sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo doze


É uma coisa curiosa, mas quando uma pessoa viaja pelo mundo, enquanto fica cada vez mais velha, parece que é mais fácil se acostumar à felicidade do que ao desespero. Na segunda vez que você toma um ice-cream soda, por exemplo, a sua felicidade em bebericar a deliciosa mistura pode não ser precisamente tão enorme quanto a que sentiu na primeira vez que a tomou; na décima segunda vez a sua felicidade pode ser ainda menos enorme, até que ice-cream sodas começam a oferecer muito pouca felicidade, porque você já se acostumou com o gosto de sorvete e refrigerante misturados. Entretanto, na segunda vez que você acha um percevejo no seu ice-cream soda, o seu desespero é muito maior do que na primeira vez, quando você dispensa o percevejo como um acidente fortuito e não como parte de um esquema do serviçal, uma palavra que aqui significa “empregado da sorveteria que está tentando machucar a sua língua”; na décima segunda vez que você acha um percevejo, o seu desespero é ainda maior, até você não poder mais pronunciar o nome ice-cream soda sem desfazer-se em lágrimas. É quase como se a felicidade fosse um gosto adquirido, como cordial de coco ou ceviche, com o qual você pode ficar acostumado, mas o desespero é algo surpreendente toda vez que você o encontra. Quando o vidro se estilhaçou na tenda, os órfãos Baudelaire estavam em pé olhando para a figura ereta de Ishmael, mas mesmo quando sentiram o Mycelium Medusoide penetrar em seus corpos, cada minúsculo esporo dando a sensação de uma formiga a descer garganta abaixo, eles não conseguiam acreditar que a sua própria história pudesse conter tamanho desespero mais uma vez, ou que uma coisa tão horrível tivesse acontecido.
“O que aconteceu?”, gritou Sexta-Feira. “Ouvi barulho de vidro quebrando!”
“Não importa o vidro quebrando”, disse Erewhon. “Estou sentindo alguma coisa na minha garganta, como se fosse uma sementinha minúscula!”
“Não importa a sua garganta cheia de sementes”, disse Finn. “Estou vendo Ishmael em pé, em cima dos próprios pés!”
O conde Olaf cacarejou da areia branca onde estava caído. Com um gesto dramático, ele arrancou do estômago o arpão, que estava no meio de uma confusão de capacete quebrado e vestido esfarrapado, e o atirou aos pés de barro de Ishmael.
“O som que você ouviu foi o estilhaçar de um capacete de mergulho”, escarneceu ele. “As sementinhas que vocês sentem nas suas gargantas são os esporos do Mycelium Medusoide, e o homem em cima dos próprios pés é aquele que assassinou vocês todos!”
“O Mycelium Medusoide?”, repetiu Ishmael, atônito, enquanto os ilhéus inspiravam fundo de susto outra vez. “Nestas praias? Não pode ser! Passei a vida tentando manter esta ilha segura, protegida para sempre daquele fungo horrendo!”
“Nada é seguro para sempre, e sou grato por isso”, disse o conde Olaf, “e vocês, mais do que qualquer outra pessoa, deviam saber que cedo ou tarde tudo acaba dando nestas praias. A família Baudelaire retornou a esta ilha depois que você os expulsou anos atrás, e eles trouxeram o Mycelium Medusoide com eles.”
Os olhos de Ishmael se arregalaram e ele pulou para fora do trenó, para confrontar os órfãos Baudelaire. Quando seus pés tocaram o chão, o barro rachou e caiu, e as crianças puderam ver que o facilitador tinha um olho tatuado no tornozelo esquerdo, bem como dissera o conde Olaf.
“Vocês trouxeram o Mycelium Medusoide?”, perguntou ele. “Vocês tinham um fungo letal com vocês esse tempo todo e mantiveram isso em segredo?”
“Quem é você para falar em guardar segredos!”, disse Alonso. “Olhe para os seus pés saudáveis, Ishmael! A sua desonestidade é a raiz do problema!”
“A raiz do problema são os amotinados!”, gritou Ariel. “Se eles não tivessem deixado o conde Olaf sair da gaiola, nada disso teria acontecido!”
“Depende de como você encara as coisas”, disse o professor Fletcher. “Em minha opinião, todos nós somos a raiz do problema. Se não tivéssemos posto o conde Olaf na gaiola, ele nunca teria nos ameaçado!”
“Nós somos a raiz do problema porque não conseguimos achar o capacete de mergulho”, disse Ferdinand. “Se o tivéssemos recuperado quando estávamos fazendo a coleta de despojos pós-borrasca, os carneiros poderiam tê-lo arrastado para o arboreto e estaríamos seguros!”
“Omeros é a raiz do problema”, disse o dr. Kurtz apontando para o rapazinho. “Foi ele quem deu o lançador de arpões a Ishmael em vez de jogá-lo no arboreto!”
“O conde Olaf é a raiz do problema!”, gritou Larsen. “Foi ele quem trouxe o fungo para dentro da tenda!”
“Eu não sou a raiz do problema”, rosnou o conde Olaf, e depois parou para tossir com força antes de continuar. “Eu sou o rei da ilha!”
“Não importa se você é rei ou não”, disse Violet. “Você inalou o fungo como todos os outros.”
“Violet está certa”, disse Klaus. “Não temos tempo para ficar aqui discutindo.” Mesmo sem o seu livro de lugar-comum, Klaus sabia de cor um poema sobre o fungo, que foi recitado para ele pela primeira vez por Fiona, pouco antes de ela partir seu coração: “De um único esporo é tão cruel o poder/ Que em menos de uma hora tu podes morrer”, disse ele. “Se não pararmos com a nossa briga e não começarmos a trabalhar juntos, vamos acabar todos mortos.”
A tenda se encheu de ululação, uma palavra que aqui significa “som de ilhéus em pânico”.
“Mortos?”, guinchou madame Nordoff. “Ninguém disse que o fungo era letal! Eu pensei que estávamos simplesmente sendo ameaçados com comida proibida!”
“Eu não fiquei nesta ilha para morrer!”, gritou a srta. Marlow. “Eu podia ter morrido em casa!”
“Ninguém vai morrer”, anunciou Ishmael para a multidão.
“Depende de como você encara as coisas”, disse o rabino Bligh. “Mais cedo ou mais tarde, todos nós vamos morrer.”
“Não se vocês seguirem as minhas sugestões”, insistiu Ishmael. “Agora, em primeiro lugar, sugiro que todos tomem uma bela e longa talagada de suas conchas. O cordial vai expulsar o fungo das suas gargantas.”
“Não, ele não vai!”, gritou Violet. “A água-de-coco fermentada não tem efeito nenhum sobre o Mycelium Medusoide!”
“Pode até ser”, disse Ishmael, “mas pelo menos todos nos sentiremos um pouco mais calmos.”
“Você quer dizer sonolentos e inativos”, corrigiu Klaus. “O cordial é um opiáceo.”
“Não há nada de errado com a cordialidade”, disse Ishmael. “Sugiro que todos passemos alguns minutos discutindo a situação de um modo cordial. Poderemos decidir qual é a raiz do problema e chegar a uma solução despreocupadamente.”
“Parece razoável”, admitiu Calypso.
“TRAHISON DES CLERCS!”, gritou Sunny, o que queria dizer: “Vocês estão esquecendo da ação rápida do veneno do fungo!”.
“Sunny tem razão”, disse Klaus. “Precisamos encontrar uma solução agora, e não ficar sentados conversando sobre beberagens!”
“A solução está no arboreto”, disse Violet, “e no espaço secreto embaixo das raízes da macieira.”
“Espaço secreto?”, disse Sherman. “Que espaço secreto?”
“Há uma biblioteca lá embaixo”, disse Klaus enquanto a multidão murmurava, surpresa, “em que estão catalogados todos os objetos que vieram dar na praia e todas as histórias que esses objetos contam.”
“E cozinha”, acrescentou Sunny. “Talvez raiz-forte.”
“Raiz-forte é o único meio de diluir o veneno”, explicou Violet, e recitou o resto do poema que as crianças tinham ouvido a bordo do Queequeg. “Seria então possível deixá-lo mais ralo?/ Sim, basta uma dose de raiz-de-cavalo!”. Ela olhou em volta para as caras assustadas dos ilhéus. “A cozinha embaixo da macieira pode ter raiz-forte”, disse ela. “Podemos nos salvar, se nos apressarmos.”
“Eles estão mentindo”, disse Ishmael. “Não há nada no arboreto a não ser sucata, e não há nada embaixo da macieira a não ser terra. Os Baudelaire estão tentando enganá-los.”
“Não estamos tentando enganar ninguém”, disse Klaus. “Estamos tentando salvar todo mundo.”
“Os Baudelaire sabiam que o Mycelium Medusoide estava aqui”, salientou Ishmael, “e nunca nos contaram. Vocês não podem confiar neles, mas podem confiar em mim, e eu sugiro novamente que todos nós nos sentemos e tomemos o nosso cordial.”
“Tostão furado”, disse Sunny, o que queria dizer “E em você que não dá para confiar”, mas, em vez de traduzir, seus irmãos deram um passo mais para perto de Ishmael, para poder falar em relativa privacidade.
“Por que você está fazendo isso?”, perguntou Violet. “Se vocês simplesmente ficarem aqui sentados bebendo cordial, estarão condenados.”
“Todos nós inalamos o veneno”, disse Klaus. “Estamos todos no mesmo barco.”
Ishmael ergueu as sobrancelhas e deu às crianças um sorriso implacável.
“Veremos quanto a isso”, disse ele. “Agora saiam da minha tenda.”
“Sebocanelas”, disse Sunny, o que queria dizer “É melhor a gente se apressar”, e seus irmãos balançaram a cabeça em assentimento. Os órfãos Baudelaire deixaram a tenda rapidamente, virando-se para trás para dar uma última olhada nos ilhéus preocupados, no facilitador carrancudo e no conde Olaf, que ainda estava caído na areia, segurando a barriga, como se o arpão, além de destruir o capacete de mergulho, o tivesse ferido.
Violet, Klaus e Sunny não viajaram de volta ao outro lado da ilha de trenó arrastado por carneiros, entretanto, mesmo enquanto se apressavam pela escarpa, sentiam-se como se estivessem a bordo da Pequena-Locomotiva-que-Podia, não só por causa da natureza desesperada da sua missão, como também por causa do veneno que sentiam forçar seu caminho perverso através do organismo dos Baudelaire. Violet e Klaus experimentaram o que a irmãzinha deles tinha passado muito abaixo da superfície do oceano, quando Sunny quase pereceu devido ao veneno mortal do fungo e ganhou um curso de reciclagem, uma expressão que aqui significa “uma nova oportunidade de sentir os talos e píleos do Mycelium Medusoide começando a brotar dentro da sua pequena garganta”. As crianças tiveram de parar várias vezes para tossir, pois o fungo em crescimento dificultava a respiração, e quando por fim estavam embaixo dos galhos da macieira, os órfãos Baudelaire ofegavam pesadamente sob o sol da tarde.
“Não temos muito tempo”, disse Violet entre uma arfada e outra.
“Vamos direto para a cozinha”, disse Klaus, passando através do vão entre as raízes da árvore, que a Víbora Incrivelmente Mortífera lhes tinha mostrado.
“Raiz-forte, tomara”, disse Sunny seguindo o irmão, mas, quando os Baudelaire chegaram à cozinha, uma decepção os aguardava. Violet ligou o interruptor que iluminava o local, e as três crianças correram até a prateleira de temperos e começaram a ler as etiquetas nos potes e frascos uma por uma; porém, à medida que procuravam, suas esperanças se esvaíam. Elas encontraram muitos dos seus temperos favoritos, inclusive sálvia, orégano e páprica, que estavam disponíveis em numerosas variedades, organizadas de acordo com o grau de defumação. Encontraram também alguns de seus temperos menos favoritos, inclusive salsa seca, que mal chega a ter gosto de alguma coisa, e sal com alho, que obriga o sabor de qualquer outra coisa a fugir. Encontraram temperos que associavam com certos pratos, tais como açafrão-da-índia, que seu pai costumava usar para fazer sopa de ervilhas ao curry, e noz-moscada, que sua mãe costumava misturar no pão de gengibre; e encontraram temperos que não associavam com nada, tais como manjerona, que todo mundo tem mas dificilmente usa, e casca de limão em pó, que só devia ser empregada em emergências, tais como quando os limões frescos ficarem extintos. E encontraram temperos usados praticamente em qualquer lugar, como sal e pimenta, e temperos usados em certas regiões, como pimentas chipotle e molho vindaloo, mas em nenhuma das etiquetas estava escrito RAIZ-FORTE; e, quando eles abriram os potes e frascos, nenhum dos pós, folhas e sementes em seu interior cheirava como a fábrica de raiz-forte que outrora ficava no Mau Caminho.
“Não precisa ser raiz-forte”, disse Violet depressa, pondo de lado um pote de estragão, frustrada. “Wasabi foi um substituto adequado quando Sunny foi infectada.”
“Ou Eutrema”, arquejou Sunny.
“Aqui também não há wasabi”, disse Klaus, cheirando um pote de macis e fazendo uma careta. “Talvez esteja escondido em algum lugar.”
“Quem iria esconder raiz-forte?”, perguntou Violet depois de uma tosse prolongada.
“Nossos pais”, disse Sunny.
“Sunny está certa”, disse Klaus. “Se eles sabiam a respeito da Aquáticos Anwhistle, também poderiam saber dos perigos do Mycelium Medusoide. Qualquer raiz-forte que viesse parar na ilha teria sido, sem dúvida, muito valiosa.”
“Não temos tempo para procurar raiz-forte no arboreto inteiro”, disse Violet. Ela enfiou a mão no bolso, roçando os dedos no anel que Ishmael lhe dera, e achou a fita que o facilitador adotara como marcador de livro, a qual usava para amarrar o cabelo para pensar melhor. “Isso seria mais difícil que tentar achar o açucareiro no Hotel Desenlace inteiro.”
À menção do açucareiro, Klaus limpou rapidamente os óculos e começou a folhear o seu livro de lugar-comum, enquanto Sunny pegava o seu batedor e começava a mordê-lo Pensativamente.
“Talvez esteja escondido em um dos outros potes de temperos”, disse o Baudelaire do meio.
“Nós cheiramos todos eles”, disse Violet entre arquejos. “Nenhum tinha cheiro de raiz-forte.”
“Talvez o odor tenha sido disfarçado por outro condimento”, disse Klaus. “Alguma coisa ainda mais pungente do que raiz-forte poderia encobrir o cheiro. Sunny, quais são alguns dos temperos mais pungentes?”
“Cravo”, disse Sunny, e arfou. “Cardamomo, araruta, absinto.”
“Absinto”, disse Klaus, pensativo, e folheou as páginas do seu livro de lugar-comum. “Kit mencionou absinto uma vez”, disse ele, pensando na pobre amiga sozinha na plataforma costeira. “Ela disse que o chá deve ser amargo como absinto e pungente como uma espada de dois gumes. Nos disseram a mesma coisa quando nos serviram chá logo antes do julgamento.”
“Sem absinto aqui”, disse Sunny.
“Ishmael também falou alguma coisa sobre chá amargo”, disse Violet. “Lembram-se? Quando mencionou aquela estudante que estava com medo de ser envenenada.”
“Precisamente como nós estamos”, disse Klaus, sentindo os cogumelos a crescer dentro dele. “Eu gostaria de ter ouvido o fim daquela história.”
“Eu gostaria que tivéssemos ouvido todas as histórias”, disse Violet, a voz soando rouca e áspera por causa do veneno. “Gostaria que os nossos pais tivessem nos contado tudo, em vez de nos proteger contra a perfídia do mundo.”
“Talvez eles tenham”, disse Klaus, a voz tão rouca quanto a da irmã. O Baudelaire do meio foi até as poltronas de leitura no meio do recinto e pegou o Desventuras em Série. “Eles escreveram todos os seus segredos aqui. Se eles esconderam raiz-forte, encontraremos neste livro.”
“Não temos tempo para ler o livro inteiro”, disse Violet, “não mais do que para procurar no arboreto inteiro.”
“Se não conseguirmos”, disse Sunny, a voz carregada de fungos, “pelo menos morreremos juntos, lendo.”
Os órfãos Baudelaire balançaram a cabeça, soturnos, e se abraçaram. Como a maioria das pessoas, as crianças já tinham estado ocasionalmente em uma disposição curiosa e um pouco mórbida, passando alguns momentos a se perguntar sobre as circunstâncias da sua própria morte, muito embora, desde aquele dia infeliz na Praia de Sal em que o sr. Poe os informara pela primeira vez do incêndio terrível, elas tenham passado tanto tempo tentando evitar a própria morte que preferiam não pensar nisso nas horas de folga. A maioria das pessoas não escolhe as suas circunstâncias finais, é claro, e se tivesse sido dada uma escolha aos Baudelaire eles teriam preferido viver até uma idade muito avançada, coisa que, até onde sei, podem estar fazendo. Mas se os três tinham de perecer enquanto ainda eram crianças, então perecer na companhia uma da outra, enquanto liam palavras escritas muito tempo atrás pela mãe e pelo pai, era muito melhor do que muitas outras circunstâncias que poderiam imaginar; e assim os três Baudelaire sentaram-se juntos em uma das poltronas de leitura, preferindo estar perto um do outro a ter mais espaço para sentar, e juntos abriram o enorme livro e viraram as páginas para trás até chegar ao momento na história em que seus pais chegaram à ilha e começaram a fazer anotações. Os registros no livro se alternavam entre a letra do pai Baudelaire e a letra da mãe Baudelaire, e as crianças puderam imaginar seus pais sentados naquelas mesmas poltronas, lendo em voz alta o que tinham escrito e sugerindo coisas para acrescentar ao registro de crimes, desatinos e desventuras da humanidade contidos no Desventuras em Série. Os irmãos teriam gostado de saborear cada palavra que seus pais tinham escrito – a palavra “saborear”, você provavelmente sabe, aqui significa “ler devagar, pois cada frase na escrita de seus pais era como uma dádiva de além-túmulo” –, mas à medida que o veneno do Mycelium Medusoide avançava mais e mais, eles tiveram de ler superficialmente, correndo os olhos por cada página à procura dos termos “raiz-forte” e “‘wasabi’. Como você sabe, se já correu os olhos por um livro, você acaba ficando com uma estranha visão da história, com apenas alguns relances aqui e ali do que está acontecendo, e há autores que inserem frases confusas no meio de um livro só para confundir alguém que possa estar correndo os olhos por ele. Três homens muito baixos estavam carregando um grande pedaço de madeira chata, pintado para parecer uma sala de estar. Enquanto os órfãos Baudelaire procuravam pelo segredo que esperavam encontrar, captaram vislumbres de outros segredos que os pais guardavam; e, quando Violet, Klaus e Sunny reconheciam os nomes de pessoas que os pais Baudelaire conheceram, coisas que eles sussurraram para aquelas pessoas, os códigos escondidos nos sussurros e muitos outros detalhes intrigantes, as crianças desejaram muito ter a oportunidade de reler Desventuras em Série em uma ocasião menos frenética. Naquela tarde, no entanto, elas leram cada vez mais e mais depressa, procurando desesperadamente pelo único segredo que poderia salvá-las enquanto a hora limite começava a passar e o Mycelium Medusoide crescia cada vez mais e mais depressa dentro delas, como se o fungo letal também não tivesse tempo para saborear o seu pérfido caminho. Enquanto mais e mais liam, mais e mais difícil ficava respirar; e quando Klaus finalmente localizou uma das palavras que estava procurando, pensou por um momento que era uma visão, trazida por todos os talos e píleos crescendo dentro dele.
“Raiz-forte!”, disse ele, a voz áspera e ofegante. “Vejam: ‘Ishmael, com o seu tráfico de medo, interrompeu o trabalho na passagem, muito embora tenhamos uma pletora de raiz-forte para o caso de qualquer emergência’.”
Violet começou a falar, mas engasgou com o fungo e tossiu por um bom tempo.
“O que quer dizer ‘tráfico de medo’?”, disse ela por fim.
“Pletora?”, a voz de Sunny era pouco mais que um sussurro abafado por cogumelos.
“Tráfico de medo’ quer dizer ‘pôr medo nas pessoas’“, disse Klaus, cujo vocabulário não fora afetado pelo veneno, “e ‘pletora’ quer dizer ‘mais que suficiente’.” Ele deu uma grande, trêmula arfada, e continuou a ler: “‘Estamos tentando produzir uma hibridização botânica através do dossel tuberoso, a qual deverá levar a segurança à fruição, a despeito dos seus perigos para os nossos associados in útero. Naturalmente, caso sejamos banidos, Beatrice está escondendo uma pequena quantidade em um recipi...”
O Baudelaire do meio interrompeu-se com uma tosse tão violenta que ele deixou cair o livro no chão. Suas irmãs o seguraram firme enquanto o seu corpo se sacudia lutando contra o veneno, e um dedo pálido apontou para o teto.
“‘Dossel tuberoso’“, ele arfou por fim. “Nosso pai quer dizer as raízes acima das nossas cabeças. Uma hibridização botânica é uma planta feita com a combinação de duas outras plantas.” Ele estremeceu, e seus olhos se encheram de lágrimas atrás dos óculos. “Não sei do que ele está falando”, disse por fim.
Violet olhou para as raízes acima das suas cabeças, onde o periscópio desaparecia no emaranhado da árvore. Para seu horror, ela descobriu que sua visão estava ficando embaçada, como se o fungo estivesse crescendo por cima dos seus olhos.
“Ao que parece, eles puseram raiz-forte nas raízes da planta, a fim de deixar todo mundo seguro”, disse ela. “É isso que seria ‘levar a segurança à fruição’, do modo como uma árvore leva a sua safra à fruição.”
“Maçãs!”, gritou Sunny com a voz estrangulada. “Maçãs pungentes! Maçãs amargas!”
“É claro!”, disse Klaus. “A árvore é um híbrido e suas maçãs são amargas porque contêm raiz-forte!”
“Se comermos uma maçã”, disse Violet, “o fungo será diluído.”
“Gentreecinco”, concordou Sunny com um grasnido, e desceu do colo dos irmãos, arquejando desesperadamente enquanto tentava chegar ao vão nas raízes. Klaus tentou segui-la, mas quando ficou em pé o veneno o deixou tão atordoado que ele teve de sentar-se de novo e pôr as mãos na cabeça latejante. Violet tossiu dolorosamente e agarrou o braço do irmão.
“Venha”, disse ela num arquejo frenético.
Klaus sacudiu a cabeça.
“Não estou certo de que vamos conseguir”, disse ele.
Sunny estendeu o braço para o vão nas raízes e então caiu no chão se contorcendo de dor.
“Esticanela?”, perguntou ela, com a voz fraca e desfalecente.
“Não podemos morrer aqui”, disse Violet, a voz tão débil que seus irmãos mal puderam ouvi-la. “Nossos pais salvaram nossas vidas nesta mesma sala, muitos anos atrás, sem sequer saber.”
“Talvez não”, disse Klaus. “Talvez este seja o fim da nossa história.”
“Tumurchap”, disse Sunny, mas antes que alguém pudesse perguntar o que ela queria dizer, as crianças ouviram outro som, fraco e estranho, no espaço secreto embaixo da macieira que resultará da hibridização com raiz-forte feita pelos seus pais muito tempo atrás. O som era sibilante, uma palavra que parece ter a ver com siblings, que é “irmãos” em inglês, mas que na verdade se refere a uma espécie de assobio ou silvo, como o que uma locomotiva produz ao parar ou o que uma plateia pode produzir depois de assistir a uma das peças de Al Funcoot. Os Baudelaire estavam tão desesperados e apavorados que por um momento pensaram que poderia ser o som do Mycelium Medusoide celebrando o seu triunfo venenoso sobre eles, ou talvez apenas o som das suas esperanças se evaporando. Mas a sibilância não era o som da esperança se evaporando nem de um fungo comemorando, e felizmente não era o som de uma locomotiva a vapor nem de uma plateia de teatro desgostosa, pois os Baudelaire não estavam suficientemente fortes para enfrentar essas coisas. O som sibilante veio de um dos poucos habitantes da ilha cuja história continha não um, mas dois naufrágios, e talvez por causa da sua própria triste história, esse habitante era solidário com a triste história dos Baudelaire, muito embora seja difícil dizer quanta solidariedade pode ser sentida por um animal, não importa o quão amigável ele seja. Eu não tenho coragem de fazer muita pesquisa sobre esse assunto, e a história do meu único camarada herpetologista terminou há um bocado de tempo, portanto o que esse réptil estava pensando enquanto deslizava em direção às crianças é um detalhe da história dos Baudelaire que possivelmente jamais será revelado. Mas, mesmo faltando esse detalhe, está inteiramente claro o que aconteceu. A serpente coleou através do vão nas raízes da árvore e, o que quer que seja que estivesse pensando, ficou inteiramente claro – pelo som sibilante que saiu silvando por entre os dentes cerrados do réptil – que a Víbora Incrivelmente Mortífera estava oferecendo aos órfãos Baudelaire uma maçã.

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