sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo três


Como certamente você já sabe, há muitas palavras na misteriosa e confusa língua inglesa que podem significar duas coisas completamente diferentes. A palavra bear, por exemplo, pode se referir a um mamífero bastante robusto que se encontra nas florestas, como na frase: “O urso [bear] se moveu silenciosamente na direção da monitora do acampamento, que estava ocupada demais passando batom e não percebeu”; mas também pode se referir a quanto uma pessoa é capaz de aguentar, como na frase: “A perda da minha monitora no acampamento é mais do que eu posso suportar [bear]”. A palavra yarn pode se referir a um fio colorido de lã, como na frase: “O suéter dele era feito de fio colorido de lã [yarn]”; mas também pode ser uma história comprida e prolixa, como na frase: “A sua história comprida e prolixa [yarn] sobre como perdeu o suéter quase me fez dormir”. A palavra hard pode se referir a uma coisa difícil e também a uma coisa que é dura ao toque, mas se você fala inglês, a não ser que se depare com uma frase como The bears bear hard hard yarn yarns, é improvável que fique confuso. Os Baudelaire, enquanto seguiam Sexta-Feira através da plataforma costeira em direção à ilha onde ela vivia, experimentaram ambas as definições da palavra cordial, a qual se refere tanto a uma pessoa amistosa como a uma bebida doce, e quanto mais desfrutavam de uma, mais confusos ficavam com a outra.
“Talvez vocês apreciem um pouco de cordial de coco”, disse Sexta-Feira em um tom de voz cordial e estendeu a mão para a concha que estava pendurada no seu cinto. Com um dedo fino, ela abriu uma tampa, e as crianças puderam ver que a concha tinha sido transformada em uma espécie de cantil. “Vocês devem estar com sede depois dessa jornada através da tempestade.”
“Estamos com sede”, admitiu Violet, “mas água fresca não seria melhor para a sede?”
“Não existe água fresca na ilha”, disse Sexta-Feira. “Há algumas quedas-d’água salgada que usamos para nos lavar e uma lagoa salgada que é perfeita para nadar. Mas tudo o que bebemos é cordial de coco. Tiramos a água dos cocos e deixamos fermentar.”
“Fermentar?”, perguntou Sunny.
“Sexta-Feira quer dizer que a água-de-coco fica descansando algum tempo e passa por um processo químico que a torna mais doce e mais forte”, explicou Klaus, pois lera a respeito da fermentação em um livro sobre uma vinícola, que tinha na biblioteca dos Baudelaire.
“A doçura vai lavar o gosto da tempestade”, disse Sexta-Feira, e passou a concha para as três crianças. Uma por uma, cada qual tomou um gole do cordial. Como dissera Sexta-Feira, a bebida era bem doce, mas havia outro gosto além desse, algo estranho e forte que as deixou um pouco tontas. Violet e Klaus se encolheram quando o cordial deslizou grosso por suas gargantas, e Sunny tossiu assim que a primeira gota tocou sua língua.
“É um pouco forte para nós, Sexta-Feira”, disse Violet, entregando a concha de volta à menininha.
“Vocês vão se acostumar”, disse Sexta-Feira com um sorriso, “quando o beberem em todas as refeições. É um dos costumes aqui.”
“Entendo”, disse Klaus, fazendo uma anotação no seu livro de lugar-comum. “Que outros costumes vocês têm aqui?”
“Não muitos”, disse Sexta-Feira, olhando primeiro para o caderno de Klaus e depois à sua volta, onde os Baudelaire podiam ver as figuras distantes dos ilhéus, todos vestidos de branco, andando pela plataforma costeira e cutucando os destroços que encontravam. “Toda vez que há uma tempestade, nós saímos para a coleta de despojos pós-borrasca e apresentamos o que encontramos a um homem chamado Ishmael. Ele está nesta ilha há mais tempo que qualquer um de nós; feriu os pés algum tempo atrás e os mantém cobertos de barro da ilha, que tem poderes curativos. Ishmael não consegue nem ficar em pé, mas serve como ‘facilitador’ da ilha.”
