sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo quatro


A expressão “servir como uma luva” é estranha, porque existem muitos tipos diferentes de luvas, mas apenas algumas vão se ajustar às situações que se apresentam. Se você precisa manter as mãos aquecidas em um ambiente frio, então vai precisar de um par de luvas com isolamento térmico bem ajustadas, e uma luva feita para caber na cômoda de uma casa de bonecas não ajudaria. Se você precisa entrar sorrateiramente em um restaurante japonês no meio da noite para furtar um par de hashis sem ser descoberto, então vai precisar de um par de luvas finas que não deixem vestígios, e uma luva ornamentada com guizos barulhentos não serviria. E se você precisa passar desapercebido em uma paisagem coberta de arbustos, então vai precisar de uma luva muito, muito grande, feita de tecido folhoso, e um elegante par de luvas de seda seria inteiramente inútil.
Todavia, a expressão “servir como uma luva” significa simplesmente que alguma coisa é muito adequada, assim como um pudim é adequado como sobremesa, ou um par de hashis é um instrumento adequado para remover papéis de uma pasta aberta. E quando os órfãos Baudelaire vestiram os uniformes do Queequeg, descobriram que eles serviam como uma luva, a despeito de, na verdade, não caírem muito bem. Violet ficou tão satisfeita com o fato de os uniformes terem diversas laçadas em volta da cintura, perfeitas para pendurar ferramentas, que nem se importou com o fato de as mangas formarem barriga nos cotovelos. Klaus ficou feliz porque havia um bolso à prova d’água para seu livro de lugar-comum, e nem se importou com o fato de as botas terem ficado um pouquinho apertadas. E Sunny assegurou-se de que o material lustroso era robusto o bastante para resistir, além da água, a eventuais respingos na cozinha, e nem se importou com o fato de que precisava dobrar as pernas do traje quase até o fim para poder andar. Porém havia algo mais, além das características individuais dos uniformes, que dava aquela sensação de adequação – era o lugar e as pessoas que eles representavam. Durante um longo tempo, os Baudelaire se sentiram como um disco de frisbee danificado, lançado de uma pessoa a outra sem ser apreciado, e de um lugar a outro sem se encaixar nos ambientes. Mas quando fecharam os zíperes dos uniformes e alisaram os retratos de Herman Melville, as crianças se sentiram como se o frisbee de suas vidas pudesse de repente ser consertado. Usando os uniformes do Queequeg, os irmãos sentiam-se parte de alguma coisa – não exatamente de uma família, mas de um encontro de pessoas que se ofereceram como voluntárias para a mesma missão. Pensar que suas habilidades de inventar, pesquisar e cozinhar seriam apreciadas era algo que não lhes ocorria há tempos, e em pé na sala de suprimentos, olhando atentamente um para o outro, essa sensação lhes serviu como uma luva.
“Vamos voltar ao salão principal?”, perguntou Violet. “Estou pronta para dar uma olhada no dispositivo telegráfico.”
“Deixe-me só afrouxar as fivelas dessas botas”, disse Klaus, “e estarei pronto para lidar com aquelas cartas náuticas.”
“Cuisi...”, disse Sunny. Com cuisi” ela queria dizer algo como: “Não vejo a hora de examinar a cozi...”, mas o ruído estridente de alguma coisa raspando, vindo de cima dela, impediu a mais jovem dos Baudelaire de terminar a frase. O submarino inteiro pareceu sacudir, e algumas gotas d’água caíram do teto sobre a cabeça dos Baudelaire.
“O que foi aquilo?”, perguntou Violet, pegando um capacete de mergulho. “Você acha que estourou um vazamento no Queequeg!”
“Eu não sei”, disse Klaus, pegando um capacete para ele e outro para Sunny. “Vamos investigar.”
Os três Baudelaire voltaram às pressas pelo corredor para o salão principal, enquanto o ruído horripilante continuava. Se você já ouviu o som estridente de unhas raspando contra uma lousa, sabe como pode ser enervante esse ruído; e para as crianças ele soava como se as maiores unhas do mundo tivessem confundido o submarino com um item de equipamento educacional.
“Capitão Andarré!”, gritou Violet por cima do ruído estridente, assim que os Baudelaire entraram no salão. O capitão ainda estava no topo da escada, agarrado à roda de direção com a mão enluvada. “O que está acontecendo?”
“Esse maldito mecanismo de direção só dá vexame!”, bradou o capitão, enojado. “Positivo! O Queequeg acaba de colidir com uma formação rochosa na margem do arroio. Se eu não tivesse conseguido recuperar o controle, o Submarino Q e Sua Tripulação de Dois estariam dormindo com os peixes! Positivo!”
“Talvez eu deva examinar o mecanismo de direção primeiro”, disse Violet, “e consertar o dispositivo telegráfico depois.”
“Não seja ridícula!”, disse o capitão. “Se não pudermos receber os boletins do Correio Sub-reptício Cooperativo, será o mesmo que sairmos por aí às tontas de olhos vendados! Temos de encontrar o açucareiro antes do conde Olaf! Positivo! Nossa segurança pessoal não é nem de longe tão importante! Agora corram! Positivo! Chispem! Positivo! Tomem uma atitude! Positivo! Tomem um copo d’água! Positivo! Aquele ou aquela que vacila está perdido!”
Violet não se deu ao trabalho de salientar que seria impossível encontrar o açucareiro se o submarino fosse destruído, e já sabia que era melhor não discutir a filosofia de vida do capitão. “Vale uma tentativa”, disse ela, e foi até a pequena plataforma de rodas. “Se importa se eu usar isso?”, perguntou a Fiona. “Vai me ajudar a dar uma boa olhada no mecanismo do dispositivo.”
“Fique à vontade”, disse Fiona. “Klaus, vamos trabalhar nas cartas náuticas. Podemos estudá-las na mesa e enquanto isso ficar de olho para ver se vislumbramos o açucareiro através da vigia. Não creio que vamos encontrá-lo, mas vale dar uma olhada.”
“Fiona”, disse Violet hesitante, “você poderia também ficar de olho para ver se vislumbra nosso amigo Quigley Quagmire? Ele foi arrastado pelo outro afluente do arroio, e não o vimos mais desde então.”
“Quigley Quagmire? Sério?”, perguntou Fiona. “O cartógrafo?”
“É nosso amigo”, disse Klaus. “Você o conhece?”
“Só de reputação”, disse Fiona, usando uma expressão que aqui significa “não o conheço pessoalmente, mas ouvi falar do trabalho que faz”. “Os voluntários perderam a pista dele muito tempo atrás, juntamente com Hector e os outros trigêmeos Quagmire.”
“Os Quagmire não tiveram a mesma sorte que nós”, disse Violet, amarrando o cabelo com uma fita para ajudá-la a se concentrar no conserto do dispositivo telegráfico. “Espero que você o localize com o periscópio.”
“Vale a tentativa”, disse Fiona, quando Phil entrou pela porta da cozinha com um avental por cima do uniforme.
“Sunny?”, perguntou ele. “Me disseram que você vai me ajudar na cozinha. Estamos com o estoque de provisões um pouco baixo, receio. Consegui apanhar alguns bacalhaus com as redes do Queequeg, e temos meio saco de batatas, mas não muito mais. Você tem alguma ideia do que fazer para o jantar?”
“Sopão?”, perguntou Sunny.
