terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo seis


Quando o elevador atingiu o terceiro andar, Sunny se despediu dos seus irmãos e entrou em um longo corredor vazio. Ele era ladeado por portas numeradas, números ímpares de um lado e pares do outro, e por grandes vasos ornamentais, que eram mais altos do que Sunny porém nem de longe tão encantadores quanto ela. A mais jovem dos Baudelaire caminhou sobre o macio carpete cinzento com passos nervosos e incertos. Fingir ser uma concierge a fim de ser flâneur, na esperança de desvendar um mistério que se desenrolava em um hotel enorme e desconcertante, era uma tarefa suficientemente difícil para os seus irmãos mais velhos – imagine para alguém que estava apenas saindo da primeira infância. No decorrer dos últimos poucos meses, Sunny Baudelaire tinha aperfeiçoado suas aptidões locomotoras, adotara um vocabulário mais padronizado e até aprendera a cozinhar, mas ainda se sentia insegura para passar por uma profissional de hotelaria. Ao se aproximar dos hóspedes que tocaram a sineta chamando um ou uma concierge, ela decidiu adotar uma postura taciturna, uma expressão que aqui significa “só se comunicar quando absolutamente necessário, a fim de não chamar atenção para a sua juventude e relativa inexperiência no emprego”.
Quando Sunny chegou ao quarto 371, de início achou que houvera algum engano. Lá embaixo no saguão, ou Frank ou Ernest havia contado aos Baudelaire que os hóspedes educacionais estavam instalados naquele quarto em particular, mas a mais jovem dos Baudelaire não podia imaginar que propósito educacional poderia explicar os sons estranhos e assustadores que vinham de trás da porta, a não ser, talvez, que um professor estivesse dando uma aula sobre como torturar um pequeno animal. Alguém – ou alguma coisa – no quarto 371 estava soltando guinchos apavorantes, gemidos insólitos, murmúrios misteriosos, gritos irritantes e, de repente, um ou dois tons melodiosos. Os sons eram tão altos que alguns instantes se passaram antes que alguém ouvisse os punhos enluvados de Sunny batendo na porta.
“Quem se atreve a interromper um gênio quando ele está ensaiando?”, disse uma voz forte, retumbante e estranhamente familiar.
“Concierge”, gritou Sunny.
“Concierge”, arremedou a voz respondendo a Sunny, num tom estridente e guinchado que a Baudelaire mais nova reconheceu imediatamente; para seu desalento, a porta se abriu e lá estava uma pessoa que ela esperara nunca mais encontrar de novo.
Se alguma vez você já trabalhou em algum lugar e, mais tarde, deixou de trabalhar lá, sabe que há três maneiras de fazê-lo: você pode pedir demissão, pode ser demitido, ou pode sair por mútuo acordo. “Pedir demissão”, como tenho certeza de que você sabe, é uma expressão que significa que você ficou desapontado com o seu patrão. “Ser demitido”, naturalmente, é uma expressão que significa que o seu patrão ficou desapontado com você. E “sair por mútuo acordo” é uma expressão que significa que você queria pedir demissão e o seu patrão queria demiti-lo, então você saiu correndo do escritório, da fábrica ou do monastério, antes que qualquer pessoa pudesse decidir quem iria primeiro. Qualquer que seja o caso, não importa o método usado para deixar um emprego, nunca é agradável cruzar com um ex-patrão, porque isso lembrará a ambos todos os momentos miseráveis que vocês passaram juntos. Certa vez eu me atirei por um lance de escadas para não encarar por um momento sequer uma chapeleira em cuja loja deixei de trabalhar depois de desvendar a verdade sinistra sobre as boinas dela, só para descobrir que o paramédico que reparou o meu braço fraturado me demitira de um emprego de sanfoneiro na sua orquestra depois de apenas uma apresentação e meia de uma certa ópera. Seria difícil dizer se Sunny encerrou o breve lapso de tempo – uma expressão que aqui significa “apavorante período” – em que trabalhou como assistente administrativa na Escola Preparatória Prufrock pedindo demissão, sendo demitida ou saindo por mútuo acordo. Ela trabalhou lá quando foi removida com seus irmãos do colégio interno, depois que um esquema do conde Olaf foi quase bem-sucedido, mas, mesmo depois de todo esse tempo, ainda era desagradável estar frente a frente com o vice-diretor Nero.
“O que você quer?”, perguntou Nero, brandindo o violino que estava fazendo todo aquele barulho horrível. Sunny não ficou feliz em ver que os quatro rabichos-de-cavalo, que eram bem curtos quando ela foi apresentada ao vice-diretor, tinham crescido e se transformado em tranças compridas e ensebadas, e que ele ainda gostava de usar uma gravata decorada com cobras.
“Você tocou”, disse Sunny, o mais taciturna que pôde.
Você tocou”, arremedou Nero imediatamente. “Bem, e daí que eu toquei? Se toquei para chamá-la, isso não é desculpa para me interromper quando estou praticando o violino. Tenho um recital de violino muito importante na quinta-feira, e meu plano é ensaiar o tempo todo até lá.”
“Por favor, patrão”, disse outra voz familiar, e Nero se virou, as tranças sebentas balançando atrás dele. Sunny viu, para seu grande desgosto, que Nero estava dividindo o quarto 371 com duas outras figuras do passado dos Baudelaire. “O senhor disse que poderíamos parar para o almoço”, continuou o sr. Remora, que tinha sido professor de Violet na Escola Preparatória Prufrock, muito embora fosse difícil dizer exatamente que tipo de professor ele era, pois tudo o que gostava de fazer era contar historinhas curtas e sem sentido, e comer banana após banana, ocasionalmente besuntando de polpa amarela todo o bigode, que era escuro e grosso como um polegar de gorila.
“Estou com tanta fome que seria capaz de comer um decagrama de arroz”, disse a sra. Bass, que tinha sido professora de Klaus. Estava claro que o seu entusiasmo por medições de acordo com sistemas métricos exatos continuava o mesmo, mas a mais jovem dos Baudelaire notou que sua aparência mudara um pouco. Cobrindo seus cabelos pretos e desgrenhados havia uma pequena peruca loira, como um pico nevado em uma montanha, e ela usava uma pequena máscara estreita com dois furinhos para os olhos. “Ouvi dizer que há um maravilho restaurante indiano na Sala 954.”
Normalmente, Sunny teria respondido “Andiamo”, que era o seu jeito de dizer “Terei prazer em levá-los até lá”, no entanto teve medo de que o jeito de falar denunciasse a sua verdadeira identidade, portanto, em vez disso, ela continuou com a postura taciturna, inclinando-se ligeiramente para os três hóspedes e fazendo um gesto na direção ao corredor com uma de suas luvas. O vice-diretor Nero pareceu desapontado, mas então lançou um olhar acompanhado de um sorriso zombeteiro e pôs-se a arremedar os gestos dela de um modo insultuoso, provando assim que era capaz de ridicularizar alguém mesmo sem falar.
“Não acha melhor levar o seu dinheiro, sra. Bass?”, perguntou o sr. Remora, apontando para a parede oposta do quarto 371.
“Não, não”, disse depressa a sra. Bass, piscando nervosamente através dos furinhos da máscara. “Estará mais seguro no quarto.”
Sunny inclinou a cabeça para poder olhar além dos joelhos da professora, e fez a sua primeira observação importante como flâneur. Uma avultada pilha de grandes e avultados sacos amontoava-se sobre a mesa, cada um deles com as palavras PROPRIEDADE DA ADMINISTRAÇÃO FINANCEIRA DE MULTAS estampadas em severa tinta preta. A mais jovem dos Baudelaire não era capaz de imaginar por que a sra. Bass estava de posse de algo do banco em que trabalhava o sr. Poe, mas, com dois professores e um vice-diretor aguardando impacientes no corredor, ela não teve tempo de parar para pensar. Com mais um gesto taciturno, levou os hóspedes rapidamente até o elevador, grata pelo fato de a sra. Bass conhecer a localização do restaurante. A mais jovem dos Baudelaire não teria ideia de como encontrar um restaurante indiano no Hotel Desenlace sem um catálogo.
“Estou muito animado com o meu recital”, disse o vice-diretor Nero, quando o pequeno elevador começou sua viagem rumo ao nono andar. “Tenho certeza de que os críticos musicais que estarão no coquetel irão adorar a minha apresentação. Assim que eu for reconhecido como um gênio, poderei finalmente largar o meu emprego na Prep Prufrock!”
“Como você sabe que haverá críticos musicais na festa?”, perguntou o sr. Remora. “Meu convite só dizia que haveria um bufê de bananas tipo ‘tudo o que você aguentar comer’.”
“O meu também não dizia nada sobre críticos musicais”, disse a sra. Bass. “Ele só dizia que haveria uma festa celebrando o sistema métrico, e que eu deveria levar o maior número possível de objetos de valor para serem medidos. Como professora, não ganho o bastante para comprar objetos de valor, então tive de apelar para uma vida de crimes.”
Tive de apelar para uma vida de crimes”, arremedou Nero. “Não posso acreditar que um gênio como eu foi convidado para a mesma festa que vocês dois. Esmé Squalor e seu namorado devem ter mandado os convites para vocês por engano.”
Os olhos de Sunny se estreitaram, pensativos, atrás dos seus enormes óculos escuros. O namorado de Esmé Squalor, é claro, era nada menos que o conde Olaf. Depois de tanto tempo lutando contra seus esquemas vilanescos, a mais jovem dos Baudelaire não ficou surpresa ao ouvir que Olaf estava planejando mais perfídias, porém não podia imaginar por que ele atraíra seu antigo patrão para o hotel. Ela teria adorado continuar com as suas observações como flâneur, mas quando o elevador se deteve reassumiu seus deveres como concierge e pronunciou uma última palavra taciturna.
“Nove”, disse ela.
“Nove”, arremedou Nero, e forçou passagem para a frente, para poder sair do elevador primeiro. Sunny o seguiu e rapidamente guiou os três hóspedes para a porta com o número 954, que ela abriu com um floreio silencioso.
“Posso ajudar?”, perguntou uma voz trêmula, e Sunny ficou atônita ao reconhecer mais uma pessoa do passado dos Baudelaire. Era um homem muito velho, usando óculos minúsculos, cada lente não muito maior que uma ervilha. Quando as crianças encontraram esse homem pela primeira vez, ele não estava usando nenhum tipo de chapéu, mas agora enrolara uma faixa de tecido em volta da cabeça, prendendo-a com uma pedra vermelha brilhante. Sunny lembrou-se de um turbante assim na cabeça do conde Olaf quando ele se disfarçou de professor de ginástica, mas não foi capaz de imaginar por que uma coisa como aquela seria usada pelo homem que os Baudelaire haviam conhecido no Hospital Heimlich.
“Posso ajudar?”, arremedou Nero. “É claro que você pode ajudar! Estamos morrendo de fome!”
“Não percebi que era uma ocasião triste”, disse Hal, apertando os olhos através dos óculos.
“Não será uma ocasião triste se você nos alimentar”, disse o sr. Remora.
Hal franziu o cenho, como se o sr. Remora tivesse dado a resposta errada, mas logo conduziu os três hóspedes para uma mesa de madeira no restaurante, de resto vazio.
“Nós nos orgulhamos de servir uma grande quantidade de pratos indianos”, disse ele, entregando os cardápios e servindo a todos um copo d’água. “Na verdade, a história culinária da região é bem interessante. Quando os ingleses...”
“Eu vou querer dez gramas de arroz”, interrompeu a sra. Bass, “um décimo de hectograma de vindalu de camarão, um decagrama de shana alu masala, mil centigramas de salmão tanduri, quatro samosas com uma área de superfície de dezenove centímetros cúbicos, cinco decilitros de lasside manga e um sada rava dosai com exatamente dezenove centímetros de comprimento.”
Sunny esperava que Hal falasse algo sobre alguns dos pratos que a sra. Bass havia pedido, pois assim suas observações como flâneur poderiam servir também para aperfeiçoar suas habilidades de cozinheira, mas ele simplesmente anotou o pedido dela sem comentários e voltou-se para o sr. Remora, que estava franzindo o cenho para o cardápio.
“Vou querer quarenta e oito porções de bananas fritas”, disse ele depois de muito pensar.
“Uma escolha interessante”, comentou Hal. “E o senhor?”
“Um saco de balas!”, ordenou o vice-diretor Nero. Sunny quase se esquecera de que o seu antigo patrão exigia balas de qualquer pessoa sempre que podia.
“Balas não são um prato indiano tradicional”, disse Hal. “Caso não tenha certeza do que pedir, permita-me recomendar o prato combinado.”
“Permita-me recomendar o prato combinado.’“, arremedou Nero lançando um olhar furioso para Hal. “Tudo bem. Eu não vou comer nada! Provavelmente é perigoso chupar balas oferecidas por estrangeiros!”
Hal não reagiu àquele acesso de xenofobia – palavra que indica o medo de culturas estrangeiras ou repulsa por elas; Jerome Squalor a ensinara aos Baudelaire algum tempo atrás –, apenas inclinou a cabeça.
