terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo quatro


Quando o elevador finalmente atingiu a cobertura e as portas se abriram para permitir que ela saísse, Violet Baudelaire tinha duas razões para estar grata por seu uniforme de concierge incluir óculos escuros. Para começar, o salão de bronzeamento da cobertura era muito, muito luminoso. A bruma matinal, tão espessa quando os Baudelaire chegaram à Praia de Sal, tinha desaparecido, e os raios do sol da tarde iluminavam a cidade inteira, refletindo-se em cada objeto reluzente, das águas cintilantes do mar, que borrifavam o lado oposto do hotel, à superfície da lagoa, que havia se acalmado desde que Violet atirara a pedra.
Ao longo de toda a borda da cobertura havia grandes espelhos retangulares, que se inclinavam como o próprio hotel, captando a luz ofuscante do sol da tarde e rebatendo-a sobre a pele dos hóspedes que se bronzeavam. Dez hóspedes, com a pele coberta por uma loção espessa e grudenta, jaziam imóveis sobre esteiras lustrosas dispostas em volta de uma piscina aquecida, tão quente que nuvens de vapor flutuavam acima da superfície. Em um canto havia um atendente, os olhos cobertos por óculos verdes e o corpo coberto por um roupão comprido e largo demais. Segurava duas enormes espátulas, como as que se poderia usar para virar panquecas. De quando em quando ele esticava o braço com uma delas e, com um movimento rápido, virava um dos hóspedes para que sua barriga e suas costas ficassem com o mesmo tom amarronzado. As espátulas, como os espelhos, as esteiras e a piscina, refletiam a luz do sol, e Violet ficou de fato contente por seus olhos estarem protegidos.
Mas havia outra razão para que a mais velha dos Baudelaire estivesse agradecida pelos óculos escuros, e ela tinha a ver com a pessoa que aguardava impaciente junto às portas do elevador. Essa pessoa também estava de óculos escuros, embora de um tipo muito mais inusitado. Em vez de lentes, havia dois cones que se projetavam dos olhos e ficavam cada vez mais largos até parar, grandes como dois pratos, a vários palmos de distância diante do rosto. Um tal par de óculos poderia estar escondendo a identidade daquele que o usava, mas era tão ridículo que Violet percebeu que só alguém tão obcecado em andar na moda portaria um aparato ocular tão ridículo, e ficou agradecida por sua própria identidade estar encoberta.
“Aqui está você afinal”, disse Esmé Squalor. “Pensei que jamais a veria aqui.”
“Como disse?”, perguntou Violet nervosamente.
“Está surda, concierge?”, replicou Esmé. Sua boca torcida de escárnio estava debruada com batom prateado, como se tivesse bebido metal derretido, e ela apontou um dedo acusador com uma comprida unha prateada. As unhas tinham sido lixadas em formatos individuais, para que cada mão ostentasse a palavra “E-S-M-É”, com a unha do polegar esculpida para formar o familiar símbolo de um olho. As letras estavam pintadas de modo a combinar com as sandálias de Esmé, constituídas de longas tiras plissadas que, qual centopeias, envolviam as pernas nuas da notória namorada. O restante da indumentária de Esmé, lamento dizer, consistia de três grandes folhas de alface, grudadas no seu corpo com fita adesiva. Se você já viu o traje de banho conhecido como biquíni, então pode adivinhar onde estavam presos aqueles pedaços de alface, e, caso não possa adivinhar, aconselho que pergunte a alguém de suas relações que não seja tão acanhado como eu para discutir corpos de mulheres vilanescas. “Pessoas glamorosas como eu não têm tempo para ser gentis com os surdos”, rosnou ela. “Eu toquei a sineta da concierge há mais de dois minutos, e fiquei esperando esse tempo todo!”
“Já posso ver a manchete”, exultou uma outra VOZ. “‘MULHER INACREDITAVELMENTE GLAMOROSA E BELA RECLAMA DO SERVIÇO DO HOTEL!’ Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!” Violet ficou tão aliviada por não ter sido reconhecida que num primeiro momento nem notou quem estava bem ao lado da traiçoeira namorada do conde Olaf. Geraldine Julienne era a jornalista irresponsável que publicara tantas mentiras sobre os Baudelaire, e Violet não ficou feliz ao reparar, em seguida, que a repórter se tornara mais uma entre os incensadores de Esmé, uma palavra que aqui significa “pessoas que gostam de bajular pessoas que gostam de ser bajuladas”.
“Peço desculpas, madame”, disse Violet no tom mais profissional que conseguiu assumir. “Os concierges estão especialmente atarefados hoje. O que a senhora precisa?”
“Não é o que eu preciso”, disse Esmé, “é o que a adorável menininha na piscina precisa.”
“Eu não sou uma adorável menininha!”, ouviu-se de uma voz familiar que partia da piscina aquecida, e Violet voltou-se para ver Carmelita Spats, uma criança mimada e desagradável que os Baudelaire encontraram pela primeira vez no colégio interno, e que progredira juntando-se ao conde Olaf e a Esmé Squalor para realizar atos traiçoeiros. “Sou um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata!”, gritou ela, emergindo de uma nuvem de vapor. Estava usando um traje tão ridículo quanto o de Esmé, embora felizmente não tão revelador. Vestia uma jaqueta em azul vivo, coberta de medalhas reluzentes do tipo que se dá aos militares, a qual estava desabotoada para revelar uma camiseta branca que proclamava o nome de um clube esportivo em letras azuis encaracoladas; em seus pés havia um par de brilhantes botas azuis com esporas, que são diminutas rodas de pontas utilizadas para incitar os animais a andar mais depressa do que eles gostariam de fazer. Uma venda azul cobria-lhe um olho, e na cabeça via-se um chapéu triangular azul com a estampa de uma caveira e ossos cruzados – o símbolo que os piratas usam enquanto rondam os altos-mares. Carmelita Spats, é claro, não estava nos altos-mares, mas conseguira arrastar um grande barco de madeira para o salão de bronzeamento da cobertura a fim de rondar uma alta-piscina. Na parte da frente do barco havia uma figura de proa elaboradamente esculpida, uma expressão que aqui significa “estátua de madeira de um polvo atacando um homem de escafandro”, e um alto mastro prolongando-se em direção ao céu e suportando uma vela enfunada com a insígnia de um olho, para combinar com a tatuagem no tornozelo do conde Olaf. A mais velha dos Baudelaire olhou por um momento para aquela horrenda figura de proa, e então voltou sua atenção para Carmelita. Na última vez em que Violet vira a desagradável capita daquele barco, ela estava toda vestida de cor-de-rosa, anunciando-se como uma princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada, porém a mais velha dos Baudelaire não saberia dizer se um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata era algo melhor ou pior.
“É claro que você é, querida”, ronronou Esmé e voltou-se para Geraldine Julienne com o tipo de sorriso que uma mãe poderia dar a outra em um playground. “Ultimamente Carmelita decidiu ser machona”, disse ela usando uma expressão insultuosa infligida a meninas cujo comportamento algumas pessoas acham inusitado.
“Tenho certeza de que sua filha vai superar essa fase”, replicou Geraldine, que como de costume falava a um microfone.
“Carmelita Spats não é minha filha”, disse Esmé, desdenhosa. “Seria mais fácil eu passar a usar roupas recatadas do que ter meus próprios filhos.”
“Eu pensei que você tivesse adotado três órfãos”, disse Geraldine.
“Quando era in”, acrescentou Esmé apressadamente, usando sua palavra costumeira para “da última moda”. “Mas agora os órfãos estão out.”
“Então, o que é in? perguntou Geraldine, sem fôlego.
“Planejar coquetéis em hotéis, é claro!”, arrulhou Esmé. “Por que outra razão eu haveria de deixar uma mulher ridícula como você me entrevistar?”
“Que maravilha!”, exclamou Geraldine, que parecia não perceber que acabara de ser insultada. “Já posso ver a manchete: ‘ESMÉ SQUALOR, A PESSOA MAIS GLAMOROSA QUE JÁ EXISTIU!’. Aguarde só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso! Quando eles lerem sobre a sua carreira como atriz, consultora financeira, namorada e anfitriã de coquetéis, vão ficar tão emocionados que alguns deles provavelmente terão ataques do coração!”
“Espero que sim”, disse Esmé.
“Tenho certeza de que meus leitores vão querer saber tudo sobre suas roupas requintadas”, disse Geraldine segurando o microfone embaixo do queixo de Esmé. “Quer nos contar alguma coisa a respeito desses óculos tão diferentes?”
“São binossolares”, disse ela acariciando o estranho aparato ocular, “uma combinação de binóculo com óculos de sol. São muito in, e desse modo posso observar o céu sem que o sol bata nos meus olhos – ou a lua, se acontecer de alguma coisa chegar à noite.”
“Por que você haveria de querer observar o céu?”, perguntou Geraldine, curiosa.