“Vale a tentativa”, disse Phil, e nas próximas poucas horas todos os três Baudelaire tentaram ver se suas tarefas valiam a tentativa. Violet, que rolara para baixo das tubulações para dar uma boa olhada no dispositivo telegráfico, franzia o cenho enquanto torcia fios e apertava parafusos com uma chave de fenda que encontrara largada. Klaus, sentado à mesa, examinava as cartas náuticas, usando um lápis para traçar caminhos possíveis que o açucareiro poderia ter tomado quando o ciclo das águas o arrastara aos trambolhões pelo Arroio Enamorado. E Sunny, em pé para alcançar o balcão da pequena e encardida cozinha, trabalhava com Phil sobre um grande caldeirão de sopa, cozinhando batatas e catando espinhas no bacalhau. E quando a tarde se tornou noite, e as águas do Arroio Enamorado ficaram ainda mais escuras pela vigia, o salão principal do Queequeg estava em silêncio enquanto todos os voluntários trabalhavam nas tarefas de que foram incumbidos. Porém, mesmo quando o capitão Andarré desceu a escada, retirou um pequeno sino do bolso do uniforme e a sala se encheu de ecos do repique forte e metálico, os Baudelaire ainda não podiam saber com certeza se todos seus esforços tinham valido a tentativa.
“Atenção!”, disse o capitão. “Positivo! Quero que toda a tripulação do Queequeg faça um relatório dos progressos! Reúnam-se ao redor da mesa e contem-me o que está acontecendo!”
Violet rolou para fora do dispositivo telegráfico e reuniu-se ao irmão e a Fiona na mesa, enquanto Sunny e Phil emergiam da cozinha.
“Eu relato primeiro!”, disse o capitão. “Positivo! Porque sou o capitão! Não porque quero me exibir! Positivo! Eu tento não me exibir demais! Positivo! Porque isso é falta de educação! Positivo! Eu consegui manobrar e nos levar mais adiante pelo Arroio Enamorado abaixo, sem colidir com mais nada! Positivo! O que é muito mais difícil do que parece! Positivo! Chegamos ao mar! Positivo! Agora vai ficar mais fácil não colidir com nada! Positivo! Violet, e quanto a você?”
“Bem, examinei minuciosamente o dispositivo telegráfico”, disse ela. “Fiz alguns pequenos reparos, mas não encontrei nada que pudesse interferir na recepção de um telegrama.”
“Você quer dizer que o dispositivo não está quebrado, positivo?”, demandou o capitão.
“Positivo”, disse Violet, mais à vontade com o modo de falar do capitão. “Acho que deve haver um problema na outra ponta.”
“Procto?”, perguntou Sunny, o que queria dizer: “Na outra ponta?”.
“Um telegrama requer dois dispositivos”, disse Violet. “Um para enviar e outro para receber a mensagem. Acho que você não está recebendo os boletins do Correio Sub-reptício Cooperativo porque quem envia as mensagens está com um problema na máquina.”
“Mas todos os tipos de voluntários nos enviam mensagens”, disse Fiona.
“Positivo!”, disse o capitão. “Já recebemos boletins de mais de vinte e cinco agentes!”
“Então muitas máquinas devem estar danificadas”, retrucou Violet.
“Sabotagem”, disse Klaus.
“Parece que o dano foi causado de propósito”, concordou Violet. “Lembra-se de quando enviamos um telegrama ao senhor Poe, do Armazém Geral Última Chance?”
“Mutis”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não tivemos nenhuma resposta.”
“Eles estão se aproximando”, disse o capitão, soturno. “Nossos inimigos estão impedindo que nos comuniquemos.”
“Não vejo como o conde Olaf poderia ter tempo para destruir todas aquelas máquinas”, disse Klaus.
“Muitos telegramas são transmitidos por linhas telefônicas”, disse Fiona. “Não seria difícil.”
“Além disso, Olaf não é o único inimigo”, disse Violet, pensando nos dois outros vilões que os Baudelaire tinham encontrado no Cume das Aflições.
“Positivo!”, disse o capitão. “Isso é certeza. O mal que existe por aí, não dá nem para imaginar. Klaus, você fez algum progresso com as cartas náuticas?”