“O seu almoço ficará pronto daqui a pouco”, disse ele. “Estarei na cozinha se precisarem de alguma coisa.”
“Estarei na cozinha se precisarem de alguma coisa’, arremedou Nero imediatamente, enquanto Hal atravessava um par de portas de vaivém. Com um suspiro, ele tirou o seu copo d’água de cima da toalha individual e o colocou sobre o tampo de madeira da mesa, onde certamente deixaria marca, e voltou-se para os dois professores. “A cabeça daquele estrangeiro me lembra a daquele homem simpático, o instrutor Genghis.”
“Homem simpático?”, perguntou o sr. Remora. “Se bem me lembro, ele era um vilão notório disfarçado.”
A sra. Bass ergueu as mãos e ajeitou nervosamente a peruca.
“Só porque alguém é criminoso”, disse ela, “isso não quer dizer que não seja uma pessoa simpática. Além disso, quando você é um fugitivo da lei, não tem como evitar o mau humor de vez em quando.”
“Por falar em fugitivo da lei...”, disse o sr. Remora, mas o vice-diretor o interrompeu com um olhar feroz.
“Falaremos disso mais tarde”, ele falou depressa, e então virou-se para Sunny. “Concierge, vá buscar guardanapos para nós”, disse Nero, claramente inventando uma desculpa para mandar a mais jovem dos Baudelaire para longe do alcance da sua voz. “Só porque não estou comendo não quer dizer que não posso ficar com o queixo sujo de comida!”
Sunny assentiu, taciturna, e atravessou as portas de vaivém. Como flâneur, ela lamentava ter de interromper suas observações, especialmente quando os hóspedes do quarto 371 pareciam prestes a discutir algo importante. Mas, como uma gourmand florescente – uma expressão que aqui significa “menininha com forte interesse em cozinha” –, estava ansiosa por dar uma olhada em uma cozinha de restaurante. Desde que a juíza Strauss levara os Baudelaire ao mercado a fim de comprar ingredientes para fazer um molho à puttanesca, Sunny começara a se interessar pela arte culinária, embora só recentemente tivesse amadurecido o suficiente para desenvolver esse interesse. Se você nunca deu uma espiada em uma cozinha de restaurante, isso é algo que vale a pena fazer, pois ela é cheia de itens interessantes, e de modo geral é muito fácil entrar em uma sorrateiramente, desde que você não se incomode com os olhares furiosos se for descoberto. Mas quando Sunny atravessou as portas de vaivém não notou nenhum item interessante na cozinha. Para começar, o lugar estava tomado pelo vapor revoluteante proveniente de uma dúzia de panelas que ferviam em todos os cantos. Com o ar enevoado, ficava difícil enxergar muita coisa, contudo essa não era a principal razão por que Sunny estava ignorando o equipamento culinário. Havia uma conversação em curso entre duas figuras insondáveis no recinto, e o que estava sendo dito era muito mais interessante do que quaisquer ingredientes ou dispositivos usados na preparação de pratos indianos tradicionais.
“Tenho notícias de J.S.”, sussurrava Frank ou Ernest para Hal. Ambos os homens estavam em pé, de costas para Sunny e inclinando-se um na direção do outro, de modo que pudessem falar o mais discretamente possível. Sunny manobrou para dentro de uma nuvem de vapor especialmente espessa, procurando não ser flagrada.
“J.S.?”, disse Hal. “Ela está aqui?”
“Está aqui para ajudar”, corrigiu o gerente. “Andou usando os seus Colimadores Simplificados de Clarificação para observar o céu, e receio que vá relatar que todos nós vamos comer corvos.”
“Lamento ouvir isso”, disse Hal. “Corvos são aves difíceis de cozinhar, porque a carne é muito musculosa de tanto que os corvos carregam coisas.”
Sunny coçou a cabeça com uma luva, intrigada.
A expressão “comer corvos” lhe pareceu significar simplesmente a mesma coisa que “engolir sapos”, ou seja, “aguentar humilhação”, e a mais jovem dos Baudelaire aprendera isso com seus pais, que gostavam de provocar um ao outro depois de uma partida de gamão. Sunny lembrou-se da mãe jogando os dados no chão, triunfante, e dizendo “Bertrand, ganhei de novo. Prepare-se para engolir sapos”. Então, com um brilho maroto nos olhos, ela se atirava sobre o pai de Sunny e fazia cócegas nele, enquanto as crianças Baudelaire se amontoavam em cima dos dois numa pilha gargalhante. Mas Hal parecia estar discutindo a expressão comer corvos como se fosse um prato de culinária real, e não uma figura de linguagem, e a mais jovem dos Baudelaire se perguntou se não haveria alguma coisa a mais naquele restaurante indiano, além do que ela pensara.
“É uma pena”, concordou Frank ou Ernest. “Se apenas houvesse algo para deixar o prato um pouco mais doce. Ouvi dizer que certos cogumelos estão disponíveis.”
“Açúcar seria melhor do que cogumelos”, disse Hal de um modo insondável.
“De acordo com os nossos cálculos, o açúcar irá para a lavagem a qualquer momento depois da meia-noite”, retrucou o gerente, de um modo igualmente insondável.
“Fico contente”, disse Hal. “Meu trabalho tem sido suficientemente difícil. Você sabe quantas folhas de alface tive de mandar para a cobertura?”
Frank ou Ernest franziu o cenho.
“Conte-me”, disse ele, em um tom de voz ainda mais baixo “Você é quem eu penso que é?”
Você é quem eu penso que é?”, replicou Hal, em tom igualmente baixo.
Sunny se arrastou mais para perto, na esperança de ouvir melhor a conversa e assim descobrir se Frank ou Ernest estava se referindo ao açucareiro. Mas, para desespero da mais jovem dos Baudelaire, o assoalho rangeu de leve e a nuvem de vapor se desfez num turbilhão, e Hal e Ernest, ou talvez Frank, giraram nos calcanhares para olhá-la.
“Você é quem eu penso que é?”, disseram os dois homens em uníssono.
Uma das vantagens de ser taciturno é que assim raramente suas palavras o metem em encrenca. Um escritor taciturno, por exemplo, poderia produzir apenas um poema muito curto a cada dez anos, o que dificilmente incomodaria alguém, ao passo que é provável que alguém que escreve doze ou treze livros em um tempo relativamente curto se veja escondido debaixo da mesa de café de um notório vilão, prendendo a respiração, esperando que ninguém no coquetel repare no trêmulo jogo de gamão, e se perguntando, enquanto a mancha de tinta se espalha pelo carpete, se certos exercícios literários valeram mesmo a pena. Se Sunny tivesse decidido adotar uma postura loquaz, teria sido necessário pensar em uma longa resposta para a pergunta que acabava de ser feita, e ela não conseguia nem imaginar que resposta poderia ser essa. Se soubesse que o gerente na cozinha era Frank, teria dito algo como “Sunny Baudelaire, por favor ajude”, que era o seu jeito de dizer “Sim, eu sou Sunny Baudelaire, e meus irmãos e eu precisamos da sua ajuda para desvendar o esquema misterioso que se desenrola no Hotel Desenlace e transmitir as descobertas por meio de sinais aos membros de C.S.C.”. Se ela soubesse que era Ernest que olhava para ela, diria alguma coisa mais parecida com “No habla esperanto”, que era o seu jeito de dizer “Me desculpe. Não sei do que está falando”. A presença de Hal, é claro, tornava a situação ainda mais complicada, porque as crianças saíram de seus empregos na Biblioteca de Registros do Hospital Heimlich por mútuo acordo, uma vez que Hal acreditava que elas eram os responsáveis por atear fogo à Biblioteca de Registros, e os Baudelaire precisaram fugir do hospital o mais depressa possível, mas Sunny não tinha como saber se Hal continuava a guardar ressentimento – uma expressão que aqui significa “ser inimigo dos Baudelaire” –, ou se ele estava trabalhando no hotel como voluntário. Entretanto, Sunny adotara uma postura taciturna, e tudo o que precisava era de uma resposta taciturna.
“Concierge”, disse ela, e foi o bastante. Hal olhou para Frank, ou talvez fosse Ernest, e Ernest, ou talvez fosse Frank, olhou de volta para Hal. Os dois homens balançaram a cabeça e depois foram até um armário lustroso do outro lado da cozinha. Hal o abriu e entregou um objeto grande e estranho para Frank ou Ernest, que o examinou e passou para Sunny. Era como uma grande aranha de metal, com fios espiralados se espalhando em todas as direções, mas onde deveria estar a cabeça da aranha havia um teclado de máquina de escrever.
“Você sabe o que é isto?”, perguntou o vilão ou voluntário.
“Sim”, disse a mais jovem dos Baudelaire. Sunny nunca tinha visto um dispositivo como aquele, mas seus irmãos haviam descrito a estranha fechadura que encontraram em uma passagem secreta escondida dentro das Montanhas de Mão-Morta. Não fossem os conhecimentos de ciência de Violet e a notável memória de Klaus a respeito de literatura russa, eles poderiam nunca ter aberto a fechadura, e Sunny ainda seria prisioneira do conde Olaf.
“Tenha muito cuidado com isto”, disse Frank ou Ernest. “Quando você coloca este dispositivo em cima da maçaneta de uma porta comum, e pressiona as letras C, S e C, ele se transforma em uma porta de Cerramento Supravernacular Complexo. Quero que você pegue o elevador até o subsolo e faça o Cerramento Supravernacular Complexo da Sala 025.”
“Trata-se da lavanderia, você sabe”, disse Hal apertando os olhos para Sunny através dos óculos. “Como acontece com muitas portas de lavanderias, há um respiro que canaliza o vapor de todas as máquinas de lavar para o exterior, para que o recinto não fique sobreaquecido.”
“Mas se alguma coisa cair do céu exatamente no ângulo certo”, disse Frank ou Ernest, “poderá cair através do respiro para dentro do recinto. E se essa coisa for muito valiosa, então o recinto terá de ser bem trancado, para que o item não venha a cair nas mãos erradas.”
Sunny Baudelaire não tinha ideia do que aqueles dois adultos estavam falando e desejou estar ainda envolta pelo vapor, para que pudesse observar o resto da conversa deles. Mas ela segurou com firmeza a estranha fechadura em suas mãos enluvadas e percebeu que não era hora de ser flâneur.
“Fico grato por sua ajuda, concierge”, disse Frank, ou talvez tenha sido Ernest, ou talvez o homem que falava não fosse nenhum dos irmãos. “Não são muitas as pessoas que têm a coragem de ajudar em um esquema como este.”
Sunny fez mais um aceno taciturno com a cabeça e voltou-se para sair da cozinha. Em silêncio, atravessou as portas de vaivém e o restaurante sem parar nem para ouvir a conversa sussurrada que o vice-diretor Nero estava tendo com o sr. Remora e a sra. Bass, e em silêncio ela abriu a porta da Sala 954 e caminhou pelo corredor até o elevador. Foi somente quando estava descendo de elevador até o subsolo que o silêncio de Sunny foi quebrado por um ruído impactante.
O relógio do saguão do Hotel Desenlace é de fama legendária, uma expressão que aqui significa “muito conhecido por tocar muito alto”. Fica bem no centro do teto, bem no topo da abóbada, e quando ele bate as horas seus sinos ecoam pelo prédio inteiro, produzindo um ruído imenso e profundo que soa como uma estranha palavra pronunciada uma vez para cada hora anunciada. Naquele momento em particular eram três horas, e todo mundo no hotel pôde ouvir o toque estrondoso dos enormes sinos do relógio, emitindo a palavra três vezes seguidas: Nadabom! Nadabom! Nadabom!
Enquanto atravessava as portas deslizantes do elevador e caminhava pelo corredor do subsolo, passando pelos vasos ornamentais e as portas numeradas, Sunny Baudelaire sentiu como se o relógio a estivesse repreendendo por seus esforços para resolver os mistérios do Hotel Desenlace. Nadabom! Ela. tentara dar o melhor de si para ser uma flâneur, mas não observara o suficiente para descobrir o que dois professores e um vice-diretor da Escola Preparatória Prufrock estavam fazendo no hotel. Nadabom! Ela tentara se comunicar com um dos gerentes do hotel, mas não fora capaz de descobrir se era Frank ou Ernest, ou se Hal era um voluntário ou um inimigo. E – o mais Nadabom! de todos – desempenhava uma incumbência como concierge, e estava agora transformando a entrada da lavanderia em uma porta de Cerramento Supravernacular Complexo, para servir a algum propósito sinistro desconhecido.
A cada batida do relógio, Sunny sentia que nada estava bom, até que por fim chegou à Sala 025, onde uma lavadeira com longos cabelos loiros e roupas amarrotadas acabava de fechar a porta ao sair. Com um apressado aceno de cabeça, a lavadeira desceu o corredor em passos silenciosos. Sunny esperava de todo coração que seus dois irmãos tivessem obtido mais sucesso em suas incumbências, pois ao colocar o dispositivo sobre a maçaneta da porta e pressionar as letras C-S-C no teclado de máquina de escrever, tudo em que a mais jovem dos Baudelaire conseguiu pensar foi que aquilo tudo não era nada bom, nada bom, nada bom.

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