sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo seis


“Vocês jovens estão muito elegantes com esses capacetes!”, disse Phil com um sorriso largo e otimista. “Sei que devem estar um pouquinho nervosos, mas estou certo de que vocês crianças darão conta de qualquer situação!”
Os órfãos Baudelaire suspiraram e se entreolharam de dentro de seus capacetes de mergulho. Quando alguém diz que você vai dar conta da situação, significa que essa pessoa acha que você será forte ou habilidoso o bastante para lidar com qualquer imprevisto, mas Violet, Klaus e Sunny não sabiam se poderiam dar conta da situação, já que estavam com medo de afundar. Embora já tivessem arrastado os capacetes na ida e na volta dos alojamentos, ainda não tinham percebido como eles eram incômodos até que os prenderam nos uniformes à prova d’água. Violet não gostou do fato de não poder passar as mãos através do capacete para amarrar o cabelo, caso precisasse de repente inventar algo por força das circunstâncias, uma expressão que aqui significa “enquanto percorria a Gruta Gorgônea”. Klaus descobriu que era difícil enxergar, pois a pequena janela circular do capacete concorria com seus óculos. E Sunny não ficou nada contente por ter de se enroscar dentro do capacete, fechar a portinhola e ser carregada pela irmã como se fosse uma bola de vôlei e não uma menininha. Quando vestiram seus uniformes apenas algumas horas antes, os três irmãos acharam que as roupas à prova d’água serviam como uma luva. Mas agora, saindo do salão principal e seguindo o capitão Andarré pelo corredor úmido e gotejante, as crianças temiam que os uniformes servissem mais como âncoras que os arrastariam para as profundezas do mar.
“Não se preocupem”, disse Fiona, como se lesse os pensamentos dos Baudelaire. Ela deu um sorrisinho para os irmãos por trás de seu capacete de mergulho. “Garanto a vocês que esses trajes são totalmente seguros – seguros porém desconfortáveis.”
“Desde que possamos respirar”, disse Violet, “não me importa o quão desconfortáveis eles sejam.”
“É claro que vão conseguir respirar!”, disse o capitão. “Positivo! Os sistemas de oxigênio de nossos capacetes fornecem ar em abundância para uma viagem rápida! É claro que, se houver alguma oportunidade de remover os capacetes, façam isso! Positivo! Assim o sistema poderá se recarregar, e vocês terão mais oxigênio.”
“Onde vamos encontrar uma oportunidade de remover os capacetes em uma caverna submarina?”, perguntou Klaus.
“Quem sabe?”, disse o capitão Andarré. “Positivo! Vocês estarão em águas não cartografadas. Eu bem que gostaria de poder ir! Positivo! Mas a furna ficou estreita demais!”
“Hewenkella”, disse Sunny. Sua voz soava abafada dentro do capacete, e foi difícil até para seus irmãos entender o que ela dizia.
“Acho que minha irmã está curiosa para saber como conseguiremos enxergar o caminho”, disse Violet. “Há faroletes à prova d’água no Queequeg!”
“Faroletes não vão ajudá-los”, respondeu o capitão. “Positivo! É escuro demais! Positivo! Mas vocês não vão precisar enxergar o caminho. Positivo! Se os cálculos de Klaus estão corretos, a maré vai arrastá-los. Positivo! Não vão nem precisar nadar! Vão simplesmente ficar sentados e se deixar levar direto ao açucareiro!”
“Parece ser um jeito bastante passivo de viajar”, disse Fiona.
“Positivo!”, concordou seu padrasto. “Parece mesmo! Mas não há outra solução! E não devemos vacilar!” Ele parou e apontou para sua placa. “Aquele ou aquela que vacila está perdido!”, lembrou ele.
“É meio difícil não vacilar”, disse Violet, “antes de fazer uma coisa assim.”
“Não é tarde demais para tirar a sorte!”, disse o capitão. “Positivo! Vocês não precisam ir todos juntos!”
“Nós três preferimos não ser separados”, disse Klaus. “Já tivemos problemas demais por causa disso.”
“Acho que vocês já tiveram problemas demais, qualquer que seja o caso!”, disse o capitão. “Positivo!”
“Os Baudelaire estão certos, padrasto”, disse Fiona. “Assim faz muito mais sentido. Nós podemos precisar da perícia mecânica de Violet ou dos conhecimentos de Klaus sobre cartas náuticas. E o tamanho de Sunny pode ser ideal se a furna ficar ainda mais estreita.”
“Ulp”, disse Sunny, o que queria dizer algo como: “Não gosto da ideia de flutuar sozinha dentro de um capacete de mergulho”.
“E você, Fiona?”, perguntou o capitão. “Positivo! Você poderia ficar aqui comigo!”
“Minhas habilidades também podem ser necessárias”, disse Fiona mansamente, e os Baudelaire estremeceram, tentando não pensar no Mycelium Medusoide e em seus esporos venenosos.
“Positivo!”, admitiu o capitão Andarré, e alisou o bigode com um dedo enluvado. “Bem, vou relatar tudo isso a C.S.C.! Positivo! Todos vocês, os quatro voluntários, receberão menções por bravura!”
Os Baudelaire se entreolharam o melhor possível através das janelinhas circulares. Uma menção por bravura nada mais é que um pedaço de papel declarando que você foi corajoso em alguma ocasião e, ao que se sabe, tais citações não foram de grande utilidade em confrontos perigosos, seja no fundo – debaixo d’água –, seja, como os Baudelaire viriam a saber mais tarde, nas alturas – em plena atmosfera. Qualquer um pode escrever uma menção por bravura, e é sabido que até eu escrevo uma para mim de vez em quando, a fim de manter meu moral elevado no meio de uma jornada traiçoeira. Os três irmãos estavam mais interessados em sobreviver à viagem pela Gruta Gorgônea do que em receber uma declaração escrita elogiando-os por sua coragem, mas sabiam que o capitão Andarré estava tentando manter o moral deles elevado enquanto os levava por um corredor até a sala em que encontraram pela primeira vez o capitão do Queequeg.
“Para entrar na água”, disse o capitão, “vocês só têm de subir por aquela mesma escada e dar um berro quando chegarem à escotilha. Depois, vou ativar uma válvula aqui embaixo, para que o submarino não se encha de água quando vocês a abrirem. E então, como eu disse, vocês simplesmente têm que se deixar levar pela corrente. Deverão terminar no mesmo lugar que o açucareiro.”
“E mesmo agora você não vai querer nos contar por que o açucareiro é importante?”, Violet não pôde deixar de perguntar.
“Não é o açucareiro”, disse o capitão Andarré, “é o que está dentro dele. Positivo! E já falei demais! Positivo! Há segredos neste mundo que são terríveis demais para que gente jovem os conheça! Pensem só nisto: se vocês soubessem a respeito do açucareiro e, de algum modo, caíssem nas garras do conde Olaf, é impossível dizer o que ele faria! Positivo!”
“Mas vejam pelo lado bom”, salientou Phil. “Quaisquer que sejam as coisas horríveis que podem estar à espreita naquela caverna, vocês não encontrarão o conde Olaf. Não há como aquele submarino-polvo caber lá dentro!”
“Positivo!”, concordou o capitão. “Mas vamos ficar vigiando pelo sonar, só por garantia! Vigiaremos vocês também! Positivo! Estaremos bem aqui, vigilantes! Os sistemas de oxigênio de seus capacetes produzem ruído suficiente para vocês aparecerem como pontinhos na tela! Agora vão! Boa sorte!”
“Vamos ficar torcendo por vocês!”, disse Phil.
Os adultos deram um tapinha no capacete de cada criança e, sem mais vacilações, os Baudelaire partiram com Fiona, subindo a escada até a escotilha pela qual tinham entrado a bordo. Os quatro voluntários fizeram a escalada em silêncio, até que Violet estendeu uma das mãos para cima – a outra segurava o capacete de Sunny – e agarrou a alavanca que abria a escotilha.
“Estamos prontos!”, gritou ela para baixo, muito embora não se sentisse nem um pouco pronta.
“Positivo!”, replicou a voz do capitão. “Estou ativando a válvula agora! Aguardem cinco segundos e então abram a escotilha! Positivo! Mas não vacilem! Positivo! Aquele que vacila está perdido! Positivo! Ou aquela! Positivo! Boa sorte! Positivo! Boa ventura! Positivo! Boa viagem! Positivo! Adeusinho!”
Ouviu-se um som metálico distante, presumivelmente o som da válvula ativada, e as quatro crianças aguardaram cinco segundos, assim como você mesmo pode querer aguardar alguns segundos para que todos os pensamentos sobre os apuros dos Baudelaire desapareçam de sua imaginação, para que você não desande a chorar enquanto estuda alguns fatos maçantes sobre o ciclo das águas. Relembrando, o ciclo das águas consiste em três fenômenos-chave – evaporação, precipitação e acumulação – que são todos maçantes e, assim, menos perturbadores se comparados ao que aconteceu aos Baudelaire quando Violet abriu a escotilha e as águas gélidas e escuras do mar jorraram para dentro da passagem. Se você fosse ler o que lhes aconteceu nos momentos seguintes, não iria conseguir dormir de tanto chorar no travesseiro ao figurar as crianças totalmente sozinhas naquela furna funesta, flutuando aos poucos para o fundo da caverna; por outro lado, se resolvesse ler sobre o ciclo das águas, você não iria conseguir ficar acordado, pois a descrição do processo pelo qual a água é distribuída por todo o mundo é bastante maçante. E assim, como cortesia a você, continuarei este livro de um jeito que seja melhor para todos os envolvidos.
O ciclo das águas consiste em três fenômenos – evaporação, precipitação e acumulação – que são os três fenômenos que compõem aquilo que é conhecido como “o ciclo das águas”. Evaporação, o primeiro dos três fenômenos, é o processo pelo qual a água se transforma em vapor para formar nuvens, como aquelas que são vistas em céus nublados, ou em dias nublados, ou até mesmo em noites nubladas. Essas nuvens são formadas por um fenômeno conhecido como “evaporação”, que é o primeiro dos três fenômenos que constituem o ciclo das águas. Evaporação, o primeiro desses três, é simplesmente um termo aplicado a um processo pelo qual a água se transforma em vapor para formar nuvens. As nuvens podem ser reconhecidas por sua aparência, e costumam ser vistas em dias nublados ou em noites nubladas, quando figuram em céus nublados. O nome do processo pelo qual as nuvens são formadas – pela água, que se transforma em vapor e se torna parte da formação conhecida como “nuvem” – é “evaporação”, o primeiro dos três fenômenos que constituem o ciclo da água, também conhecido como “o ciclo das águas”, e com certeza a esta altura você já deve estar dormindo e portanto pode ser poupado dos horripilantes detalhes da jornada dos Baudelaire.
No instante em que Violet abriu a escotilha, a passagem foi inundada pela água, e as crianças flutuaram para fora do submarino e para dentro do negrume da Gruta Gorgônea. Os Baudelaire sabiam, é claro, que o Queequeg entrara em uma caverna submarina, mas eles ainda estavam despreparados para a escuridão e o frio lá de dentro. A luz do sol não atingia as águas da gruta havia um bom tempo – desde a época em que a Aquáticos Anwhistle estava em plena atividade, uma expressão que aqui significa “ainda não destruída sob circunstâncias suspeitas” –, e a água parecia uma enregelante luva negra que envolvia as crianças com seus dedos gélidos. Como Klaus previra depois de estudar as cartas náuticas, as correntes da caverna arrastaram os jovens para longe do submarino, mas na escuridão era impossível ver quão depressa e quão longe estavam indo. Em pouco tempo os quatro voluntários perderam o Queequeg de vista e, depois, um ao outro. Se a gruta estivesse equipada com algum tipo de sistema de iluminação, como outrora, as crianças poderiam ter visto algumas coisas. Poderiam ter notado o mosaico no chão da gruta – milhares e milhares de ladrilhos coloridos, retratando nobres eventos da história remota de uma organização secreta, e retratos de famosos escritores, cientistas, artistas, músicos, filósofos e chefes de cozinha que inspiraram os membros da organização. Poderiam ter visto uma enorme e enferrujada máquina de bombear, que era capaz de drenar a gruta inteira, ou inundá-la de volta com água do mar em questão de minutos. Poderiam ter olhado para cima e visto os ângulos agudos de diversos Corredores Sub-reptícios de Chamas que levavam para cima, bem como outras passagens secretas que outrora iam até lá em cima, na central de pesquisas marinhas e serviços de aconselhamento retórico, ou poderiam ter visto a pessoa que estava usando uma das passagens agora, e provavelmente pela última vez, enquanto seguia seu difícil e escuro caminho para o Queequeg. Mas em vez disso, tudo o que as crianças conseguiam ver através de suas janelinhas circulares eram trevas. Os Baudelaire já tinham visto trevas antes, é claro – trevas em passagens e túneis secretos, trevas em edifícios abandonados e ruas desertas, trevas nos olhos de pessoas perversas, e até trevas em outras cavernas. Mas nunca antes se sentiram tão completamente no escuro como agora. Eles não sabiam onde estavam, embora Violet tivesse sentido, muito de leve, seus pés roçarem alguma coisa muito lisa, como um ladrilho firmemente assentado no chão. Eles não tinham como saber para onde estavam indo, embora Klaus suspeitasse que seu corpo tinha sido virado pela corrente e agora estava viajando de cabeça para baixo. E eles não tinham como saber quando iriam chegar, embora Sunny visse, através de seu capacete de mergulho, um pequeno ponto de luz, muito parecido com os pontinhos que eram, segundo dissera o capitão Andarré, como eles quatro iriam aparecer na tela do sonar do submarino.
Os Baudelaire se deixaram levar juntos em um tenebroso e enregelante silêncio, assustados, confusos e solitários, e, quando a jornada finalmente terminou, foi tão repentino que eles tiveram a sensação de ter caído em sono profundo, muito profundo, tão profundo e escuro quanto a própria caverna, e de agora estar sendo sacudidos para acordar. De início, a impressão foi que um barril de vidro quebrado tinha sido despejado em cima das crianças, mas depois elas perceberam que flutuaram para a superfície da água e, num só movimento fluido em espiral, a maré os empurrara para cima de alguma coisa que parecia uma praia, e os três irmãos viram-se rastejando por um aclive de areia escura e molhada.
“Klaus?”, chamou Violet através do capacete. “Você está aí? O que aconteceu?”
“Não sei”, respondeu Klaus. Ele podia apenas distinguir a irmã rastejando a seu lado. “Nós não podemos ter chegado à superfície do mar. Estamos muito, muito fundo. Sunny está com você?”
“Sim”, disse Sunny de dentro do seu capacete. “Fiona?”
“Estou aqui”, veio a voz da micetologista. “Mas onde estamos? Como podemos ainda estar abaixo da superfície do mar, se não há água à nossa volta?”
“Não tenho certeza”, disse Klaus, “mas tem de ser possível. Afinal, um submarino pode ficar abaixo da superfície e continuar seco.”
“Será que estamos em outro submarino?”, perguntou Violet.
“Seinão”, disse Sunny, e franziu o cenho dentro de seu capacete. “Olhem!”
Os Baudelaire mais velhos olharam, embora tenham levado alguns momentos até entender o que Sunny estava falando, já que não podiam ver em que direção a irmã apontava. Porém, um momento depois eles viram duas luzinhas a uma curta distância do lugar onde rastejavam. Vacilantes, levantaram-se – com exceção de Sunny, que continuou enroscada dentro de seu capacete – e viram que as luzes vinham de um lugar de onde muitas luzes costumam vir: lâmpadas. Perto dali, em pé contra a parede, havia três abajures altos, cada qual com uma letra na cúpula. O primeiro abajur tinha um grande C, e o segundo tinha um S. A terceira lâmpada tinha queimado e estava muito escuro para ler o que estava escrito na cúpula, mas as crianças sabiam, naturalmente, que ali deveria haver um segundo C.
“Que lugar é este?”, perguntou Fiona, mas quando as crianças chegaram um pouco mais perto, puderam ver que tipo de lugar era aquele.
Como haviam suspeitado, as correntes da Gruta Gorgônea as tinham arrastado para uma praia, mas era uma praia encerrada dentro de uma sala estreita. No topo do aclive de areia, os jovens percorreram com os olhos aquela sala pequena, mal iluminada, com paredes lisas de ladrilhos que pareciam úmidos e escorregadios, e um chão de areia coberto por uma variedade de pequenos objetos, alguns empilhados, outros semi-enterrados na areia. As crianças podiam ver garrafas, algumas ainda com rolhas e tampas, e algumas latas ainda intactas. Havia uns poucos livros, as páginas molhadas como se tivessem sido encharcadas, e algumas caixas pequenas que pareciam trancadas. Havia um patim virado de ponta-cabeça e um baralho dividido em duas pilhas, como se alguém estivesse prestes a embaralhá-las. Aqui e ali havia algumas canetas projetando-se da areia como espinhos de ouriço, e muitos objetos mais que as crianças não conseguiram identificar na penumbra.
“Onde estamos?”, perguntou Fiona. “Por que este lugar não está cheio d’água?”
Klaus olhou para cima, mas não pôde ver nada além de uns poucos metros. “Isso deve ser algum tipo de passagem”, disse ele, “para cima, até a terra seca – uma ilha, quem sabe, ou talvez faça uma curva até a costa.”
“A Aquáticos Anwhistle”, disse Violet, pensativa. “Devemos estar embaixo das ruínas.”
“Oxi?”, perguntou Sunny, o que queria dizer: “Isso significa que agora podemos respirar sem os capacetes?”.
“Acho que sim”, disse Klaus, e então removeu cuidadosamente seu capacete, um ato pelo qual eu lhe teria dado uma menção por bravura. “Sim”, disse ele. “Podemos respirar. É melhor todo mundo tirar os capacetes – assim nossos sistemas de oxigênio poderão se recarregar.”
“Mas o que é este lugar?”, Fiona perguntou de novo, removendo seu capacete. “Por que alguém construiria uma sala aqui embaixo?”
“Parece que foi abandonada”, disse Violet. “Está cheia de tralha.”
“Alguém deve vir trocar as lâmpadas”, lembrou Klaus. “Além disso, toda essa tralha foi trazida até aqui pela maré, como nós.”
“E açucareiro”, disse Sunny.
“É claro”, disse Fiona, olhando para os objetos na areia. “Ele deve estar por aqui, em algum lugar.”
“Vamos achá-lo e dar o fora”, disse Violet. “Não gosto deste lugar.”
“Missão”, disse Sunny, o que queria dizer: “Uma vez encontrado o açucareiro, nossa tarefa estará cumprida”.
“Não exatamente”, disse Klaus. “Ainda teremos de retornar ao Queequeg– contra a corrente, devo acrescentar. Procurar o açucareiro é apenas meia batalha.”
Todos balançaram a cabeça concordando, e os quatro voluntários se espalharam e começaram a examinar os objetos na areia. Dizer que alguma coisa é meia batalha é como dizer que alguma coisa é meio sanduíche, porque é perigoso anunciar que alguma coisa é meia batalha quando pode ser que a parte muito mais difícil ainda esteja aguardando nos bastidores, uma expressão que aqui significa “mais perto de acontecer do que você gostaria”. Você pode pensar que aprender a ferver água émeia batalha, apenas para descobrir que fazer um ovo poché é muito mais complicado do que você pensava. Você pode pensar que escalar uma montanha é meia batalha, apenas para descobrir que os bodes monteses que vivem no topo são atrozes criaturas fortemente armadas. E você pode pensar que salvar um icnólogo raptado é meia batalha, apenas para descobrir que fazer um ovo poché é muito mais complicado do que você supunha e que a batalha inteira seria muito mais difícil e perigosa do que você jamais teria imaginado. Os Baudelaire e sua amiga micetologista achavam que procurar o açucareiro era meia batalha, mas lamento ter de contar que eles estavam errados, e você tem sorte de ter adormecido lá atrás, durante minha descrição do ciclo das águas, pois assim não vai ficar sabendo da outra metade da batalha dos Baudelaire e do horrível veneno contra o qual tiveram de batalhar não muito tempo depois de sua busca pela areia.
“Encontrei uma caixa de elásticos”, disse Violet depois de alguns minutos, “e uma maçaneta de porta, duas molas de colchão, meia garrafa de vinagre e uma faca de descascar, mas nenhum açucareiro.”
“Encontrei um brinco, uma prancheta quebrada, um livro de poesia, meio grampeador e três mexedores de coquetel”, disse Klaus, “mas nenhum açucareiro.”


“Três lata sopa”, disse Sunny, “pote manteiga amendoim, caixa biscoito, pesto, wasabi, Io mein. Mas nonsucre.”
“Isso é mais difícil do que eu pensava”, disse Klaus. “O que você encontrou, Fiona?”
Fiona não respondeu.
“Fiona?”, Klaus perguntou de novo, e os Baudelaire se voltaram para olhá-la. Mas a micetologista não estava olhando para eles. Olhava para além deles, e seus olhos estavam arregalados de medo atrás dos óculos triangulares. “Fiona?”, disse Klaus, parecendo meio preocupado. “O que você encontrou?”
Fiona engoliu em seco e apontou atrás dele, mais abaixo no aclive de areia.
“Mycelium”, disse afinal em um sussurro velado, e os Baudelaire se voltaram e viram que ela falara a verdade. Lá estavam, brotando na areia, rápida e silenciosamente, os talos e píleos do Mycelium Medusoide, o fungo que Fiona descrevera no Queequeg. Os fios invisíveis do micélio, de acordo com seu livro micetológico, alternam as fases crescente e minguante, e estavam em minguante quando os voluntários foram trazidos à praia, o que significava que os cogumelos estavam escondidos embaixo da terra quando as crianças chegaram àquela estranha sala.
Mas agora, com o passar do tempo, eles estavam em crescente, brotando na praia por toda parte, até junto às lisas paredes ladrilhadas. De início, apenas um punhado era visível – cada qual de uma coloração cinzenta-escura, com manchas pretas nos chapéus, como se tivessem sido salpicados com tinta –, e então mais, e mais, qual uma multidão silenciosa e letal se reunindo na praia e encarando cegamente as crianças aterrorizadas. Os cogumelos só se aventuravam até a metade do aclive de areia, portanto parecia que o fungo venenoso não iria engolfá-las – não ainda, pelo menos. Mas à medida que o micélio continuava em sua fase crescente, cogumelos sinistros brotavam pela praia inteira, e até a minguante os Baudelaire teriam de ficar apertados uns contra os outros na areia, à luz dos abajures altos, encarando de volta a peçonhenta multidão micetológica. Mais e mais cogumelos apareceram, abarrotando a estranha praia e amontoando-se uns por cima dos outros como se estivessem se acotovelando para ter uma boa visão das crianças apavoradas, presas numa arapuca. Procurar o açucareiro pode ter sido meia batalha, mas agora os órfãos Baudelaire tinham caído na ratoeira, e aquela metade era muito, muito mais preocupante.

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