Klaus abriu uma carta náutica em cima da mesa para que todos pudessem ver. A carta era na realidade um mapa, que mostrava o Arroio Enamorado a serpentear pelas montanhas antes de chegar ao mar, com setinhas diminutas e notas que descreviam o modo como a água se movimentava. As setas e notas eram de várias cores diferentes, como se a carta tivesse passado de pesquisador a pesquisador, cada qual adicionando notas à medida que descobriam mais informações sobre a área. “É mais complicado do que eu pensava”, disse o Baudelaire do meio, “e muito mais maçante. Essas cartas registram cada detalhe do ciclo das águas.”
“Maçante!”, rugiu o capitão. “Positivo? Estamos no meio de uma missão desesperada e tudo o que você consegue pensar é no seu próprio divertimento? Positivo? Quer que nós vacilemos? Que interrompamos nossas atividades e apresentemos um espetáculo de marionetes só para você não achar este submarino maçantes?”
“Você me entendeu mal”, Klaus apressou-se em explicar. “Eu só queria dizer que fica mais fácil pesquisar uma coisa se ela for interessante.”
“Você parece Fiona”, disse o capitão. “Quando quero que ela pesquise a vida de Herman Melville, ela trabalha devagar, mas é rápida como um raio quando o assunto é cogumelos.”
“Cogumelos?”, perguntou Klaus. “Por acaso você é micetologista?”
Fiona sorriu, e seus olhos se arregalaram atrás dos óculos triangulares. “Nunca pensei que encontraria alguém que conhecesse essa palavra”, disse ela. “Além de mim. Sim, sou micetologista. Me interessei por fungos a vida inteira. Se tivermos tempo, vou mostrar a você minha biblioteca micetológica.”
Tempo?repetiu o capitão Andarré. “Nós não temos tempo para livros de fungos! Positivo! Também não temos tempo para vocês dois ficarem aí nesse namorico!”
“Não é namorico!”, disse Fiona. “Estamos conversando.”
“A mim, pareceu namorico”, disse o capitão. “Positivo!”
“Que tal nos contar sobre sua pesquisa?”, disse Violet a Klaus, sabendo que o irmão iria preferir discorrer sobre cartas náuticas a falar sobre a sua vida pessoal.
Klaus sorriu para ela agradecido e apontou para um local na carta. “Se meus cálculos estiverem corretos”, disse ele, “o açucareiro deve ter sido arrastado pelo mesmo afluente que descemos. As correntes prevalecentes do arroio levam diretamente até aqui embaixo, onde começa o mar.”
“Portanto ele foi arrastado para o mar”, disse Violet.
“É o que acho”, disse Klaus. “E podemos ver aqui que as marés o afastariam da costa Sontag na direção noroeste.”
“Pique?”, perguntou Sunny, o que queria dizer algo do tipo: “O açucareiro não deveria simplesmente cair em direção ao fundo do oceano?”.
“Ele é muito pequeno”, disse Klaus. “Os oceanos estão em movimento constante, e um objeto que cai no mar pode acabar indo parar a quilômetros de distância. Parece que as marés e correntes nesta parte do oceano levariam o açucareiro para além do arquipélago de Gulag, aqui, e depois descendo na direção da Medíocre Barreira de Recifes, antes de virar neste ponto aqui, assinalado como ‘A.A.’ Sabe o que é isso, capitão? Parece algum tipo de estrutura flutuante.”
O capitão suspirou e ergueu um dedo para brincar com as pontas viradas do bigode. “Positivo”, disse ele tristemente. “Aquáticos Anwhistle. É uma central de pesquisas marinhas e serviços de aconselhamento retórico – ou pelo menos era. Foi incendiada.”
“Anwhistle?”, perguntou Violet. “Esse era o sobrenome da tia Josephine.”
“Positivo”, disse o capitão. “A Aquáticos Anwhistle foi fundada por Gregor Anwhistle, o famoso icnólogo, cunhado de Josephine. Mas tudo isso é história antiga. Para onde foi o açucareiro depois?”
Os Baudelaire teriam preferido saber mais, no entanto não adiantava discutir com o capitão, e Klaus apontou para um pequeno oval na carta antes de continuar seu relatório. “Essa é a parte que me deixa confuso”, disse ele. “Está vendo esse oval, bem ao lado da Aquáticos Anwhistle? Está assinalado com ‘G.G.’, mas não existe outra explicação.”
“G.G.?”, disse o capitão Andarré, e cofiou o bigode, pensativo. “Nunca vi um oval como esse em uma carta náutica como essa.”
“Há mais uma coisa confusa”, disse Klaus, examinando o oval. “Dentro dele há duas setas diferentes, cada qual apontando para uma direção diferente.”
“Parece que a maré está indo em duas direções ao mesmo tempo”, disse Fiona.
Violet franziu o cenho. “Isso não faz nenhum sentido”, disse.
“Também estou confuso”, disse Klaus. “De acordo com meus cálculos, o açucareiro foi arrastado diretamente para esse lugar no mapa. Mas para onde foi dali, nem imagino.”
“Acho que devíamos traçar um curso para G.G., seja lá o que for isso”, disse Violet, “e ver o que encontramos ao chegar lá.”
“Eu sou o capitão!”, bradou o capitão. “Eu dou as ordens por aqui! Positivo! E ordeno que tracemos um curso para aquele oval, para ver o que encontramos ao chegar lá! Mas, primeiro, estou com fome! E com sede! Positivo! E meu braço está coçando! Posso coçar meu próprio braço, mas vocês, Cuque e Sunny, são os responsáveis pela comida e pela bebida! Positivo!”
“Sunny me ajudou a fazer um sopão de peixe que deve ficar pronto em poucos minutos”, disse Phil. “Os dentes dela foram muito úteis para picar as batatas cozidas.”
“Pastafio”, disse Sunny, o que queria dizer: “Não se preocupem, limpei bem os dentes antes de usá-los como utensílios de cozinha”.
“Sopão? Positivo! Sopão soa delicioso!”, bradou o capitão. “E a sobremesa? Positivo? A sobremesa é a refeição mais importante do dia! Positivo! Na minha opinião! Apesar de não ser realmente uma refeição! Positivo!”
“Para esta noite, a única sobremesa que temos é chiclete.” disse Phil. “Ainda tenho um pouco que sobrou dos meus tempos de serraria.”
“Acho que dispenso a sobremesa”, disse Klaus, que passara momentos tão terríveis na Serraria Alto-Astral que não tinha mais gosto para chicletes.
“Iomuledet”, disse Sunny. Ela queria dizer: “Não se preocupem, Phil e eu arranjamos uma sobremesa surpresa para amanhã à noite”, mas é claro que somente seus irmãos podiam entender o inusitado jeito de falar da mais jovem dos Baudelaire. No entanto, assim que Sunny falou, o capitão Andarré levantou-se da mesa e começou a soltar brados de perplexidade.
“Positivo!”, bradou ele. “Meu Deus! Santo Buda! Charles Darwin! Duke Ellington! Positivo! Fiona, pare os motores! Positivo! Violet, verifique se o dispositivo telegráfico está desligado! Positivo! Klaus! Recolha seus materiais e não deixe nada solto por aí! Positivo! Acalmem-se! Trabalhem depressa! Sem pânico! Socorro! Positivo!”
“O que está acontecendo?”, perguntou Phil.
“O que foi, padrasto?”, perguntou Fiona.
Dessa vez, o capitão ficou em silêncio e simplesmente apontou para uma tela na parede do submarino. A tela parecia uma folha de papel quadriculado, iluminada por uma luz verde, com uma letra Q luminescente no centro.
“Aquilo se parece com um detector por sonar”, disse Violet.
“Aquilo é um detector por sonar”, disse Fiona. “Podemos perceber se alguma outra embarcação submersível se aproxima de nós, detectando os ruídos que produz. O Q representa o Queequeg e...”
A micetologista interrompeu-se, engolindo em seco, e os Baudelaire olharam na direção em que ela apontava. Bem no topo do painel havia outro símbolo luminescente, que se movia célere na tela em sentido descendente, uma expressão que aqui significa “diretamente na direção do Queequeg. Fiona não disse o que representava aquele símbolo verde, e as crianças não suportariam perguntar. Era um olho, encarando fixamente os assustados voluntários e agitando as longas e esquálidas pestanas que se projetavam para todos os lados.
