sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo nove


A expressão “no escuro”, como eu tenho certeza de que você sabe, pode se referir não apenas aos arredores sombrios, mas também aos segredos sombrios dos quais uma pessoa pode não estar consciente. Se você está tomando banho de sol em um parque, por exemplo, mas não sabe que um armário trancado está enterrado quinze metros abaixo de sua esteira, então você está no escuro, mesmo que, não esteja realmente no escuro; ao passo que, se você está fazendo uma caminhada à meia-noite, sabendo muito bem que uma porção de bailarinas vem vindo logo atrás, então você não está no escuro, mesmo que esteja de fato no escuro. É claro que é perfeitamente possível estar no escuro no escuro, bem como estar não no escuro não no escuro, mas há tantos segredos no mundo que é provável que você esteja sempre no escuro em relação a uma coisa ou outra, esteja você no escuro no escuro ou não no escuro não no escuro, muito embora o sol possa se pôr tão depressa que você pode ficar no escuro quanto a estar no escuro no escuro, somente para olhar em volta e descobrir que não está mais no escuro quanto a estar no escuro no escuro, como no escuro no escuro não obstante, não só por causa do escuro, mas por causa das bailarinas no escuro, que não estão no escuro quanto ao escuro, mas também não estão no escuro quanto ao armário trancado, e você pode estar no escuro quanto às bailarinas estarem desenterrando o armário trancado no escuro, apesar de não estar mais no escuro quanto a estar no escuro, portanto pode cair no buraco que as bailarinas cavaram, que é escuro, no escuro, e obscuro.
Os órfãos Baudelaire, é claro, já tinham estado no escuro muitas vezes antes de seguir caminho no escuro por cima da escarpa até o outro lado da ilha, onde o arboreto guardava os seus muitos, muitos segredos. Havia o escuro da casa tenebrosa do conde Olaf, e o escuro do cinema, onde o tio Monty os levara para ver um filme maravilhoso chamado Zumbis na neve. Havia as nuvens escuras do Furacão Hermano quando ele atravessou rugindo o Lago Lacrimoso, e o escuro da Floresta Finita quando um trem levou as crianças para trabalhar na Serraria Alto-Astral. Havia as noites escuras que os irmãos passaram na Escola Preparatória Prufrock, participando da Disciplina para Órfãos Rápidos, e as escaladas escuras no poço do elevador da Avenida Sombria 667. Havia a cela escura na prisão onde eles passaram algum tempo quando viviam na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, e o porta-malas escuro do carro do conde Olaf, que os transportou do Hospital Heimlich para o sertão, onde as barracas escuras do Parque Caligari os aguardavam. Havia o buraco escuro da armadilha que os órfãos construíram no alto das Montanhas de Mão-Morta, e a escotilha escura por onde desceram para entrar a bordo do Queequeg, e o saguão escuro do Hotel Desenlace, onde eles pensaram que seus dias poderiam terminar. Havia os olhos escuros do conde Olaf e de seus associados, e os cadernos escuros dos trigêmeos Quagmire, e todas as passagens escuras que as crianças descobriram, que levavam à mansão Baudelaire, para fora da Biblioteca de Registros, subindo para a Sede de Operações de C.S.C. descendo para as escuras, escuras profundezas do mar, e todas as passagens escuras que elas não descobriram, por onde outras pessoas viajavam em missões igualmente desesperadas. Porém, mais que tudo, os órfãos Baudelaire estiveram no escuro em relação à sua própria triste história. Eles não entendiam como o conde Olaf entrara em suas vidas, nem como conseguira permanecer lá, engendrando esquema após esquema sem que ninguém o detivesse. Eles não entendiam C.S.C. nem mesmo depois de terem se juntado à organização, nem como a organização, com todos os seus códigos, missões e voluntários, fracassara em derrotar as pessoas más que pareciam triunfar seguidamente, deixando cada lugar seguro em ruínas. E tampouco entendiam como puderam perder seus pais e seu lar em um incêndio, ou como essa enorme injustiça, esse mau começo de sua triste história, fora seguida por outra injustiça, e outra, e outra. Os órfãos Baudelaire não entendiam como a injustiça e a perfídia podiam prosperar, mesmo assim tão longe de casa, em uma ilha no meio de um vasto mar, nem como a felicidade e a inocência – a felicidade e a inocência daquele dia na Praia de Sal, antes de o sr. Poe lhes trazer as pavorosas notícias – podiam estar sempre tão fora de alcance. Os Baudelaire estavam no escuro com relação aos mistérios de suas próprias vidas, e é por isso que foi um choque tão profundo pensar, afinal, que eles poderiam ser resolvidos. Os órfãos Baudelaire piscaram com a luz do sol nascente e olharam para a vastidão do arboreto, e se perguntaram se poderiam não estar mais no escuro. “Biblioteca” é mais uma palavra que pode significar duas coisas diferentes, o que quer dizer que, mesmo em uma biblioteca, você pode não estar a salvo da confusão e do mistério do mundo. O uso mais comum da palavra “biblioteca”, é claro, refere-se a uma coleção de livros e documentos, tais como as bibliotecas que os Baudelaire encontraram durante as suas viagens e desventuras, desde a biblioteca legal da juíza Strauss até o Hotel Desenlace, que era em si uma enorme biblioteca – com, revelou-se, outra biblioteca escondida por perto. Mas a palavra “biblioteca” também pode se referir a uma massa de conhecimento, ou a uma fonte de aprendizado, assim como Klaus Baudelaire é uma espécie de biblioteca com a massa de conhecimento armazenada em seu cérebro, ou Kit Snicket, que foi uma fonte de aprendizado para os Baudelaire quando lhes contou sobre C.S.C. e suas nobres missões. Assim, quando escrevo que os órfãos Baudelaire se encontravam na maior biblioteca que já tinham visto, é esta a definição da palavra que estou usando, porque o arboreto era uma enorme massa de conhecimento, e uma fonte de aprendizado, mesmo sem um pedaço sequer de papel visível. Os itens que tinham sido arrastados para as praias da ilha no decorrer dos anos podiam responder a qualquer pergunta que os Baudelaire tivessem, e a mais milhares de outras perguntas nas quais jamais pensaram. Estendendo-se tão longe quanto os olhos podiam ver, havia pilhas de objetos, montanhas de itens, torres de evidências, fardos de materiais, aglomerados de detalhes, acúmulos de substâncias, séries de pedaços, exércitos de artigos, constelações de detalhes, galáxias de objetos e universos de coisas – um acúmulo, uma agregação, uma compilação, uma concentração, uma multidão, uma manada, um rebanho e um registro de aparentemente tudo o que existe sobre a Terra. Havia tudo o que o alfabeto podia conter – automóveis e alarmes, bandagens e bolinhas, cabos e chaminés, discos e dominós, eixos e elásticos, filigranas e fogões, garrotes e gamelas, halteres e holofotes, ícones e instrumentos, joias e joelheiras, karts e kanangas, laminados e lampiões, máquinas e magnetos, nutrientes e nitroglicerina, osciloscópios e otomanas, petecas e pilares, queixadas e quepes, rabecas e rodas-d’água, serrotes e samburás, tapetes e turbantes, urnas e uqueleles, valetes e violoncelos, walkie-talkies e water closets, xilogravuras e xilofones, yin e yang, zarabatanas e zabras – palavra que aqui significa “pequenas embarcações normalmente usadas nas costas da Espanha e de Portugal” –, bem como tudo o que podia conter o alfabeto, de uma caixa de papelão perfeita para guardar vinte e seis cubos de madeira a um quadro-negro perfeito para escrever vinte e seis letras. Havia qualquer número de coisas, de uma única motocicleta a incontáveis hashis, e coisas com qualquer número, de placas de licença a calculadoras. Havia objetos de todos os climas, de sapatos de neve a ventiladores de teto; e para qualquer ocasião, de menorás a bolas de futebol; havia coisas que poderiam ser usadas em certas ocasiões e climas, como um conjunto para fondue à prova d’água. Havia regimentos internos e privadas externas, lençóis de cima e roupas de baixo, sobrenomes e submarinos, chapas quentes e cremes frios, berços e ataúdes, irremediavelmente destruídos, um tanto danificados, em estado de ligeiro desarranjo e novos em folha. Havia objetos que os Baudelaire reconheceram, incluindo uma moldura de quadro triangular e uma lâmpada de latão em forma de peixe, havia objetos que os Baudelaire nunca tinham visto antes, incluindo o esqueleto de um elefante e uma máscara verde rebrilhante que poderia ser usada como parte de uma fantasia de libélula, e havia objetos que os Baudelaire não sabiam se já tinham visto antes, como um cavalinho de balanço feito de madeira e um pedaço de borracha, que parecia uma correia de ventilador. Havia itens que pareciam ser parte da história dos Baudelaire, como uma réplica em plástico de um palhaço e um poste telegráfico quebrado, e havia itens que pareciam parte de alguma outra história, como a escultura de um pássaro preto e uma pedra preciosa que brilhava tal qual uma lua indiana; e todos os itens e todas as suas histórias estavam esparramados pela paisagem de tal modo que os órfãos Baudelaire pensaram que, ou o arboreto tinha sido organizado de acordo com princípios tão misteriosos que não podiam ser descobertos, ou não tinha sido organizado coisa nenhuma. Em suma, os órfãos Baudelaire se encontravam na maior biblioteca que já tinham visto, mas não sabiam por onde começar a pesquisa. As crianças ficaram plantadas em silêncio reverenciai, sondaram a interminável paisagem de objetos e histórias, e depois ergueram os olhos para o maior objeto de todos, que se elevava acima do arboreto e o cobria de sombra. Era a macieira, cujo tronco era tão enorme quanto uma mansão e com galhos tão longos quanto uma rua de uma cidade. Ela abrigava a biblioteca das frequentes tempestades e oferecia as suas maçãs amargas, pungentes, a quem ousasse colher uma.
“Estou sem palavras”, disse Sunny em um sussurro abafado.
“Eu também”, concordou Klaus. “Não posso acreditar no que estamos vendo. Os ilhéus nos contaram que mais cedo ou mais tarde tudo acaba dando nestas praias, mas eu nunca imaginei que o arboreto pudesse conter tantas coisas.”
Violet pegou um item caído aos seus pés – uma fita cor-de-rosa com margaridinhas de plástico – e começou a enrolá-la no cabelo. Para aqueles que não a conheciam há muito tempo, o gesto não significaria nada; mas aqueles que estavam familiarizados com ela sabiam que quando a mais velha dos Baudelaire prendia os cabelos com uma fita para mantê-los fora dos olhos, significava que as engrenagens e alavancas do seu cérebro inventivo estavam funcionando a todo vapor.
“Pensem no que eu poderia construir aqui”, disse ela. “Poderia construir talas para os pés de Kit, um barco que nos leve para fora da ilha, um sistema de filtragem para que pudéssemos beber água fresca...” Sua voz emudeceu e ela ficou olhando para os galhos da árvore lá em cima. “Eu poderia inventar qualquer coisa, e todas as coisas.”
Klaus pegou o objeto que estava aos pés dele – uma capa feita de seda escarlate – e o segurou nas mãos.
“Deve haver incontáveis segredos em um lugar como este”, disse ele. “Mesmo sem um livro, eu poderia investigar qualquer coisa, e todas as coisas.”
Sunny olhou em volta.
“Serviço à Ia Russe”, disse ela, o que queria dizer alguma coisa do tipo: “Mesmo com os ingredientes mais simples, eu poderia preparar uma refeição extremamente elaborada”.
“Não sei por onde começar”, disse Violet, passando a mão em uma pilha de madeira branca quebrada que parecia ter sido parte de um gazebo.
“Começamos com armas”, disse Klaus em tom soturno. “É por isso que estamos aqui. Erewhon e Finn estão nos esperando para ajudá-las a se amotinar contra Ishmael.”
A mais velha dos Baudelaire balançou a cabeça.
“Não parece direito”, disse ela. “Não podemos usar um lugar como este para começar uma cisão.”
“Talvez uma cisão seja necessária”, disse Klaus. “Há milhões de itens aqui que poderiam ajudar a colônia, mas graças a Ishmael foram todos abandonados.”
“Ninguém forçou ninguém a abandonar nada”, disse Violet.
“Pressão dos pares”, salientou Sunny.
“Podemos tentar exercer um pouco da nossa própria pressão dos pares”, disse Violet com firmeza. “Já derrotamos pessoas piores que Ishmael com bem menos materiais.”
“Mas nós realmente queremos derrotar Ishmael?”, perguntou Klaus. “Ele fez da ilha um lugar seguro, mesmo sendo um pouco maçante, e manteve o conde Olaf afastado, mesmo sendo um pouco cruel. Seus pés são de barro, mas não tenho certeza se ele é a raiz do problema.”
“Qual é a raiz do problema?”, perguntou Violet.
“Ink”, disse Sunny, no entanto, quando seus irmãos se voltaram para ela com uma expressão zombeteira, viram que a mais jovem dos Baudelaire não respondia à pergunta deles, mas apontava para a Víbora Incrivelmente Mortífera, que estava coleando apressadamente para longe das crianças, com os olhos dardejando para um lado e para o outro, e a língua esticada para farejar o ar.
“Parece que ela sabe aonde está indo”, disse Violet.
“Talvez já tenha estado aqui antes”, disse Klaus.
“Trasdela”, disse Sunny, o que queria dizer: “Vamos seguir o réptil e ver para onde se dirige”. Sem esperar para ver se os irmãos concordavam, ela saiu apressada atrás da serpente, e Violet e Klaus correram apressados atrás dela. O caminho da víbora era tão curvo e sinuoso quanto a própria serpente, e os Baudelaire se viram passando por cima de toda sorte de itens descartados, desde uma caixa de papelão totalmente encharcada pela tempestade e que estava cheia de alguma coisa branca e rendada, até um pano de fundo com um pôr-do-sol pintado, que não faria feio na apresentação de uma ópera. As crianças observaram que o caminho já tinha sido trilhado antes, pois a terra estava coberta de pegadas. A serpente coleava tão depressa que os Baudelaire não conseguiram acompanhá-la, mas podiam seguir seu rastro, que estava polvilhado em volta das bordas com um pó branco. Era barro seco, é claro, e logo eles alcançaram o fim do caminho, no encalço das pegadas de Ishmael, e chegaram à base da macieira bem a tempo de ver a cauda da serpente desaparecer dentro de um vão nas raízes da árvore. Se vocês já estiveram junto à base de uma árvore velha, então sabem que as raízes frequentemente estão perto da superfície da terra e que seus ângulos encurvados podem criar um espaço oco no tronco da árvore. Foi nesse espaço oco que a Víbora Incrivelmente Mortífera desapareceu e, depois de uma pausa mínima, foi nesse espaço que os Baudelaire entraram atrás dela, se perguntando que segredos iriam encontrar na raiz da árvore que abrigava um local tão misterioso. Primeiro Violet, depois Klaus e logo após Sunny desceram através do vão para dentro do lugar secreto. Estava escuro embaixo das raízes da árvore, e por um momento as crianças tentaram se acostumar à penumbra e entender aquele espaço, mas então o Baudelaire do meio se lembrou do farolete e o acendeu, para que ele e as irmãs não estivessem mais no escuro no escuro.
Os órfãos Baudelaire estavam em um lugar muito maior do que teriam imaginado e muito mais bem abastecido. Ao longo de uma parede havia um grande banco de pedra forrado de ferramentas simples e limpas, inclusive diversas lâminas de barbear aparentemente afiadas, um pote de vidro com grude e diversos pincéis de madeira com pontas estreitas e finas. Junto à parede havia uma enorme estante, que estava atulhada de livros de todos os formatos e tamanhos, bem como de documentos sortidos que estavam empilhados, enrolados e grampeados com extremo cuidado. Suas prateleiras se estendiam para além das crianças, ultrapassando o facho do farolete e desaparecendo nas trevas; não havia, portanto, meio de saber o comprimento da estante nem o número de livros e documentos que continha. Do lado oposto à estante de livros estendia-se uma elaborada cozinha, com um enorme fogão barrigudo, várias pias de porcelana e um alto e ronronante refrigerador, bem como uma mesa quadrada de madeira coberta de utensílios que iam de um liquidificador a um conjunto para fondue. Acima da mesa estava pendurado um pandeiro do qual pendiam todos os tipos de utensílios de cozinha e panelas, bem como raminhos de ervas secas, uma variedade de peixes secos inteiros e até umas poucas carnes curadas, tais como salame e prosciutto, um presunto italiano que os órfãos Baudelaire apreciaram certa vez em um piquenique siciliano ao qual a família comparecera. Pregada à parede, havia uma impressionante prateleira de temperos cheia de potes com ervas e garrafas de condimentos, e um armário com portas de vidro através das quais se viam pilhas de pratos, tigelas e canecas. Por fim, no centro desse enorme espaço, havia duas grandes e confortáveis poltronas de leitura, uma com um livro gigantesco em cima do assento, muito mais alto que um atlas e muito mais grosso que um dicionário completo, e a outra simplesmente aguardando alguém se sentar. Por fim, havia um curioso dispositivo feito de latão que parecia um grande tubo com um binóculo na ponta, que subia até penetrar no espesso palio de raízes que formava o teto. Enquanto a Víbora Incrivelmente Mortífera silvava orgulhosamente, como um cão abana a cauda depois de fazer um truque difícil, as três crianças correram os olhos pelo recinto, cada qual se concentrando em sua área de especialidade, uma expressão que aqui significa “a parte do recinto em que cada Baudelaire mais gostaria de passar o seu tempo”.
Violet foi até o dispositivo de latão e espiou através do binóculo.
“Posso ver o oceano”, disse ela, surpresa. “Isto é um enorme periscópio, muito maior que o do Queequeg. Ele deve subir por todo o tronco da árvore e se projetar para fora do galho mais alto.”
“Mas por que alguém iria querer olhar para o oceano daqui?”, perguntou Klaus.
“Dessa altura”, explicou Violet, “podem-se ver quaisquer nuvens de tempestade que estivessem vindo nesta direção. E assim que Ishmael prevê o tempo – não por mágica, mas com equipamento científico”.
“E estas ferramentas são usadas para consertar livros”, disse Klaus. “É claro que livros são arrastados para a ilha. Mais cedo ou mais tarde, tudo acaba sendo. Mas as páginas e a encadernação dos livros são frequentemente danificadas pela tempestade que os trouxe, então Ishmael os conserta e os guarda em prateleiras aqui.” Ele pegou um caderno azul-escuro de cima do banco e o mostrou. “É o meu livro de lugar-comum”, disse. “Ele devia estar atento a que nenhuma das páginas ficasse molhada.”
Sunny pegou um objeto familiar na mesa de madeira – o seu batedor – e o levou ao nariz. “Bolinhos de frutas”, disse ela. “Com canela.”
“Ishmael caminha até o arboreto para controlar as tempestades, ler livros e cozinhar comida condimentada”, disse Violet. “Por que ele finge ser um facilitador ferido que prevê o tempo por mágica, alega que a ilha não tem biblioteca e prefere refeições insossas?”
Klaus foi até as duas poltronas de leitura e ergueu o livro pesado e grosso.
“Talvez isto possa nos contar”, disse ele, e iluminou o livro com o farolete para que suas irmãs pudessem ver o título longo e um tanto prolixo impresso na capa.
“O que quer dizer?”, perguntou Violet. “Esse título pode significar qualquer coisa.”
Klaus notou um fino pedaço de pano preto, enfiado no livro para marcar um ponto em que alguém parou a leitura e abriu naquela página. O marcador era a fita de cabelo de Violet, que a mais velha dos Baudelaire rapidamente agarrou, pois a fita cor-de-rosa com margaridinhas de plástico não era do seu agrado.
“Eu acho que isto é a história da ilha”, disse Klaus, “escrita como se fosse um diário. Veja, aqui está o que diz o registro mais recente: Mais um vulto do passado sombrio foi arrastado para a praia Kit Snicket (vide página 667). Convenci os outros a abandoná-la, e aos Baudelaire, que já balançaram o barco mais que demais, receio. Também consegui que prendessem Olaf em uma gaiola. Nota para mim mesmo: Por que ninguém me chama de Ish?”
“Ishmael afirmou que nunca tinha ouvido falar em Kit Snicket”, disse Violet, “mas aqui escreve que ela é um vulto do passado sombrio.”
“Meia-meia-sete”, disse Sunny, e Klaus balançou a cabeça. Entregando o farolete à sua irmã mais velha, ele começou a virar rapidamente as páginas do livro, folheando a história para trás até chegar à página que Ishmael mencionara.
Inky aprendeu a laçar carneiros”, leu Klaus, “e na noite passada a tempestade trouxe um cartão-postal de Kit Snicket, endereçado a Olívia Caliban. Kit, é claro, é a irmã de...”
A voz do Baudelaire do meio emudeceu, e suas irmãs olharam para ele, curiosas.
“O que há de errado, Klaus?”, perguntou Violet. “Esse registro não parece ser especialmente misterioso.”
“Não é o registro”, disse Klaus, tão baixo que Violet e Sunny mal puderam ouvir. “É a letra.”
“Familiar?”, perguntou Sunny, e todos os três Baudelaire chegaram o mais perto que podiam um do outro. Em silêncio, as crianças se juntaram em volta do facho do farolete, como se ele fosse uma quente fogueira de acampamento em uma noite gélida, e olharam para as páginas do livro estranhamente intitulado. Até mesmo a Víbora Incrivelmente Mortífera rastejou para cima e empoleirou-se nos ombros de Sunny, como se estivesse tão curiosa quanto os órfãos Baudelaire para saber quem escrevera aquelas palavras tanto tempo atrás.
“Sim, irmãos Baudelaire”, disse uma voz do outro lado do recinto. “E a letra da sua mãe.”

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