Esmé fechou a cara e Violet percebeu que a elegante mulher deixara escapar alguma coisa, uma expressão que aqui significa “disse algo que gostaria de não ter dito”.
“Porque observar pássaros é muito in”, disse ela em um tom muito pouco convincente, uma expressão que aqui significa “claramente mentindo”.
“Aguarde só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!”, disse Geraldine, ofegante. “Todos os convidados do seu coquetel estarão usando binossolares?”
“Não importa o que os convidados estarão usando”, disse Esmé com um sorriso afetado, “não serão capazes de ver as surpresas que preparamos para eles.”
“Que surpresas?”, perguntou Geraldine ansiosamente.
“Se eu contasse quais são”, disse Esmé, “não seriam surpresas.”
“Você não poderia me dar uma dica?”, perguntou Geraldine.
“Não”, respondeu Esmé.
“Nem uma pequenininha?”, perguntou Geraldine.
“Não”, disse Esmé.
“Por favor!”, choramingou Geraldine. “Se eu pedir bonitinho, com cobertura de açúcar?”
Os lábios revestidos de prata de Esmé se encurvaram pensativos.
“Se eu lhe der uma dica”, disse ela, “você também terá de me contar alguma coisa. Você é uma repórter, portanto conhece toda sorte de informações interessantes. Antes de eu revelar o meu hors d’oeuvres para o coquetel de quinta-feira, quero que você me conte alguma coisa sobre um certo hóspede neste hotel. Ele anda perambulando furtivamente pelo subsolo, conspirando para estragar a nossa festa. Suas iniciais são J.S.”
“Perambulando furtivamente pelo subsolo?”, repetiu Geraldine. “Mas J.S. é...”
“Esmé!”, berrou Carmelita da piscina, interrompendo a conversa em seu momento crucial. “Aquela concierge fica lá parada, quando deveria estar ao meu inteiro dispor! Ela não passa de uma bisbórria!”
Esmé virou-se para Violet, que depois de todo esse tempo já se acostumara a ser chamada de bisbórria.
“O que você está esperando?”, rosnou ela. “Vá buscar o que quer que seja que a adorável menininha deseja!”
Esmé rodopiou num pé só e afastou-se marchando, e Violet ficou contente ao ver que o traje da vilanesca namorada incluía mais duas folhas de alface além das que estavam visíveis de frente. A mais velha dos Baudelaire lamentou ter de parar de desempenhar suas incumbências de flâneur e começar a cumprir seus deveres de concierge, mas foi até a beira da piscina, caminhando cautelosamente pela cobertura inclinada do hotel e espiando em meio às nuvens de vapor.
“O que deseja, senhorita?”, perguntou ela, esperando que Carmelita não reconhecesse a sua voz.
“Um lançador de arpões, é claro!”, disse Carmelita. “O condinho disse que eu não posso ser um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata sem um lançador de arpões.”
“Quem é o condinho?”, perguntou Geraldine.
“O namorado de Esmé”, disse Carmelita. “Ele acha que eu sou a menininha mais querida e especial de todo o mundo. Ele disse que, se eu usasse direito o meu lançador de arpões, me ensinaria a cuspir como um verdadeiro jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata!”
“Já posso ver a manchete”, disse Geraldine no seu microfone. “‘JOGADOR DE FUTEBOL CAUBÓI SUPER-HERÓI E SOLDADO PIRATA APRENDE A CUSPIR!’ Aguarde só até os leitores d’O Pundonor Diário verem isso!”
“Vou buscar um lançador de arpões, senhorita”, prometeu Violet, esquivando-se da espátula do atendente, que estava virando uma mulher que se bronzeava.
“Pare de me chamar de ‘senhorita’, sua bisbórria!”, disse Carmelita. “Eu sou um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata!”
Ir buscar objetos para pessoas que são preguiçosas demais para buscá-los sozinhas nunca é uma tarefa agradável, especialmente quando se está sendo insultado por essas pessoas, mas quando Violet caminhou de volta ao elevador e apertou o botão para chamá-lo não estava pensando no comportamento atroz de Carmelita. Estava por demais apreensiva, uma palavra que aqui significa “perguntando a si mesma o que, exatamente, Esmé Squalor e Carmelita Spats estavam fazendo no Hotel Desenlace”. As duas fêmeas detestáveis estavam muito bem informadas acerca de C.S.C. e dos planos para o encontro de quinta-feira, mas a mais velha dos Baudelaire não acreditou nem por um minuto que tudo o que planejavam era um coquetel. Quando as portas deslizaram e Violet entrou, ela se perguntou por que Esmé estava usando os seus binossolares para observar o céu. Ela se perguntou o que Carmelita queria com um lançador de arpões. Ela se perguntou como Esmé sabia a respeito do impostor J.S., que ao que tudo indica estava perambulando furtivamente pelo subsolo do hotel. Porém, mais que tudo, ela se perguntou onde o conde Olaf – ou, como Carmelita gostava de chamá-lo, o “condinho” – estava escondido, e que perfídia planejava.