“Olaf!”, disse Sunny num sussurro.
“Não há como saber com certeza”, disse Fiona, “mas é melhor seguirmos as ordens do meu padrasto. Se for outro submarino, também tem um detector por sonar. Se o Queequeg ficar em silêncio absoluto, eles não terão ideia de que estamos aqui.”
“Positivo!”, disse o capitão. “Depressa! Aquele que vacila está perdido!”
Ninguém se deu ao trabalho de acrescentar “ou aquela” à filosofia de vida do capitão, em vez disso, todos se apressaram em silenciar o submarino. Fiona escalou a escada de corda e desligou o motor ronronante. Violet rolou de volta para dentro do mecanismo do dispositivo telegráfico e desligou-o. Phil e Sunny correram para a cozinha e desligaram o fogão, para que nem mesmo o borbulhar do sopão caseiro denunciasse o Queequeg. E Klaus e o capitão recolheram os materiais de cima da mesa para que nada produzisse o mais leve chacoalhar. Em poucos instantes, o submarino ficou silencioso como um túmulo, e todos os voluntários se postaram mudos junto à mesa, olhando através da vigia para a tenebrosa água do mar. Quando o olho na tela do sonar chegou mais perto do Q, eles puderam ver algo emergindo das águas escuras – uma forma estranha que ficava mais clara à medida que se aproximava do Queequeg. Era, de fato, outro submarino, de um tipo que os Baudelaire nunca tinham visto antes, nem mesmo no mais estranho dos livros. Era muito, muito maior que o Queequeg e, com sua aproximação, as crianças tiveram de cobrir a boca para impedir que seu grito de susto fosse ouvido.
O segundo submarino tinha a forma de um polvo gigante, com uma enorme cúpula de metal no lugar da cabeça e duas grandes vigias em vez de olhos. Um polvo de verdade, é claro, tem oito tentáculos, mas aquele submarino tinha muito mais. Aquilo que na tela do sonar lembrava pestanas era na verdade uma série de pequenos tubos de metal que se projetavam do corpo do polvo e giravam na água, produzindo milhares de bolhas que disparavam para a superfície como se estivessem com medo da embarcação submersível. O polvo chegou mais perto, e todos os seis passageiros do Queequeg permaneceram em pé, parados como estátuas, esperando que o submarino não os tivesse descoberto. A estranha embarcação estava tão próxima que os Baudelaire podiam ver uma figura indistinta dentro de um dos olhos do polvo – uma figura alta, magra, e muito embora as crianças não conseguissem distinguir mais detalhes, não restava a menor dúvida de que ela tinha uma sobrancelha no lugar de duas, unhas imundas em vez de bons hábitos de higiene pessoal, e a tatuagem de um olho no tornozelo esquerdo.
“Conde Olaf”, sussurrou Sunny antes que pudesse se conter. A figura na vigia estremeceu, como se o pequenino ruído de Sunny tivesse permitido que o outro submarino detectasse o Queequeg. Expelindo bolhas, o polvo chegou ainda mais perto, e parecia que a qualquer momento se ouviria um de seus tentáculos raspando a carcaça do Queequeg. As três crianças baixaram os olhos para seus capacetes, que tinham deixado no chão, e se perguntaram se deveriam colocá-los, para que pudessem sobreviver caso o submarino implodisse. Fiona agarrou o braço do padrasto, mas o capitão Andarré sacudiu a cabeça em silêncio e apontou de novo para a tela do sonar. O olho e o Q estavam quase um em cima do outro na tela, mas não era isso que o capitão estava mostrando.