“Definir?”, perguntou Sunny a Klaus.
“Um facilitador é alguém que ajuda outras pessoas a tomar decisões”, explicou o Baudelaire do meio.
Sexta-Feira balançou a cabeça, concordando.
“Ishmael decide qual detrito poderá ser de utilidade para nós, e qual os carneiros devem arrastar para longe.”
“Há carneiros na ilha?”, perguntou Violet.
“Um rebanho de carneiros selvagens apareceu nas nossas praias há muitos e muitos anos”, disse Sexta-Feira, “e eles vagam livremente, a não ser quando são necessários para arrastar nossos itens coletados para o arboreto, no outro extremo da ilha, além daquela escarpa ali adiante.”
“Escarpa?”, perguntou Sunny.
“Uma escarpa é uma colina ou ladeira íngreme”, disse Klaus, “e um arboreto é um lugar onde árvores são cultivadas.”
“Tudo o que cresce no arboreto da ilha é uma enorme macieira”, disse Sexta-Feira, “ou pelo menos é isso que ouvi dizer.”
“Você nunca esteve no outro lado da ilha?”, perguntou Violet.
“Ninguém vai para o outro lado da ilha”, disse Sexta-Feira. “Ishmael diz que é perigoso demais, com todos os itens que os carneiros levaram para lá. Ninguém jamais colhe as maçãs da árvore, exceto no Dia da Decisão.”
“Feriado?”, perguntou Sunny.
“Acho que é algum tipo de feriado, sim”, disse Sexta-Feira. “Uma vez por ano, as marés se invertem nesta parte do oceano, e a plataforma costeira fica totalmente coberta de água. É a única ocasião no ano em que fica funda o suficiente para navegarmos para longe da ilha. Durante o ano inteiro nós construímos um enorme catamarã, que é um tipo de canoa, e no dia em que as marés se invertem realizamos um banquete e um show de calouros. Então qualquer um que deseje deixar a nossa colônia demonstra sua decisão mordendo uma maçã e cuspindo no chão antes de embarcar no catamarã e nos dar adeus.”
“Eca”, disse a mais jovem dos Baudelaire, imaginando uma multidão cuspindo maçãs.
“Não há eca nenhuma nisso”, disse Sexta-Feira fechando a cara. “É o costume mais importante da colônia.”
“Tenho certeza de que é maravilhoso”, disse Violet, lembrando a irmã com um olhar severo de que não é polido insultar os costumes dos outros.
“E é mesmo”, disse Sexta-Feira. “É claro, as pessoas raramente saem desta ilha. Ninguém saiu desde que eu nasci, portanto nós simplesmente ateamos fogo na embarcação, a empurramos para o mar e ficamos assistindo. Um catamarã em chamas desaparecendo lentamente no horizonte é um lindo espetáculo.”
“Deve ser mesmo lindo”, disse Klaus, muito embora o Baudelaire do meio achasse mais arrepiante que lindo, “mas me parece desperdício construir uma canoa todos os anos só para atear fogo nela.”
“Isso nos proporciona algo para fazer”, disse Sexta-Feira, encolhendo os ombros. “Além de construir o catamarã, não há muito com o que se ocupar na ilha. Pescamos os peixes, cozinhamos as refeições, lavamos a roupa, mas ainda resta grande parte do dia sem nada para fazer.”
“Cozinhamos?”, perguntou Sunny, alvoroçada.
“Minha irmã é uma espécie de chefe de cozinha”, disse Klaus. “Tenho certeza de que ficará feliz em ajudar com as refeições.”
Sexta-Feira sorriu e pôs as mãos nos bolsos fundos de sua túnica.
“Não vou esquecer disso”, disse ela. “Vocês têm certeza de que não querem mais um gole de cordial?”
Todos os três Baudelaire balançaram a cabeça.
“Não, obrigada”, disse Violet, “mas é delicadeza sua oferecer.”
“Ishmael diz que todas as pessoas devem ser tratadas com delicadeza”, disse Sexta-Feira, “a não ser que elas mesmas sejam indelicadas. É por isso que deixei aquele homem horrível, o conde Olaf, para trás. Vocês estavam viajando com ele?”
