sábado, 3 de setembro de 2016

Capitulo sete


A expressão “estou cheio”, assim como a palavra “voluntário”, a palavra “salvamento”, a palavra “chamas” e muitas outras palavras que se encontram em dicionários e outros documentos importantes, tem diversos usos diferentes, dependendo das circunstâncias. O uso mais comum da expressão “estou cheio” é “estou cansado” ou “não aguento mais essa situação insuportável”, e essa expressão já foi usada nesse sentido para descrever muita coisa na minha história dos órfãos Baudelaire, por exemplo quando eles ficaram cheios de sentir os odores sinistros do Mau Caminho, por onde viajaram muito tempo atrás, ou quando não aguentaram mais a situação insuportável de subir e descer as extenuantes Montanhas de Mão-Morta à procura da base de operações de C.S.C. Existe também um uso médico da expressão “estou cheio”, porque você pode dizer “estou cheio de piolhos”, mas esse uso de “estou cheio” jamais apareceu em meu trabalho, muito embora, com os hábitos de higiene do conde Olaf piorando dia a dia, eu talvez encontre uma ocasião para usá-la. E por fim há o uso mais correto da expressão “estou cheio” com o significado de “abundantemente provido”, que exprime bem o modo como o conde Olaf é cheio de planos traiçoeiros, ou o Queequeg é cheio de tubulações de metal, ou o mundo inteiro é cheio de segredos inimagináveis, e é esse o uso que os Baudelaire davam à expressão naquele momento, espremidos com Fiona embaixo dos misteriosos abajures altos da Gruta Gorgônea, observando mais e mais cogumelos brotarem da areia. Enquanto as vizinhanças se tornavam cheias de Mycelium Medusoide, as crianças pensavam em todas as outras coisas de que suas vidas foram cheias. Suas vidas tinham sido cheias de mistérios, desde os mistérios de C.S.C. até os de seus próprios futuros, e os mistérios se amontoavam, como os talos e píleos dos fungos venenosos. Suas vidas tinham sido cheias de perigos, tanto os perigos que encontraram no topo de montanhas e embaixo de edifícios como os perigos que enfrentaram na cidade e nos sertões; tanto o perigo de pessoas vilanescas como o perigo de pessoas boas que não tinham ideia do que fazer. E suas vidas tinham sido cheias de coisas desagradáveis, eles conheceram pessoas terríveis e comeram refeições horríveis, estiveram em locais aterrorizantes e viveram circunstâncias medonhas, suportaram inconveniências apavorantes e também pavores inconvenientes, de tal modo que parecia que suas vidas seriam sempre cheias, cheias de dias cheios e cheias de noites cheias, mesmo que todas as coisas de que suas vidas eram cheias enchessem menos, e enchessem menos suas vidas de tudo o que enche no decorrer do curso de cada momento que enche com tudo o que enche, mas a cada novo cogumelo que enchia a caverna e a deixava cada vez mais cheia de tudo o que enche, os Baudelaire já estavam cheios daquela situação insuportável.
“Cheia”, disse Sunny.
“Isso não é uma boa notícia”, concordou Klaus. “Fiona, você acha que já fomos envenenados?”
“Não”, disse Fiona com firmeza. “Os esporos não deverão nos alcançar aqui. Enquanto permanecermos na extremidade da caverna, e os cogumelos não avançarem mais, é provável que estejamos seguros.”
“Parece que eles pararam de avançar”, disse Violet, apontando para a linha de cogumelos cinzentos, e os outros voluntários viram que ela tinha razão. Ainda pipocavam novos cogumelos, mas o fungo não parecia estar mais perto das quatro crianças.
“Acho que o micélio só cresceu até ali”, disse Fiona. “Temos muita sorte.”
“Não me sinto muito sortudo”, disse Klaus. “Me sinto preso numa arapuca. Como vamos sair daqui?”
“Só existe um jeito”, disse Violet. “O único caminho de volta para o Queequeg passa pelo meio daqueles cogumelos.”
“Se passarmos pelo meio dos cogumelos”, disse Fiona, “muito provavelmente seremos envenenados. Um esporo poderia penetrar em nossos trajes sem que percebêssemos.”
“Antídoto?”, perguntou Sunny.
“Eu poderia encontrar a receita da cura”, disse Fiona, “em algum lugar na minha biblioteca micetológica. Mas nós não queremos correr esse risco. Temos de sair por outro lugar.”
Por um momento, todas as quatro crianças olharam para o alto, para a escuridão da passagem acima de suas cabeças. Violet franziu a testa e pôs uma das mãos sobre os úmidos e escorregadios ladrilhos da parede. Com a outra mão, ela procurou algo no bolso à prova d’água de seu uniforme e tirou de lá uma fita para amarrar o cabelo.
“Podemos sair por ali?”, perguntou Klaus. “Você pode inventar alguma coisa que nos ajude a escalar até aquela passagem?”
“Bagulhada”, disse Sunny, o que queria dizer: “Há materiais para invenções à vontade aqui na areia”.
“Materiais não são o problema”, disse Violet, e perscrutou a escuridão. “Estamos no fundo do mar. Devem ser quilômetros e quilômetros até a superfície. Até mesmo o melhor dos dispositivos de escalada se desgastaria no percurso, e, se isso acontecer, despencaremos de volta para o fundo.”
“Mas alguém deve usar aquela passagem”, disse Klaus. “Senão, ela não teria sido construída.”
“Isso não importa”, disse Fiona. “Não podemos sair por esse caminho. Temos de chegar ao Queequeg. Caso contrário, meu padrasto vai ficar sem saber o que aconteceu conosco. E vai acabar por colocar seu capacete de mergulho e sair para investigar...”
“E a maré vai arrastá-lo diretamente para os fungos venenosos”, completou Klaus. “Fiona tem razão. Mesmo se pudéssemos escalar até lá em cima, esse seria o caminho errado.”
“Mas o que mais podemos fazer?”, disse Violet, alteando a voz. “Não podemos passar o resto de nossas vidas neste lugar miserável!”
Fiona olhou para os cogumelos e suspirou. “O livro Cogumelos e suas minúcias diz que esse fungo tem fases crescente e minguante. Neste momento, está em crescente. Temos de esperar até que entre em minguante de novo, para então sair correndo pela areia, mergulhar e nadar de volta ao submarino.”
“Mas quanto tempo vai levar até entrar em minguante?”, disse Klaus.
“Não sei”, admitiu Fiona. “Pode levar apenas alguns minutos ou umas poucas horas. Pode até levar alguns dias.”
“Alguns dias?”, disse Violet. “Em alguns dias seu padrasto vai desistir de nós! Em alguns dias vamos perder o encontro de C.S.C.! Não podemos esperar alguns dias!”
“Só temos uma escolha”, disse Klaus, pousando uma mão confortadora no ombro de Violet. “Podemos esperar até que os cogumelos desapareçam ou podemos acabar envenenados.”
“Isso não é uma escolha”, retrucou Violet em tom amargo.
“É uma escolha de Hobson”, disse Klaus. “Está lembrada?”
A Baudelaire mais velha baixou os olhos para o irmão e deu-lhe um sorrisinho. “É claro que estou lembrada”, disse ela.
“Mamasan”, disse Sunny. Seus irmãos olharam para ela, e Violet ergueu-a nos braços.
“Quem é Hobson?”, perguntou Fiona. “Qual era a sua escolha?”
Klaus sorriu. “Thomas Hobson viveu na Inglaterra, no século VII”, disse ele. “Era encarregado de um estábulo e, de acordo com a lenda, sempre dizia a seus fregueses que eles tinham uma escolha: eles podiam pegar o cavalo mais próximo da porta ou então nenhum cavalo.”
“Isso não é uma escolha”, disse Fiona.
Violet sorriu. “Precisamente”, disse ela. “Uma escolha de Hobson é uma coisa que não é uma escolha de verdade. É uma expressão que nossa mãe costumava usar. Ela dizia: ‘Vou lhe dar uma escolha de Hobson, Violet. Você pode limpar seu quarto ou então vou ficar na porta e cantar sua canção menos favorita várias vezes sem parar’.”
Fiona arreganhou um sorriso. “Qual era sua canção menos favorita?”, perguntou ela.
Rema, rema, remador“, disse Violet. “Tem uma parte que detesto, uma que diz que a vida não passa de um sonho.”
“A escolha de Hobson que ela me dava era lavar os pratos ou ler a poesia de Edgar Guest”, disse Klaus. “Ele é com certeza meu poeta menos favorito.”
“Banho ou vestido rosa”, disse Sunny.
“Sua mãe sempre brincava desse jeito?”, perguntou Fiona. “A minha ficava tremendamente zangada se eu não limpasse meu quarto.”
“A nossa mãe também”, disse Klaus. “Você se lembra, Violet, de quando deixamos a janela da biblioteca aberta, e naquela noite choveu?”
“Ela perdeu as estribeiras”, disse Violet, usando uma expressão que aqui significa “ficou extremamente zangada”. “Nós estragamos um atlas que ela disse ser insubstituível.”
“Você devia tê-la ouvido gritar”, disse Klaus. “Nosso pai desceu do gabinete para ver o que estava acontecendo.”
“Então ele também começou a gritar”, disse Violet, e os Baudelaire pararam e se entreolharam, incomodados. Todo mundo grita de tempos em tempos, é claro, mas as crianças Baudelaire não gostavam de pensar em seus pais gritando, especialmente agora que não estavam mais por perto para pedir desculpas ou dar explicações. Muitas vezes é difícil admitir que alguém que você ama não é perfeito, ou considerar os aspectos menos admiráveis de uma pessoa. Para os Baudelaire, a sensação era quase como se eles tivessem traçado uma linha depois que seus pais morreram – uma linha secreta em suas lembranças, separando todas as coisas maravilhosas a respeito dos Baudelaire pais das coisas que talvez não fossem assim tão maravilhosas. Desde o incêndio, sempre que pensavam nos pais, os Baudelaire não ultrapassavam de modo algum essa linha secreta, preferindo ponderar sobre os melhores momentos que a família passara reunida, e não sobre quando os pais brigavam, ou eram injustos, ou egoístas. Mas agora, de repente, na penumbra da Gruta Gorgônea, os irmãos tinham tropeçado para além daquela linha e se flagraram pensando naquela tarde exaltada na biblioteca e, momentos depois, outras tardes e noites exaltadas lhes vieram à mente até suas cabeças ficarem cheias de lembranças de todas as laias, uma expressão que aqui significa “tanto as boas como as más”. Cruzar essa linha em suas lembranças e admitir que seus pais às vezes eram difíceis causou nos irmãos uma sensação nauseante; e ficaram ainda mais nauseados ao perceber que não podiam cruzá-la de volta e fingir que jamais se lembraram daqueles momentos menos perfeitos, do mesmo modo como não podiam voltar no tempo e se encontrar mais uma vez seguros no lar dos Baudelaire, antes de o incêndio e o conde Olaf aparecerem em suas vidas.
“Meu irmão também costumava ficar zangado”, disse Fiona. “Antes de ele desaparecer, tinha brigas horríveis com meu padrasto – tarde da noite, quando pensavam que eu estava dormindo.”
“Seu padrasto não mencionou isso”, disse Violet. “Ele disse que seu irmão era um homem charmoso.”
“Talvez ele só se lembre das partes charmosas”, replicou Fiona. “Talvez ele não queira se lembrar de tudo. Talvez queira manter essas partes em segredo.”
“Você acha que seu padrasto sabia deste lugar?”, perguntou Klaus, correndo os olhos pela fantasmagórica sala. “Ele mencionou que poderíamos encontrar um lugar para tirar os capacetes de mergulho, está lembrada? Na hora pareceu estranho.”
“Não sei”, disse Fiona. “Talvez esse seja mais um segredo que ele está guardando.”
“Como o açucareiro”, disse Violet.
“Por falar nisso”, disse Sunny.
“Sunny está certa”, disse Klaus. “Devíamos continuar a busca pelo açucareiro.”
“Deve estar aqui, em algum lugar”, concordou Fiona, “e, além disso, precisamos achar um jeito de ocupar o tempo até o fungo entrar em minguante. Todo mundo devia se espalhar e, caso encontrasse o açucareiro, gritar para os outros.”
Os Baudelaire balançaram a cabeça em concordância, e os quatro voluntários tomaram posições distantes na areia, zelando para não pisar perto do Mycelium Medusoide. Durante as horas seguintes, eles cavaram o chão de areia da gruta e examinaram o que encontraram à luz dos dois abajures altos. Cada camada de areia revelava vários itens interessantes, mas independentemente do número de objetos que as crianças encontraram, ninguém gritou. Violet encontrou uma manteigueira, um pedaço de fio elétrico e uma estranha pedra quadrada com mensagens gravadas em três línguas, mas não era o que estava procurando e, assim, a mais velha dos Baudelaire permaneceu em silêncio. Klaus encontrou uma caixa de palitos de dentes, um pequeno fantoche de mão e um anel feito de metal fosco, mas não o que ele viera procurar na caverna e, assim, o Baudelaire do meio apenas suspirou. E Sunny encontrou dois guardanapos de pano, um telefone quebrado e uma elegante taça de vinho cheia de buracos, mas quando ela finalmente abriu a boca para falar, a mais jovem dos Baudelaire disse apenas: “Lanche!”, o que queria dizer algo do tipo: “Por que nós não paramos para comer alguma coisa?”, e rapidamente abriu os biscoitos e a manteiga de amendoim que encontrara.
“Obrigada, Sunny”, disse Fiona, pegando um biscoito com manteiga de amendoim. “Vou dizer uma coisa, irmãos Baudelaire, estou quase frustrada. Minhas mãos doem de tanto cavar, mas nem sinal do açucareiro.”
“Começo a pensar que nossa missão vai dar com os burros n’água”, disse Violet, usando uma expressão que aqui significa “missão que não vai cumprir seu objetivo”. “Nós fizemos toda essa viagem até aqui embaixo para encontrar um item crucial, e em vez disso parece que não conseguimos encontrar nada a não ser lixo. É uma perda de tempo.”
“Não necessariamente”, disse Klaus, comendo um biscoito enquanto examinava os itens que encontrara. “Podemos não ter encontrado o açucareiro, mas acho que obtivemos algumas informações cruciais.”
“O que você quer dizer?”, disse Violet.
“Dê uma olhada nisso”, disse Klaus, e ergueu um livro que encontrara na areia. “É uma coletânea de poesia, e a maior parte está encharcada, não dá para ler. Mas veja a página de rosto.”
O Baudelaire do meio abriu o livro para os outros voluntários poderem ver. “Clarificação de Sibilinos Cantareileu Violet em voz alta.
“C.S.C.”, disse Sunny.
“Sim”, disse Klaus. “‘Sibilino’ significa ‘enigmático’, e ‘clarificação’ significa ‘tornar claro’. Eu acho que C.S.C. pode ter coisas escondidas aqui – não apenas o açucareiro, mas outros segredos.”
“Isso faria sentido”, disse Violet. “Esta gruta é um pouco como uma passagem secreta – como aquela que encontramos embaixo de nossa casa, ou a que Quigley encontrou embaixo da dele.”
Fiona assentiu e começou a procurar algo na pilha de coisas que tirara da areia. “Eu tinha encontrado um envelope”, disse ela, “mas nem pensei em abrir. Estava concentrada demais no açucareiro.”
“Pundonor”, disse Sunny, erguendo uma folha de jornal toda suja e rasgada. As crianças puderam ver as letras C.S.C, destacadas com um círculo em volta de uma manchete.
“Estou exausta demais para continuar a cavar”, disse Violet. “Vamos ler um pouco, em vez disso. Klaus, você pode examinar aquele livro de poesia. Fiona, você pode ver se há alguma coisa que valha a pena naquele envelope. E eu vou dar uma olhada no recorte que Sunny encontrou.”
“Eu?”, perguntou Sunny, cujas habilidades de leitura ainda estavam em desenvolvimento.
“Que tal cozinhar alguma coisa para nós, Sunny?”, Klaus sugeriu com um sorriso. “Aqueles biscoitos só serviram para despertar meu apetite.”
“Pronto”, prometeu a mais jovem dos Baudelaire, e se pôs a examinar as provisões que encontrara na areia, a maior parte das quais estava hermeticamente fechada. A expressão “despertar o apetite”, como você deve saber, significa acordar a fome da pessoa, e na maior parte das vezes essa fome é de comida. Os Baudelaire tinham perdido a noção do tempo enquanto vasculhavam a areia da gruta, e o lanche preparado por Sunny os acordou para o fato de que muito tempo se passara desde a última vez em que comeram. Mas um outro apetite também fora despertado nos Baudelaire – uma fome de segredos e informações que pudessem ajudá-los. Enquanto Sunny começava a preparar uma refeição para seus companheiros voluntários, Violet e Klaus examinaram o material que tinham encontrado, devorando qualquer informação que parecesse importante, e Fiona fez a mesma coisa, encostando-se na parede ladrilhada da caverna enquanto examinava o conteúdo do envelope que encontrara. A fome de informações dos voluntários era quase tão intensa quanto a fome de comida, e depois de um prolongado período estudando e tomando notas, batendo e misturando, as quatro crianças não sabiam dizer se estavam mais ansiosas por ouvir o resultado da pesquisa dos outros ou por comer a refeição que Sunny preparara.
“O que é isso?”, perguntou Violet à irmã, olhando fixamente para o aquário que Sunny usara como tigela de servir.
“Pesto Io mein explicou Sunny.
“O que minha irmã quer dizer”, disse Klaus, “é que ela encontrou um pacote de macarrão mole chinês, que misturou com molho italiano de manjericão que ela tirou de um vidro.”
“É uma combinação bem internacional”, disse Fiona.
“Hobson”, disse Sunny, o que queria dizer: “Dadas as circunstâncias, não tive muita escolha”, e então ofereceu outra coisa que encontrara. “Wasabi?”
“O que é wasabi?”, perguntou Violet.
“É um condimento japonês”, disse Klaus. “É muito picante, e costuma ser servido com peixe.”
“Por que não guardamos o wasabi, Sunny?”, disse Violet, e pegou a lata do condimento para guardá-la no bolso de seu uniforme. “Vamos levá-lo conosco para o Queequeg, lá você poderá usá-lo em alguma receita de frutos do mar.”
Sunny concordou com a cabeça e passou o aquário para os irmãos. “Talher”, disse ela.
“Podemos usar esses mexedores de coquetel como hashis, disse Klaus. “Vamos ter de comer em turnos, e quem não estiver comendo pode contar o que descobriu. Aqui estão, Fiona, por que você não começa?”
“Obrigada”, disse Fiona, pegando agradecida os mexedores de coquetel. “Estou com bastante fome. Você descobriu alguma coisa naquele livro de poesia?”
“Não tanto quanto gostaria”, disse Klaus. “A maior parte das páginas estava encharcada, portanto não pude ler muita coisa. Mas creio que aprendi um novo código: Comunicação por Semiflutuações em Cânticos. É um modo de se comunicar substituindo palavras em cânticos – ou poemas.”
“Não entendi”, disse Violet.
“É meio complicado”, disse Klaus, abrindo seu livro de lugar-comum na página em que copiara a informação. “O livro usa o poema ‘Minha última duquesa’, de Robert Browning, como exemplo.”
“Eu li esse poema”, disse Fiona, enrolando alguns fios de macarrão no mexedor de coquetel para levá-lo à boca. “É uma história arrepiante sobre um homem que assassina a esposa.”
“Certo”, disse Klaus. “Mas se um voluntário usasse o nome do poema em uma comunicação codificada, o título poderia ser ‘Minha última esposa’ em vez de ‘Minha última duquesa’, do poeta ‘Obert Browning’ em vez de Robert Browning.”
“E qual seria o propósito disso?”, disse Violet.
“O voluntário que lesse a mensagem repararia no erro”, disse Klaus. “Pode-se dizer que a mudança de certas palavras ou letras é uma espécie de flutuação, ou ‘semiflutuação’. Se você determinar as flutuações no poema, receberá a mensagem.”
“Duquesa R?”, perguntou Fiona. “Que tipo de mensagem é essa?”
“Não tenho certeza”, admitiu Klaus. “Está faltando a página seguinte do livro.”
“Você acha que a página que falta também é um código?”, perguntou Violet.
Klaus encolheu os ombros. “Não sei”, disse ele. “Códigos não passam de um jeito de falar para que algumas pessoas entendam e outras não. Lembra-se de quando conversamos com Quigley na caverna, com todos os outros Escoteiros da Neve ouvindo?”
“Sim”, disse Violet. “Nós usamos palavras que começavam com C, S e C, para que soubéssemos que estávamos todos do mesmo lado.”
“Talvez devêssemos ter um código para nós”, disse Fiona, “para que possamos nos comunicar se estivermos em apuros.”
“É uma boa ideia”, disse Klaus. “Que palavras poderíamos usar como código?”
“Comida”, sugeriu Sunny.
“Perfeito”, disse Violet. “Vamos fazer uma lista de comidas e o que significam em nosso código. Nós as usaremos na conversa, e nossos inimigos nunca suspeitarão que estamos na verdade nos comunicando.”
“E nossos inimigos podem estar em qualquer esquina”, disse Fiona, passando o aquário de Io mein para Violet e pegando o envelope que encontrara. “Dentro desse envelope havia uma carta. Normalmente eu não leio a correspondência de outra pessoas, mas parece improvável que essa carta chegue algum dia a Gregor Anwhistle.”
“Gregor Anwhistle?”, perguntou Violet. “Ele é o fundador da central de pesquisas. Quem escreveu para ele?”
“Uma mulher chamada Kit”, disse Fiona. “Acho que é Kit Snicket, a irmã de Jacques.”
“É claro”, disse Klaus. “Seu padrasto disse que ela era uma mulher nobre, que ajudou a construir o Queequeg.”
“De acordo com a carta”, disse Fiona, “Gregor Anwhistle estava envolvido em alguma coisa chamada ‘cisão’. O que é isso?”
“Foi um grande conflito interno em C.S.C.”, disse Klaus. “Quigley nos falou um pouco sobre isso.”
“Todo mundo escolheu um lado”, lembrou Violet, “e agora a organização virou um caos. De que lado estava Gregor?”
“Não sei”, disse Fiona com o cenho franzido. “Parte da carta está em código, e parte ficou dentro d’água. Não consigo entender tudo, mas parece que Gregor estava envolvido em alguma coisa chamada Carreação de Supervoláteis Cogumelos.”
“‘Carreação’ quer dizer ‘transportar alguma coisa de um lugar para outro’“, disse Klaus. “‘Volátil’ quer dizer ‘instável’ ou ‘que provavelmente vai causar problemas’. ‘Cogumelos’ nós sabemos, é claro. Quem estava transportando cogumelos superinstáveis de um lugar para outro?”
“C.S.C.”, respondeu Fiona. “Durante a cisão, Gregor achava que o Mycelium Medusoide poderia ser útil.”
“O Mycelium Medusoide?”, disse Violet, olhando nervosa para os silenciosos cogumelos cinzentos que ainda forravam a entrada da pequena sala ladrilhada, as manchas pretas que pareciam mais fantasmagóricas sob a luz pálida. “Não consigo imaginar como alguém poderia pensar que coisas tão letais fossem úteis.”
“Ouça o que Kit escreveu a respeito”, disse Fiona. “‘O fungo venenoso que você insiste em cultivar na furna vai trazer severas consequências para todos nós. Nossa fábrica no Mau Caminho pode prover uma certa diluição da capacidade destrutiva do micélio sobre a respiração, deixando-o menos nocivo, e você me assegura que o micélio se desenvolve melhor em espaços fechados e pequenos, mas isso não me acalma. Um só erro, Gregor, e suas instalações deverão ser abandonadas. Por favor, não se transforme na coisa que mais o apavora, adotando a tática destrutiva de nossos vilanescos inimigos: brincar com fogo.’”
Klaus copiava com cuidado a carta de Kit Snicket em seu livro de lugar-comum. “Gregor estava cultivando aqueles cogumelos”, disse ele, “para usar contra os inimigos de C.S.C.”
“Ele ia envenenar pessoas?”, perguntou Violet.
“Pessoas vilanescas”, respondeu Fiona, “mas Kit Snicket achou que usar cogumelos venenosos também era vilanesco. Eles trabalhavam em um meio de enfraquecer o veneno, em uma fábrica no Mau Caminho. Mas a autora da carta ainda achava que a Carreação de Supervoláteis Cogumelos era algo perigoso demais, e advertiu Gregor de que, caso não tomasse cuidado, o micélio iria envenenar a central de pesquisas inteira.”
“E agora a central se foi”, disse Violet, “mas o micélio permanece. Alguma coisa deu muito errado aqui onde estamos sentados.”
“Eu ainda não entendo”, disse Klaus. “Gregor era um vilão?”
“Acho que ele era volátil”, disse Fiona, “como o Mycelium Medusoide. E a autora da carta diz que quando você cultiva uma coisa volátil, está brincando com fogo.”
Violet estremeceu, parou de comer seu Io mein alpesto e pôs de lado o aquário. “Brincar com fogo”, é claro, é uma expressão que se refere a qualquer atividade perigosa ou arriscada, tal como escrever uma carta para uma pessoa volátil ou viajar por uma caverna escura cheia de fungos venenosos a fim de procurar um objeto que foi levado embora há um bocado de tempo, e os Baudelaire não gostavam de pensar no fogo com que estavam brincando, ou nos fogos com que pessoas já tinham brincado naquela sala úmida e misteriosa. Por um momento, ninguém falou, e os Baudelaire ficaram olhando fixamente para os talos e píleos dos cogumelos letais, perguntando-se o que dera errado para a Aquáticos Anwhistle. Eles se perguntaram como começara a cisão. E se perguntaram sobre todas as coisas misteriosas e vilanescas que pareciam rodeá-los, coisas que chegavam cada vez mais perto à medida que suas vidas miseráveis prosseguiam, e se perguntaram se um dia tais mistérios seriam resolvidos, se um dia os vilões seriam derrotados.
“Minguante”, disse Sunny de repente, e as crianças viram que era verdade. A multidão de cogumelos parecia estar só um pouquinho menor, e aqui e ali elas viram um talo e um píleo desaparecerem dentro da areia, como se o fungo venenoso tivesse decidido implementar uma estratégia alternativa, uma expressão que aqui significa “aterrorizar os Baudelaire de um outro jeito”.
“Sunny está certa”, disse Klaus aliviado. “O Mycelium Medusoide está minguando. Logo será seguro retornar ao Queequeg.
“Deve ser um ciclo bem curto”, disse Fiona, fazendo uma anotação em seu livro de lugar-comum. “Há quanto tempo vocês acham que estamos aqui?”
“A noite inteira, pelo menos”, disse Violet, desdobrando a folha de jornal que Sunny encontrara. “Foi sorte termos achado todo esse material, caso contrário teríamos ficado bem entediados.”
“Meu irmão sempre tinha um baralho com ele”, lembrou-se Fiona, “para o caso de ficar retido em alguma situação tediosa. Ele inventou um jogo de cartas chamado Desatino de Fernald, e nós dois costumávamos jogar sempre que tínhamos uma longa espera pela frente.”
“Fernald?”, perguntou Violet. “Era esse o nome do seu irmão?”
“Sim”, disse Fiona. “Por quê?”
“Curiosidade”, disse ela, enfiando apressadamente o jornal no bolso do uniforme. Lá dentro havia espaço suficiente apenas para ele, ao lado da lata de wasabi.
“Você não vai nos contar o que havia no jornal?”, perguntou Klaus. “Eu vi que a manchete dizia C.S.C.”
“Não deu para descobrir nada”, disse Violet. “A matéria estava borrada demais para ler.”
“Hummm”, disse Sunny, dando uma olhadela marota para a irmã. A mais jovem dos Baudelaire conhecia Violet desde que nascera, é claro, e achava muito fácil perceber quando a irmã mentia. Violet olhou de volta para Sunny, depois para Klaus, e sacudiu a cabeça muito, muito de leve.
“Por que não nos preparamos para partir?”, disse a mais velha dos Baudelaire. “Até a gente arrumar esses documentos e colocar os capacetes de mergulho, o fungo já terá minguado completamente.”
“Você tem razão”, disse Fiona. “Aqui, Sunny, vou ajudá-la com seu capacete. É o mínimo que posso fazer depois de você ter preparado uma refeição tão deliciosa.”
“Muiphidalgo”, disse Sunny, o que queria dizer: “Muito gentil de sua parte”, e, apesar de Fiona não conhecer Sunny há muito tempo, ela entendeu mais ou menos o que a mais jovem dos Baudelaire tinha dito, e sorriu para os três irmãos Baudelaire.
Enquanto os quatro voluntários se ataviavam, uma palavra que aqui significa “preparavam seus capacetes para uma jornada subaquática”, as crianças Baudelaire sentiram que Fiona lhes servia com uma luva – como amiga, ou possivelmente algo mais. Era como se Fiona e os Baudelaire fossem parte da mesma equipe ou da mesma organização, tentando resolver os mesmos mistérios e derrotar os mesmos vilões. Pelo menos era essa a sensação dos dois Baudelaire mais jovens. Apenas Violet tinha a sensação de que sua amizade era mais volátil, como se Fiona lhe servisse como uma luva trocada, ou como se a amizade tivesse uma pequena trinca – uma trinca que poderia se transformar em uma cisão.
Quando Violet enfiou a cabeça no capacete de mergulho e assegurou-se de que o zíper do uniforme estava bem fechado por cima do retrato de Herman Melville, ouviu o leve roçar do recorte de jornal em seu bolso e franziu as sobrancelhas. Permaneceu com as sobrancelhas franzidas enquanto o último cogumelo desaparecia na areia, e as quatro crianças entraram de novo, cautelosamente, na água escura e gelada. Como iam contra a maré, os voluntários decidiram se dar as mãos, para não se perderem um do outro durante viagem de volta ao Queequeg, e quando iniciaram a escura jornada, Violet pensou no perigoso e arriscado segredo escondido em seu bolso.
Enquanto Klaus os liderava no caminho de volta ao submarino, de mãos dadas com Fiona, que dava as mãos para Violet enquanto ela segurava o capacete de Sunny debaixo do braço, a mais velha dos Baudelaire se deu conta de que, mesmo nas profundezas geladas do oceano, os irmãos estavam brincando com fogo. A informação sinistra no recorte de jornal era como um minúsculo esporo, brotando no pequeno espaço fechado do bolso de Violet – como um esporo do letal Mycelium Medusoide, que naquele exato momento brotava no pequeno espaço fechado de um dos capacetes de mergulho usados pelos órfãos Baudelaire.

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