sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo quatro


Quando os órfãos Baudelaire retornaram à tenda de Ishmael, o lugar estava à cunha, uma expressão que aqui significa “cheio de ilhéus de túnicas brancas, todos eles trazendo itens que tinham coletado na plataforma costeira”. Os carneiros não estavam mais cochilando, estavam rigidamente em pé, em duas longas filas, e as cordas que os amarravam levavam a um grande trenó de madeira – um meio de transporte inusitado em um clima tão quente. Sexta-Feira seguiu na frente das crianças em meio aos colonos e carneiros, que chegavam para o lado e olhavam curiosos para os três novos náufragos.
Embora fosse a primeira vez que os Baudelaire eram náufragos, eles estavam acostumados a ser estranhos em uma comunidade, desde os tempos da Escola Preparatória Prufrock até os tempos que passaram na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, mas ainda não gostavam de ser encarados. Porém, uma das estranhas verdades da vida é que praticamente ninguém gosta de ser encarado tampouco consegue deixar de encarar, e enquanto abriam caminho em direção a Ishmael, que ainda estava sentado na sua enorme cadeira de barro, os Baudelaire não conseguiram deixar de olhar de volta para os ilhéus com a mesma curiosidade, perguntando a si mesmos como tantas pessoas puderam ter se tornado náufragos na mesma ilha. Era como se o mundo estivesse cheio de pessoas com vidas tão desventuradas quanto as dos Baudelaire, e que foram todas parar no mesmo lugar.
Sexta-Feira levou os Baudelaire até a base da cadeira de Ishmael, e o facilitador sorriu para as crianças quando elas se sentaram aos seus pés cobertos de barro.
“Essas túnicas brancas estão muito elegantes em vocês, irmãos Baudelaire”, disse ele. “Muito melhor que aqueles uniformes que estavam usando antes. Vocês vão ser colonos maravilhosos, tenho certeza.”
“Pirrônica?”, disse Sunny, o que significava alguma coisa na linha de “Como você pode ter certeza disso baseado apenas nas nossas roupas?”, mas, em vez de traduzir, Violet lembrou-se de que a colônia valorizava a delicadeza e decidiu dizer algo agradável.
“Não sei nem como expressar o quanto apreciamos isso”, disse Violet, tomando cuidado para não se apoiar nos montes de barro que escondiam os pés de Ishmael. “Nós não sabíamos o que iria acontecer conosco depois da tempestade e estamos gratos a você, Ishmael, por nos acolher.”
“Todo mundo é acolhido aqui”, disse Ishmael, aparentemente esquecendo que o conde Olaf fora abandonado. “E, por favor, me chamem de Ish. Aceitam um pouco de cordial?”
“Não, obrigado”, disse Klaus, que não conseguia convencer-se a tratar o facilitador pelo apelido. “Nós gostaríamos de conhecer os outros colonos, se estiver tudo bem.”
“É claro”, disse Ishmael, e bateu palmas para chamar a atenção. “Ilhéus!”, gritou ele. “Como estou certo de que vocês repararam, hoje temos três novos náufragos conosco: Violet, Klaus e Sunny, os únicos sobreviventes daquela terrível tempestade. Não vou forçá-los, mas, enquanto vocês trazem os seus itens da coleta de despojos pós-borrasca até mim, por que não se apresentam aos nossos novos colonos?”
“Boa ideia, Ishmael”, disse alguém do fundo da tenda.
“Me chame de Ish”, disse Ishmael cofiando a barba. “Então, quem é o primeiro?”
“Eu, imagino”, disse um homem de jeito simpático que segurava o que parecia ser uma grande flor de metal. “É um prazer conhecer vocês três. Meu nome é Alonso, e encontrei uma hélice de aeroplano. O pobre piloto deve ter voado direto para dentro da tempestade.”
“Que pena”, disse Ishmael. “Bem, não existe nenhum aeroplano na ilha, portanto não creio que uma hélice seja de grande utilidade.”
“Desculpe-me”, disse Violet, hesitante, “mas eu entendo alguma coisa de dispositivos mecânicos. Se nós acoplarmos a hélice a um simples motor manual, teremos um perfeito ventilador para nos refrescarmos em dias especialmente quentes.”
Houve um murmúrio de apreciação na multidão, e Alonso sorriu para Violet.
“De fato, costuma fazer um tremendo calor por aqui”, disse ele. “É uma boa ideia.”
Ishmael tomou um gole de cordial da sua concha e depois franziu o cenho para a hélice.
“Depende de como você encara as coisas”, disse ele. “Se fizermos somente um ventilador, vamos começar a discutir sobre quem fica na frente dele.”
“Podemos nos revezar em turnos”, disse Alonso.
“E de quem será o turno no dia mais quente do ano?”, Ishmael objetou, uma palavra que aqui significa “disse em um tom de voz firme e sensato, muito embora não fosse necessariamente uma coisa sensata para se dizer”. “Eu não vou forçá-lo, Alonso, mas não acho que construir um ventilador valha todas as inconveniências que ele poderá causar.”
“Suponho que você esteja certo”, disse Alonso com um encolher de ombros, e pôs a hélice sobre o trenó de madeira. “Os carneiros podem levá-la para o arboreto.”
“Uma excelente decisão”, disse Ishmael, enquanto uma menina talvez um ou dois anos mais velha que Violet deu um passo à frente.
“Eu sou Ariel”, disse ela, “e encontrei isto em uma parte especialmente rasa da plataforma. Acho que é um punhal.”
“Um punhal?”, disse Ishmael. “Você sabe que as armas não são bem-vindas na ilha.”
Klaus estava olhando atentamente para o item que Ariel segurava nas mãos, o qual era feito de madeira entalhada e não de metal.
“Não acho que seja um punhal”, disse Klaus. “Acredito que seja uma antiga ferramenta usada para abrir páginas de livros. Hoje em dia a maior parte dos livros já é vendida com as páginas separadas, mas alguns anos atrás cada página era ligada à seguinte, portanto era necessário um instrumento para cortar as dobras do papel e ler o livro.”
“Interessante”, comentou Ariel.
“Depende de como você encara as coisas”, disse Ishmael. “Não consigo ver que utilidade isso poderia ter aqui. Nunca um único livro foi trazido pelas águas; as tempestades simplesmente despedaçam as páginas.”
Klaus enfiou a mão no bolso e tocou o seu livro de lugar-comum escondido.
“Você nunca sabe quando um livro pode aparecer”, observou ele. “Na minha opinião, esse instrumento é útil para se ter por perto.”
Ishmael suspirou, olhando primeiro para Klaus e depois para a menina que achara o item.
“Bem, eu não vou forçá-la, Ariel”, disse ele, “mas se fosse você eu jogaria essa coisa boba no trenó.”
“Com certeza você tem razão”, disse Ariel encolhendo os ombros para Klaus, e depositando o cortador de páginas ao lado da hélice enquanto um homem gorducho com o rosto queimado de sol se adiantava.
“Meu nome é Sherman”, ele disse com uma pequena saudação para os três irmãos. “E eu achei um ralador de queijo. Quase perdi um dedo para arrancá-lo de um ninho de caranguejos!”
“Você não devia ter se dado a tanto trabalho”, disse Ishmael. “Não vamos ter muita utilidade para um ralador de queijo sem nenhum queijo.”
“Rala coco”, disse Sunny. “Bolo delicioso.”
“Bolo?”, disse Sherman. “Puxa, isso seria delicioso. Não comemos uma sobremesa desde que eu cheguei aqui.”
“Cordial de coco é mais doce que sobremesa”, disse Ishmael, levando a sua concha aos lábios. “Eu decerto não o forçaria, Sherman, mas de fato acho que seria melhor se esse ralador fosse jogado fora.”
Sherman tomou um gole da sua própria concha e depois assentiu, olhando para a areia.
“Muito bem”, disse ele, e o resto da manhã prosseguiu de modo similar. Os ilhéus, um após o outro, se apresentaram e mostraram os itens encontrados, e quase todas as vezes o facilitador da colônia os desencorajou de guardar alguma coisa. Um homem barbudo chamado Robinson encontrou um macacão, mas Ishmael lembrou a ele que na colônia as pessoas só usavam as túnicas brancas de costume, muito embora Violet pudesse imaginar-se usando aquilo enquanto inventava algum tipo de dispositivo mecânico, para não sujar a túnica. Uma mulher idosa chamada Erewhon mostrou um par de esquis que Ishmael dispensou por considerá-los pouco práticos, muito embora Klaus tivesse lido a respeito de pessoas que usaram esquis para atravessar lama e areia; uma mulher ruiva chamada Weyden ofereceu uma centrifugadora manual de secar alface, mas Ishmael lembrou a ela que as únicas saladas da ilha eram feitas de algas, que eram lavadas na lagoa e secas ao sol, em vez de centrifugadas, muito embora Sunny quase pudesse sentir o gosto de um petisco de coco seco que um utensílio como aquele teria feito. Ferdinand ofereceu um canhão de bronze, mas Ishmael ficou com medo de que isso pudesse machucar alguém; Larsen apresentou um cortador de grama, apenas para Ishmael lembrá-la de que a praia não precisava ser aparada regularmente. Um menino mais ou menos com a idade de Klaus apresentou-se como Omeros e mostrou um maço de cartas que encontrara, mas Ishmael o convenceu de que um baralho provavelmente levaria ao jogo, então ele despejou o seu item no trenó; assim como uma menina chamada Finn, que achou uma máquina de escrever, avaliada como inútil por Ishmael por estar sem papel. Brewster encontrou uma janela que sobrevivera à tempestade sem quebrar, mas Ishmael salientou que não era preciso dispor de uma janela para admirar as paisagens da ilha; Calypso achou uma porta, e o facilitador insinuou que ela não poderia ser instalada em nenhuma das tendas da ilha. Byam, cujo bigode era inusitadamente encaracolado, descartou algumas pilhas que achara, e Willa, cuja cabeça era inusitadamente grande, decidiu contra uma mangueira de jardim incrustada de cracas. O sr. Pitcairn levou o tampo de uma cômoda para o arboreto, seguido pela srta. Marlow, que tinha um fundo de barril. O dr. Kurtz jogou fora uma bandeja de prata e o professor Fletcher ejetou um candelabro, enquanto madame Nordoff negava à ilha um tabuleiro de xadrez e o rabino Bligh concordava que os serviços de uma grande e ornamentada gaiola de passarinho não eram necessários por lá. Os únicos itens que os ilhéus acabaram guardando foram umas poucas redes, que iriam acrescentar aos seus suprimentos de redes usadas para apanhar peixes, e alguns cobertores, que Ishmael achou que iriam acabar alvejando sob o sol da ilha. Por fim, dois irmãos chamados Jonah e Sadie Bellamy exibiram o barco em que os Baudelaire tinham chegado, com a figura de proa ainda faltando e a placa com o nome CONDE OLAF ainda presa à popa com fita, mas a colônia já tinha quase terminado o seu catamarã de costume para o Dia da Decisão, portanto os Bellamy içaram seus itens para o trenó sem muita discussão. Os carneiros o arrastaram penosamente para fora da tenda, escarpa acima e rumo ao outro lado da ilha, para descarregar os itens no arboreto, e os ilhéus pediram licença para sair, por sugestão de Ishmael, a fim de lavar as mãos antes do almoço. Em minutos, os únicos ocupantes da tenda eram Ishmael, os órfãos Baudelaire e a menina que os levara à tenda na primeira vez, como se os irmãos fossem meramente mais um destroço de naufrágio a ser coletado para aprovação.
“Tempestade e tanto, não foi?”, perguntou Ishmael depois de um breve silêncio. “Coletamos mais refugos do que de costume.”
“Foi encontrado algum outro náufrago?”, perguntou Violet.
“Você se refere ao conde Olaf?”, perguntou Ishmael. “Depois que Sexta-Feira o abandonou, ele nunca se atreveu a chegar perto da ilha. Ou ele está vagando pela plataforma costeira, ou está tentando nadar de volta para qualquer que seja o lugar de onde veio.”
Os Baudelaire se entreolharam, sabendo muito bem que o conde Olaf estava provavelmente tramando algum esquema, sobretudo porque nenhum dos ilhéus achara a figura de proa do barco, onde estavam escondidos os esporos letais do Mycelium Medusoide.
“Nós não estávamos pensando só em Olaf”, disse Klaus. “Temos alguns amigos que podem ter sido pegos na mesma tempestade: uma mulher grávida chamada Kit Snicket, que estava em um submarino com alguns associados, e um grupo de pessoas que estavam viajando por ar.”
Ishmael franziu o cenho e bebeu um pouco de cordial da sua concha.
“Essas pessoas não apareceram”, disse ele, “mas não se desesperem, irmãos Baudelaire. Parece que mais cedo ou mais tarde tudo acaba dando nas nossas praias. Talvez as embarcações deles não tenham sido danificadas pela tempestade.”
“Talvez”, concordou Sunny, tentando não pensar que eles podiam não ter tido essa sorte toda.
“Eles podem aparecer dentro de um dia ou um pouco mais”, continuou Ishmael. “Outra tempestade vem vindo nesta direção.”
“Como você sabe?”, perguntou Violet. “Há um barômetro na ilha?”
“Não há barômetro nenhum”, disse Ishmael, referindo-se a um dispositivo que mede a pressão da atmosfera e que vem a ser um modo de se prever o tempo. “Eu simplesmente sei que vem vindo uma tempestade.”
“Como você pode saber uma coisa dessas?”, perguntou Klaus, contendo-se para não tirar o seu livro de lugar-comum do bolso e fazer anotações. “Eu sempre ouvi dizer que é difícil prever o tempo sem instrumentos avançados.”
“Não precisamos de instrumentos avançados nesta colônia”, disse Ishmael. “Eu prevejo o tempo usando mágica.”
“Meledrub”, disse Sunny, o que queria dizer qualquer coisa do tipo “Acho isso difícil de acreditar”, e seus irmãos concordaram silenciosamente. Os Baudelaire não eram de acreditar em mágica, embora a mãe deles conhecesse um truque com cartas fantástico que de quando em quando era persuadida a executar. Como todas as pessoas que já viram algo do mundo, as crianças se depararam com uma porção de coisas que foram incapazes de explicar, desde as diabólicas técnicas de hipnotismo da dra. Orwell até o modo como uma menina chamada Fiona partira o coração de Klaus, mas elas nunca se sentiram tentadas a resolver esses mistérios com uma explicação sobrenatural, como mágica. Tarde da noite, é claro, quando uma pessoa está sentada na cama, tendo sido acordada por um súbito ruído, ela acredita em toda sorte de coisas sobrenaturais, mas era começo de tarde e os Baudelaire não podiam imaginar que Ishmael fosse algum tipo de meteorologista mágico. A dúvida deles deve ter transparecido em seus rostos, pois o facilitador fez o que fazem muitas pessoas quando alguém não acredita nelas: mudou apressadamente de assunto.
“E você, Sexta-Feira?”, perguntou Ishmael. “Achou alguma coisa além dos náufragos e desses horríveis óculos escuros?”
Sexta-Feira deu uma olhada rápida para Sunny, mas depois balançou a cabeça com firmeza.
“Não”, disse ela.
“Então, por favor, vá ajudar a sua mãe com o almoço”, disse ele, “enquanto eu converso com os nossos novos colonos.”
“Preciso mesmo ir?”, perguntou Sexta-Feira. “Prefiro ficar aqui com os Baudelaire.”
“Não vou forçá-la”, disse Ishmael gentilmente, “mas tenho certeza de que a sua mãe apreciaria um pouco de ajuda.”
Sem mais palavras, Sexta-Feira voltou-se e saiu da tenda, subindo a praia inclinada em direção às outras tendas da colônia, e os Baudelaire ficaram sozinhos com o facilitador, que se inclinou para falar aos órfãos em voz baixa.
“Irmãos Baudelaire”, disse ele, “como seu facilitador, permitam-me oferecer-lhes um conselho agora que começam a sua estada nesta ilha.”
“E qual seria ele?”, perguntou Violet.
Ishmael percorreu a tenda com os olhos, como se espiões espreitassem atrás do tecido branco e ondulante. Ele tomou mais um gole da sua concha e estalou os nós dos dedos.
“Não balancem o barco”, disse ele, usando uma expressão que aqui significa “Não incomodem as pessoas fazendo uma coisa que não é costumeira”. O seu tom era muito cordial, mas as crianças podiam ouvir algo menos cordial quase escondido em sua voz, do mesmo modo que a plataforma costeira é quase escondida pela água. “Estamos vivendo de acordo com os nossos costumes há um bocado de tempo. A maior parte de nós mal pode se lembrar de como era a vida antes de nos tornarmos náufragos, e há toda uma geração de ilhéus que nunca viveu em nenhum outro lugar. Meu conselho a vocês é: não façam tantas perguntas nem se intrometam demais nos nossos costumes. Nós os acolhemos, irmãos Baudelaire, o que é uma delicadeza, e esperamos delicadeza em retribuição. Se vocês continuarem bisbilhotando os assuntos da ilha, as pessoas vão pensar que vocês são indelicados – exatamente como Sexta-Feira achou que Olaf era indelicado. Portanto, não balancem o barco. Afinal, foi balançando o barco que vocês vieram parar aqui, não é mesmo?”
Ishmael sorriu com a sua piadinha e, apesar de não ver nada de engraçado em fazer graça com um naufrágio que quase as matara, as crianças devolveram um sorriso nervoso a Ishmael e não disseram mais nada. A tenda ficou em silêncio por alguns minutos, até que uma simpática mulher de rosto sardento entrou carregando um enorme pote de barro.
“Vocês devem ser os Baudelaire”, disse enquanto Sexta-Feira vinha atrás dela carregando uma pilha de tigelas feitas de casca de coco, “e devem estar mortos de fome, aposto. Sou a senhora Caliban, mãe de Sexta-Feira, e sou eu quem cozinha aqui a maior parte do tempo. Que tal um almoço?”
“Seria maravilhoso”, disse Klaus. “Estamos com muita fome.”
“Quecefez?”, perguntou Sunny.
A sra. Caliban sorriu e abriu o pote para as crianças espiarem o que tinha dentro.
“Ceviche”, disse ela. “E um prato sul-americano de frutos do mar crus picados.”
“Oh”, disse Violet com todo o entusiasmo que foi capaz de manifestar. Ceviche é um gosto adquirido, uma frase que aqui significa “uma coisa de que você não gosta nas primeiras vezes em que come”, e, embora as crianças já tivessem comido ceviche antes – a mãe deles costumava prepará-lo na cozinha dos Baudelaire, para celebrar o começo da estação de caranguejos –, aquele não era o prato favorito das crianças, nem era bem o que tinham em mente como uma primeira refeição depois de naufragar. Por exemplo, quando eu naufraguei recentemente, tive a boa sorte de ser arrastado a bordo de uma barcaça onde me deleitei com uma ceia tardia de pernil de carneiro assado com polenta cremosa e um fricassê de minialcachofras, seguidos por um pouco de queijo gouda maturado com figos assados; terminei com morangos frescos mergulhados em chocolate ao leite e favos de mel espremidos, e descobri que se trata de um antídoto maravilhoso para quem é jogado como uma boneca de trapo nas águas turbulentas de uma enseada especialmente tempestuosa. Mas os Baudelaire aceitaram as suas tigelas de ceviche, bem como os estranhos utensílios que Sexta-Feira lhes entregara, que eram feitos de madeira e pareciam uma combinação de garfo e colher.
“São Colheres multiuso”, explicou Sexta-Feira. “Não temos garfos nem facas na colônia, pois podem ser usados como armas.”
“Imagino que isso seja sensato”, disse Klaus, embora não pudesse deixar de pensar que quase tudo pode ser usado como arma, se a pessoa estiver tomada por uma disposição armamentista.
“Espero que vocês gostem”, disse a sra. Caliban. “Não há muitos pratos que se possam preparar com frutos do mar crus.”
“Negihama”, disse Sunny.
“Minha irmã é uma espécie de chefe de cozinha”, explicou Violet, “e está se oferecendo para preparar alguns pratos japoneses para a colônia, se houver algum wasabi disponível.”
A mais jovem dos Baudelaire inclinou levemente a cabeça para a irmã, percebendo que Violet estava perguntando sobre wasabi não só porque poderia permitir que Sunny fizesse algo palatável – uma palavra que aqui significa “que não fosse ceviche” –, mas porque o wasabi, que é um tipo de raiz-forte frequentemente usado em comida japonesa, era uma das poucas defesas contra o Mycelium Medusoide, e, com o conde Olaf à espreita, ela queria pensar em estratégias possíveis caso o fungo letal escapasse do capacete.
“Nós não temos nenhum wasabi, disse a sra. Caliban. “Na verdade, não temos nenhum tempero. Nenhum tempero foi arrastado para a plataforma costeira.”
“E mesmo se tivesse sido”, acrescentou depressa Ishmael, “acho que teríamos simplesmente jogado no arboreto. Os estômagos dos colonos estão acostumados com ceviche sem tempero, e não queremos balançar o barco.”
Klaus mordeu um pedaço de ceviche da sua colher multiuso e fez uma careta ao sentir o gosto. Tradicionalmente, um ceviche é marinado em temperos, o que lhe dá um sabor inusitado porém muitas vezes delicioso; mas, sem esses temperos, o ceviche da sra. Caliban tinha o gosto daquilo que você encontra na boca de um peixe que está se alimentando.
“Vocês comem ceviche em todas as refeições?”, perguntou ele.
“Com certeza não”, disse a sra. Caliban com uma risadinha. “Seria cansativo, não é? Não, nós só comemos ceviche no almoço. Todas as manhãs temos uma salada de algas para o desjejum, e no jantar temos uma sopa suave de cebola servida com um punhado de capim selvagem. Você pode se cansar de uma comida tão insossa, mas o gosto fica melhor se você a engolir com cordial de coco.” A mãe de Sexta-Feira enfiou a mão em um bolso fundo na sua túnica branca, tirou de lá três grandes conchas que tinham sido transformadas em cantis e entregou uma para cada Baudelaire.
“Vamos fazer um brinde”, sugeriu Sexta-Feira, erguendo a sua própria concha. A sra. Caliban ergueu a dela e Ishmael se remexeu na sua cadeira de barro e abriu a tampa da sua concha mais uma vez.
“Uma ideia excelente”, disse o facilitador com um largo, largo sorriso. “Vamos fazer um brinde aos órfãos Baudelaire!”
“Aos Baudelaire!”, concordou a sra. Caliban, erguendo a sua concha. “Bem-vindos à ilha!”
“Espero que vocês fiquem aqui para todo o sempre!”, gritou Sexta-Feira.
Os Baudelaire olharam para os três ilhéus que arreganhavam sorrisos para eles e tentaram retribuir o entusiasmo, embora estivessem com tanta coisa na cabeça que seus sorrisos não foram muito entusiásticos. Os Baudelaire se perguntavam se realmente teriam de comer ceviche sem tempero, não só naquele almoço em particular, mas em todos os futuros almoços na ilha. Eles se perguntavam se teriam de beber mais daquele cordial de coco, e, caso se recusassem, seria considerado que eles estavam balançando o barco. Perguntavam-se, ainda, por que a figura de proa do barco não fora encontrada, onde estava o conde Olaf e o que ele estaria tramando; eles se perguntavam acerca dos seus amigos e associados, que estavam em algum lugar no mar, e sobre todas as pessoas que tinham deixado para trás no Hotel Desenlace. Mas, naquele momento, os Baudelaire se perguntavam uma coisa acima de todas: por que Ishmael os chamara de órfãos, sendo que eles não tinham lhe contado a história inteira? Violet, Klaus e Sunny olharam primeiro para as suas tigelas de ceviche, depois para Sexta-Feira e a mãe dela, então para as suas conchas, e finalmente para Ishmael, que estava sorrindo para eles de cima da sua enorme cadeira, e se perguntaram se realmente tinham chegado a um lugar que estava longe da perfídia do mundo ou se a perfídia do mundo estava apenas escondida em algum lugar, assim como o conde Olaf estava escondido em algum lugar muito próximo naquele exato momento. Eles ergueram os olhos para o seu facilitador, sem muita certeza de estar em segurança, e se perguntando o que poderiam fazer a respeito caso não estivessem.
“Não vou forçá-los”, disse Ishmael mansamente para as crianças, e os órfãos Baudelaire se perguntaram se aquilo seria verdade, afinal.

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