Havia uma terceira forma verde luminescente, esta a maior de todas, um enorme tubo recurvo com um pequeno círculo na ponta, resvalando qual serpente na direção do centro da tela. Mas aquela terceira embarcação submergível não parecia uma serpente. À medida que se aproximava do olho e do Q, o pequeno círculo que abria caminho com seu enorme tubo recurvo em direção ao Queequeg e seus assustados tripulantes voluntários se assemellhava mais e mais a um ponto de interrogação. Os Baudelaire olharam para aquela nova, terceira forma, que se aproximava deles em fantasmagórico silêncio, e se sentiram como se estivessem a ponto de ser consumidos pelas próprias perguntas que tentavam responder.
O capitão Andarré apontou novamente para a vigia, e as crianças viram o polvo parar, como se também ele tivesse detectado a estranha terceira forma. Então os tentáculos do polvo giraram ainda com mais fúria, e o bizarro submarino começou a recuar para fora do campo visual, uma expressão que aqui significa “se dirigir às pressas para um lugar onde da vigia do Queequeg não seria mais possível vê-lo”. Os Baudelaire olharam para a tela do sonar e viram o ponto de interrogação seguir o brilhante olho verde em silêncio, até que ambas as formas desapareceram do detector e o Queequeg ficou sozinho. Os seis passageiros aguardaram um momento e depois soltaram um suspiro de alívio.
“Ele se foi”, disse Violet. “O conde Olaf não nos achou.”
“Eu sabia que estaríamos em segurança”, disse Phil, otimista como de costume. “De qualquer modo, é provável que Olaf esteja de bom humor.”
Os Baudelaire não se deram ao trabalho de dizer que seu inimigo só ficava de bom humor quando um de seus planos pérfidos ia bem ou quando a enorme fortuna deixada pelos Baudelaire pais estava a ponto de cair em suas mãos imundas.
“O que foi aquilo, padrasto?”, disse Fiona. “Por que ele foi embora?”
“O que era aquela terceira forma?”, perguntou Violet.
O capitão sacudiu a cabeça mais uma vez. “Uma coisa muito ruim”, disse ele. “Pior ainda que Olaf, provavelmente. Eu bem que disse a vocês, crianças Baudelaire: o mal que existe por aí, não dá nem para imaginar.”
“Nós não precisamos imaginar”, disse Klaus. “Nós o vimos ali na tela.”
“Aquela tela não é nada”, disse o capitão. “É só um item de equipamento, positivo? Um filósofo disse que a vida inteira não passa de sombras. Ele disse que as pessoas estavam apenas sentadas em uma caverna, observando sombras na parede. Positivo, sombras de alguma coisa muito maior e mais imponente que elas. Bem, aquele detector por sonar é como a parede de nossa caverna, mostra formas de coisas muito mais poderosas e aterradoras.”
“Não entendi”, disse Fiona.
“Eu não quero que você entenda”, disse o capitão, passando o braço em volta dela. “É por isso que não contei a você por que o açucareiro é tão especialmente crucial. Certos segredos neste mundo são terríveis demais para que gente jovem os conheça, mesmo quando esses segredos vão chegando cada vez mais perto. Positivo! De qualquer modo, estou com fome. Positivo! Vamos comer?”
O capitão tocou outra vez o sino, e os Baudelaire tiveram a sensação de ter acordado de um sono profundo.
“Vou servir o sopão”, disse Phil. “Vamos, Sunny, que tal me ajudar?”
“Vou acionar os motores de novo”, disse Fiona, e começou a subir a escada de corda. “Violet, há uma gaveta na mesa cheia de prataria. Talvez você e seu irmão possam pôr a mesa.”
“É claro”, disse Violet, mas, ao virar-se para o irmão, franziu o cenho. O Baudelaire do meio examinava a carta náutica com uma expressão ultraconcentrada. Seus olhos brilhavam tanto por trás dos óculos que até ficaram parecidos com os símbolos luminescentes do detector por sonar. “Klaus?”, disse ela.
Klaus não respondeu e dirigiu o olhar para o capitão Andarré. “Posso não saber por que o açucareiro é importante”, disse ele, “mas acabo de descobrir onde ele está.”

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