sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo dois


”Bem aqui embaixo!”, disse a voz ecoante quando os órfãos Baudelaire começaram a descer pela escada. “Positivo! Cuidado com a escada! Fechem a escotilha ao passar! Não se apressem! Não... desçam devagar! Tratem de não cair! Olhem onde pisam! Positivo! Não vão tropeçar! Não façam barulho! Não me assustem! Positivo! Não olhem para baixo! Não... olhem aonde estão indo! Não tragam nenhum líquido inflamável a bordo! Cuidado com os pés! Positivo! Não... cuidado com as costas! Não... cuidado com a boca! Não... cuidado com vocês mesmos! Positivo!”
“Positivo?”, sussurrou Sunny para os irmãos.
“‘Positivo’“, Klaus explicou baixinho, “é um outro jeito de dizer ‘sim’.”
“Positivo!”, disse de novo a voz. “Fiquem de olhos abertos! Cuidado embaixo! Cuidado em cima! Cuidado com os espiões! Cuidado um com o outro! Cuidado! Positivo! Tenham muito cuidado! Fiquem muito atentos! Fiquem muito, muito atentos! Descansem um pouco! Não... prossigam! Fiquem acordados! Fiquem calmos! Alegrem-se! Continuem descendo! Não tirem a camisa! Positivo!”
Por desesperada que fosse a situação, os Baudelaire quase não conseguiram conter as risadinhas. A voz bradava tantas instruções, e tão poucas faziam sentido, que teria sido impossível para as crianças segui-las. A voz era bastante alegre e um pouco dispersiva, como se a pessoa que falasse não se importasse realmente se suas instruções estavam sendo seguidas ou não, e provavelmente já as tinha até esquecido. “Segurem o corrimão!”, a voz continuou quando os Baudelaire divisaram uma luz no fim da passagem. “Positivo! Não... segurem uns aos outros! Segurem seus chapéus! Não... segurem suas mãos! Não... segurem as pontas! Esperem um minuto! Esperem um segundo! Parem de esperar! Parem com as guerras! Parem com as injustiças! Parem de me aborrecer! Positivo!”
Sunny tinha sido a primeira a entrar na passagem, portanto foi a primeira a chegar ao fundo e abaixar-se cautelosamente para dentro de uma pequena sala mal iluminada e com um teto muito baixo. Em pé no centro da sala havia um sujeito enorme vestido com um uniforme lustroso, feito de algum tipo de material com aparência escorregadia, e botas de aspecto também escorregadio nos pés. No centro do uniforme havia o retrato de um homem com barba, embora ele mesmo não usasse barba, apenas um bigode muito comprido e de pontas viradas, que pareciam dois parênteses.
“Um de vocês é bebê!”, bradou ele enquanto Klaus e Violet desciam ao lado da irmã. “Positivo! Não... vocês dois são bebês! Não... são três! Não... nenhum de vocês é bebê! Bem, um de vocês meio que é bebê! Bem-vindos! Positivo! Olá! Boa tarde! Salve! Apertem minha mão! Positivo!”
Os Baudelaire apertaram apressadamente a mão do homem, que estava coberta por uma luva feita do mesmo material escorregadio.
“Meu nome é Violet B...”, começou a dizer Violet.
“Baudelaire!”, interrompeu o homem. “Eu sei! Não sou burro! Positivo! E vocês são Klaus e Sunny! Vocês são os Baudelaire! As três crianças Baudelaire! Positivo! Aquelas que O Pundonor Diário culpa por todos os crimes que eles são capazes de imaginar, porém na verdade são inocentes, mas assim mesmo estão metidos em encrenca grossa! É claro! Prazer em conhecê-los! Em pessoa! Por assim dizer! Vamos! Sigam-me! Positivo!”
O homem voltou-se num rodopio e saiu da sala batendo os pés, sem deixar aos perplexos Baudelaire nenhuma opção senão segui-lo por um corredor. O corredor era coberto por tubulações metálicas ao longo das paredes, do piso e do teto, o que fazia os Baudelaire precisarem se abaixar de vez em quando, ou erguer os pés bem alto, para conseguir passar. Ocasionalmente, gotas d’água pingavam de uma das tubulações e caíam na cabeça deles, mas já estavam tão encharcados da água do Arroio Enamorado que mal notaram. Além disso, estavam ocupados demais tentando acompanhar o que o homem dizia para pensar em qualquer outra coisa.
“Vejamos! Vou arranjar trabalho para vocês imediatamente! Positivo! Não... primeiro vou levá-los em excursão pelo submarino! Não... vou lhes dar almoço! Não... vou apresentá-los à tripulação! Não... vou deixá-los descansar! Não... é melhor arranjar uns uniformes para vocês! Positivo! É importante que todos a bordo usem uniformes à prova d’água, para o caso de o submarino implodir e irmos parar embaixo d’água! É claro que, nesse caso, vamos precisar de capacetes de mergulho! Com exceção de Sunny, porque ela não pode usar um! Acho que ela vai se afogar! Não... ela pode se enroscar dentro de um capacete de mergulho! Positivo! Os capacetes têm uma portinhola na nuca exatamente para esses casos! Positivo! Já vi fazerem isso! Eu vi muitas coisas no meu tempo!”
“Desculpe”, disse Violet, “mas poderia nos dizer quem é você?”
O homem voltou-se bruscamente para encarar as crianças e ergueu as mãos acima da cabeça. “O quê?rugiu ele. “Vocês não sabem quem sou eu? Nunca fui tão insultado na minha vida! Não... eu já fui. Muitas vezes, de fato. Positivo! Lembro-me de quando o conde Olaf se virou para mim e disse, naquela voz horrorosa dele... Não, não importa. Eu vou lhes contar. Sou o capitão Andarré. Escreve-se A-N-D-A-R-R-É. De trás para diante é É-R-R-A-D... bem, não importa. Ninguém escreve o nome de trás para diante! Exceto pessoas que não respeitam o alfabeto! E elas não estão aqui! Estão?”
“Não”, disse Klaus. “Temos um bocado de respeito pelo alfabeto.”
“Eu que o diga!”, bradou o capitão. “Klaus Baudelaire desrespeitando o alfabeto? Ora, é impensável! Positivo! É ilegal! É impossível! Não é verdade! Como você se atreve a dizer isso! Não... você não disse isso! Peço desculpas! Mil perdões! Positivo!”
“Esse é o seu submarino, capitão Andarré?”, perguntou Violet.
O quê?”, rugiu o capitão. “Você não sabe de quem é esse submarino? Uma inventora de renome como você, e não tem a mais pálida noção de história básica dos submarinos? É claro que esse é o meu submarino! Há anos que é o meu submarino! Positivo! Você nunca ouviu falar do capitão Andarré e o Queequeg! Você nunca ouviu falar do Submarino e Sua Tripulação de Dois? É um pequeno apelido que eu mesmo inventei! Com alguma ajuda! Positivo! Eu imaginava que Josephine tivesse contado a vocês sobre o Queequeg! Afinal, patrulhei o Lago Lacrimoso durante anos a fio! Pobre Josephine! Não se passa um dia sem que eu pense nela! Positivo! A não ser em alguns dias em que isso me foge à lembrança!”
“Noitutti?”, perguntou Sunny.
“Me disseram que eu levaria algum tempo para entender tudo o que você diz”, disse o capitão, baixando os olhos para Sunny. “Não tenho muita certeza de encontrar tempo para aprender mais uma língua estrangeira! Positivo! Talvez eu possa me matricular em algum curso noturno!”
“O que minha irmã quer dizer”, disse depressa Violet, “é que ela está curiosa para saber como você sabe tanta coisa sobre nós.”
“Como alguém sabe alguma coisa sobre alguma coisa?”, retrucou o capitão. “Eu li, é claro! Li cada boletim do Correio Sub-reptício Cooperativo que recebi! Muito embora não tenha recebido nenhum ultimamente! Positivo! É por isso que fico feliz por vocês terem aparecido aqui! Positivo! Pensei que ia desmaiar quando espiei pelo periscópio e vi suas carinhas molhadas olhando de volta para mim! Positivo! Eu tinha certeza de que eram vocês, mas não vacilei em pedir a senha! Positivo! Eu jamais vacilo! Positivo! É a minha filosofia de vida!”
O capitão parou no meio do corredor e apontou para um retângulo de latão que estava afixado em uma parede. Era uma placa comemorativa, uma expressão que aqui significa “retângulo de metal com palavras gravadas, usado geralmente para indicar que algo de importante aconteceu no lugar em que o retângulo está afixado”. Essa placa tinha um grande olho C.S.C. gravado no alto, vigiando as palavras “FILOSOFIA DE VIDA DO CAPITÃO” gravadas em letras enormes, mas os Baudelaire precisaram se inclinar até bem perto para enxergar o que estava gravado embaixo.
“‘Aquele que vacila está perdido!’“, bradou o capitão, apontando cada palavra com um dedo grosso e enluvado.
“‘Ou aquela’“, acrescentou Violet, apontando para um par de palavras que alguém adicionara em letras rabiscadas.
“Minha enteada acrescentou isso”, disse o capitão Andarré. “E ela está certa! ‘Ou aquela’! Um dia eu andava por esse corredor quando me dei conta de que qualquer um pode estar perdido se vacilar! Você poderia estar sendo perseguido por um polvo gigante, e se resolvesse parar um instante para amarrar os sapatos, o que aconteceria? Estaria tudo perdido, isso é o que aconteceria! Positivo! É por isso que essa é a minha filosofia de vida! Eu jamais vacilo! Jamais! Positivo! Bem, às vezes eu vacilo! Mas tento não vacilar! Porque aquele ou aquela que vacila está perdido! Vamos embora!”
Sem vacilar nem mais um momento junto à placa comemorativa, o capitão Andarré girou nos calcanhares e levou as crianças mais adiante no corredor, que ressoava com o estranho ruído de suas botas à prova d’água a cada passo que dava. As crianças, um pouco atordoadas com a loquacidade do capitão, pensavam em sua filosofia de vida, e se esta deveria ou não ser também a filosofia delas. Ter uma filosofia de vida é como ter um sagui de estimação, porque ele pode ser muito encantador quando você o adquire, mas podem surgir situações em que ele não será nem um pouco oportuno. À primeira vista, “aquele ou aquela que vacila está perdido” parecia ser uma filosofia razoável, mas os Baudelaire podiam imaginar situações em que vacilar poderia ser a melhor coisa a fazer. Violet ficou feliz por ter vacilado quando ela e seus irmãos moravam com a tia Josephine, pois de outra forma ela poderia nunca ter se dado conta da importância das balas de hortelã que encontrara em seu bolso. Klaus ficou feliz por ter vacilado no Hospital Heimlich, pois de outra forma poderia nunca ter pensado em um modo de disfarçar Sunny e a si mesmo como profissionais médicos para que pudessem salvar Violet de uma cirurgia desnecessária. E Sunny ficou feliz por ter vacilado do lado de fora da barraca do conde Olaf, no Cume das Aflições, pois de outra forma poderia nunca ter tido a sorte de ouvir o nome do último santuário, que os Baudelaire ainda tinham esperança de alcançar. Mas a despeito de todos aqueles incidentes em que a vacilação fora proveitosa, as crianças não desejavam adotar “aquele ou aquela que não vacila está perdido” como sua filosofia de vida, porque um polvo gigante poderia aparecer a qualquer momento, especialmente enquanto as crianças estavam a bordo de um submarino, e os irmãos seriam muito tolos se vacilassem caso um polvo estivesse atrás deles. Talvez, pensaram os Baudelaire, a filosofia de vida mais sábia com relação à vacilação fosse “às vezes aquele ou aquela deve vacilar, e às vezes aquele ou aquela não deve vacilar”, mas aquilo parecia ser comprido demais e vago demais para ter alguma utilidade em uma placa comemorativa.
“Talvez, se eu não tivesse vacilado”, continuou o capitão, “o Queequeg a esta altura já tivesse sido consertado! Positivo! Receio que o Submarino e Sua Tripulação de Dois não esteja na melhor das formas! Positivo! Fomos atacados por vilões e sanguessugas, por tubarões e corretores de imóveis, por piratas e namoradas, por torpedos e salmões enfurecidos! Positivo!” Ele parou diante de uma grossa porta de metal, voltou-se para os Baudelaire e suspirou. “Tudo, dos mecanismos do radar ao meu despertador, tudo está funcionando mal! Positivo! É por isso que fico feliz por você estar aqui, Violet Baudelaire! Estamos desesperados atrás de alguém com habilidade mecânica!”
“Verei o que posso fazer”, disse Violet.
“Bem, dê uma olhada!”, bradou o capitão Andarré, abrindo a porta bruscamente.
Os Baudelaire seguiram-no para dentro de uma sala enorme e cavernosa que ecoava conforme o capitão falava. Havia tubulações no teto, tubulações no piso e tubulações projetando-se das paredes em todos os ângulos. Por entre as tubulações, havia uma atordoante coleção de painéis com botões, engrenagens e telas diminutas, bem como letreiros diminutos em que se liam coisas como “perigo!”, “CUIDADO!” e “AQUELE OU AQUELA QUE VACILA ESTÁ PERDIDO!”. Aqui e ali havia umas poucas luzes verdes, e no extremo oposto havia uma enorme mesa de madeira entulhada de livros, mapas e pratos sujos, que ficava embaixo de uma enorme vigia, uma palavra que aqui significa “janela redonda através da qual os Baudelaire podiam ver as águas imundas do Arroio Enamorado”.
“Essa é a barriga da fera!”, disse o capitão. “Positivo! É o centro de todas as operações de bordo do Queequeg! É aqui que controlamos o submarino, fazemos as refeições, pesquisamos nossas missões e jogamos jogos de tabuleiro quando estamos cansados de trabalhar!” Ele marchou até um dos painéis e enfiou a cabeça por baixo dele. “Fiona!”, chamou. “Saia daí!”
Ouviu-se um leve matraquear e então as crianças viram alguma coisa sair rapidamente debaixo do painel até o meio da sala. À pálida luz verde, foi preciso um momento até elas enxergarem que se tratava de uma menina um pouco mais velha que Violet, deitada de barriga para cima sobre uma pequena plataforma de rodas. Estava usando um traje exatamente igual ao do capitão Andarré, com o mesmo retrato do homem barbado no centro, e segurava um farolete em uma das mãos e um alicate na outra. Sorrindo, ela entregou o alicate ao padrasto, que a ajudou a levantar-se da plataforma, enquanto punha seu par de óculos com armação triangular.
“Crianças Baudelaire”, disse o capitão, “essa é Fiona, minha enteada. Fiona, esses são Violet, Klaus e Sunny Baudelaire.”
“Encantada”, disse ela, estendendo a mão enluvada primeiro para Violet, depois para Klaus e por fim para Sunny, que sorriu um grande sorriso dentuço. “Desculpem não ter subido para recebê-los. Estava tentando consertar esse dispositivo telegráfico, mas reparos elétricos nunca foram minha especialidade.”
“Positivo!”, disse o capitão. “Já faz um bom tempo que paramos de receber telegramas, mas pelo jeito Fiona não consegue ver pé nem cabeça no dispositivo! Violet, mãos à obra!”
“Você vai desculpar o jeito de falar do meu padrasto”, disse Fiona, passando um braço em volta dele. “Às vezes é preciso algum tempo para se acostumar.”
“Ninguém tem tempo para se acostumar com coisa nenhuma!”, bradou o capitão Andarré. “Isso não é hora de ser passivo! Aquele que vacila está perdido!”
“Ou aquela”, corrigiu Fiona discretamente. “Venha, Violet. Vou arranjar um uniforme para você. Caso esteja se perguntando de quem é o retrato no peito, é Herman Melville.”
“É um dos meus autores favoritos”, disse Klaus. “Eu realmente gosto muito do modo como ele dramatiza a dura condição das pessoas negligenciadas, tais como os marinheiros pobres, ou os jovens explorados, através de sua prosa filosófica insólita, por vezes experimental.”
“Eu devia saber que você gosta dele”, retrucou Fiona. “Quando a casa de Josephine caiu no lago, meu padrasto e eu conseguimos resgatar parte de sua biblioteca antes que ficasse encharcada. Li algumas de suas anotações de decodificação, Klaus. Você é um pesquisador muito perspicaz.”
“Gentileza sua”, disse Klaus.
“Positivo!”, bradou o capitão. “Um pesquisador perspicaz é exatamente o que precisamos!” Ele foi marchando até a mesa e ergueu uma pilha de papéis. “Um certo motorista de táxi conseguiu trazer clandestinamente essas cartas náuticas para mim”, disse ele, “mas a meu ver elas não têm pé nem cabeça! São confusas! São intrigadas! Não... não é isso que eu queria dizer!”
“Acho que você queria dizer intricado”, disse Klaus, dando uma olhada nas cartas náuticas. “‘Intrigado’ quer dizer ‘curioso’ ou ‘desconfiado’, mas ‘intricado’ quer dizer ‘complicado’ ou ‘obscuro’. Que tipo de cartas são essas?”
“Cartas náuticas!”, bradou o capitão. “Temos de decifrar o curso exato das marés predominantes no ponto em que o Arroio Enamorado se encontra com o mar! Klaus, quero que você arranje um uniforme e ponha mãos à obra imediatamente! Positivo!”
“Positivo!”, disse Klaus, tentando entrar no espírito do Queequeg.
“Positivo!”, respondeu o capitão em um alegre rugido.
“Possessivo?”, perguntou Sunny.
“Positivo!”, disse o capitão. “Não me esqueci de você, Sunny! Eu jamais esqueceria Sunny! Nem em um milhão de anos! Não que eu vá viver isso tudo! Especialmente porque não faço muito exercício! Não gosto de exercícios, mas vale a pena! Ora, lembro-me bem de quando não me deixaram escalar uma montanha porque não tinha treinado direito e...”
“Talvez você devesse contar a Sunny o que tem em mente para ela”, disse Fiona gentilmente.
“É claro!”, bradou o capitão. “Naturalmente! Positivo! Nosso outro tripulante estava encarregado da cozinha, mas tudo o que ele faz são aqueles horríveis ensopados! Já estou cansado! Espero que suas habilidades culinárias possam melhorar nossa situação alimentar!”
“Sous”, disse Sunny modestamente, o que queria dizer alguma coisa como: “Não faz muito tempo que me dedico às práticas culinárias”, e seus irmãos trataram logo de traduzir.
“Bem, estamos com pressa!”, retrucou o capitão, andando até uma porta do outro lado, identificada como “COZINHA”. “Nós não podemos esperar até que Sunny se torne uma chef antes de começar a trabalhar! Aquele ou aquela que vacila está perdido!” Ele abriu a porta e gritou para dentro: “Cuque! Saia daí e venha conhecer os Baudelaire!”.
As crianças ouviram alguns passos leves e claudicantes, como se o cozinheiro tivesse algo de errado com uma perna. Então um homem com uniforme igual ao do capitão passou coxeando pela porta, ostentando um largo sorriso no rosto.
“Irmãos Baudelaire!”, disse ele. “Sempre acreditei que um dia iria vê-los de novo!”
Os três irmãos olharam para o homem e depois se entreolharam estupefatos, uma palavra que aqui significa “surpresos por ver um homem pela primeira vez desde sua estada na Serraria Alto-Astral, quando sua benevolência para com eles fora um dos poucos aspectos positivos naquele de outra forma miserável capítulo de suas vidas”.
“Phil!”, exclamou Violet. “Que raios você está fazendo aqui?”
“Ele é o segundo da nossa tripulação de dois!”, bradou o capitão. “Positivo! O segundo tripulante original da tripulação de dois era a mãe de Fiona, mas ela morreu num acidente com um manati, já faz uns bons anos.”
“Não estou tão certa de que foi um acidente”, disse Fiona.
“Tínhamos o Jacques!”, continuou o capitão.
“Positivo, e também o não-sei-o-nome-dele, irmão do Jacques, e uma mulher horrorosa que revelou ser uma espiã, e por fim temos o Phil! Se bem que eu goste de chamá-lo de Cuque! Não sei por quê!”
“Eu estava cansado de trabalhar na indústria madeireira”, disse Phil. “Tinha certeza de poder encontrar um trabalho melhor, e agora, olhem só para mim: cozinheiro em um submarino dilapidado. A vida melhora a cada dia.”
“Você sempre foi um otimista”, disse Klaus.
“Não precisamos de um otimista!”, disse o capitão Andarré. “Precisamos de um cozinheiro! Mãos à obra, crianças Baudelaire! Todos vocês! Positivo! Não temos tempo a perder! Aquele que vacila está perdido!”
“Ou aquela”, lembrou Fiona ao padrasto. “Nós realmente temos de começar neste exato minuto? Tenho certeza de que os Baudelaire estão exaustos depois da viagem. Poderíamos ter uma noite agradável e tranquila jogando jogos de tabuleiro...”
“Jogos de tabuleiro?”, disse o capitão, atônito. “Diversões? Passatempos? Não temos tempo para essas coisas! Positivo! Hoje é sábado, o que quer dizer que só temos mais cinco dias! Quinta-feira é o encontro de C.S.C. e não quero que ninguém no Hotel Desenlace diga que o Queequeg não cumpriu sua missão!”
“Missão?”, perguntou Sunny.
“Positivo!”, disse o capitão Andarré. “Não devemos vacilar! Temos de agir! Temos de correr! Temos de nos mexer! Temos de procurar! Temos de parar de vez em quando para um lanche rápido! Temos de encontrar aquele açucareiro antes do conde Olaf! Positivo!”

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