Os Baudelaire se entreolharam, incertos sobre como responder à pergunta. Por um lado, Sexta-Feira parecia muito cordial, mas – como no cordial que ela oferecera – havia algo além de doçura na sua descrição da ilha. Os costumes da colônia eram muito estritos e, embora os irmãos se sentissem aliviados por se livrar da companhia de Olaf, havia algo de cruel em abandoná-lo na plataforma costeira, mesmo sabendo que, com certeza, ele teria feito a mesma coisa com os órfãos se tivesse tido a oportunidade. Violet, Klaus e Sunny não estavam certos de como Sexta-Feira iria reagir caso admitissem estar na companhia do vilão, então eles ficaram um momento sem responder, até que o Baudelaire do meio se lembrou de uma expressão que lera em um romance sobre pessoas muito, muito polidas.
“Depende de como você encara as coisas”, disse Klaus, usando uma frase que soa como uma resposta mas que raramente quer dizer alguma coisa. Sexta-Feira lançou uma olhadela curiosa para ele, porém as crianças tinham chegado ao fim da plataforma costeira e estavam na beira da ilha. Era uma praia inclinada, com areia tão branca que a túnica branca de Sexta-Feira dava a impressão de ser quase invisível; no topo do aclive via-se um catamarã, confeccionado com capim selvagem e ramos de árvores, que parecia quase acabado, pois o Dia da Decisão estava próximo. Depois do barco, havia uma enorme tenda branca, comprida como um ônibus escolar. Os Baudelaire seguiram Sexta-Feira para o seu interior e descobriram, para sua surpresa, que estava cheia de carneiros, todos deitados cochilando. Os carneiros estavam amarrados uns nos outros com cordas grossas e puídas, e, destacando-se acima deles, um velho sorria para os Baudelaire através de uma barba tão espessa e desgrenhada quanto os mantos lanosos daqueles animais. Ele estava sentado em uma cadeira enorme que parecia ter sido confeccionada com barro branco, e mais duas pilhas de barro se erguiam onde deveriam estar os seus pés. Usava uma túnica como a de Sexta-Feira, de cujo cinto pendia uma concha similar à da menina, e sua voz soou tão cordial quanto a de Sexta-Feira quando ele sorriu para as três crianças.
“O que temos aqui?”, disse ele.
“Encontrei três náufragos na plataforma costeira”, disse Sexta-Feira orgulhosamente.
“Bem-vindos, náufragos!”, disse Ishmael. “Perdoem-me por permanecer sentado, mas os meus pés estão bastante inflamados hoje, por isso estou fazendo uso do nosso barro curativo. É um prazer conhecê-los.”
“É um prazer conhecê-lo, Ishmael”, disse Violet, que achava que o barro curativo tinha dúbia eficácia científica, uma frase que aqui significa “provavelmente não adiantava nada para pés inflamados”.
“Me chamem de Ish”, disse Ishmael, inclinando-se para coçar a cabeça de um carneiro. “E como devo chamá-los?”
“Violet, Klaus e Sunny Baudelaire”, interveio Sexta-Feira antes que os irmãos pudessem se apresentar.
“Baudelaire?”, Ishmael repetiu e ergueu as sobrancelhas. Ele olhou para as três crianças em silêncio enquanto tomava um longo gole de cordial da sua concha, e por apenas um momento o seu sorriso desapareceu. Então o homem olhou para os irmãos e sorriu calorosamente. “Há um bom tempo que não admitimos novos ilhéus. Vocês são bem-vindos para ficar o tempo que quiserem, a não ser que sejam indelicados, é claro.”
“Muito obrigado”, disse Klaus, da forma mais delicada que podia. “Sexta-Feira nos contou algumas coisas sobre a ilha. Parece muito interessante.”
“Depende de como você encara as coisas”, disse Ishmael. “Mesmo que vocês queiram partir, só terão a oportunidade de fazê-lo uma vez por ano. Nesse meio-tempo, Sexta-Feira, por que você não os leva a uma tenda, para que possam trocar de roupa? Devemos ter algumas túnicas novas de lã que servirão perfeitamente.”
“Nós agradeceríamos”, disse Violet. “Os nossos uniformes de concierge estão um tanto encharcados por causa da tempestade.”
“Estou certo que sim”, disse Ishmael, torcendo uma mecha de barba entre os dedos. “Além disso, o nosso costume é não usar nada que não seja branco, para combinar com a areia das ilhas, o barro curativo da lagoa e a lã dos carneiros selvagens. Sexta-Feira, estou surpreso por você ter optado por romper com a tradição.”
Sexta-Feira enrubesceu e sua mão subiu para os óculos escuros que estava usando.
“Encontrei isso entre os destroços”, disse ela. “O sol é tão forte na ilha que achei que poderia ser útil.”
“Não vou forçá-la”, disse Ishmael calmamente, “mas me parece que você poderia preferir se vestir de acordo com o costume, em vez de exibir o seu novo adorno ocular.”
“Tem razão, Ishmael”, disse Sexta-Feira mansamente, tirando os óculos escuros com uma das mãos enquanto a outra mergulhava dentro de um dos bolsos fundos da túnica.
“Assim está melhor”, disse Ishmael, e sorriu para os Baudelaire. “Espero que vocês gostem de viver nesta ilha”, disse ele. “Somos todos náufragos aqui, de uma ou outra tempestade; em vez de tentar retornar ao mundo, construímos uma colônia segura contra a perfídia do mundo.”
“Havia uma pessoa pérfida com eles”, manifestou-se Sexta-Feira, pressurosa. “Seu nome era conde Olaf, mas ele foi tão detestável que não o deixei vir conosco.”
“Olaf?”, perguntou Ishmael, e suas sobrancelhas se ergueram novamente. “Esse homem é amigo de vocês?”
“Shemchance”, disse Sunny.
“Não, não é”, Violet traduziu depressa. “Para dizer a verdade, estamos tentando escapar do conde Olaf há um bom tempo.”
“Ele é um homem horroroso”, disse Klaus.
“Mesmo barco”, disse Sunny.
“Hummm”, fez Ishmael, pensativo. “E essa é a história inteira, irmãos Baudelaire?”
As crianças se entreolharam. É claro, as poucas frases que tinham pronunciado não eram a história inteira. Havia muito, muito mais na história dos Baudelaire e do conde Olaf; se as crianças a tivessem recitado inteira, Ishmael provavelmente teria chorado até as lágrimas derreterem o barro, o que deixaria seus pés expostos, além de privá-lo de um local onde sentar. Os Baudelaire poderiam ter contado ao facilitador da ilha sobre todos os esquemas do conde Olaf, desde o assassinato selvagem do tio Monty até a traição de madame Lulu no Parque Caligari. Poderiam ter lhe contado sobre os disfarces do conde, desde a sua falsa perna-de-pau, quando fingia ser o capitão Sharn, até os tênis e o turbante, quando chamava a si mesmo de instrutor Genghis. Eles poderiam ter contado a Ishmael sobre os muitos comparsas de Olaf, desde a sua namorada Esmé Squalor até as mulheres de cara branca que desapareceram nas Montanhas de Mão-Morta; poderiam ter contado a Ishmael sobre todos os mistérios sem solução que ainda faziam os Baudelaire ficar acordados à noite, desde o desaparecimento do capitão Andarré de uma caverna submarina até o estranho chofer de táxi que se aproximara das crianças do lado de fora do Hotel Desenlace; e é claro que poderiam ter contado a Ishmael sobre aquele dia horripilante na Praia de Sal, quando ouviram pela primeira vez a notícia sobre a morte de seus pais. Mas se os Baudelaire tivessem contado a história inteira a Ishmael, teriam de contar as partes que os punham sob uma luz desfavorável, frase que aqui significa que “as coisas que os Baudelaire fizeram eram talvez tão pérfidas quanto as feitas por Olaf”. Eles teriam falado sobre seus próprios esquemas, desde cavar um buraco para capturar Esmé até provocar o incêndio que destruiu o Hotel Desenlace. Precisariam mencionar seus disfarces, desde Sunny fingindo ser Chabo, a Bebê-Lobo, até Violet e Klaus fingindo ser Escoteiros da Neve, e os camaradas deles, desde a juíza Strauss, que provara ser mais útil do que tinham pensado de início, até Fiona, que provara ser mais pérfida do que eles imaginaram. Se os órfãos Baudelaire tivessem contado a Ishmael a história inteira, poderiam ter aparentado ser tão vilanescos quanto o conde Olaf. Os Baudelaire não queriam estar de volta à plataforma costeira, com todos os detritos da tempestade. Eles queriam estar a salvo da perfídia e do mal, mesmo que os costumes da ilha não fossem exatamente do agrado deles, e assim, em vez de contar a Ishmael a história inteira, os Baudelaire simplesmente assentiram com a cabeça e disseram a coisa mais segura em que puderam pensar.
“Depende de como você encara as coisas”, disse Violet, e seus irmãos balançaram a cabeça em concordância.
“Muito bem”, disse Ishmael. “Agora andem, vão escolher as suas túnicas e, depois que se trocarem, por favor entreguem todos os seus velhos pertences a Sexta-Feira, para que os levemos ao arboreto.”
“Tudo?”, disse Klaus.
Ishmael assentiu: “É o nosso costume”.
“Occulaklaus?”, perguntou Sunny, e seus irmãos rapidamente explicaram que ela queria dizer alguma coisa como: “E os óculos de Klaus?”.
“Ele mal pode ler sem eles”, acrescentou Violet.
Ishmael ergueu as sobrancelhas de novo.
“Bem, aqui não há biblioteca”, disse ele depressa, com uma olhadela nervosa para Sexta-Feira, “mas suponho que os óculos dele tenham uma certa utilidade. Agora, vão depressa, irmãos Baudelaire, a não ser que antes queiram tomar um gole de cordial.”
“Não, obrigado”, disse Klaus, perguntando-se quantas vezes iriam oferecer aquela estranha e doce beberagem a ele e a suas irmãs. “Minhas irmãs e eu já experimentamos um pouco, e não apreciamos muito o sabor.”
“Não vou forçá-los”, disse novamente Ishmael, “mas a sua opinião inicial a respeito de quase tudo poderá mudar com o tempo. Eu os vejo em breve, irmãos Baudelaire.”
Ele fez um pequeno aceno para eles, e os Baudelaire acenaram de volta enquanto Sexta-Feira os levava para fora da tenda e, mais adiante, ladeira acima, onde outras tendas tremulavam à brisa matinal.
“Escolham qualquer tenda que lhes agrade”, disse Sexta-Feira. “Nós todos trocamos de tenda todos os dias – exceto Ishmael, por causa dos pés dele.”
“As pessoas não ficam confusas de dormir em um lugar diferente a cada noite?”, perguntou Violet.
“Depende de como você encara as coisas”, disse Sexta-Feira, tomando um gole da sua concha. “Eu nunca dormi de nenhum outro jeito.”
“Você passou a sua vida inteira nesta ilha?”, disse Klaus.
“Sim”, disse Sexta-Feira. “Minha mãe e meu pai viajavam num cruzeiro oceânico quando ela estava grávida, e eles enfrentaram uma tempestade horrível. Meu pai foi devorado por um peixe-boi, e minha mãe foi jogada na praia, grávida, comigo em sua barriga. Logo vocês vão conhecê-la. Agora, por favor, troquem de roupa depressa.”
“Dimediato”, assegurou Sunny, e Sexta-Feira tirou a mão do bolso e apertou a de Sunny. Os Baudelaire entraram na tenda mais próxima, onde havia uma pilha de túnicas dobradas em um canto. Rapidamente, eles vestiram suas roupas novas, felizes por descartar os uniformes de concierge, que estavam encharcados e salgados por causa da tempestade da noite anterior. Ao terminar, no entanto, eles olharam por um momento para a pilha de roupas molhadas. Os Baudelaire se sentiam estranhos usando as vestes doutrinais, uma frase que aqui significa “vestindo as roupas quentes e pouco elegantes que eram normalmente usadas por pessoas que mal conheciam”. A sensação era de que os três irmãos estavam jogando fora tudo o que lhes acontecera antes de sua chegada à ilha. As roupas, é claro, não eram a história inteira dos Baudelaire, pois roupas nunca são a história inteira de ninguém, exceto talvez no caso de Esmé Squalor, cujas roupas vilanescas e da última moda revelavam exatamente o quão vilanesca e da última moda ela era. Mas os Baudelaire não podiam deixar de sentir que estavam abandonando as suas vidas anteriores, a favor de vidas novas em uma ilha de estranhos costumes.
“Não vou jogar fora esta fita”, disse Violet enrolando o fino pedaço de tecido nas pontas dos dedos. “Ainda vou inventar coisas, não importa o que diga Ishmael.”
“Eu não vou jogar fora o meu livro de lugar-comum”, disse Klaus, segurando o caderno azul-escuro. “Ainda vou pesquisar coisas, mesmo que aqui não haja biblioteca.”
“Não jogar isto”, disse Sunny, e ergueu um utensílio metálico para que os irmãos pudessem ver. Uma extremidade era um cabo pequeno e simples, perfeito para as mãozinhas de Sunny, e a outra se dividia em diversos arames reforçados que se entrecruzavam como os ramos de um pequeno arbusto.
“O que é isso?”, perguntou Violet.
“Batedor”, disse Sunny, e ela estava precisamente certa. Um batedor é um utensílio de cozinha usado para misturar ingredientes rapidamente, e a mais jovem dos Baudelaire estava feliz por estar de posse de um objeto tão útil.
“Sim”, disse Klaus. “Eu me lembro do nosso pai usando um quando preparava ovos mexidos. Mas de onde veio isso?”
“Menina Sexta-Feira”, disse Sunny.
“Ela sabe que Sunny cozinha”, disse Violet, “mas deve ter pensado que Ishmael a faria jogar fora o batedor.”
“Acho que ela não está assim tão ansiosa por seguir todos os costumes da colônia”, disse Klaus.
“Também”, concordou Sunny, e pôs o batedor em um dos bolsos fundos da sua túnica. Klaus fez o mesmo com o livro de lugar-comum, Violet fez o mesmo com a sua fita, e os três ficaram parados juntos por um momento, compartilhando os seus segredos embolsados. Dava uma sensação estranha guardar segredos de pessoas que os receberam com tanta delicadeza, assim como dava uma sensação estranha não contar a Ishmael a sua história inteira. Os segredos da fita, do livro de lugar-comum e do batedor davam às crianças a sensação de estar submersos, uma palavra para “escondidos” – que usualmente se aplica a coisas embaixo d’água, tais como um submarino submerso no mar, ou a figura de proa de uma embarcação submersa em uma plataforma costeira –, e, a cada passo que os Baudelaire davam para fora da tenda, sentiam os seus segredos submersos batendo contra eles de dentro dos bolsos das suas túnicas.
A palavra “fermentar” – como as palavras bear, yarn hard – pode significar duas coisas completamente diferentes. Um significado é o processo químico pelo qual o suco de certas frutas se torna mais doce e mais forte, como Klaus explicara às irmãs na plataforma costeira. Mas “fermentar” também se refere a alguma coisa que está crescendo dentro de alguém, como um segredo que pode ser por fim descoberto, ou um esquema que alguém está planejando há um bom tempo. Quando os três Baudelaire saíram da tenda e entregaram os detritos de sua vida anterior a Sexta-Feira, eles sentiram os seus próprios segredos fermentando dentro deles, e se perguntaram que outros segredos e esquemas jaziam desconhecidos. Os órfãos Baudelaire seguiram Sexta-Feira descendo de volta à praia inclinada, e se perguntaram o que mais estaria fermentando naquela ilha estranha que era o novo lar deles.

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