sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo onze


“Positivo!”, disse Fiona. “Positivo! Positivo! Positivo! Vamos levar você conosco, Fernald! Positivo!”
Violet e Klaus se entreolharam. Estavam agradecidos, é claro, porque o homem de mãos de gancho estava permitindo que salvassem Sunny do Mycelium Medusoide, mas não podiam deixar de desejar que Fiona não tivesse dito “positivo!”. Convidar o assecla do conde Olaf para juntar-se a eles no Queequeg, mesmo ele sendo o irmão de Fiona há muito sumido, parecia ser uma decisão da qual eles poderiam se arrepender.
“Fico muito feliz”, disse o homem de mãos de gancho, dando aos dois irmãos um sorriso que eles acharam inescrutável, uma palavra que aqui significa “podia ser gentil ou detestável, mas era difícil saber”. “Tenho um montão de ideias sobre aonde podemos ir depois de sair do Carmelita.”
“Bem, eu certamente gostaria de ouvir essas ideias”, disse Fiona. “Positivo!”
“Talvez possamos discutir esse tipo de coisa mais tarde”, disse Violet. “Não acho que esse seja um bom momento para vacilar.”
“Positivo!”, disse Fiona. “Aquela que vacila está perdida!”
“Ou aquele”, lembrou Klaus. “Temos de voltar ao Queequeg imediatamente.”
O homem de mãos de gancho abriu a porta do calabouço e olhou para os lados no corredor. “Isso vai ser arriscado”, disse ele, acenando para as crianças com um de seus ganchos. “O único caminho de volta ao Queequeg é pela sala dos remadores, mas essa sala está cheia de crianças raptadas. Esmé pegou o meu tagliatelle grande e está chicoteando as crianças para elas remarem mais depressa.”
Os Baudelaire mais velhos não se deram ao trabalho de ressaltar que o homem de mãos de gancho já os tinha ameaçado com aquele mesmo macarrão, quando eles trabalhavam no Parque Caligari, junto com alguns outros indivíduos que acabaram se juntando à trupe de Olaf.
“Será que existe um jeito de passar por eles?”, perguntou Violet.
“Veremos”, disse o capanga de Olaf. “Sigam-me.”
O homem de mãos de gancho saiu andando pelo corredor em passos rápidos, com Fiona atrás dele carregando o capacete dentro do qual Sunny continuava tossindo. Violet e Klaus ficaram para trás de propósito, para poder trocar algumas palavras com a micetologista.
“Fiona, você tem certeza de que quer trazê-lo conosco?”, perguntou Klaus, aproximando-se ao máximo para murmurar no ouvido dela. “Ele é um homem muito perigoso e volátil.”
“Ele é meu irmão”, respondeu Fiona em um sussurro veemente, “e eu sou o capitão. Positivo! Sou responsável pelo Queequeg, portanto sou eu quem escolhe a tripulação.”
“Isso nós sabemos”, disse Violet, “mas apenas achamos que você poderia querer reconsiderar.”
“Nunca”, disse Fiona com firmeza. “Sem meu padrasto, Fernald pode ser a única pessoa que restou na minha família. Você me pediria para abandonar o meu próprio irmão?”
Como que em resposta, Sunny tossiu desesperadamente dentro do capacete, e os Baudelaire mais velhos sentiram que Fiona estava certa. “É claro que não”, disse Klaus.
“Parem de resmungar aí atrás!”, ordenou o homem de mãos de gancho enquanto levava as crianças por mais uma volta no corredor. “Estamos nos aproximando da sala dos remadores, e não queremos que ninguém nos ouça.”
As crianças pararam de falar, mas quando o assecla se postou diante da porta da sala dos remadores e ergueu o gancho na direção de um olho pregado à parede, o qual abriria a porta, Violet e Klaus puderam ouvir que ali não havia razão para ficar em silêncio. Mesmo através do grosso metal da entrada da sala, podia-se ouvir a voz alta e estridente de Carmelita Spats.
“Para a minha terceira contradança”, ela dizia, “vou rodopiar, e rodopiar, e rodopiar, enquanto todos vocês batem palmas o mais forte que puderem. É uma dança de celebração, em homenagem à mais adorável princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada do mundo!”
“Por favor, Carmelita”, implorou a voz de uma criança. “Estamos remando há horas. Nossas mãos estão feridas demais para bater palmas.”
Ouviu-se um ruído suave, molhado, como se alguém tivesse deixado cair um pano encharcado no chão, e os Baudelaire mais velhos perceberam que Esmé estava chicoteando as crianças com seu enorme macarrão. “Vocês vão participar do recital de Carmelita”, anunciou a pérfida namorada, “ou então vão sentir o ferrão do meu tagliatelle grande! Ho ho hupa upa pá!”
“Na verdade não éum ferrão”, disse uma criança corajosa. “Parece mais uma palmada leve.”
“Cale a boca, seu bisbórria!”, ordenou Carmelita, e as crianças ouviram o ruge-ruge do tutu cor-de-rosa quando ela começou a rodopiar. “Comecem a aplaudir!”, guinchou ela, e então as crianças ouviram um som que nunca tinham ouvido antes.
Não há propriamente perversidade no ato de cantar com uma medonha voz ululante, pelo menos não mais do que em ter uma postura medonha, primos medonhos ou calças medonhas. Muitas pessoas nobres e agradáveis têm diversas dessas coisas, e existem até um ou dois indivíduos gentis que têm todas elas. Mas se você tem alguma coisa medonha e quer impô-la à força para outra pessoa, então você realmente cometeu uma perversidade muito grande. Se você impõe sua postura medonha a alguém, por exemplo se inclinando tão para trás que a pessoa é obrigada a escorá-lo, então você arruinou perversamente o passeio de fim de tarde dessa pessoa, e se você impõe seus primos medonhos a alguém, largando-os na casa dessa pessoa para escapar de suas presenças medonhas e passar algum tempo sozinho, então você arruinou perversamente o dia inteiro dela, e somente uma pessoa muito perversa imporia um par de calças medonhas às pernas e ao tronco de outra pessoa. Mas impor uma medonha voz ululante a alguém, ou mesmo sobre uma multidão de pessoas, é um dos crimes mais perversos do mundo, e naquele momento Carmelita Spats abriu a boca e afligiu toda a tripulação do Carmelita com sua perversidade. A voz ululante de Carmelita era alta como uma sirene, estridente como um rangido de porta, e extremamente desafinada, como se as notas da escala musical estivessem todas se acotovelando, tentando soar ao mesmo tempo. Sua voz ululante era gosmenta, como se alguém tivesse entupido sua boca de purê de batata antes de ela cantar, e cheia de vibrato, que é um termo italiano para uma voz que tremelica ao cantar, como se alguém estivesse sacudindo Carmelita muito vigorosamente quando ela começou a cantar. Até mesmo a mais medonha das vozes pode ser tolerada se estiver cantando uma boa canção, mas lamento dizer que Carmelita Spats compusera aquela canção ela mesma, e era tão medonha quanto a sua voz ululante. Violet e Klaus lembraram-se da Escola Preparatória Prufrock, onde conheceram Carmelita. O vice-diretor da escola, um homem tedioso chamado Nero, forçava seus alunos a ouvirem-no tocar violino durante horas, e perceberam que aquele administrador devia ter exercido uma poderosa influência sobre a criatividade de Carmelita.
C é de ‘coisinha fofa”, cantou Carmelita, “A é de adorável’!

R é de ‘resplandecente’!
M é de ‘belíssima’!
E é de ‘excelente’!
L é de ‘lindinhd!
I é de ‘impossível outra melhor’!
T é de ‘talentosa’! e
A é de ‘A princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada’!
E agora, até o fim, vamos de novo cantar essa estupenda canção!”

A canção era tão irritante, tão mal cantada, que Violet e Klaus quase pensaram que se tratava de uma tortura, especialmente quando Carmelita começou a repeti-la sem parar.
“Não posso aguentar a voz dela”, disse Violet. “Isso me lembra o crocitar dos corvos de C.S.C.”
“Não posso aguentar a letra”, disse Klaus. “Alguém precisa dizer a ela que ‘belíssima’ não começa com M.”
“Não posso aguentar a fedelha”, disse amargamente o homem de mãos de gancho. “Ela é uma das razões por que eu gostaria de ir embora. E esse parece um bom momento para tentar escapulir. Existe uma porção de pilares para nos escondermos, e se andarmos bem em volta dos limites, onde cada remo atravessa a parede para dentro dos tentáculos do polvo, deveremos chegar até a outra porta – isto é, se todos estiverem assistindo ao recital da princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada.”
“Parece um plano muito arriscado”, disse Violet.
“Não é hora para ser covarde”, rosnou o homem de mãos de gancho.
“Minha irmã não é covarde”, disse Klaus. “Ela está apenas sendo cautelosa.”
“Não é hora de ser cauteloso!”, disse Fiona. “Positivo! Aquela que vacila está perdida! Vamos embora!”
Sem mais palavra, o homem de mãos de gancho cutucou o olho na parede, e a porta se abriu, revelando uma sala enorme. Como previra o capanga de Olaf, as crianças remadoras estavam todas olhando para Carmelita, que cabriolava e cantava em um lado da sala, enquanto Esmé assistia com um sorriso orgulhoso na cara e um grande macarrão em um dos tentáculos. Logo atrás do homem de mãos de gancho e de Fiona, os três Baudelaire – Sunny ainda dentro do capacete de mergulho, é claro – avançaram cautelosamente pelo lado de fora da sala, enquanto Carmelita rodopiava cantando a sua absurda canção. Quando Carmelita anunciou o que era C, as crianças se esquivaram para trás de um dos pilares. Quando ela explicou aos seus ouvintes o significado de A e R, as crianças rastejaram para além dos remos em movimento, tomando cuidado para não tropeçar. Quando ela insistiu que “belíssima” começava com M, o assecla do conde Olaf apontou um de seus ganchos para uma porta distante, e quando Carmelita chegou ao E e ao L, as crianças se esquivaram para trás de outro pilar, esperando que a luz pálida das lanternas não as denunciasse. Quando Carmelita anunciou que era “impossível outra melhor” e se gabou de ser talentosa, Esmé Squalor fechou a cara e se voltou, piscando por baixo dos olhos falsos de sua roupa de polvo, e as crianças tiveram de se jogar no chão para que a vilanesca namorada de Olaf não as visse, e quando a princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada achou necessário lembrar ao seu público quem era ela, ou seja, uma princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada, os dois Baudelaire mais velhos viram-se à frente de Fiona e do homem de mãos de gancho, escondendo-se atrás de um pilar que estava a apenas uns poucos metros do seu destino. Eles estavam a ponto de rastejar até a porta quando Carmelita começou a vociferar o último verso de sua canção – sendo “vociferar” uma palavra que aqui significa “cantar com uma voz especialmente estridente e particularmente irritante” – apenas para se interromper bem quando estava prestes a recomeçar a estupenda canção.
“C é de... Bisbórrias!”, berrou ela. “O que vocês estão fazendo aqui?”
Violet e Klaus congelaram, e depois viram, aliviados, que a terrível menininha apontava com desprezo para Fiona e o homem de mãos de gancho, que estavam em pé, meio sem jeito, entre dois remos.
“Como você se atreve, Ganchito?”, disse Esmé, ameaçando-o com seu macarrãozão. “Você está interrompendo o recital de uma menininha indizivelmente gracinha!”
“Sinto muito, vossa Esmesice”, disse o homem de mãos de gancho, dando um passo à frente para se inclinar servilmente perante a perversa namorada. “Eu preferiria perder as duas mãos de novo a interromper a dança de Carmelita.”
“Mas você me interrompeu, seu bisbórria aleijado!”, gritou Carmelita, fazendo beicinho. “Agora vou ter de apresentar o recital de novo, desde o começo!”
“Não!”, gritou uma das crianças remadoras. “Tudo menos isso! É uma tortura!”
“Por falar em tortura”, disse depressa o homem de mãos de gancho, “eu parei só para ver se podia pedir emprestado o seu tagliatelle grande. Ele pode ser útil para obrigar os Baudelaire a revelar onde está o açucareiro.”
Esmé fechou a cara e afagou o macarrão com um tentáculo. “Na verdade, não gosto de emprestar coisas”, disse ela. “Isso em geral leva as pessoas a bagunçar os meus pertences.”
“Por favor, madame”, disse Fiona. “Estamos tão perto de descobrir onde está o açucareiro! Positivo! Só precisamos do seu macarrão emprestado para que possamos voltar ao calabouço.”
“Por que você está ajudando o Ganchito?”, disse Esmé. “Sempre pensei que você era só mais uma órfã boazinha.”
“É claro que não”, disse o homem de mãos de gancho. “Essa é minha irmã, Fiona, e ela está se juntando à tripulação do Carmelita.”
“Fiona não é um nome muito in”, disse Esmé. “Acho que vou chamá-la de Olhos de Triângulo. Você realmente quer se juntar a nós, pequena Olhos de Triângulo?”
“Positivo!”, disse Fiona. “Esses Baudelaire não passam de encrencas!”
“Por que vocês ainda estão falando?”, perguntei Carmelita. “Essa é a hora do meu recital de princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada!”
“Desculpe, meu bem”, disse Esmé. “Ganchito e Olhos de Triângulo, peguem esse macarrão e deem o fora!”
O homem de mãos de gancho e sua irmã andaram até o meio da sala e ficaram cara a cara com Esmé e Carmelita, oferecendo uma oportunidade perfeita para os Baudelaire mais velhos darem o fora, uma expressão grosseira que aqui significa “escapulir da sala sem ser notados e andar até o corredor sombrio pelo qual Olaf os tinha conduzido há pouco”.
“Você acha que Fiona vai se juntar a nós?”, perguntou Violet.
“Acho que não”, disse Klaus. “Eles disseram a Esmé que iam voltar ao calabouço, portanto terão de voltar pelo caminho que vieram.”
“Você não acha que ela está realmente se juntando à trupe de Olaf, acha?”, disse Violet.
“É claro que não”, disse Klaus. “Aquilo foi só para nos dar uma oportunidade de sair da sala. Fiona pode ser volátil, mas não é assim tão volátil.”
“É claro que não”, disse Violet, ainda que não estivesse tão segura disso.
“É claro que não”, repetiu Klaus, quando mais uma tossida rouca veio de dentro do capacete de mergulho. “Aguente mais um pouco, Sunny”, gritou ele para a irmã. “Você vai ser curada em instantes!” Embora ele tentasse soar confiante, o Baudelaire do meio não tinha como saber se suas palavras eram verdadeiras – apesar de, fico contente de dizer, terem sido.
“Como você vai curar Sunny”, disse Violet, “sem Fiona?”
“Teremos de pesquisar nós mesmos”, disse Klaus com firmeza.
“Nunca vamos conseguir ler toda a biblioteca micetológica dela a tempo de fazer um antídoto”, disse Violet.
“Não temos de ler a biblioteca inteira”, disse Klaus, enquanto eles chegavam à porta do calabouço do Queequeg. “Sei exatamente onde procurar.”
Sunny tossiu de novo, e depois começou a arquejar, uma palavra que aqui significa “produzir um som rouco e assoviante, indicando que sua garganta estava quase fechada”. Os Baudelaire mais velhos mal podiam conter o impulso de abrir o capacete e consolar a irmã, mas não queriam se arriscar e ser envenenados eles mesmos. “Espero que você tenha razão”, disse Violet, apertando o olho metálico na parede. A porta se abriu deslizando e as crianças correram para a vigia quebrada do submarino. “O tempo de Sunny está quase esgotado.”
Contrito, Klaus assentiu e pulou pela vigia para cima da grande mesa de madeira. Embora pouco tempo tivesse se passado desde que as crianças saíram do Queequeg, o salão principal parecia ter sido abandonado há anos. Os três balões amarrados às pernas da mesa estavam começando a murchar, as cartas náuticas que Klaus estivera estudando haviam caído no chão, assim como o círculo de vidro que o conde Olaf cortara da vigia, que ainda jazia ali. Mas o Baudelaire do meio ignorou todos esses objetos e catou no chão o Cogumelos e suas minúcias.
“Esse livro deve conter as informações sobre o antídoto”, e abriu o tomo imediatamente no sumário, enquanto Violet carregava Sunny para dentro do submarino. “Capítulo trinta e seis, ‘A levedura das feras’. Capítulo trinta e sete, ‘Comportamento dos cogumelos Morei em uma sociedade livre’. Capítulo trinta e oito, ‘Mofos fungíveis, fungos mofadores’. Capítulo trinta e nove, ‘Valas fúngicas abertas à visitação’. Capítulo quarenta, ‘A Gruta Gorgônea’.”
“É isso!”, disse Violet. “Capítulo quarenta.”
Klaus folheou as páginas enquanto Sunny arquejava de novo, desesperadamente, mas eu gostaria que o Baudelaire do meio tivesse tido tempo de retornar a algumas das páginas que folheava com pressa. ‘“A Gruta Gorgônea’“, leu ele, “‘localizada na propinquidade da Aquáticos Anwhistle, possui apropriadamente uma denominação sombria que, com raízes na mitologia grega...’“
“Já sabemos tudo isso”, disse Violet. “Pule para a parte sobre o micélio.”
Os olhos de Klaus esquadrinharam a página com facilidade, pois ele já tinha muita prática em pular as partes dos livros que achava menos úteis. “‘O Mycelium Medusoide possui uma estratégia conducente singular de alternar as fases crescente...’“
“‘E minguante’“, interrompeu Violet, enquanto a tosse de Sunny continuava a crescer. “Pule para a parte que fala do veneno.”
“‘Como diz o poeta’“, leu Klaus:

“De um único esporo é tão cruel o poder
Que em menos de uma hora tu podes morrer.
Seria então possível deixá-lo mais ralo?
Sim, basta uma dose de raiz de cavalo!”

“Raiz de cavalo?”, repetiu Violet. “Como é possível um cavalo com raiz?”
“Não sei”, disse Klaus. “Em geral, os antídotos contêm certas extrações botânicas, como o pólen de uma flor ou o caule de uma planta.”
“‘Deixá-lo mais ralo’ seria a mesma coisa que ‘criar um antídoto’?”, perguntou Violet, mas antes que seu irmão pudesse responder, Sunny ofegou de novo, e o capacete de mergulho oscilou para cá e para lá, enquanto ela lutava contra o fungo. Klaus olhou para o volume que tinha nas mãos e então para a irmã, e depois enfiou a mão no bolso à prova d’água de seu uniforme.
“O que você está fazendo?”, perguntou Violet.
“Pegando o meu livro de lugar-comum”, respondeu Klaus. “Eu anotei todas as informações sobre a história da Aquáticos Anwhistle que encontramos na gruta.”
“Não temos tempo para conferir sua pesquisa!”, disse Violet. “Precisamos encontrar um antídoto já! Fiona tem razão: aquele ou aquela que vacila está perdido!”
Klaus sacudiu a cabeça. “Não necessariamente”, disse ele, e virou uma página no seu caderno azul. “Se pararmos um momento para pensar, poderemos salvar nossa irmã. E agora, o que Kit Snicket escreveu naquela carta? Aqui está: ‘O fungo venenoso que você insiste em cultivar na gruta vai trazer severas consequências para todos nós. Nossa fábrica no Mau Caminho pode prover uma certa diluição da capacidade destrutiva do micélio sobre a respiração, deixando-o menos nocivo...’. É isso! C.S.C, estava fazendo alguma coisa em uma fábrica perto do Mau Caminho que podia diluir os efeitos do micélio.”
“Mau Caminho?”, disse Violet. “Esse era o nome da estrada para a casa do tio Monty. Tinha um cheiro horrível, está lembrado? Tinha cheiro de pimenta-preta. Não, pimenta-preta, não...”
Klaus deu uma olhada no seu livro de lugar-comum, e depois no Cogumelos e suas minúcias. “‘Raiz de cavalo”, disse ele baixinho. “A estrada tinha cheiro de raiz de cavalo, também conhecida como ‘raiz-forte’! É esse o antídoto!”
Violet já estava andando firme na direção da cozinha. “Tomara que Phil goste de cozinhar com raiz-forte”, disse ela, e abriu a porta com um empurrão. Klaus pegou o capacete arquejante e acompanhou-a para dentro da minúscula cozinha. Mal havia espaço suficiente para as crianças ficarem em pé no pequeno vão entre o fogão, a geladeira e dois armários de madeira.
“Os armários devem servir de despensa”, disse Klaus, usando uma palavra que aqui significa “lugar onde se espera que os antídotos estejam guardados”. “Se ele tiver ‘raiz de cavalo’ deve estar guardada lá.”
Os Baudelaire mais velhos estremeceram, pois não queriam pensar no que poderia acontecer a Sunny se não encontrassem raiz-forte nas prateleiras. Em momentos, contudo, Violet e Klaus tiveram de levar em consideração exatamente isso. Violet abriu um armário e Klaus abriu outro, mas as crianças viram imediatamente que não havia lá nenhuma raiz-forte. “Chiclete”, disse Violet numa voz fraquinha. “Caixas e mais caixas de chiclete, que Phil trouxe da serraria, e mais nada. Você achou alguma coisa, Klaus?”
Klaus apontou para um par de latinhas em um canto do armário, e ergueu um pequeno saco de papel. “Duas latas de castanhas”, disse ele, “e um saquinho de sementes de gergelim.” Seu punho se fechou apertado sobre o saquinho, e ele piscou para conter as lágrimas atrás dos óculos. “O que vamos fazer?”
Sunny arquejou mais uma vez, soltando um silvo agudo frenético que lembrou os irmãos do som solitário de um trem ao desaparecer dentro de um túnel. “Vamos olhar na geladeira”, disse Violet. “Talvez haja raiz-forte lá dentro.”
Klaus assentiu e abriu a porta do refrigerador da cozinha, que estava quase tão vazio quanto a despensa. Na prateleira de cima havia seis garrafinhas de refrigerante de lima limão, que Phil oferecera às crianças em sua primeira noite a bordo do Queequeg. Na prateleira do meio havia um pequeno pedaço de queijo, branco e mole, enrolado em uma tira de papel-manteiga. E na prateleira de baixo havia um grande prato, sobre o qual havia algo que fez os dois irmãos começarem a chorar.
“Eu tinha esquecido”, disse Violet, com as lágrimas escorrendo pelo rosto.
“Eu também, irmãzinha”, disse Klaus, tirando o prato da geladeira.
Phil usara as últimas provisões – uma palavra que aqui significa “ingredientes para cozinhar” – para fazer um bolo. Parecia um bolo de coco, como o dr. Montgomery costumava fazer, e os dois irmãos se perguntaram se Sunny, mesmo sendo um bebê, aprendera o suficiente sobre cozinha para ajudar Phil a preparar uma sobremesa assim. O bolo era todo glaçado, com pedaços de coco misturados na cobertura espessa e cremosa e, escritas em glacê azul por cima de tudo, na caligrafia jovial e otimista de Phil, havia três palavras.
“‘Violet quinze anos’“, disse Klaus em tom apagado. “Por isso os balões.”
“Eu fiz quinze anos”, disse Violet. “Fiz quinze anos quando estávamos na gruta, e nem me dei conta.”
“Sunny não se esqueceu”, disse Klaus. “Ela disse que estava planejando uma surpresa, está lembrada? íamos voltar de nossa missão na caverna e comemorar o seu aniversário.”
Violet se deixou afundar no chão e pousou a cabeça no capacete de mergulho de Sunny. “O que vamos fazer?”, soluçou ela. “Não podemos perder Sunny. Não podemos!”
“Deve haver alguma coisa que possamos usar”, disse Klaus, “para substituir a raiz-forte. O que poderia ser?”
“Não sei!”, gritou Violet. “Não entendo nada de cozinha!”
“Nem eu!”, exclamou Klaus, quase tão alto quanto a irmã. “Sunny é a única que sabe!”
Os dois Baudelaire se entreolharam em prantos, e depois endureceram, uma palavra que aqui significa “reuniram o máximo de força que podiam”. Então, sem mais palavra, abriram a portinhola do capacete de Sunny e rápido arrastaram a irmã para fora, fechando imediatamente a porta atrás dela para que o fungo não se disseminasse. De início, a irmã pareceu não ter mudado, mas quando a arquejante menininha abriu a boca, eles puderam ver vários talos e píleos cinzentos daquele horroroso cogumelo, salpicados em pontos pretos como se alguém tivesse derramado tinta na boca de Sunny. Ofegando terrivelmente, Sunny estendeu os bracinhos para os dois irmãos e agarrou suas mãos. Ela não precisou pronunciar nem uma só palavra. Violet e Klaus sabiam que ela estava implorando ajuda, mas não havia nada que pudessem fazer, a não ser uma pergunta desesperada.
“Sunny”, disse Violet, “nós pesquisamos um antídoto. Só a ‘raiz de cavalo’, ou raiz-forte, pode salvá-la. Mas nós não temos raiz-forte na cozinha.”
“Sunny”, disse Klaus, “existe algum equivalente culinário de raiz-forte?”
Sunny abriu a boca como se estivesse tentando dizer alguma coisa, mas os Baudelaire mais velhos só ouviram o som rouco e sibilante do ar tentando passar pelos cogumelos. Suas mãozinhas se encurvaram em punhos fechados, e seu corpo se contorceu de um lado para outro em dores e medo. Por fim, ela conseguiu pronunciar uma palavra – uma palavra que muitos poderiam não ter entendido. Alguns poderiam ter pensado que era parte do vocabulário pessoal de Sunny – talvez seu jeito de dizer “eu amo vocês”, ou mesmo “adeus, irmãos”. Alguns poderiam ter pensado que era puro disparate, apenas os ruídos que uma pessoa é capaz de produzir quando um fungo letal a derrotou. Mas existem muitos outros que teriam entendido imediatamente. Uma pessoa do Japão teria entendido que ela estava falando de um condimento muitas vezes servido com peixe cru e gengibre condimentado. Um chefe de cozinha saberia que Sunny estava se referindo a uma raiz verde de sabor pungente, considerada por muitos o equivalente culinário da raiz-forte. E Violet e Klaus sabiam que sua irmã estava lutando pela vida, uma expressão que aqui significa “tentando fazer alguma coisa que salvasse sua vida”, ou “alguma coisa que a salvasse do Mycelium Medusoide”, ou, ainda mais importante, que estava se referindo a “um item que os Baudelaire mais velhos ainda tinham no bolso à prova d’água do uniforme, selado em uma lata que Sunny encontrara em uma caverna subterrânea”.
“Wasabi”, disse Sunny, em um sussurro rouco, abafado pelos cogumelos, e não precisou dizer mais nada.

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