vocês assassinaram um homem na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, e depois atearam fogo no Hospital Heimlich e no Parque Caligari. Nós sabíamos, é claro, que vocês não tinham cometido esses crimes, mas percebemos que estiveram lá. Meu padrasto e eu deduzimos que vocês encontraram a mancha secreta no mapa de madame Lulu, e se dirigiram para a base de operações de C.S.C.”
Klaus perdeu o fôlego de espanto. “Você sabia sobre madame Lulu”, disse ele, “e a mancha em código?”
“Foi meu padrasto que ensinou esse código a madame Lulu”, explicou Fiona, “muito tempo atrás, quando os dois eram jovens. Bem, ouvimos falar da destruição da base de operações, e assim presumimos que vocês estavam regressando montanha abaixo. Portanto, tracei para o Queequeg o curso Arroio Enamorado acima.”
“Você navegou até aqui em cima”, disse Klaus, “só para nos encontrar?”
Fiona baixou os olhos. “Bem, não”, disse ela. “Vocês não eram a única coisa na base de operações de C.S.C. Um de nossos boletins do Correio Sub-reptício Cooperativo nos informou que o açucareiro também estava lá.”
“Depinejá?”, perguntou Sunny.
“O que são, exatamente, boletins de Correio Sub-reptício Cooperativo?”, traduziu Violet.
“Um meio de compartilhar informações”, disse Fiona. “Como é difícil os voluntários se encontrarem uns com os outros, os boletins servem para que aquele que encontra a chave de um mistério possa escrevê-la em um telegrama. Desse modo, informações importantes circulam, e em pouco tempo nossos livros de lugar-comum ficam repletos de informações para derrotar nossos inimigos. Um livro de lugar-comum é...”
“Sabemos o que é um livro de lugar-comum”, disse Klaus, e removeu do bolso seu caderno azul-escuro. “Eu mesmo venho escrevendo um.”
Fiona sorriu e tamborilou seus dedos enluvados na capa do livro de Klaus. “Eu devia saber”, disse ela. “Se suas irmãs também quiserem começar seus próprios livros, devemos ter aqui alguns deles de reserva. Está tudo na sala de suprimentos.”
“Então vamos subir até as ruínas da base de operações”, perguntou Violet, “para pegar o açucareiro? Nós não o vimos lá.”
“Achamos que alguém o atirou pela janela”, respondeu Fiona, “quando o incêndio começou. Se o açucareiro foi atirado pela janela da cozinha, ele deve ter caído no Arroio Enamorado e ter sido arrastado pelo ciclo das águas para o pé das montanhas. Estávamos procurando o açucareiro no fundo do arroio quando demos com vocês três.”
“Provavelmente o arroio o arrastou para muito mais longe”, disse Klaus, pensativo.
“Também acho”, concordou Fiona. “Espero que você possa descobrir sua localização estudando as cartas náuticas do meu padrasto. Para mim, elas não têm pé nem cabeça.”
“Vou mostrar como se leem as cartas”, disse Klaus. “Não é difícil.”
“É isso que me assusta”, disse Fiona. “Se aquelas cartas não são difíceis de ler, então o conde Olaf pode ter uma chance de encontrar o açucareiro antes de nós. Meu padrasto diz que, se o açucareiro cair nas mãos dele, então todos os esforços de todos os voluntários terão sido em vão.”
Os Baudelaire assentiram, e as quatro crianças seguiram em silêncio pelo corredor. A expressão “em vão” é simplesmente um jeito elegante de dizer “para coisa nenhuma”, e não importa que expressão você use, pois ambas são igualmente desestimulantes. Hoje por exemplo, mais para o fim da tarde, vou entrar em uma sala grande e cheia de areia e, se não encontrar o tubo de ensaio que procuro, será desestimulante perceber que peneirei toda aquela areia para coisa nenhuma. Se você insistir em terminar este livro, achará desestimulante, por entre acessos de lágrimas, perceber que leu esta história em vão, e que teria sido melhor folhear tediosas descrições do ciclo das águas. E os Baudelaire acharam desestimulante imaginar que todas as dificuldades por que passaram acabariam sendo em vão, que todas as suas aventuras não significariam nada, e que suas vidas inteiras seriam em vão e para coisa nenhuma se o conde Olaf conseguisse encontrar aquele açucareiro crucial antes deles. Os três irmãos seguiram Fiona pelo corredor mal iluminado, esperando que sua estada a bordo do Queequeg não fosse mais uma jornada aterradora, terminada em decepção, desilusão e desespero.
No momento, contudo, a jornada se interrompeu diante de uma pequena porta, onde Fiona parou e virou-se para os Baudelaire. “Esta é nossa sala de suprimentos”, disse. “Dentro, vocês encontrarão uniformes para os três, embora até mesmo o menor tamanho possa ser grande demais para Sunny.”
“Risca de giz”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa como: “Não se preocupe, estou acostumada a usar roupas mal ajustadas”, e seus irmãos traduziram com presteza.
“Vocês também vão precisar de capacetes de mergulho”, disse Fiona. “Este é um submarino velho, e pode estourar um vazamento. Se o vazamento é grave, a pressão da água pode fazer as paredes do Queequeg implodirem, enchendo todas as salas e os corredores de água. Os sistemas de oxigênio dos capacetes de mergulho possibilitam a vocês respirar embaixo d’água – pelo menos durante um breve período.”
“Seu padrasto disse que os capacetes seriam grandes demais para Sunny, e que ela teria de se enroscar dentro de um deles”, disse Violet. “Será que isso é seguro?”
“Seguro, porém desconfortável”, disse Fiona. “Como tudo no Queequeg. Esse submarino já esteve em excelentes condições, mas sem ninguém que entenda de mecânica, já não está mais à altura de sua antiga glória. Muitas salas estão inundadas, portanto lamento dizer que vamos dormir em acomodações bastante apertadas. Espero que vocês gostem de beliches.”
“Já dormimos em coisa pior”, disse Klaus.
“Foi o que ouvi dizer”, retrucou Fiona. “Li uma descrição do Barraco dos Órfãos na Escola Preparatória Prufrock. Parecia horrível.”
“Então você sabia de nós, mesmo naquela época?”, perguntou Violet. “Por que não nos encontraram antes?”
Fiona suspirou. “Nós sabíamos sobre vocês”, disse ela. “Eu lia histórias horríveis no jornal todos os dias, mas meu padrasto disse que não podíamos fazer nada a respeito de toda a perfídia contida naquelas matérias.”
“Por que não?”, perguntou Klaus.
“Ele disse que seus problemas eram enormes demais”, respondeu ela.
“Não entendo”, disse Violet.
“Na verdade, eu também não”, admitiu Fiona. “Meu padrasto disse que a quantidade de perfídia nesse mundo é enorme, e que o melhor que podemos fazer é uma única coisinha nobre. É por isso que estamos procurando o açucareiro. Vocês poderiam pensar que a realização de uma tarefa tão pequena seria fácil, mas estamos procurando há um tempão e ainda não o encontramos.”
“Mas o que há de tão importante nesse açucareiro?”, perguntou Klaus.
Fiona suspirou de novo e piscou várias vezes por trás dos óculos triangulares. Parecia tão triste que o Baudelaire do meio quase desejou não ter perguntado. “Não sei”, disse ela. “Ele não quer me contar.”
“Purquenaum?”, perguntou Sunny.
“Ele disse que era melhor eu não saber”, disse Fiona. “Acho que isso também é enorme, um enorme segredo. Ele disse que pessoas foram destruídas por saber segredos tão enormes, e que não queria que eu corresse esse tipo de perigo.”
“Mas você já está em perigo”, disse Klaus. “Estamos todos em perigo. Estamos a bordo de um submarino instável, tentando encontrar um minúsculo e importante objeto antes que um vilão nefando ponha as mãos nele.”
Fiona girou a maçaneta da porta, que se abriu com um alto e prolongado crééééc! que causou arrepio nos Baudelaire. A sala era diminuta e muito mal iluminada por uma única luzinha verde, e por um momento pareceu estar cheia de gente que fitava silenciosamente as crianças no corredor. Mas então os irmãos viram que era apenas uma fileira de uniformes flácidos pendurados em ganchos ao longo da parede. “Acho que existem perigos piores”, disse Fiona em tom calmo. “Acho que existem perigos que simplesmente não podemos nem sequer imaginar.”
Os Baudelaire olharam para sua companheira e depois para a fantasmagórica fileira de uniformes vazios. Em uma prateleira acima das roupas à prova d’água, havia uma fileira de grandes capacetes de mergulho, esferas de metal com pequenas aberturas circulares no meio pelas quais as crianças poderiam enxergar do lado de fora quando os colocassem na cabeça. A pálida luz verde, os capacetes se pareciam um pouco com olhos, encarando ferozes os Baudelaire dentro da sala de suprimentos, exatamente como o olho no tornozelo do conde Olaf olhara para eles tantas vezes no passado. Muito embora ainda não fossem piratas, os irmãos se sentiram tentados a dizer mais uma vez “me arrepia o madeirame!” quando puseram os pés dentro da sala pequena e atravancada, e sentiram um arrepio até os ossos. Eles não gostavam de pensar em vazamentos estourados no Queequeg, ou na implosão do submarino, tampouco em suas cabeças enfiadas em capacetes – ou, no caso de Sunny, inteiramente enroscada lá dentro. Eles não gostavam de pensar sobre onde estaria o conde Olaf nem o que aconteceria se ele encontrasse o açucareiro antes. Porém, mais que tudo, os órfãos Baudelaire não gostavam de pensar nos perigos que Fiona mencionara – perigos piores que os que enfrentavam agora, perigos que eles simplesmente não podiam nem imaginar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário