terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo oito


A palavra “desenlace” não é apenas o nome de um hotel ou da família que o administra, especialmente hoje em dia, quando o hotel e todos os seus segredos foram quase esquecidos, e os membros sobreviventes da família mudaram de nome e estão trabalhando em hospedarias menores e menos glamorosas. “Desenlace” é uma palavra usada para descrever o ato de desamarrar um nó, e se refere ao deslindamento de uma história misteriosa e desconcertante, tal como a dos órfãos Baudelaire, ou de qualquer outra pessoa cuja vida esteja cheia de perguntas não respondidas. O desenlace é o momento em que todos os nós de uma história são desfeitos, e todos os fios são desemaranhados, e tudo é exposto claramente para que o mundo veja. Mas o desenlace não deve ser confundido com o fim da história. O desenlace de Branca de Neve, por exemplo, ocorre no momento em que a srta. Branca acorda do seu sono encantado e decide deixar os anões para trás e se casar com o bonito príncipe, e a velha misteriosa que lhe deu uma maçã se revela como a pérfida rainha. Mas o final de Branca de Neve ocorre muitos anos depois, quando um acidente em um passeio a cavalo mergulha a srta. Branca em uma febre da qual ela nunca mais se recupera. O desenlace de Cachinhos Dourados e os três ursos ocorre no momento em que os ursos voltam para casa e encontram Cachinhos Dourados tirando uma pestana em sua propriedade privada; eles ou a enxotam do local, ou a devoram, dependendo de qual versão você tem na sua biblioteca, mas o final de Cachinhos Dourados e os três ursos ocorre quando uma tropa de jovens escoteiros se esquece de apagar a fogueira do acampamento e nem mesmo os esforços de um corpo de bombeiros voluntários conseguem salvar de uma morte certa a maior parte da vida selvagem.
Há algumas histórias em que o desenlace e o final ocorrem simultaneamente, como La forza del destino, em que as personagens se reconhecem e se destroem no decurso de uma única canção, mas usualmente o desenlace de uma história não é o último evento na vida dos heróis, ou o último infortúnio que recai sobre eles. Com frequência é o evento que vem antes do último, ou do penúltimo perigo. Enquanto os órfãos Baudelaire seguiam o homem misterioso para fora do hotel e através da nuvem de vapor até a beira da lagoa refletiva, o desenlace da história deles se aproximava depressa, porém o final ainda aguardava pelos três, como um segredo encoberto pela névoa, ou uma ilha distante no meio de um mar encapelado cujas ondas bramiam contra as praias de uma cidade e as paredes de um hotel desconcertante.
“Vocês devem ter milhares de perguntas a fazer, irmãos Baudelaire”, disse o homem. “E vejam só – bem aqui é o lugar onde elas podem ser respondidas.”
“Quem é você?”, perguntou Violet.
“Sou Dewey Dénouement”,* respondeu Dewey Dénouement. “O terceiro trigêmeo. Nunca ouviram falar de mim?”

*Palavra que aqui significa “desenlace” em francês (N.T.)

“Não”, disse Klaus. “Nós pensamos que só havia Frank e Ernest.”
“Frank e Ernest ficam com toda a atenção”, disse Dewey. “Eles ficam borboleteando pelo hotel, administrando tudo, enquanto eu apenas me escondo nas sombras e dou corda no relógio.” Ele deu um enorme suspiro, e fez uma careta para as profundezas da lagoa. “É disso que eu não gosto em C.S.C.”, disse ele. “Toda essa fumaça e espelhos.”
“Fumaça?”, perguntou Sunny.
“‘Fumaça e espelhos’“, explicou Klaus, “quer dizer ‘truques usados para encobrir a verdade’. Mas o que isso tem a ver com C.S.C.?”
“Antes da cisão”, disse Dewey, “C.S.C. era como uma biblioteca pública. Qualquer um podia se juntar a nós e ter acesso a todas as informações que adquirimos. Voluntários de todo o mundo liam as pesquisas uns dos outros, aprendiam com as observações uns dos outros e pegavam livros emprestados uns dos outros. Por algum tempo, pareceu que poderíamos manter o mundo inteiro a salvo, seguro e em ordem.”
“Deve ter sido uma época maravilhosa”, disse Klaus.
“Eu quase não lembro dela”, disse Dewey. “Tinha quatro anos de idade quando a cisão começou. Mal tinha altura suficiente para alcançar a minha prateleira favorita na biblioteca da família – os livros identificados como 020. Mas uma noite, bem quando nossos pais estavam pendurando balões para a festa do nosso quinto aniversário, meus irmãos e eu fomos levados.”
“Levados para onde?”, perguntou Violet.
“Levados por quem?”, perguntou Sunny.
“Admiro a sua curiosidade”, disse Dewey. “A mulher que me levou disse que uma pessoa pode continuar viva muito além da data usual de desintegração caso não tenha medo de mudar, seja insaciável na curiosidade intelectual, esteja interessada em grandes coisas e fique feliz com pequenas coisas. E ela me levou para um lugar no alto das montanhas, onde, segundo ela, tais coisas seriam encorajadas.”
Klaus abriu seu livro de lugar-comum e começou a fazer anotações furiosamente.
“A sede de operações”, disse Klaus, “no vale das Correntezas que Sopram Constantes.”
“Os seus pais devem ter sentido saudade de vocês”, disse Violet.
“Eles pereceram naquela mesma noite”, disse Dewey, “em um terrível incêndio. Não preciso contar a vocês como me senti mal quando recebi a notícia.”
Os Baudelaire suspiraram e olharam para a lagoa. Aqui e ali, sobre aquela superfície calma, podiam ver o reflexo de algumas luzes nas janelas, mas a maior parte do hotel estava às escuras, portanto a maior parte da lagoa também estava escura. O trigêmeo, é claro, não precisava contar aos Baudelaire qual era a sensação de perder os pais tão de repente, ou em tão tenra idade.
“Não foi sempre assim, irmãos Baudelaire”, disse Dewey. “Antes havia lugares seguros em todo o globo, e assim os órfãos como vocês não tinham de errar de lugar em lugar tentando encontrar pessoas nobres que pudessem prestar auxílio. A cada geração, a cisão fica pior. Se a justiça não prevalecer, logo não restarão mais lugares seguros, e não restará mais ninguém para se lembrar de como o mundo deveria ser.”
“Eu não entendo”, disse Violet. “Por que nós não fomos levados, como você?”
“Vocês foram”, disse Dewey. “Vocês foram levados à custódia do conde Olaf. E ele tentou mantê-los sob sua custódia, não importa quantas pessoas nobres intendessem.”
“Mas por que ninguém nos contou o que estava acontecendo?” perguntou Klaus. “Por que tivemos de decifrar as coisas sozinhos?”
“Receio que sejam esses os caminhos perversos do mundo”, disse Dewey, com um movimento de cabeça. “Tudo está coberto de fumaça e espelhos, jovens Baudelaire. Desde a cisão, todas as pesquisas, todas as observações, e até todos os livros, foram espalhados pelo mundo. É como o elefante do poema de que o seu pai gostava tanto. Todo mundo tem nas mãos um pequenino pedaço da verdade, mas ninguém consegue ver a coisa inteira. Muito em breve, no entanto, tudo isso vai mudar.”
“Quinta-feira”, disse Sunny.
“Exatamente”, disse Dewey, sorrindo para a mais jovem dos Baudelaire. “Finalmente, depois de tanto tempo, todas as pessoas nobres estarão reunidas, com todas as pesquisas que conduziram, todas as observações que fizeram, todas as evidências que coletaram e todos os livros que leram. Assim como o catálogo de uma biblioteca pode dizer onde está localizado um determinado livro, esse catálogo pode dizer qual a localização e o comportamento de cada voluntário e de cada vilão.” Ele fez um gesto para o hotel. “Durante anos”, disse ele, “enquanto as pessoas nobres perambulavam pelo mundo observando traições, minha camarada e eu ficamos bem aqui, reunindo todas as informações. Copiamos cada anotação de cada livro de lugar-comum de cada voluntário, e compilamos tudo em um catálogo. Ocasionalmente, quando voluntários foram perdidos ou lugares seguros foram destruídos, tivemos de ir nós mesmos coletar as informações que foram deixadas para trás. Recuperamos os arquivos de Josephine Anwhistle do Lago Lacrimoso e copiamos cuidadosamente o seu conteúdo. Colamos os fragmentos queimados da biblioteca de arquivos de Madame Lulu e tomamos nota do que encontramos. Revistamos o lar de infância do homem com barba mas sem cabelo, e entrevistamos o professor de matemática da mulher com cabelo mas sem barba. Memorizamos arquivos importantes nas pilhas de jornais em Paltryville e jogamos itens importantes pelas janelas da nossa sede de operações destruída, para que pudessem parar em algum lugar seguro no mar. Pegamos cada crime, cada roubo, cada feito perverso e cada incidente de descortesia desde que começou a cisão, e os catalogamos em toda uma biblioteca de desventuras. Mais cedo ou mais tarde, cada segredo crucial acaba indo parar no meu catálogo. Esta tem sido a obra da minha vida. Não foi uma vida fácil, mas foi uma vida informativa.”
“Você é mais que um voluntário”, disse Violet. “Você é um bibliotecário.”
“Sou mais um sub-sub-bibliotecário”, disse Dewey modestamente. “É assim que os seus pais costumavam me chamar, pois o meu trabalho de bibliotecário foi em grande parte clandestino e subterrâneo. Todos os vilões do mundo gostariam de destruir essas evidências, portanto foi necessário ocultar a obra da minha vida.”
“Mas onde você poderia ocultar algo tão enorme?”, disse Klaus. “Seria como esconder um elefante. Um catálogo assim imenso teria de ser tão grande quanto o próprio hotel.”
“Ele é”, disse Dewey, com uma expressão marota. “De fato, é exatamente tão grande quanto o próprio hotel.”
Violet e Klaus desviaram o olhar de Dewey para se entreolhar confusos, mas Sunny não estava olhando nem para o sub-sub-bibliotecário, nem para os seus irmãos, mas para baixo, para a superfície escura da lagoa. “AHA!”, disse ela, apontando um dedinho enluvado para a água calma e quieta.
“Exatamente”, disse Dewey. “A verdade estava bem debaixo do nariz de todo mundo, caso alguém se desse ao trabalho de olhar além da superfície. Tanto voluntários como vilões sabem que o último lugar seguro é o Hotel Desenlace, mas ninguém jamais questionou por que a placa foi escrita de trás para diante. Eles estão hospedados no “ꓱϽAꓙИꓱꙄꓱꓷ JꓱTOH”, enquanto o verdadeiro último lugar seguro – o catálogo – está escondido em segurança no fundo da lagoa, em recintos subaquáticos organizados como uma imagem de espelho do próprio hotel. Nossos inimigos podem queimar o edifício inteiro até o chão, mas os segredos mais importantes estarão seguros.”
“Mas se a localização do catálogo é um segredo tão importante”, disse Violet, “por que está nos contando?”
“Porque vocês deviam saber”, disse Dewey. “Vocês vagaram pelo mundo observando mais vilanias e reunindo mais evidências do que a maioria das pessoas em uma vida inteira. Tenho certeza de que as observações e evidências que vocês reuniram no seu livro de lugar-comum serão uma contribuição valiosa para o catálogo. Quem melhor que vocês para guardar os segredos mais importantes do mundo?” Ele olhou para a lagoa, e então para os órfãos, um de cada vez. “Depois de quinta-feira”, continuou, “vocês não precisarão mais ser uma nau sem rumo no meio do oceano, irmãos Baudelaire.” As crianças sabiam que com a expressão “nau sem rumo no meio do oceano” ele queria dizer “perdidas e confusas”, e aquelas palavras lhes trouxeram lágrimas aos olhos. “Espero que vocês decidam fazer deste lugar o seu lar permanente. Preciso de alguém com imaginação inventiva que possa aperfeiçoar o projeto aquático do catálogo. Preciso de alguém com o tipo de habilidade para pesquisa que possa expandir o catálogo até transformá-lo no melhor do mundo. E, naturalmente, vamos precisar comer, e já ouvi maravilhas sobre a culinária de Sunny.”
“Efharisto”, disse Sunny modestamente.
“As refeições de Hal são atrozes”, disse Dewey com um sorriso tristonho. “Não sei por que ele insistiu em abrir o seu restaurante na Sala 954, quando há tantas outras adequadas à disposição. Comida ruim, qualquer que seja o estilo, é desagradável; mas comida indiana ruim é possivelmente a pior.”
“Hal é um voluntário?”, perguntou Klaus, lembrando-se do que Sunny observara durante as suas incumbências como concierge.
“Digamos assim”, disse Dewey, usando uma expressão que aqui significa “uma espécie de”. “Depois do incêndio que destruiu o Hospital Heimlich, minha camarada chegou à cena do crime para catalogar qualquer informação que pudesse ter sobrevivido. Ela encontrou Hal em uma condição muito agitada. Sua Biblioteca de Registros estava em ruínas, e ele não tinha onde morar. Ela ofereceu-lhe uma posição no Hotel Desenlace, onde ele poderia ajudar-nos em nossas pesquisas e aprender a cozinhar. Infelizmente ele só é bom em uma dessas coisas.”
“E quanto a Charles?”, perguntou Violet, lembrando-se do que Klaus havia observado durante as suas incumbências.
“Charles andou procurando por vocês desde que deixaram a serraria”, disse Dewey. “Ele se preocupa com vocês, jovens Baudelaire, a despeito do comportamento egoísta e pavoroso do seu sócio. Vocês já viram o seu quinhão de pessoas perversas, jovens Baudelaire, mas também já viram o seu quinhão de pessoas tão nobres quanto vocês.”
“Não estou tão certo assim de que sejamos nobres”, disse Klaus devagarinho, folheando as páginas do seu livro de lugar-comum. “Nós causamos aqueles acidentes na serraria. Somos responsáveis pela destruição do hospital. Ajudamos a provocar o incêndio que destruiu a biblioteca de arquivos de Madame Lulu. Nós...”
“Já basta”, interrompeu Dewey com delicadeza, pondo uma das mãos sobre o ombro de Klaus. “Vocês são suficientemente nobres, irmãos Baudelaire. E isso é tudo o que podemos pedir neste mundo.”
O Baudelaire do meio deixou pender a cabeça, ficando assim encostado no sub-sub-bibliotecário, e suas irmãs se agarraram a ele, e os quatro voluntários se mantiveram em silêncio por um momento, parados no escuro. Lágrimas caíam dos olhos dos órfãos – todos os quatro – e, como acontece com muitas lágrimas derramadas durante a noite, eles não teriam sido capazes de dizer exatamente por que estavam chorando, muito embora eu saiba por que estou chorando enquanto escrevo isto, e não é por causa das cebolas que alguém está cortando no cômodo ao lado, ou por causa do lastimável curry que ele pretende fazer com elas. Estou chorando porque Dewey Dénouement estava errado. Ele não estava errado quando disse que os Baudelaire eram suficientemente nobres, muito embora eu acredite que muitas pessoas poderiam considerar esse ponto discutível, se estivessem sentadas juntas em um quarto com um baralho ou alguma coisa boa para ler. Dewey estava errado quando disse que ser suficientemente nobre é tudo o que podemos pedir neste mundo, pois podemos pedir muito mais do que isso. Podemos pedir uma segunda fatia de bolo, apesar de alguém ter deixado muito claro que não vamos ganhar nenhuma. Podemos pedir um novo estojo de aquarela, apesar de saber que nos dirão que nem chegamos a usar o velho e que todas as tintas secaram, transformando-se em uma coisa farelenta. Podemos pedir peixes lutadores japoneses para nos fazer companhia no nosso quarto, e podemos pedir uma câmera especial que nos permita tirar fotografias até no escuro, por razões óbvias, e podemos pedir mais um torrão de açúcar no nosso café-da-manhã, e um travesseiro extra nas nossas camas à noite. Podemos pedir justiça, e podemos pedir um lenço, e podemos pedir bolinhos, e podemos pedir a todos os soldados do mundo que deponham suas armas e juntem-se a nós em um coro comovedor de “Cry me a river”, se essa por acaso for a sua canção favorita.
Mas também podemos pedir uma coisa que teremos muito mais probabilidade de conseguir, que é encontrar uma ou duas pessoas em algum lugar durante as nossas viagens que nos digam que somos suficientemente nobres, seja isso verdade ou não. Podemos pedir que alguém diga “Você é suficientemente nobre” e nos lembre das nossas boas qualidades quando já as esquecemos, ou as colocamos em dúvida. A maior parte de nós tem pais e amigos que nos dizem essas coisas depois que perdemos um torneio de frescobol ou fracassamos em capturar um notório falsário que descobrimos a bordo de uma certa lancha. Mas os órfãos Baudelaire, é claro, não tinham pais vivos, e seus amigos mais próximos estavam bem alto no céu, em uma casa móvel autossustentável a ar quente, lutando contra águias e um terrível capanga que tinha ganchos no lugar de mãos, portanto travar conhecimento com Dewey Dénouement, e com as palavras confortadoras que ele pronunciou, fora uma bênção. Os Baudelaire estavam ao lado do sub-sub-bibliotecário, gratos por essa bênção, quando o som de um automóvel que se aproximava chamou sua atenção. Eles olharam e constataram que um táxi trazia mais duas bênçãos, e ficaram gratos mais uma vez.
“Baudelaire!”, exclamou uma voz familiar.
“Baudelaire!”, exclamou outra voz.
Através da escuridão, os irmãos olharam para os dois vultos que emergiam do táxi, mal acreditando em seus olhos. Eles estavam usando estranhos óculos feitos de dois grandes cones, presos por um emaranhado de cordão enrolado no topo da cabeça. Tais óculos poderiam ter escondido a identidade daqueles que os usavam, mas os Baudelaire não tiveram problema em reconhecer as pessoas que vinham apressadas em sua direção, muito embora não as vissem há muito, muito tempo, e achassem que nunca mais as veriam.
“Juíza Strauss!”, exclamou Violet.
“Jerome Squalor!”, exclamou Klaus.
“J.S.!”, exclamou Sunny.
“Estou tão feliz por encontrá-los”, disse a juíza, removendo os seus Colimadores Simplificados de Clarificação para poder enxugar os olhos e abraçar as crianças uma por uma. “Estava com medo de nunca ver vocês de novo. Jamais vou me perdoar por ter deixado aquele banqueiro idiota afastá-los de mim.”
“E eu jamais vou me perdoar”, disse Jerome, que tivera a infelicidade de estar casado com Esmé Squalor, “por ter me afastado de vocês, crianças. Receio não ter sido um tutor muito bom.”
“E eu receio não ter sido de fato uma tutora”, disse a juíza Strauss. “Assim que vocês foram levados naquele automóvel, eu soube que tinha feito a coisa errada, e quando ouvi as assustadoras notícias sobre o dr. Montgomery comecei a procurá-los. Finalmente encontrei outras pessoas que também estavam tentando lutar contra os vilões malignos deste mundo, mas sempre tive esperanças de encontrá-los eu mesma, nem que fosse apenas para dizer o quanto estava arrependida.”
“Eu também estou arrependido”, disse Jerome. “Assim que ouvi falar de todos os infortúnios que recaíram sobre vocês na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, dei início à minha própria busca pelos Baudelaire. Voluntários deixavam mensagens para mim por toda parte – pelo menos, eu achava que as mensagens eram dirigidas a mim.”
“E eu achava que eram dirigidas a mim”, disse a juíza Strauss. “Certamente existe uma grande quantidade de pessoas com as iniciais J.S.”
“Eu comecei a me sentir um impostor”, disse Jerome.
“Vocês não são impostores”, disse Dewey. “Vocês são voluntários.” Ele se voltou para os Baudelaire. “Essas duas pessoas nos ajudaram incomensuravelmente”, disse ele, usando uma palavra que aqui significa “de montão”. “A juíza Strauss tinha relatado as minúcias do seu caso aos outros juízes da Corte Suprema. E Jerome Squalor fez uma pesquisa crítica sobre a injustiça.”
“Fui influenciado por minha mulher”, confessou Jerome, removendo os seus Colimadores Simplificados de Clarificação. “Onde quer que eu procurasse por vocês, Baudelaire, encontrava esquemas egoístas para roubar sua fortuna. Devorei livros sobre injustiça em todas as bibliotecas que vocês deixaram para trás e por fim escrevi um livro eu mesmo. A odiosa avidez pelas finanças narra a história de vilões gananciosos, namoradas pérfidas, banqueiros incompetentes, e todas as outras pessoas responsáveis por injustiças.”
“Não importa o que façamos”, disse a juíza Strauss, “não podemos apagar o mal que fizemos a vocês, irmãos Baudelaire.”
“Ela tem razão”, disse Jerome Squalor. “Nós devíamos ter sido tão nobres quanto vocês.”
“Vocês são suficientemente nobres”, disse Violet, e seus irmãos concordaram com a cabeça, enquanto a juíza e o perito em injustiça os abraçavam de novo. Depois que alguém nos desapontou, como a juíza Strauss e Jerome Squalor desapontaram os Baudelaire, muitas vezes fica difícil continuar com as relações, mesmo que o desapontador tenha feito coisas nobres nesse meio-tempo. Alguns dizem que devemos perdoar a todos, até mesmo pessoas que nos desapontaram incomensuravelmente. Outros dizem que não devemos perdoar ninguém, e devemos nos retirar ofendidos, batendo os pés, não importa quantas vezes peçam desculpas. Dessas duas filosofias, a segunda, é claro, é muito mais divertida, mas retirar-se ofendido batendo os pés a cada vez que alguém nos desaponta pode acabar se tornando exaustivo, pois todo mundo desaponta todo mundo ocasionalmente, e não é possível retirar-se ofendido batendo os pés em todos os minutos do dia. Quando os Baudelaire pensaram no mal que cada J.S. lhes tinha feito, foi como se eles tivessem se machucado um bom tempo atrás, um machucado que já tinha quase desaparecido mas que ainda doía quando se tocava nele, e quando tocaram no machucado tiveram vontade de retirar-se ofendidos batendo os pés. Naquela noite, porém – ou, mais apropriadamente, bem cedo naquela manhã de quarta-feira –, os irmãos não queriam retirar-se ofendidos para dentro do hotel, onde tantas pessoas malfazejas estavam reunidas, ou para dentro da lagoa, que provavelmente estava muito fria e pegajosa àquela hora da noite. Eles queriam perdoar aqueles dois adultos, e abraçá-los, a despeito da sua decepção.
“Não que eu queira interromper todos esses abraços”, disse Dewey, “mas temos trabalho a fazer, voluntários. Como um dos primeiros voluntários disse muito tempo atrás, ‘Embora garotos valentões joguem pedras nas rãs de brincadeira, as rãs não morrem de brincadeira, e sim pra valer’.”
“Por falar em rãs”, disse a juíza Strauss, “receio ter de relatar que não conseguimos ver coisa nenhuma do outro lado da lagoa. Esses Colimadores Simplificados de Clarificação funcionam bem durante o dia, mas olhar através de óculos de sol especiais depois do pôr-do-sol torna tudo tão tenebroso quanto um corvo voando em noite escura como breu – o que é precisamente o que estamos procurando.”
“A juíza Strauss tem razão”, disse Jerome tristemente. “Não pudemos conferir a chegada dos corvos, nem se a sua jornada foi interrompida.”
“Não conseguimos ver se um só corvo que seja caiu na armadilha”, disse a juíza, “nem se o açucareiro caiu no respiro.”
“Respiro?”, repetiu Dewey.
“Sim”, disse a juíza Strauss. “Você nos disse que, se os nossos inimigos abatessem os corvos, eles cairiam no papel pega-pássaros.”
“E se os corvos caíram no papel pega-pássaros”, continuou Jerome, “então o açucareiro deve ter caído dentro da lavanderia, certo?
Dewey olhou com um ar matreiro para o respiro fumegante e depois para a superfície da lagoa.
“É o que poderia parecer”, disse ele. “A captura do açucareiro por nossos inimigos seria tão perturbadora quanto a captura do Mycelium Medusoide.”
“Então você já sabe do plano para abater os corvos e capturar o açucareiro?”, disse Violet, incrédula.
“Sim”, disse Dewey. “A juíza Strauss ficou sabendo que o lançador de arpões foi levado para o salão de bronzeamento da cobertura. Jerome notou que havia papel pega-pássaros pendurado do lado de fora da janela da sauna, na Sala 613. E eu mesmo entreguei a fechadura a Sunny, para que ela pudesse trancar a lavanderia, na Sala 025.”
“Você está a par de todas as pessoas vilanescas que estão à espreita no hotel?”, perguntou Klaus, igualmente incrédulo.
“Sim”, disse a juíza Strauss. “Nós observamos manchas circulares em toda a mobília de madeira, deixadas por pessoas que se recusam a usar os descansos para copos. Obviamente há muitos vilões hospedados no hotel.”
“Mycelium?”, perguntou Sunny, talvez com um só toque de incredulidade a mais que os seus irmãos.
“Sim”, disse Jerome. “Ficamos sabendo que Olaf conseguiu adquirir alguns esporos hermeticamente fechados em um capacete de mergulho.”
Os Baudelaire olharam para o livro de lugar-comum nas mãos de Klaus, e depois de volta para o sub-sub-bibliotecário.
“Acho que nossas observações e evidências não são contribuições tão valiosas assim, afinal”, disse Violet. “Todos os mistérios que encontramos no hotel já foram resolvidos.”
“Isso não importa, jovens Baudelaire”, disse Jerome. “Olaf não se atreverá a liberar o Mycelium Medusoide a não ser que ponha as mãos no açucareiro, e ele jamais o encontrará.”
“Eu sou o único que conhece as palavras que irão destrancar a porta de Cerramento Supravernacular Complexo”, disse Dewey, conduzindo as crianças de volta à entrada do hotel, “e não existe uma só pessoa vilanesca sobre a terra que tenha lido o bastante para adivinhá-las antes de quinta-feira. Até lá, todos os voluntários irão apresentar a pesquisa que fizeram sobre o conde Olaf e seus associados à promotoria, e toda a perfídia finalmente acabará.”
“Jerome Squalor será uma testemunha importante”, disse a juíza Strauss. “Sua história abrangente da injustiça ajudará a Corte Suprema a chegar a um veredicto.”
“Promotoria?”, perguntou Violet.
“Testemunha?”, perguntou Klaus.
“Veredicto?”, disse Sunny.
Os três adultos sorriram um para o outro, e depois para os Baudelaire.
“É o que estávamos tentando contar a vocês”, disse Dewey gentilmente. “C.S.C. pesquisou todo um catálogo das perfídias de Olaf. Na quinta-feira, a juíza Strauss e os outros juízes da Corte Suprema ouvirão todos e cada um dos nossos voluntários. O conde Olaf, Esmé Squalor e todas as outras pessoas vilanescas aqui reunidas serão finalmente levados à justiça.”
“Vocês nunca mais terão de se esconder de Olaf”, disse Jerome, “nem de se preocupar com a possibilidade de alguém roubar a sua fortuna.”
“Só temos de aguardar até amanhã, jovens Baudelaire”, disse a juíza Strauss, “e os seus problemas afinal acabarão.”
“É como a minha camarada sempre diz”, completou Dewey. “O bem temporariamente derrotado é mais forte que o mal triunfante.”
Nadabom! A batida do relógio anunciou que era uma hora da manhã e, sem mais palavra, Dewey tomou a mão de Violet, a juíza Strauss tomou a de Klaus, e Jerome Squalor inclinou-se e tomou a mão de Sunny, e os três adultos acompanharam os três órfãos escada acima rumo à entrada do hotel, passando pelo táxi que ainda estava lá parado, o motor ronronando, a figura do motorista apenas uma sombra na janela. Os três adultos sorriram para as crianças, e as crianças sorriram de volta, mas é claro que os Baudelaire não tinham nascido ontem, uma expressão que significa que “não eram jovens e inocentes o bastante para acreditar em coisas que certas pessoas dizem a respeito do mundo”. Se os Baudelaire tivessem nascido ontem, talvez fossem inocentes o bastante para acreditar que todos os seus problemas estavam realmente prestes a acabar, que o conde Olaf e todos os seus pérfidos associados iriam ser julgados pela Corte Suprema e condenados à punição apropriada pelos seus feitos ignóbeis, e que as crianças iriam passar o resto dos seus dias trabalhando com Dewey Dénouement em seu enorme catálogo subaquático, se apenas aguardassem até amanhã. Mas os três irmãos não tinham nascido ontem. Violet tinha nascido mais de quinze anos antes daquela quarta-feira em particular, e Klaus tinha nascido aproximadamente dois anos depois dela, e até Sunny, recém-saída da primeira infância, não tinha nascido ontem. E nem você, a não ser, é claro, que eu esteja errado, e neste caso seja bem-vindo ao mundo, bebezinho, e parabéns por ter aprendido a ler tão cedo na vida. Mas se você não nasceu ontem, e se você leu alguma coisa sobre a vida das crianças Baudelaire, então não pode se surpreender com o fato de que esse momento feliz foi quase imediatamente interrompido pelo aparecimento de uma pessoa extremamente indesejável, na hora em que as crianças, através da névoa de vapor proveniente do respiro da lavanderia, cruzavam a entrada do Hotel Desenlace e enquanto o único Nadabom! desaparecia no nada. Essa pessoa estava em pé no meio do saguão, seu corpo alto e magro curvado em uma pose teatral como se estivesse esperando os aplausos de uma multidão, e você não se surpreenderia com a tatuagem em seu tornozelo, vista pelas crianças através de um buraco na meia, mesmo à luz pálida do recinto. Você provavelmente não nasceu ontem, portanto não se surpreenderia ao descobrir que esse notório vilão reaparecia na vida dos Baudelaire pela penúltima vez, e os Baudelaire também não nasceram ontem, portanto também não se surpreenderam. Eles não nasceram ontem, mas quando o conde Olaf se voltou para encará-los, e olhou para eles com os seus olhos muito, muito brilhantes, os órfãos Baudelaire desejaram não ter nascido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário