terça-feira, 6 de setembro de 2016

Capítulo dois


Os órfãos Baudelaire não sabiam que perigos os aguardavam ao seguir Kit Snicket pelo gramado, mas eles se perguntaram – assim como eu me perguntei, naquela noite fatídica muito tempo atrás, enquanto saía às pressas da ópera antes que uma certa mulher me avistasse – se era a força do destino que estava orientando sua história, ou algo ainda mais misterioso, ainda mais perigoso, e ainda mais desventurado.
Se você segurar este livro na frente de um espelho, verá imediatamente como é desconcertante ler as letras e palavras “ɘͻov ɒɿɒq ɒϯlov ɘb ƨɒbiϯɘlƪɘɿ oɒƨ ɘup”. De fato, o mundo inteiro parece desconcertante visto em um espelho, quase como se “ƨomɘviv ɘup mɘ obnum oɒ lɒuϱi ɘϯnɘmɒϯɒxɘ ,obnum oɿϯuo mu oboϯ ɘƨƨiϯƨixɘ ɒbɒɘϯɒɿq ɘiͻiƪɿɘquƨ ɒƨoɿϯƨul ɒb mɘlɒ, só que de trás para diante. A vida nos deixa suficientemente perplexos mesmo quando não pensamos em outros mundos que nos encaram de dentro do espelho, e é por isso que as pessoas que passam muito tempo se olhando no espelho tendem a ter dificuldade na hora de pensar em alguma coisa diferente “oϯnɘmom oϯɒxɘ ɘlɘupɒn ɒvɒvɿɘƨdo ƨo ɒί ɘup obiͻɘλnoͻƨɘb ɘϯnɘmɒivɘɿq oɒmɿi mu omoͻ ƨiɒϯ ,oɒxɘlƪɘɿ ɒϯnɒϯ ɘb ƨioqɘb mɒɿiɿdoͻƨɘb ɒɿuϯnɘvɿoq ɘup ƨobɘɿϱɘƨ ƨiɒuϯnɘvɘ ƨob”.
Os órfãos Baudelaire, é claro, não tinham passado muito tempo se olhando em espelhos recentemente, pois estavam bastante desassossegados, uma palavra que aqui significa “em circunstâncias desesperadoras e misteriosas provocadas pelo conde Olaf”. Mas, mesmo se tivessem passado todos os seus momentos de vigília olhando o próprio reflexo no espelho, eles não estariam preparados para a desconcertante visão que os aguardava no final do gramado em declive. Quando Violet, Klaus e Sunny por fim alcançaram Kit Snicket, tiveram a sensação de ter entrado no mundo existente do outro lado do espelho, sem nem terem percebido a passagem. Por mais impossível que possa parecer, o gramado depositou as crianças no topo de um edifício – não um daqueles que se erguem em direção ao céu, mas um edifício achatado no chão. Os sapatos dos Baudelaire estavam a centímetros das telhas rebrilhantes do telhado, onde se lia em uma grande placa: HOTEL DESENLACE. Abaixo da placa, mais distante dos órfãos, havia uma fileira de janelas, cujas venezianas eram todas brasonadas com o número 9. A fileira era muito longa e se estendia para a direita e para a esquerda dos Baudelaire, tão longe que não dava para ver o fim. Abaixo dessa fileira de janelas havia outra, com as venezianas brasonadas com o número 8, e depois outra fileira com o 7, e assim por diante, os números cada vez mais distantes dos Baudelaire, até chegar no 0. Projetando-se de uma das janelas da fileira 0 havia um estranho funil, que expelia uma névoa espessa e branca na direção dos irmãos e que encobria uma escadaria que levava a uma ampla passagem curva em arco, identificada como ENTRADA. O edifício fora construído com bizarros tijolos tremeluzentes, e aqui e ali se viam grandes e estranhas flores, e manchas escuras de musgo, tudo espalhado no chão diante das crianças.
Depois de um momento, uma das venezianas se abriu, e num átimo os Baudelaire perceberam por que o Hotel Desenlace parecia tão desconcertante. Eles não estavam olhando para o edifício, e sim para o reflexo dele em uma enorme lagoa; o hotel mesmo ficava do outro lado. Normalmente, é bastante simples distinguir um edifício do reflexo dele em um corpo d’água, mas o sujeito que projetou o Hotel Desenlace, quem quer que tenha sido, acrescentou diversas peculiaridades para confundir os passantes. Para começar, o prédio não se erguia verticalmente, mas se inclinava na direção do solo a um ângulo preciso para que a lagoa refletisse apenas o hotel, sem nada da paisagem e do céu que o envolviam. Além disso, toda a programação visual – que é apenas uma expressão sofisticada para dizer “placas” – era escrita de trás para diante, portanto os números nas janelas só podiam ser lidos corretamente quando vistos na superfície da lagoa, e as palavras no telhado do hotel real diziam ꓱϽAꓙИꓱꙄꓱꓷ JꓱTOH. Por fim, algum jardineiro muito esforçado conseguira cultivar lírios e musgo nos tijolos do hotel – o mesmo tipo de lírios e musgo que crescem na superfície de lagoas.
Os três irmãos baixaram os olhos para a lagoa, depois os ergueram para o hotel, para cima e para baixo várias vezes antes de conseguir recuperar o prumo, uma expressão que aqui significa “parar de ficar olhando para aquela visão desconcertante e dirigir a atenção para Kit Snicket”.
“Aqui, Baudelaire!”, gritou a mulher grávida, e as crianças viram que Kit se sentara sobre um enorme cobertor estendido no gramado. Em cima do cobertor havia pilhas de comida suficientes para alimentar um exército, se naquela manhã um exército tivesse decidido invadir uma lagoa. Havia três pães, cada qual assado em um formato diferente, enfileirados na frente de tigelinhas de manteiga, geleia e algo que parecia ser chocolate derretido. Ao lado dos pães havia uma enorme cesta com todo tipo de pastelaria, de bolinhos a sonhos e bombas de creme, que por sinal eram as favoritas de Klaus. Havia duas assadeiras redondas contendo quiche, que é uma espécie de torta feita com ovos, queijo e legumes, uma grande travessa de peixe defumado e uma bandeja de madeira sobre a qual se equilibrava uma alta pirâmide de frutas. Três jarros de vidro continham três tipos diferentes de suco, havia bules de prata com chá e café e, dispostos em forma de leque, havia talheres de prata para comer aquilo tudo, além de três guardanapos com monogramas, uma palavra que aqui significa “trazendo bordadas as iniciais V.B., K.B., e S.B.”.
“Sentem-se, sentem-se”, disse Kit, mordiscando um doce coberto de açúcar de confeiteiro. “Como eu disse, não temos muito tempo, mas isso não é desculpa para não comer bem. Sirvam-se do que quiserem.”
“De onde veio toda essa comida?”, perguntou Klaus.
“Um dos nossos associados preparou para nós”, disse Kit. “Na nossa organização, o farnel para os piqueniques deve viajar separadamente dos voluntários. É praxe. Se os inimigos capturarem as provisões, pelo menos não vão pôr as garras em nós, e se os capturados formos nós, pelo menos os nossos inimigos não terão piquenique. Isso é algo a lembrar durante os próximos dias, quando vocês participarem daquilo que os nossos inimigos chamam de ‘luta perpétua por espaço e comida’. Por favor, provem a geleia. É deliciosa.”
Os Baudelaire sentiam-se atordoados, como se a cabeça ainda estivesse girando devido ao passeio por entre os arbustos, e Violet enfiou a mão no bolso para procurar uma fita. A conversa era tão atordoante que a mais velha dos Baudelaire queria se concentrar intensamente, como quando arquitetava uma invenção. Amarrar os cabelos ajudava Violet a focalizar sua mente inventiva, mas antes que pudesse encontrar uma fita, Kit sorriu suavemente para ela e ofereceu a sua própria fita. A mulher transtornada e grávida fez um gesto para a mais velha dos Baudelaire se sentar e, com uma expressão gentil nos olhos, amarrou ela mesma os cabelos de Violet.
“Você se parece demais com o seu pai”, Kit suspirou. “Ele franzia a testa do mesmo jeito quando ficava confuso, muito embora jamais tivesse amarrado o cabelo com uma fita para resolver um problema. Por favor, irmãos Baudelaire, comam o brunch, enquanto isso, vou tentar pô-los a par dos nossos apuros atuais. Quando vocês estiverem no segundo bolinho, espero que suas perguntas já estejam respondidas.”
Os Baudelaire sentaram-se, estenderam o guardanapo com monograma no colo e começaram a comer, surpresos ao se dar conta de que estavam tão famintos de brunch quanto curiosos pelas informações. Violet pegou duas fatias de pão escuro de trigo e fez um sanduíche de peixe defumado, decidindo provar a pasta de chocolate depois, se ainda houvesse espaço. Klaus serviu-se de um pouco de quiche e pegou uma bomba de creme. Sunny fuçou na bandeja de frutas até encontrar um grapefruit e começou a descascá-lo com seus dentes inusitadamente afiados. Kit sorriu para as crianças, limpou os lábios com um guardanapo bordado com o monograma K.S. e se pôs a falar.
“O edifício do outro lado da lagoa é o Hotel Desenlace”, falou ela. “Já se hospedaram lá?”
“Não”, disse Violet. “Nossos pais nos levaram uma vez ao Hotel Prelúdio, para passar o fim de semana.”
“É verdade”, disse Klaus. “Eu já tinha quase esquecido.”
“Cenouras de café-da-manhã”, disse Sunny, lembrando-se do fim de semana com um sorriso.
“Bem, o Hotel Prelúdio é um lugar encantador”, disse Kit, “mas o Hotel Desenlace é mais do que isso. Há anos os nossos voluntários se reúnem nele para trocar informações, discutir planos para derrotar os inimigos e devolver os livros que pedimos emprestados uns aos outros. Antes da cisão, havia incontáveis locais que serviam a esses propósitos. Livrarias e bancos, restaurantes e papelarias, cafés e lavanderias, antros de ópio e cúpulas geodésicas – pessoas de nobreza e integridade podiam se reunir praticamente em qualquer lugar.”
“Devem ter sido tempos maravilhosos”, disse Violet.
“É o que me disseram”, disse Kit. “Eu tinha quatro anos de idade quando tudo mudou. Nossa organização se despedaçou, e foi como se o mundo também tivesse se despedaçado; e nossos locais seguros foram destruídos, um por um. Havia um laboratório científico, mas o voluntário que era dono do lugar foi assassinado. Havia uma caverna enorme, mas uma traiçoeira equipe de corretores de imóveis a reclamou para si. E havia uma imensa sede de operações no alto das Montanhas de Mão-Morta, mas...”
“Ela foi destruída”, disse Klaus mansamente. “Estivemos lá pouco tempo depois do incêndio.”
“É claro que estiveram”, disse Kit. “Eu tinha esquecido. Bem, a sede de operações era o penúltimo lugar seguro.”
“Penu quê?”, perguntou Sunny.
“‘Penúltimo’ significa ‘antes do último’“, explicou Kit. “Quando a sede de operações nas montanhas foi destruída, só restou o Hotel Desenlace. Em todos os outros lugares na Terra, a nobreza e a integridade estão desaparecendo depressa.” Ela suspirou e fixou o olhar na superfície calma e plana da lagoa. “Se não tomarmos cuidado, vão desaparecer completamente. Dá para imaginar um mundo em que prevalecem a perversidade e as falcatruas desenfreadas?”
“Sim”, disse Violet baixinho, e seus irmãos concordaram com um sinal de cabeça. Eles sabiam que a palavra “desenfreadas” significava “sem ninguém que as detenha”, e podiam imaginar um mundo assim com grande facilidade, porque estavam vivendo em um. Desde o primeiro encontro com o conde Olaf, a perversidade e as falcatruas do vilão prevaleceram desenfreadas sobre a vida dos Baudelaire, e tinha sido muito difícil para as crianças evitar que elas próprias se tornassem vilãs. De fato, quando consideravam todos os seus atos recentes, tinham dúvidas de não terem perpetrado uns poucos atos de vilania, mesmo tendo razões muito boas para fazer isso.
“Quando estávamos nas montanhas”, disse Klaus, “encontramos uma mensagem que um dos voluntários havia escrito. Dizia que C.S.C. estaria se reunindo no Hotel Desenlace na quinta-feira.”
Kit aquiesceu e estendeu a mão para se servir de um pouco mais de café.
“A mensagem era dirigida a J.S.?”, ela perguntou.
“Sim”, disse Violet. “Presumimos que as iniciais eram de Jacques Snicket.”
“Irmão?”, perguntou Sunny.
Kit baixou o olhar para o seu doce, com uma expressão de tristeza.
“Sim, Jacques era meu irmão. Por causa da cisão, fiquei sem ver nenhum dos meus irmãos por anos, e só recentemente tomei conhecimento do assassinato dele.”
“Conhecemos Jacques muito por alto”, disse Violet, referindo-se ao período em que os Baudelaire ficaram sob a tutela de uma cidade inteira. “Você deve ter ficado chocada com a notícia.”
“Triste”, disse Kit, “mas não chocada. Foram tantas as pessoas boas aniquiladas pelos nossos inimigos.” Ela estendeu as mãos por cima do cobertor e acariciou as mãos dos Baudelaire, primeiro as de um, depois as do outro e por fim as do terceiro. “Eu sei que não preciso contar a vocês como é horrível a sensação de perder um membro da família. Tão horrível que jurei nunca mais sair da cama.”
“O que aconteceu?”, disse Klaus.
Kit sorriu.
“Fiquei com fome”, disse ela, “e quando abri a geladeira encontrei outra mensagem esperando por mim.”
“Colóquio Secreto Criostático”, disse Violet, “o mesmo código da mensagem que encontramos nas montanhas.”
“Sim”, disse Kit. “Vocês três foram localizados por outro voluntário. Sabíamos, é claro, que vocês, crianças, não tiveram nada a ver com a morte do meu irmão, mesmo tendo lido o que aquela repórter ridícula escreveu n’O Pundonor Diário.”
Os Baudelaire se entreolharam. Tinham quase esquecido de Geraldine Julienne, a jornalista que lhes causara tantas atribulações, uma frase que aqui significa “que publicara no jornal que os órfãos Baudelaire haviam assassinado Jacques Snicket, que ela equivocadamente identificou como o conde Olaf”.
Os irmãos precisaram se disfarçar diversas vezes para não ser capturados pelas autoridades.
“Quem nos localizou?”, perguntou Klaus.
“Quigley Quagmire, é claro”, disse ela. “Ele encontrou vocês nas Montanhas de Mão-Morta, e então me contatou quando vocês foram separados dele. Encontrei-me com Quigley em um entreposto abandonado de roupões de banho, onde nos disfarçamos de manequins enquanto pensávamos no que fazer a seguir. Por fim, conseguimos enviar uma mensagem pelo Correio Sub-reptício Cooperativo para o submarino do capitão Andarré.”
“Queequeg”, disse Sunny, designando o veículo subaquático onde recentemente havia passado alguns dias tenebrosos com os irmãos.
“Nosso plano era encontrar vocês na Praia de Sal”, disse Kit, “e prosseguir até o Hotel Desenlace para o encontro de C.S.C.”
“Mas onde está Quigley?”, perguntou Violet.
Kit suspirou e tomou um gole de café.
“Ele estava muito ansioso por vê-los”, disse ela, “mas recebeu notícias dos irmãos dele.”
“Duncan e Isadora!”, exclamou Klaus. “Não os vemos há um bocado de tempo. Eles estão em segurança?”
“Espero que sim”, respondeu Kit. “A mensagem que mandaram estava incompleta, mas parecia que estavam sendo atacados em pleno ar enquanto voavam sobre o oceano. Quigley foi imediatamente ajudá-los com um helicóptero que furtamos de um botânico das vizinhanças. Se tudo der certo, veremos os trigêmeos Quagmire na quinta-feira. Isto é, a não ser que vocês cancelem o encontro.”
“Cancelar?”, admirou-se Violet. “Por que haveríamos de fazer uma coisa dessas?”
“O lugar seguro pode ser inseguro, afinal”, disse Kit tristemente. “Se for esse o caso, vocês, irmãos Baudelaire, precisarão enviar a C.S.C. um sinal de que o encontro de quinta-feira está cancelado.”
“Inseguro por quê?”, perguntou Sunny.
Kit sorriu para a mais jovem dos Baudelaire, abriu a pasta acartonada que os órfãos tinham trazido do táxi e começou a folhear os papéis dentro dela.
“Desculpem por isto estar tão desorganizado”, disse ela. “Não tive tempo de atualizar o meu livro de lugar-comum. Meu irmão costumava dizer que, se ao menos uma pessoa tivesse um pouco mais de tempo para algumas leituras importantes, todos os segredos do mundo se esclareceriam. Eu mal pude olhar para estes mapas, poemas e planos de ação que Charles me mandou, nem pude escolher o papel de parede para o quarto do bebê. Aguardem um momento, irmãos Baudelaire. Eu vou encontrar.”
As crianças se serviram de mais brunch, tentando ser pacientes enquanto Kit vasculhava a pasta, parando de quando em quando para alisar alguns papéis especialmente amarrotados. Por fim ela ergueu um pequenino pedaço de papel, não maior que uma lagarta, enrolado como um pequenino rolo de pergaminho.
“Aqui está”, disse ela. “Um garçom passou furtivamente para mim ontem à noite; isso estava escondido em um biscoito.”
Ela o entregou a Klaus, que desenrolou o papel e apertou os olhos através dos óculos.
“‘J.S. registrou-se’“, leu ele em voz alta, “‘e pediu chá com açúcar. Meu irmão manda lembranças. Sinceramente, Frank.’“
“Em geral as mensagens dentro de biscoitos não passam de superstições absurdas”, disse Kit. “Mas a administração do restaurante mudou recentemente. Vocês podem entender por que essa mensagem me deixou tão transtornada, irmãos Baudelaire. Alguém está se fazendo passar pelo meu irmão e se registrou no hotel logo antes da chegada programada de toda a nossa organização.”
“Conde Olaf”, disse Violet.
“Poderia ser Olaf”, concordou Kit, “mas existe uma grande quantidade de vilões que desejam ardentemente ser impostores. Aqueles dois vilões que estavam nas montanhas, por exemplo.”
“Ou Hugo, Colette, ou Kevin”, disse Klaus, designando três pessoas que as crianças haviam conhecido no Parque Caligari, e que desde então se juntaram à trupe de Olaf e combinaram encontrar-se com ele no hotel.
“Mas esse J.S. não é necessariamente uma pessoa má”, disse Kit. “Uma grande quantidade de pessoas nobres poderia se registrar no Hotel Desenlace e pedir açúcar no chá. Não para adoçá-lo, é claro – o chá deve ser amargo como absinto, costumava dizer meu irmão, e pungente como uma espada de dois gumes –, mas como um sinal. Nossos camaradas e nossos inimigos estão todos atrás da mesma coisa: o Continente Sacarífero Codificado.”
“Açucareiro”, disse Sunny, trocando um olhar consternado com os irmãos. Os Baudelaire sabiam que Kit estava se referindo a um certo açucareiro que era de grande importância para C.S.C. e também para o conde Olaf, que estava desesperado para pôr as mãos nele. As crianças haviam procurado por esse açucareiro do pico mais elevado das Montanhas de Mão-Morta às profundezas subaquáticas da Gruta Gorgônea, mas não o encontraram nem ficaram sabendo por que ele era tão importante.
“Isso mesmo”, disse Kit. “O açucareiro está a caminho do hotel neste exato momento, enquanto estamos aqui conversando, e eu detesto pensar no que aconteceria se os nossos inimigos pusessem as mãos nele. Não sou capaz de imaginar nada pior, exceto talvez se os nossos inimigos, de algum modo, puserem as mãos no Mycelium Medusoide.”
O olhar de consternação dos Baudelaire se intensificou, uma palavra que aqui significa “aumentou dramaticamente quando eles se deram conta de que tinham más notícias para Kit Snicket”.
“Receio que o conde Olaf tenha uma pequena amostra do Mycelium Medusoide”, disse Violet, referindo-se a um fungo letal que as crianças haviam encontrado enquanto exploravam o oceano. Seus esporos sinistros infectaram a pobre Sunny, que poderia não ter sobrevivido caso os irmãos não tivessem conseguido diluir o veneno no último minuto. “Trazíamos alguns esporos hermeticamente fechados dentro de um capacete de mergulho, mas Olaf conseguiu furtá-lo.”
Kit engoliu em seco.
“Então, com toda certeza, não temos tempo a perder. Vocês três precisam se infiltrar no Hotel Desenlace e observar J.S. Se J.S. for uma pessoa nobre, vocês deverão se empenhar para que o açucareiro caia nas mãos dele ou dela, mas se J.S. for uma pessoa vilanesca, vocês deverão se empenhar para que não caia. E lamento dizer que isso não vai ser tão fácil quanto parece.”
“Não parece nem um pouco fácil”, disse Klaus.
“Assim é que se fala”, disse Kit, jogando uma uva para dentro da boca. “É claro que vocês não estarão sozinhos. Chegar cedo é um dos sinais de uma pessoa nobre, portanto há outros voluntários que já estão no hotel. Vocês podem até reconhecer alguns voluntários que os estiveram observando durante as suas viagens. Mas também podem reconhecer alguns dos seus inimigos, pois estarão posando de pessoas nobres e também chegarão cedo. Enquanto vocês tentam observar o impostor, diversos impostores estarão, sem dúvida, observando vocês.”
“Mas como poderemos distinguir os voluntários dos inimigos?”, perguntou Violet.
“Do mesmo jeito que sempre fizeram”, disse Kit. “Quando vocês se encontraram pela primeira vez com o conde Olaf, tiveram alguma dúvida de que ele era uma pessoa traiçoeira? Quando se encontraram pela primeira vez com os trigêmeos Quagmire, tiveram alguma dúvida de que eles eram encantadores e talentosos? Vocês têm de observar todas as pessoas que virem e julgar por si mesmos. Vocês Baudelaire se tornarão flâneurs.”
“Elucide”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa na linha de “Receio não saber o que essa palavra significa”.
Flâneurs’, explicou Kit, “são pessoas que observam discretamente os arredores, intrometendo-se só quando é absolutamente necessário. As crianças são excelentes flâneurs, pois pouca gente presta atenção nelas. Vocês serão capazes de passar despercebidos no hotel.”
“Nós não podemos passar despercebidos”, disse Klaus. “O Pundonor Diário publicou as nossas fotografias. Alguém certamente vai nos reconhecer e comunicar a nossa presença às autoridades.”
“Meu irmão está certo”, disse Violet. “Três crianças não podem simplesmente ficar perambulando por um hotel, observando as coisas.”
Kit sorriu e ergueu um canto do cobertor do piquenique. Embaixo havia três pacotes embrulhados em papel.
“O homem que me enviou a mensagem sobre o impostor”, disse ela, “é um membro de C.S.C. Ele sugeriu empregar vocês três como concierges. Seus uniformes estão nestes pacotes.”
“Elucide novamente”, disse Sunny.
Klaus pegara o seu livro de lugar-comum e estava tomando nota do que Kit dizia. A oportunidade de definir uma palavra, no entanto, foi suficiente para interromper o seu afazer.
Concierge”, disse ele à irmã, “é alguém que desempenha diversas tarefas para os hóspedes de um hotel.”
“É o disfarce perfeito”, disse Kit. “Vocês irão executar os mais diversos serviços, de buscar pacotes a recomendar restaurantes. Terão permissão para entrar em todos os cantos do hotel, do salão de bronzeamento da cobertura à lavanderia no subsolo, e ninguém suspeitará que vocês estão lá para espionar. Frank os ajudará tanto quanto puder, mas tenham muito cuidado. A cisão transformou muitos irmãos em inimigos. Em nenhuma circunstância vocês devem revelar a Ernest, o traiçoeiro gêmeo idêntico de Frank, quem verdadeiramente são.”
“Idêntico?”, repetiu Violet. “Se eles são idênticos, como vamos distinguir um do outro?”
Kit tomou um último gole de café.
“Por favor, tentem prestar atenção”, disse ela. “Vocês têm de observar todas as pessoas que virem e julgar essas coisas por si mesmos. Esse é o único modo de distinguir um vilão de um voluntário. Então, está tudo perfeitamente claro?”
Os Baudelaire se entreolharam. Eles não podiam se lembrar de uma só ocasião de suas vidas em que tudo tivesse estado menos claro do que naquele exato momento, quando cada frase pronunciada por Kit parecia ser mais misteriosa que a última. Klaus olhou para as anotações que tinha feito no seu livro de lugar-comum e tentou resumir a incumbência que Kit delineara para eles.
“Vamos nos disfarçar de concierge?”, disse ele cautelosamente, “para que nos tornemos flâneurs e observemos um impostor que pode ser um voluntário ou um inimigo.”
“Um homem chamado Frank vai nos ajudar”, disse Violet, “mas seu irmão Ernest vai tentar nos deter.”
“Há diversos outros voluntários no hotel”, disse Klaus, “mas diversos outros inimigos também.”
“Açucareiro”, disse Sunny.
“Muito bom”, disse Kit em tom de aprovação. “Quando vocês terminarem o brunch, podem vestir o uniforme atrás daquela árvore e sinalizar a Frank que estão a caminho. Vocês têm alguma coisa que possam jogar na lagoa?”
Violet enfiou a mão no bolso e tirou de lá uma pedra que tinha recolhido na Praia de Sal.
“Imagino que isto sirva”, disse ela.
“É perfeito”, disse Kit. “Frank deve estar observando de uma das janelas do hotel, a não ser, é claro, que Ernest tenha interceptado a minha mensagem e esteja observando no lugar dele. Qualquer que seja o caso, quando estiverem prontos para encontrá-lo, podem jogar a pedra na lagoa, aí ele verá as ondulações e saberá que vocês estão a caminho.”
“Você não vem conosco?”, perguntou Klaus.
“Receio que não”, disse Kit. Tenho outras incumbências pela frente. Enquanto Quigley tenta resolver a situação no céu, tentarei resolver a situação no mar, e vocês terão de resolver a situação aqui em terra.”
“Nós só?”, perguntou Sunny. Ela queria dizer alguma coisa como “Você acha realmente que três crianças podem levar tudo isso a cabo sozinhas?”, e seus irmãos foram ligeiros em traduzir.
“Deem uma olhada em si mesmos”, disse Kit, fazendo um gesto na direção da lagoa. Os Baudelaire se levantaram, se aproximaram da beira da água e se inclinaram sobre a lagoa de modo a fazer aparecer seu reflexo na frente do telhado do hotel. “Quando os seus pais morreram”, disse Kit, “você era apenas uma menininha, Violet. Mas você amadureceu. Esses não são os olhos de uma menininha. Esses são os olhos de alguém que enfrentou um sofrimento sem fim. E olhe para você, Klaus. Tem a aparência de um pesquisador experiente – não apenas o jovem leitor que perdeu os pais num incêndio. E você, Sunny, você está sobre os seus próprios pés, e são tantos os dentes que estão crescendo que já nem parecem ser de um tamanho tão exagerado como quando você era um bebê. Vocês não são mais crianças, irmãos Baudelaire. Vocês são voluntários, prontos para enfrentar os desafios de um mundo desesperado e desconcertante. Vocês precisam ir ao Hotel Desenlace, e Quigley precisa ir à casa móvel autossustentável a ar quente, e eu preciso ir a uma formação de corais de qualidade dúbia onde um bote inflável deverá estar me aguardando. Mas se Quigley conseguir construir uma rede grande o bastante para capturar todas aquelas águias, e eu conseguir contatar o capitão Andarré e fazer com que venha se encontrar comigo em um certo aglomerado de algas, estaremos aqui na quinta-feira. Hector deve conseguir pousar a sua casa móvel autossustentável a ar quente no telhado, mesmo que estejamos todos a bordo.”
“Hector?”, disse Violet, lembrando-se do homem que fora tão gentil com eles na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos e da enorme invenção que o arrastara para longe dos Baudelaire. “Ele está em segurança?”
“Espero que sim”, disse Kit suavemente e levantou-se. Ela desviou o rosto dos Baudelaire, e sua voz soou trêmula ao falar. “Não se preocupem com as sobras do brunch, irmãos Baudelaire. Um dos meus camaradas se ofereceu para recolher tudo depois do nosso piquenique. Ele é um cavalheiro magnífico. Vocês vão conhecê-lo na quinta-feira, se tudo der certo. Se tudo der certo...”
Mas ela não conseguiu terminar a frase. Em vez disso, soltou um pequeno gemido, e seus ombros começaram a sacudir enquanto os Baudelaire se entreolhavam. Quando uma pessoa está chorando, é claro que a coisa mais nobre a fazer é confortá-la. Mas se a pessoa está tentando esconder as lágrimas, talvez também seja nobre fazer de conta que você não percebeu, para que ela não se sinta constrangida. Por um momento, as crianças não souberam como escolher entre a nobre atividade de confortar uma pessoa que está chorando e a nobre atividade de não deixar constrangida uma pessoa que está chorando, mas, quando Kit Snicket se pôs a chorar cada vez mais forte, decidiram confortá-la. Violet apertou uma das mãos dela entre as suas. Klaus passou-lhe um braço em volta do ombro. Sunny abraçou Kit logo acima dos joelhos, que era o mais alto que podia alcançar.
“Por que você está chorando?”, perguntou Violet. “Por que está tão transtornada?”
“Porque não vai dar tudo certo”, disse Kit afinal. “Agora vocês já podem saber, irmãos Baudelaire. Este é um momento tenebroso, tão tenebroso quanto um corvo voando em noite escura como breu. Nossas incumbências podem ser nobres, mas não teremos sucesso. Desconfio que antes de quinta-feira verei o seu sinal e saberei que todas as nossas esperanças se transformaram em fumaça.”
“Mas como vamos sinalizar?”, perguntou Klaus. “Que código devemos usar?”
“Qualquer código que vocês inventarem”, disse Kit. “Estaremos observando o céu.”
Dizendo isso, ela soltou-se dos braços reconfortantes das crianças e afastou-se apressadamente da lagoa, sem mais uma palavra. Violet, Klaus e Sunny ficaram olhando enquanto a figura de Kit diminuía à medida que ela corria gramado acima, talvez voltando para o táxi, ou para juntar-se a algum outro voluntário misterioso, até por fim desaparecer além do declive. Por um momento, nenhuma das crianças disse nada, e então Sunny inclinou-se para baixo e pegou os pacotes.
“Vestir?”, perguntou ela.
“Acho que sim”, disse Violet com um suspiro. “É uma pena desperdiçar toda essa comida, mas não aguento nem mais um pouco de brunch.”
“Talvez o voluntário que vem recolher tudo leve para alguma outra pessoa”, disse Klaus.
“Talvez”, concordou Violet. “Há tanta coisa sobre C.S.C. que continua sendo um mistério.”
“Talvez saibamos mais quando formos flâneur”, disse Klaus. “Se observarmos tudo à nossa volta, talvez alguns desses mistérios se esclareçam. Assim espero.”
“Eu também assim espero”, disse Violet.
“Assim espero também”, disse Sunny, e os Baudelaire não disseram mais nada.
Deixando o brunch de lado, eles se esquivaram para trás da árvore sugerida por Kit e penduraram o cobertor do piquenique como se fosse uma cortina, para que cada uma das crianças pudesse vestir o uniforme de concierge em relativa privacidade. Violet afivelou um lustroso cinto prateado com as palavras HOTEL DESENLACE gravadas em grandes letras pretas em toda a volta, esperando ser capaz de perceber a diferença entre Frank e o seu traiçoeiro irmão Ernest. Klaus ajustou o seu chapéu rígido e redondo, que tinha uma firme alça elástica apertada embaixo do queixo, esperando ser capaz de saber quais entre os hóspedes eram voluntários e quais eram vilões. E Sunny enfiou os dedos nas luvas brancas e limpas, surpresa por Frank ter conseguido encontrá-las em tamanho tão pequeno, esperando ser capaz de investigar o impostor que se passava por Jacques Snicket.
Quando as três crianças acabaram de vestir seus uniformes, caminharam de volta até a beira da lagoa e puseram a última peça do disfarce: três enormes pares de óculos escuros que lembravam um par usado pelo conde Olaf quando ele fingira ser um detetive. Os óculos escuros eram tão grandes que cobriam não só os olhos como também grande parte do rosto – Klaus podia até mesmo usar os seus óculos normais embaixo deles sem que ninguém percebesse. Quando olharam através dos óculos escuros para o próprio reflexo, os órfãos se perguntaram se os disfarces seriam suficientes para mantê-los longe das garras das autoridades por tempo suficiente para resolver todos os mistérios que os cercavam; também se perguntaram se era verdade o que Kit Snicket dissera, que eles não eram mais crianças, e sim voluntários prontos para enfrentar os desafios de um mundo desesperado e desconcertante. Os Baudelaire assim esperavam.
Mas, quando Violet segurou a pedra em sua mão enluvada e atirou-a no meio da lagoa, eles se perguntaram se as suas esperanças iriam afundar do mesmo modo. Ficaram observando as ondulações que se formavam na superfície da lagoa, quebrando o reflexo do hotel. Ficaram observando as telhas da cobertura se transformarem em um borrão, e ficaram observando a palavra “Desenlace” desaparecer como se estivesse escrita em um papel que alguém estava amarrotando com a mão. Os irmãos ficaram observando as fileiras de janelas se fundirem, e ficaram observando todas as flores e musgos se dissolverem no nada enquanto a pedra afundava cada vez mais na lagoa e as ondulações em círculos se espalhavam mais e mais longe através do reflexo. Os órfãos Baudelaire ficaram observando aquele mundo refletido desaparecer, e se perguntaram se as suas esperanças também iriam desaparecer no estranho e ondulante mundo do Hotel Desenlace e “obnuƪ on ɒl mɘzɒί ɘup ƨobɘɿϱɘƨ ɘ ƨoiɿɘϯƨim ƨo ƨoboϯ”.

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