terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo onze


Uma antiga expressão, usada ainda antes da cisão, diz que as pessoas não deveriam ver a criação das leis e das salsichas. Isso faz sentido, pois a criação de salsichas envolve misturar diferentes partes de diferentes animais e moldá-las até que fiquem apresentáveis para o café-da-manhã, e a criação de leis envolve misturar diferentes partes de diferentes ideias e moldá-las até que fiquem apresentáveis para o café-da-manhã, e a maioria das pessoas prefere passar o café-da-manhã comendo comida e lendo o jornal sem ter de se expor a criações de absolutamente nenhum tipo.
A Corte Suprema, como a maioria das cortes, não estava envolvida na criação de leis, e sim na interpretação de leis, o que é tão desconcertante e insondável quanto a sua criação e, como a interpretação de salsichas, é algo que também não deve ser visto. Se você pusesse este livro de lado e viajasse até a lagoa que agora nada reflete a não ser alguns pedaços de madeira queimada e o céu vazio, e se você encontrasse a passagem secreta que leva ao catálogo subaquático que permaneceu secreto e seguro durante todos esses anos, poderia ler o relato de uma interpretação de salsichas que deu horrivelmente errado e levou à destruição de um batiscafo muito importante, tudo porque eu, equivocadamente, achei que as salsichas estavam arrumadas de modo a formar um K, quando na realidade o garçom tinha tentado formar um R. E poderia ler também o relato de uma interpretação da lei que deu horrivelmente errado, porém acho difícil a viagem valer a pena por causa dele, já que esse relato está contido nos capítulos remanescentes deste livro. Mas, se você for uma pessoa sensata, deve proteger os olhos de tais interpretações, pois são assustadoras demais para se ler. Enquanto Violet, Klaus e Sunny tentavam pregar os olhos – uma expressão que aqui significa “dormiam um sono agitado dentro do armário que era o quarto 121” –, arranjos eram feitos para o julgamento, durante o qual os três juízes da Corte Suprema iriam interpretar as leis e decidir sobre a nobreza ou a perfídia do conde Olaf e dos Baudelaire. No entanto, as crianças ficaram surpresas quando souberam, assim que uma forte batida na porta as despertou, que não iriam ver essa interpretação elas mesmas.
“Aqui estão suas vendas”, disse um dos gerentes, abrindo a porta e entregando às crianças três pedaços de pano preto. Os Baudelaire suspeitaram que fosse Ernest, pois não tinha se dado ao trabalho de dizer “Olá”.
“Vendas?”, perguntou Violet.
“Todo mundo usa vendas em um julgamento da Corte Suprema”, respondeu o gerente, “exceto os juízes, é claro. Vocês nunca ouviram a expressão ‘justiça cega’?”
“Sim”, disse Klaus, “mas eu sempre achei que o significado disso é que a justiça deve ser imparcial e livre de preconceitos.”
“O veredicto da Corte Suprema foi tomar a expressão ao pé da letra”, disse o gerente, “portanto todos, exceto os juízes, devem cobrir os olhos antes de o julgamento começar.”
“Scalia”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa como “Não me parece que a interpretação literal faça algum sentido”, mas seus irmãos não acharam prudente traduzir aquilo.
“Eu também trouxe um pouco de chá para vocês”, disse ele, revelando uma bandeja que continha uma chaleira e três xícaras. “Achei que poderia fortificá-los para o julgamento.”
Com “fortificá-los” o gerente queria dizer que alguns goles de chá poderiam dar às crianças um pouco da força tão necessária para enfrentar a sua provação, e os irmãos acharam que devia ser Frank quem estava lhes fazendo tal favor.
“Você é muito gentil”, disse Violet.
“Sinto muito, mas não temos açúcar”, disse ele.
“Tudo bem”, disse Klaus, e então folheou apressadamente o seu livro de lugar-comum até encontrar suas anotações sobre a conversa das crianças com Kit Snicket. “‘O chá deve ser amargo como absinto’“, ele leu, “‘e pungente como uma espada de dois gumes.’“
O gerente lançou a Klaus um sorrisinho insondável.
“Bebam o seu chá”, disse ele. “Daqui a alguns minutos vou voltar para acompanhá-los ao julgamento.”
Frank, a não ser que fosse Ernest, fechou a porta e deixou os Baudelaire sozinhos.
“Por que você disse aquilo sobre o chá?”, perguntou Violet.
“Achei que ele poderia estar falando em código conosco”, disse Klaus. “Achei que, se déssemos a resposta certa, alguma coisa poderia acontecer.”
“Insondável”, disse Sunny.
“Tudo parece ser insondável”, disse Violet com um suspiro, servindo chá para os irmãos. “Está ficando de um jeito tal que não posso mais distinguir uma pessoa nobre de uma pessoa maligna.”
“Kit disse que o único modo de diferenciar um vilão de um voluntário é observar todo mundo, e julgarmos nós mesmos”, disse Klaus, “mas isso não nos ajudou em nada.”
“Hoje a Corte Suprema vai julgar por nós”, disse Violet. “Talvez eles provem ser favoráveis a nós.”
“Ou nos desapontem”, disse Sunny.
A mais velha dos Baudelaire sorriu e ajudou a irmã a calçar os sapatos.
“Gostaria que os nossos pais pudessem ver como você cresceu”, disse ela. “Mamãe sempre disse que assim que você aprendesse a andar, Sunny, iria longe.”
“Duvido que um armário no Hotel Desenlace era o que ela tinha em mente”, disse Klaus, soprando o chá para esfriá-lo.
“Quem sabe o que é que eles tinham em mente?”, perguntou Violet. “Este é mais um mistério que provavelmente nunca resolveremos.”
Sunny tomou um gole de chá, que de fato estava amargo como absinto e pungente como uma espada de dois gumes, muito embora a mais jovem dos Baudelaire tivesse pouca experiência com armas brancas ou antigas plantas aromáticas da família das compostas, usadas em certos tônicos prazerosos.
“Mama e papá”, ela disse hesitante, “e dardos envenenados?”
Seus irmãos não tiveram tempo de responder, pois ouviram outra batida na porta.
“Acabem seu chá”, gritou Frank ou Ernest, “e ponham suas vendas. O julgamento já vai começar.”
Os Baudelaire se apressaram a seguir as instruções, fossem elas do voluntário ou do vilão; tomaram alguns goles apressados de chá, amarraram os sapatos e enrolaram o pano preto em volta da cabeça para cobrir os olhos. Um momento depois ouviram a porta do quarto 121 se abrir e perceberam Frank ou Ernest se aproximando deles.
“Onde estão vocês?”, ele perguntou.
“Estamos bem aqui”, disse Violet. “Não está nos vendo?”
“É claro que não”, respondeu o gerente. “Também estou usando uma venda. Estendam a mão para mim, e os levarei ao julgamento.”
A mais velha dos Baudelaire estendeu o braço para a frente e encontrou uma grande mão áspera aguardando pela sua. Klaus segurou a outra mão de Violet, e Sunny segurou a de Klaus, e assim as crianças foram levadas para fora do quarto 121. A expressão “um cego liderando outro cego”, como a expressão “justiça cega”, normalmente não é levada ao pé da letra, pois se refere apenas a uma situação confusa em que as pessoas na liderança não sabem de nada além do que sabem as pessoas que as seguem. Mas, como os Baudelaire aprenderam enquanto eram levados através do hall, um vendado conduzindo outro vendado resulta no mesmo tipo de confusão. As crianças não podiam ver nada através das suas vendas, porém o salão estava tomado pelos sons de pessoas à procura de seus acompanhantes, colidindo umas com as outras e indo de encontro a paredes e móveis. Violet foi cutucada no olho pelo dedo rechonchudo de alguém. Klaus foi confundido com alguém chamado Jerry por um homem que lhe deu um enorme abraço antes de perceber o engano. E alguém tropeçou na cabeça de Sunny, presumiu que ela era um vaso ornamental e tentou enfiar um guarda-chuva na sua boca. Sobrepondo-se ao ruído da multidão, os Baudelaire ouviram o relógio bater doze insistentes Nadabons! e se deram conta de que tinham dormido por um belo tempo. A tarde de quarta-feira já começava, o que significava que a quinta-feira, bem como a chegada dos seus nobres amigos e associados, estava realmente muito próxima.
“Atenção!” A voz da juíza Strauss também estava realmente muito próxima e ressoou acima da multidão, juntamente com repetidas pancadas de um martelo de juiz, expressão que aqui se refere ao martelete usado pelos juízes quando querem chamar a atenção de alguém. “Atenção todo mundo! O julgamento está para começar! Todos, por favor, tomem seus lugares!”
“Como podemos tomar nossos lugares”, perguntou um homem, “se não podemos vê-los?”
“Vá apalpando em volta com as mãos”, disse a juíza Strauss. “Mais para a sua direita. Um pouco mais. Um pouco mais. Um pouco mais. Um pouco...”
“Ai!”
“Também, nem tanto”, disse a juíza. “Aí! Sente-se! Agora o resto de vocês pode fazer o que ele fez!”
“Como vamos fazer o que ele fez”, perguntou um outro, “se não podemos vê-lo?”
“Podemos dar uma espiada?”, perguntou outra pessoa.
“Nada de espiadas!”, disse, severa, a juíza Strauss. “Nosso sistema de justiça não é perfeito, mas é o único que temos. Lembro a vocês que todos os três juízes da Corte Suprema estão de olhos nus, e se vocês espiarem serão acusados de desacato ao tribunal! Aliás, ‘desacato’ é uma palavra usada para designar alguma coisa desprezível e vergonhosa.”
“Eu sei o que significa a palavra ‘desacato’“, rosnou uma voz que as crianças não conseguiram reconhecer.
“Eu defini a palavra para os Baudelaire”, disse a juíza Strauss, e as crianças agradeceram com um movimento de cabeça na direção da voz dela, muito embora os três irmãos soubessem o significado de “desacato” desde uma noite, muito tempo atrás, em que o tio Monty os levara ao cinema. “Órfãos Baudelaire, deem três passos para a direita. Mais três. Mais um. Aí! Vocês chegaram ao seu banco. Por favor, sentem-se.”
Os Baudelaire sentaram-se em um dos bancos de madeira do saguão e ouviram os passos do gerente que os conduzira e agora cambaleava de volta à multidão que se acomodava. Por fim, tinha-se a impressão de que todo mundo encontrara um tipo ou outro de lugar e, com mais algumas batidas do martelo de juiz e chamados de atenção, a multidão se aquietou e a juíza Strauss começou o julgamento.
“Boa tarde, senhoras e senhores”, disse ela, a voz vindo da direita em frente aos Baudelaire, “e quaisquer outros que acaso estejam presentes. Chegou ao conhecimento da Corte Suprema que certos feitos perversos ficaram impunes, e que essa perversidade vem crescendo em um ritmo alarmante. Planejávamos realizar um julgamento na quinta-feira, mas depois da morte do senhor Dénouement ficou claro que temos de fazê-lo mais cedo, nos interesses da justiça e da nobreza. Ouviremos o que cada testemunha tem a dizer e determinaremos de uma vez por todas quem é responsável. Os réus serão entregues às autoridades, que estão aguardando do lado de fora, para garantir que ninguém tente escapar enquanto o julgamento está em andamento.”
“E por falar em réus”, acrescentou o conde Olaf, “quando o julgamento acabar, estão todos convidados para um coquetel muito in, no qual eu serei o anfitrião! As mulheres ricas são especialmente bem-vindas!”
“Eu é que sou a anfitriã!”, rosnou a voz de Esmé Squalor, “e os homens elegantes ganharão um presente grátis.”
“Todos os presentes são grátis”, disse ou Frank ou Ernest.
“Ordem no tribunal!”, pediu severamente a juíza Strauss, batendo o seu martelo. “Estamos discutindo justiça social, e não compromissos sociais. Agora, os réus queiram por favor ficar em pé e declarar seus nomes e ocupações para registro.”
Os Baudelaire se levantaram, hesitantes.
“Você também, conde Olaf”, disse com firmeza a juíza Strauss. O banco de madeira rangeu ao lado dos Baudelaire, e eles perceberam que o notório vilão também estivera sentado naquele banco e agora se encontrava em pé ao lado deles.
“Nome?”, perguntou a juíza.
“Conde Olaf”, respondeu o conde Olaf.
“Ocupação?”
“Empresário teatral”, disse ele, usando uma expressão elegante para designar alguém que encena espetáculos de teatro.
“Você é inocente ou culpado?”, perguntou a juíza Strauss.
As crianças imaginaram ter ouvido os dentes imundos de Olaf roçando contra os lábios quando ele sorriu.
“Sou inqualificavelmente inocente”, disse ele, e um murmúrio se espalhou pela multidão como uma ondulação na superfície de uma lagoa.
“Você pode se sentar”, disse a juíza Strauss batendo o martelo. “Crianças, vocês são as próximas. Por favor, declarem seus nomes.”
“Violet Baudelaire”, disse Violet Baudelaire.
“Klaus Baudelaire”, disse Klaus Baudelaire.
“Sunny Baudelaire”, disse Sunny Baudelaire.
As crianças ouviram o raspar de uma pena no papel e perceberam que a juíza estava anotando tudo o que era dito.
“Ocupações?”
Os Baudelaire não sabiam como responder a essa pergunta. A palavra “ocupação”, como tenho certeza que você sabe, usualmente se refere a um emprego, mas o trabalho dos Baudelaire era esporádico, uma palavra que aqui significa “consistindo de um grande número de ocupações, exercidas durante um período curto e sob circunstâncias muito inusitadas”. A palavra também pode se referir a como a pessoa passa o seu tempo, no entanto os irmãos raramente gostavam de pensar em todas as coisas pavorosas que as ocuparam recentemente. E, por fim, a palavra “ocupação” pode se referir ao estado em que está a pessoa, como ser o marido de uma mulher, ou o tutor de uma criança, mas os jovens não tinham certeza de como tal termo poderia se aplicar à atordoante história de suas vidas. Os Baudelaire pensaram e pensaram, e finalmente cada qual deu a sua resposta do modo que achou apropriado.
“Voluntária”, disse Violet.
“Concierge”, disse Klaus.
“Criança”, disse Sunny.
“Objeção!”, disse Olaf ao lado deles. “A ocupação certa deles é órfãos, ou herdeiros de uma grande fortuna!”
“Sua objeção está registrada”, disse firmemente a juíza Strauss. “E agora, jovens Baudelaire, me respondam se vocês são culpados ou inocentes.”
Mais uma vez os Baudelaire hesitaram antes de responder. A juíza Strauss não tinha perguntado às crianças especificamente a respeito do que eram inocentes ou culpadas, e o silêncio de expectativa no saguão não lhes deu vontade de pedir à juíza para esclarecer a pergunta. De modo geral, é claro, as crianças Baudelaire acreditavam ser inocentes, muito embora fossem culpadas, como todos nós, de certos atos que são qualquer coisa menos nobres. Mas os Baudelaire não estavam em pé de um modo geral. Eles estavam em pé ao lado do conde Olaf. Foi Klaus quem encontrou as palavras para comparar a inocência e a culpa dos irmãos com a inocência e a culpa de um homem que dissera ser inqualificavelmente inocente; e depois de uma pausa o Baudelaire do meio respondeu à pergunta da juíza.
“Somos comparativamente inocentes”, disse ele, e uma ondulação de novo tomava conta da multidão. As crianças ouviram mais uma vez o arranhar da pena da juíza Strauss, e o som da voz entusiástica de Geraldine Julienne.
“Já posso ver a manchete!”, exclamou ela. “‘TODO MUNDO É INOCENTE!’ Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário lerem isso!”
“Ninguém é inocente”, disse a juíza Strauss, batendo o martelo. “Pelo menos, não ainda. E, agora, todos os presentes no tribunal que possuem evidências que desejam submeter à corte, por favor se aproximem dos juízes e façam isso.”
O salão irrompeu em um pandemônio, uma palavra que aqui significa “uma multidão de pessoas vendadas tentando submeter evidências a três juízes”. Os Baudelaire sentaram-se no banco e ouviram as pessoas tropeçando umas nas outras enquanto tentavam submeter sua pesquisa à Corte Suprema.
“Eu submeto estas matérias de jornal!”, anunciou a voz de Geraldine Julienne.
“Eu submeto estes estudos ambientais!”, anunciou Charles.
“Eu submeto estes livros escolares!”, anunciou o sr. Remora.
“Eu submeto estes projetos de bancos!”, anunciou a sra. Bass.
“Eu submeto estes registros administrativos!”, anunciou o vice-diretor Nero.
“Eu submeto esta papelada!”, anunciou Hal.
“Eu submeto estes registros financeiros!”, anunciou o sr. Poe.
“Eu submeto estes livros de regras!”, anunciou o sr. Lesko.
“Eu submeto estas constituições!”, anunciou a sra. Morrow.
“Eu submeto estes cartazes de parque de diversões!”, anunciou Hugo.
“Eu submeto estes desenhos anatômicos!”, anunciou Colette.
“Eu submeto estes livros”, anunciou Kevin, “com ambas as mãos, a direita e a esquerda!”
“Eu submeto estas páginas em branco cravejadas de rubis!”, disse Esmé Squalor.
“Eu submeto este livro sobre como eu sou maravilhosa!”, anunciou Carmelita Spats.
“Eu submeto este livro de lugar-comum!”, anunciou Frank ou Ernest.
“Eu também!”, anunciou Ernest ou Frank.
“Eu submeto a minha mãe!” A última voz foi a primeira no desfile de vozes que os Baudelaire não reconheceram. Parecia que todos no saguão tinham algo para submeter à Corte Suprema; para os Baudelaire, era como se estivessem no meio de uma avalanche de observações, pesquisas e outras evidências, algumas das quais soavam exculpatórias – uma palavra que aqui significa “que provavelmente podem provar a inocência dos Baudelaire” –, e algumas das quais soavam condenatórias, uma palavra que fazia as crianças tremerem só de pensar.
“Eu submeto estas fotografias!”
“Eu submeto estes registros hospitalares!”
“Eu submeto estes artigos de revistas!”
“Eu submeto estes telegramas!”
“Eu submeto estes dísticos!”
“Eu submeto estes mapas!”
“Eu submeto estes livros de culinária!”
“Eu submeto estes retalhos de papel!”
“Eu submeto estes roteiros de cinema!”
“Eu submeto estes dicionários de rimas!”
“Eu submeto estas cartas de amor!”
“Eu submeto estes resumos de óperas!”
“Eu submeto estes dicionários analógicos!”
“Eu submeto estas licenças de casamento!”
“Eu submeto estes comentários talmúdicos!”
“Eu submeto estes legados e testamentos!”
“Eu submeto estes catálogos de leilões!”
“Eu submeto estes livros de códigos!”
“Eu submeto estas enciclopédias micológicas!”
“Eu submeto estes cardápios!”
“Eu submeto estas tabelas de horários de balsas!”
“Eu submeto estes programas de teatro!”
“Eu submeto estes cartões comerciais!”
“Eu submeto estes memorandos!”
“Eu submeto estas novelas!”
“Eu submeto estes biscoitos!”
“Eu submeto estas provas sortidas que não quero categorizar!”
Por fim os Baudelaire ouviram um vigoroso bum!, e a voz triunfante de Jerome Squalor.
“Eu submeto esta história abrangente da injustiça!”, anunciou ele, e o saguão encheu-se de sons de aplausos e vaias, quando voluntários e vilões reagiram. A juíza Strauss teve de bater o seu martelo uma porção de vezes até que a multidão se acalmasse.
“Antes que a Corte Suprema examine estas evidências”, disse a juíza, “pedimos a cada um dos acusados que faça uma declaração explicando os seus atos. Podem levar o tempo que quiserem para contar a sua história, mas não deixem de fora nada de importante. Conde Olaf, você pode ser o primeiro.”
O banco de madeira rangeu de novo quando o vilão se levantou. Os Baudelaire ouviram o conde Olaf suspirar e sentiram o seu hálito fétido.
“Senhoras e senhores”, disse ele, “eu sou tão incrivelmente inocente que a palavra ‘inocente’ deveria ser escrita na minha cara em letras maiúsculas. A letra representaria ‘indubitavelmente inocente’. A letra N representaria ‘nada de errado’, que é o que fiz. A letra A representaria...”
“Não é assim que se escreve ‘inocente’“, interrompeu a juíza Strauss.
“Eu não acho importante como se escreve”, resmungou o conde Olaf.
“Como se escreve é importante, sim”, disse a juíza, severa.
“Bem, ‘inocência’ deveria se escrever O-L-A-F”, disse o conde Olaf, “e aqui termina o meu discurso.”
O banco rangeu quando Olaf se sentou de novo.
“Isso é tudo o que você tem a dizer?”, perguntou surpresa a juíza Strauss.
“Isso aí”, disse o conde Olaf.
“Eu recomendei que nada de importante fosse deixado de fora”, lembrou a juíza.
“Eu sou a única coisa importante”, insistiu o conde Olaf, “e sou muito inocente. Tenho certeza de que naquela enorme pilha de evidências há mais provas da minha inocência do que da minha culpa.”
“Ora, tudo bem”, disse a juíza, incerta. “Órfãos Baudelaire, agora vocês podem nos contar o seu lado da história.”
Cambaleantes, os Baudelaire se puseram de pé, as pernas trêmulas em nervosa antecipação, e eles mais uma vez não sabiam muito bem o que dizer.
“Prossigam”, disse gentilmente a juíza Strauss. “Estamos ouvindo.”
Os órfãos Baudelaire se deram as mãos. Apesar de terem sido recém-notificados do julgamento, havia umas poucas horas apenas, as crianças se sentiam como se estivessem esperando há uma eternidade para poder levantar-se e contar a sua história a quem quisesse ouvir. Embora grande parte da história tivesse sido contada ao sr. Poe, anotada no livro de lugar-comum de Klaus e discutida com os trigêmeos Quagmire e outras pessoas nobres que encontraram em suas viagens, eles nunca tiveram a oportunidade de contar a história inteira, desde o pavoroso dia na Praia de Sal, em que o sr. Poe lhes dera a terrível notícia sobre os seus pais, até esta mesma tarde, em que estavam ali perfilados perante a Corte Suprema, esperando que todos os vilões de suas vidas fossem finalmente levados à justiça.
Talvez eles não tivessem tido tempo bastante para sentar e contar sua história exatamente como queriam contá-la, ou talvez sua história fosse tão desventurada que eles não ousavam compartilhar todos os deploráveis detalhes com ninguém. Ou talvez os Baudelaire simplesmente não tivessem encontrado ninguém que os ouvisse tão bem quanto os pais deles costumavam ouvir. Os irmãos, ali perfilados perante a Corte Suprema, foram capazes de visualizar o rosto da mãe e do pai, assim como as expressões que mostravam enquanto ouviam os filhos. Ocasionalmente, enquanto um dos Baudelaire contava uma história aos pais, ocorria algum tipo de interrupção – o telefone tocava, ou ouvia-se o ruído estridente de uma sirene lá fora, ou mesmo um dos outros irmãos fazia um comentário. “Psiu!”, diziam os pais Baudelaire para a interrupção. “Você não está com a palavra”, explicavam, e então se viravam de novo para o Baudelaire que estava falando e, com um movimento de cabeça, indicavam que a história devia continuar.
Então, no julgamento, os órfãos se puseram em pé ao mesmo tempo, provocando um ranger do banco de madeira atrás deles, e começaram a contar a história de suas vidas, o que há muito desejavam fazer.
“Bem”, disse Violet, “uma tarde meus irmãos e eu estávamos na Praia de Sal. Eu estava pensando em uma invenção que pudesse recuperar uma pedra que tinha sido atirada no oceano. Klaus examinava criaturas em poças de maré. E Sunny notou que o senhor Poe estava caminhando em nossa direção.”
“Humm”, disse a juíza Strauss, mas não era o tipo de “humm” de quem está pensativo. A mais velha dos Baudelaire pensou que talvez a juíza estivesse dizendo “humm” do mesmo jeito que ela, Violet, tinha dito “humm” para Frank ou Ernest, como uma resposta segura.
“Prossiga”, disse uma voz grave e profunda que pertencia a um dos outros juízes. “A juíza Strauss só estava pensativa.”
“O senhor Poe nos contou que tinha ocorrido um incêndio terrível”, continuou Klaus. “Que a nossa casa fora destruída, e que os nossos pais haviam morrido.”
“Humm”, disse novamente a juíza Strauss, mas não era o tipo de “humm” de quem estava demonstrando compaixão. Klaus pensou que talvez a juíza estivesse tomando um gole de chá, para fortalecer-se enquanto os irmãos contavam sua história.
“Por favor, continue”, disse outra voz. Esta era muito rouca, como se o terceiro juiz tivesse ficado aos gritos durante horas e agora mal pudesse falar. “A juíza Strauss só estava demonstrando compaixão.”
“Bildungsroman”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa nos moldes de “A partir daquele momento, nossa história foi uma longa, apavorante educação nos perversos caminhos do mundo e nos misteriosos segredos escondidos em todos os cantos”, mas, antes que seus irmãos pudessem traduzir, a juíza Strauss emitiu mais um “humm”, e esse foi o mais estranho de todos. Não era o “humm” de quem está pensativo, não soava como uma resposta segura, certamente não demonstrava compaixão, tampouco era o ruído que alguém pudesse fazer ao tomar um gole de chá. Para Sunny, o “humm” soou como um ruído que ela ouvira muito tempo atrás, não muito depois daquele dia na Praia de Sal que as crianças estavam descrevendo. A mais jovem dos Baudelaire ouvira o mesmo ruído vindo da sua própria boca, quando estava pendurada do lado de fora do quarto da torre do conde Olaf dentro de uma gaiola, com um pedaço de fita adesiva cobrindo-lhe a boca. Sunny engoliu em seco ao reconhecer o som, assim como Klaus reconhecera a voz do segundo juiz e Violet reconhecera a voz do terceiro. Às cegas, os Baudelaire estenderam os braços para segurar as mãos uns dos outros, em pânico.
“O que vamos fazer?”, sussurrou Violet o mais baixo possível.
“Espiar”, sussurrou Sunny em resposta.
“Se espiarmos”, sussurrou Klaus, “seremos acusados de desacato ao tribunal.”
“O que vocês estão esperando, órfãos Baudelaire?”, perguntou a voz grave e profunda.
“Sim”, disse a voz rouca. “Continuem a história.”
Mas os órfãos Baudelaire sabiam que não poderiam continuar sua história, não importava o tempo que estiveram aguardando para contá-la. Ao som daquelas vozes familiares, eles não tiveram escolha senão remover suas vendas. As crianças não se importavam de serem acusadas de desacato ao tribunal, porque sabiam que se os outros dois juízes fossem quem pensavam que eram, então a Corte Suprema era de fato uma coisa que consideravam desprezível e vergonhosa; sem mais discussão elas desataram os pedaços de pano preto que lhes cobriam os olhos e espiaram.
O que aguardava os Baudelaire era uma espiada chocante e perturbadora. Apertando os olhos por causa da luz súbita, eles espiaram direto em frente, de onde tinham vindo as vozes da juíza Strauss e dos outros juízes. As crianças viram-se espiando o balcão dos concierges, onde estavam empilhadas todas as evidências que a multidão submetera, inclusive matérias de jornal, estudos ambientais, livros escolares, projetos de bancos, registros administrativos, papelada, registros financeiros, livros de regras, constituições, cartazes de parque de diversões, desenhos anatômicos, livros, páginas em branco cravejadas de rubis, um livro alegando o quanto Carmelita Spats era maravilhosa, livros de lugar-comum, fotografias, registros hospitalares, artigos de revistas, telegramas, dísticos, mapas, livros de culinária, retalhos de papel, roteiros de cinema, dicionários de rimas, cartas de amor, resumos de óperas, dicionários analógicos, licenças de casamento, comentários talmúdicos, legados e testamentos, catálogos de leilões, livros de códigos, enciclopédias micológicas, cardápios, tabelas de horários de balsas, programas de teatro, cartões comerciais, memorandos, novelas, biscoitos, provas sortidas que uma certa pessoa não queria categorizar e a mãe de alguém, tudo isso coisas que Dewey Dénouement tinha esperança de catalogar. No entanto, o que faltava no balcão era a juíza Strauss, e quando os Baudelaire deram uma espiada em volta no saguão, viram que outra pessoa também estava faltando, pois não havia ninguém no banco de madeira, apenas algumas marcas circulares deixadas por pessoas que depositavam ali suas taças sem usar descansos para copos. Freneticamente, eles espiaram a multidão vendada que aguardava impaciente a continuação da história, e por fim avistaram o conde Olaf no extremo oposto do salão. A juíza Strauss também estava lá, enfiada na dobra do antebraço de Olaf do modo como você poderia carregar um guarda-chuva se as suas duas mãos estivessem ocupadas. Nenhuma das mãos imundas do conde Olaf estava ocupada – estavam ambas comprometidas com outras tarefas, uma expressão que aqui significa que uma das mãos cobria a boca da juíza Strauss com fita adesiva para que ela só pudesse dizer “humm”, e a outra apertava apressadamente o botão do elevador. O lançador de arpões, com seu último gancho pontiagudo faiscando de um jeito maligno, estava encostado na parede, ao alcance fácil do pérfido vilão.
Tudo isso foi uma espiada chocante e perturbadora, é claro, mas ainda mais chocante e perturbador foi o que as crianças viram quando seu olhar retornou ao balcão dos concierges. Sentados nas duas extremidades, com os cotovelos apoiados na pilha de evidências, havia dois vilões nos quais as crianças esperavam jamais ter de dar uma espiada de novo, vilões de tamanha perversidade que seria chocante e perturbador demais para mim escrever seus nomes. Posso unicamente descrevê-los como o homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba – entretanto, para os órfãos Baudelaire, aqueles dois juízes vilanescos eram mais uma espiada nos perversos caminhos do mundo.

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