Violet estava pensando tão intensamente sobre suas observações como flâneur que somente depois de as portas do elevador se fecharem é que se lembrou da sua incumbência como concierge e deu-se conta de que não tinha ideia de onde encontrar um lançador de arpões. Os lançadores de arpões não são parte do equipamento usual oferecido por um hotel, e a única vez em que Violet vira um dispositivo desses tinha sido nas próprias mãos de Esmé Squalor, quando ela estava disfarçada de policial na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos. Mesmo se o Hotel Desenlace tivesse se lembrado de manter algo assim no prédio, Violet nem imaginava como poderia encontrá-lo no Sistema Decimal Dewey sem um catálogo. Desejou que Klaus estivesse com ela, pois o único número do Sistema Decimal Dewey que sabia de cor era o 621, que rotulava a sua seção favorita, física aplicada. Com um suspiro abatido, a mais velha dos Baudelaire apertou o botão do hall.
“Você está me pedindo ajuda?”, exclamou Frank, ou Ernest, quando Violet conseguiu encontrá-lo.
hall do Hotel Desenlace estava ainda mais apinhado do que quando os Baudelaire chegaram, e Violet precisou de alguns minutos até localizar a figura familiar do voluntário ou seu irmão vilanesco. “Quem precisa de ajuda sou eu”, disse ele. “Um número espantoso de hóspedes chegou mais cedo do que o esperado. Não tenho tempo para bancar o ajudante de concierge.”
“Estou ciente de que está ocupado, senhor”, disse Violet. Ela sabia que chamar uma pessoa de “senhor” muitas vezes ajuda a conseguir o que se quer, a não ser, é claro, que a pessoa seja uma mulher. “Uma hóspede solicitou um lançador de arpões, e não sei onde encontrar um. Gostaria que o Hotel Desenlace tivesse um catálogo.”
“Você não deveria precisar de um catálogo”, disse o gerente. “Não se você for quem eu penso que é.”
Violet engoliu em seco, e Frank, ou Ernest, avançou um passo na direção dela.
“Você é?”, perguntou ele. “É quem eu penso que é?”
Violet piscou atrás dos seus óculos escuros. Há pessoas neste mundo que dizem que o silêncio é de ouro, o que significa simplesmente que elas preferem uma calma e serena quietude ao barulho e ao tumulto do mundo. Não há nada de errado com essa preferência, mas infelizmente há momentos em que uma calma e serena quietude é algo impossível. Se você está admirando o pôr-do-sol, por exemplo, o silêncio pode permitir que você esteja sozinho com seus pensamentos enquanto fita a paisagem que pouco a pouco vai escurecendo, porém pode ser necessário produzir um ruído forte para espantar algum urso-pardo que possa estar se aproximando. Se você está viajando em um táxi, pode preferir o silêncio para poder estudar o seu mapa em paz, mas a ocasião pode exigir que você grite “Por favor, faça meia-volta! Acho que eles atravessaram aquelas sebes!”. E se você perdeu um ente querido, como os Baudelaire perderam no dia fatídico de um incêndio, pode ansiar muito intensamente por um longo período de silêncio, para que você e os seus irmãos possam contemplar a desconcertante e deplorável situação em que se encontram, mas poderá ver-se jogado de uma situação perigosa para outra, e mais outra, e mais outra, até começar a pensar que nunca mais poderá experimentar uma calma e serena quietude.
Enquanto Violet estava lá em pé no saguão, nada mais queria a não ser permanecer em silêncio, para poder observar melhor o homem que estava diante dela e descobrir se ele era um voluntário, ao qual poderia dizer “Sim, sou Violet Baudelaire”, ou um vilão, ao qual poderia dizer “Me desculpe, não sei do que está falando”. Mas ela sabia que não poderia ter esperanças de uma calma e serena quietude no caos do Hotel Desenlace, e portanto, em vez de permanecer em silêncio, ela respondeu à pergunta do gerente da melhor maneira possível.
“É claro que sou quem pensa que sou”, disse ela, sentindo-se como se estivesse falando em código, só que era um código que ela não conhecia. “Sou uma concierge.”
“Entendo”, disse Frank ou Ernest de modo insondável. “E quem está solicitando o lançador de arpões?”
“Uma menininha na cobertura”, disse Violet.
“Uma menininha na cobertura”, repetiu o gerente com um sorriso zombeteiro. “Você tem certeza de que convém entregar um lançador de arpões a uma menininha na cobertura?”
Violet não sabia como responder, mas afortunadamente aquele parecia ser um dos momentos em que de fato o silêncio é de ouro, pois, diante do silêncio dela, Frank ou Ernest deu à mais velha dos Baudelaire mais um sorriso e então girou nos calcanhares – uma expressão que aqui significa “virou o corpo para o outro lado de uma maneira algo extravagante” – e fez sinal a Violet para segui-lo até um canto distante do saguão, onde ela viu uma pequena porta identificada como 121.
“Este número representa a epistemologia”, explicou ele, usando uma palavra que aqui significa “teorias do conhecimento” e olhando apressadamente em volta do saguão como se estivesse sendo observado. “Acho que seria um bom esconderijo.”
Frank ou Ernest tirou uma chave do bolso e destrancou a porta, que se abriu com um leve rangido para revelar um armário pequeno e vazio. A única coisa que havia no armário era um grande objeto de aparência maligna, com um gatilho em vermelho vivo e quatro ganchos longos e afiados. A mais velha dos Baudelaire o reconheceu de sua estada na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos. Sabia tratar-se de um lançador de arpões, um dispositivo letal que não deveria estar nas mãos de ninguém, que dizer nas de Carmelita Spats. Violet não queria nem tocar naquilo ela mesma, mas, como o gerente continuava em pé junto à porta olhando para ela, não conseguiu pensar em nenhuma outra alternativa e, cuidadosamente, retirou o dispositivo do armário.
“Tenha muito cuidado com isso”, disse o gerente em um tom insondável. “Uma arma como essa só deveria estar nas mãos da pessoa certa. Fico grato pela sua ajuda, concierge. Não são muitas as pessoas que têm a coragem de ajudar em um esquema como este.”
Violet concordou em silêncio, e em silêncio pegou a pesada arma das mãos de Frank ou Ernest. Em silêncio, ela caminhou de volta aos elevadores, a cabeça girando com as suas misteriosas observações como flâneur e sua misteriosa incumbência como concierge, e em silêncio permaneceu diante das portas deslizantes do elevador, se perguntando com qual gerente teria falado, e o que precisamente dissera a ele com a sua resposta codificada e serena. Mas logo antes da chegada do elevador, o silêncio de Violet foi quebrado por um ruído impactante.
O relógio do saguão do Hotel Desenlace é de fama legendária, uma expressão que aqui significa “muito conhecido por tocar muito alto”. Fica bem no centro do teto, bem no topo da abóbada, e quando ele bate as horas seus sinos ecoam pelo prédio inteiro, produzindo um ruído imenso e profundo que soa como uma estranha palavra pronunciada uma vez para cada hora anunciada. Naquele momento em particular eram três horas, e todo mundo no hotel pôde ouvir o toque estrondoso dos enormes sinos do relógio, emitindo a palavra três vezes seguidas: Nadabom! Nadabom! Nadabom!
Quando entrou no elevador, com o lançador de arpões pesado e sinistro nas mãos enluvadas, Violet Baudelaire sentiu como se o relógio a estivesse repreendendo por seus esforços para resolver os mistérios do Hotel Desenlace. Nadabom! Ela tentara dar o melhor de si como flâneur, mas não observara o suficiente para decodificar o esquema de Esmé Squalor e Carmelita Spats. Nadabom! Ela tentara se comunicar com um dos gerentes do hotel, mas não fora capaz de descobrir se era Frank ou Ernest. E – o mais Nadabom! de tudo – estava agora levando uma arma letal para o salão de bronzeamento da cobertura, onde serviria a algum propósito sinistro desconhecido.
A cada batida do relógio, Violet sentia que nada estava bom, até que por fim chegou ao seu destino e saiu do elevador. Esperava de todo coração que seus dois irmãos tivessem obtido mais sucesso em suas incumbências, pois ao atravessar a cobertura, esquivando-se de uma espátula que agilmente virava os hóspedes em cima de suas esteiras espelhadas, para finalmente passar o lançador de arpões às mãos ávidas e ingratas de Carmelita Spats, tudo em que a mais velha dos Baudelaire conseguiu pensar foi que aquilo tudo não era nada bom, nada bom, nada bom.

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