sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo dez


Um dos maiores enigmas do mundo é a maneira como funciona a tristeza. Ficar muito triste pode ser parecido com ser queimado, não só por causa da dor descomunal, mas também porque a tristeza pode se espalhar por sua vida como a fumaça de um enorme incêndio. Você pode achar difícil enxergar alguma coisa além de sua própria tristeza, assim como a fumaça pode encobrir uma paisagem a tal ponto que tudo o que você pode enxergar é a escuridão. Você pode descobrir que as coisas felizes são maculadas pela tristeza, do mesmo modo que a fumaça de um incêndio deixa tudo com cor de carvão e cheiro de queimado. E pode descobrir também que, se alguém despeja água em cima de você, você fica molhado e perturbado, porém não curado da tristeza, assim como um corpo de bombeiros pode abafar o fogo, mas não recuperar o que foi destruído. Os órfãos Baudelaire, naturalmente, tinham sofrido grandes tristezas na vida desde que ouviram falar pela primeira vez da morte de seus pais, e às vezes sentiam-se como se mesmo para ver algo que os deixaria muito felizes tivessem de espantar a fumaça dos olhos. Quando Violet e Klaus viram Fiona e o homem de mãos de gancho se abraçarem, sentiram-se como se a fumaça de sua própria infelicidade tivesse preenchido o calabouço. Eles não podiam suportar a ideia de que Fiona tinha encontrado seu irmão perdido havia muito tempo, enquanto eles, com toda a probabilidade, jamais veriam seus pais de novo, e poderiam até perder sua irmã menor à medida que os esporos venenosos do Mycelium Medusoide tornavam o som de sua tosse cada vez pior dentro do capacete.
“Fiona!”, exclamou o homem de mãos de gancho. “É mesmo você?”
“Positivo”, disse a micetologista, tirando os óculos triangulares para enxugar as lágrimas. “Pensei que nunca iria vê-lo, Fernald. O que aconteceu com suas mãos?”
“Não ligue para isso”, disse depressa o homem de mãos de gancho. “Por que você está aqui? Também se juntou ao conde Olaf?”
“É óbvio que não”, disse Fiona com firmeza. “Ele capturou o Queequeg e nos pôs a ferros.”
“Então você se juntou aos pirralhos Baudelaire”, disse o homem de mãos de gancho. “Eu devia desconfiar que você era boazinha!”
“Eu não me juntei aos Baudelaire”, disse Fiona com a mesma firmeza. “Eles se juntaram a mim. Positivo! Agora sou o capitão do Queequeg.”
“Você?”, disse o comparsa de Olaf. “O que aconteceu com Andarré?”
“Ele desapareceu do submarino”, respondeu Fiona. “Não sabemos onde está.”
“Não me importa onde ele está”, disse com desprezo o homem de mãos de gancho. “Tanto faz onde está aquele idiota bigodudo! Ele é a razão por que me juntei ao conde Olaf, para começar! O capitão estava sempre gritando ‘Positivo! Positivo! Positivo!’ e me fazendo correr de um lado para o outro! Portanto eu fugi e me juntei à trupe de atores de Olaf!”
“Mas o conde Olaf é um vilão horrível!”, exclamou Fiona. “Ele não tem respeito pelos outros. Ele só sabe armar planos pérfidos e aliciar outras pessoas para sua trupe!”
“Esses são apenas os piores aspectos dele”, disse o homem de mãos de gancho. “Também existem muitas partes boas. Por exemplo, ele tem uma risada maravilhosa.”
“Uma risada maravilhosa não é desculpa para um comportamento vilanesco!”, disse Fiona.
“Vamos concordar em discordar”, retrucou o homem de mãos de gancho, usando uma expressão cansativa que aqui quer dizer “você deve estar com a razão, mas estou envergonhado demais para admitir isso”. Ele acenou um gancho displicentemente para sua irmã. “Saia de fininho, Fiona. Já é hora de os órfãos me dizerem onde está o açucareiro.”
O comparsa de Olaf raspou os ganchos um no outro para dar uma afiada rápida e deu um passo ameaçador na direção dos Baudelaire. Violet e Klaus se entreolharam atemorizados, depois olharam para o capacete de mergulho, onde ouviram sua irmã dar outra tossida arrepiante, e perceberam que já era hora de pôr as cartas na mesa, uma expressão que aqui significa “revelar a verdade ao perverso comparsa de Olaf”.
“Não sabemos onde está o açucareiro”, disse Violet.
“Minha irmã está dizendo a verdade”, disse Klaus. “Faça o que quiser conosco, mas não vamos poder contar nada.”
O homem de mãos de gancho fulminou-os com o olhar e raspou um gancho no outro mais uma vez. “Vocês são mentirosos”, disse ele. “Vocês não passam de dois órfãos mentirosos.”
“É verdade, Fernald”, disse Fiona. “Positivo! A missão do Queequeg era encontrar o açucareiro, mas até agora só demos com os burros n’água.”
“Se vocês não sabem onde está o açucareiro”, disse zangado o homem de mãos de gancho, “então pôr vocês a ferros não tem o menor sentido!” Ele se voltou e chutou a banqueta, derrubando-a, para depois chutar a parede do calabouço. “O que esperam que eu faça agora?”, lamentou-se ele.
Fiona pousou a mão no gancho do irmão. “Leve-nos de volta ao Queequegdisse ela. “Sunny está dentro daquele capacete, junto com uma infestação de Mycelium Medusoide.”
Mycelium Medusoide?”, repetiu o comparsa de Olaf, horrorizado. “É um fungo muito perigoso!”
“Ela está correndo grande perigo”, disse Violet. “Se não acharmos uma cura muito, muito depressa, ela vai morrer.”
O homem de mãos de gancho fechou a cara, mas então olhou para o capacete e deu de ombros para as crianças. “Por que eu haveria de me preocupar com a morte dela?”, perguntou. “Essa menina tornou minha vida miserável desde que a conheci. Cada vez que nossos planos de roubar a fortuna Baudelaire fracassam, o conde Olaf grita com todo mundo!”
“Foi você que tornou miserável a vida dos Baudelaire”, disse Fiona. “O conde Olaf já pôs em prática incontáveis planos traiçoeiros, e você o ajudou várias vezes seguidas. Positivo! Você devia se envergonhar!”
O homem de mãos de gancho suspirou e baixou os olhos para o chão do calabouço. “Às vezes eu me envergonho”, admitiu ele. “Parecia que a vida na trupe de Olaf seria glamurosa e divertida, mas nós acabamos cometendo mais assassinatos, incêndios criminosos, chantagens e violências diversas do que eu gostaria.”
“Essa é sua oportunidade de fazer algo nobre”, disse Fiona. “Você não precisa ficar do lado errado da cisão.”
“Oh, Fiona”, disse o homem de mãos de gancho, pousando desajeitado um gancho no ombro dela. “Você não está entendendo. Não existe um lado errado na cisão.”
“É claro que existe”, disse Klaus. “C.S.C, é uma organização nobre, e o conde Olaf não passa de um vilão terrível.”
“Uma organização nobre?”, disse o homem de mãos de gancho. “É isso? Diga isso à sua irmã-bebê, seu bobão quatro-olhos! Se não fosse pela Carreação de Supervoláteis Cogumelos, aqueles cogumelos letais nunca teriam cruzado seu caminho!”
As crianças se entreolharam, lembrando-se do que tinham lido na Gruta Gorgônea. Elas tiveram de admitir que o comparsa de Olaf estava certo. Mas Violet enfiou a mão no bolso e extraiu de lá o recorte de jornal que Sunny encontrara na caverna. Ela ergueu-o para que todos pudessem ver a matéria d’O Pundonor Diário que a mais velha dos Baudelaire mantivera escondida por tanto tempo.
“‘A DESERÇÃO DE FERNALD’“, disse ela, lendo a manchete em voz alta, e depois leu a assinatura, uma palavra que aqui significa “o nome da pessoa que escreveu a matéria”. “‘Por Jacques Snicket. Já foi confirmado que o incêndio que destruiu a Aquáticos Anwhistle e tirou a vida do famoso icnólogo Gregor Anwhistle foi ateado por Fernald Andarré, filho do capitão do submarino Queequeg. A participação da família Andarré em uma recente cisão levantou diversas questões com respeito...’“ Violet ergueu os olhos e encontrou o olhar fulminante do comparsa de Olaf. “O resto da matéria está borrado”, disse ela, “mas a verdade está clara. Você cometeu uma traição. Você abandonou C.S.C, e aliou-se a Olaf!”
“A diferença entre os dois lados da cisão”, disse Klaus, “é que um lado apaga os incêndios que o outro lado ateia.”
O homem de mãos de gancho estendeu o braço para a frente e espetou a matéria com um de seus ganchos, e depois virou o recorte ao contrário para poder lê-lo de novo. “Você devia ter visto o fogo”, disse ele em voz baixa. “À distância, parecia uma enorme coluna de fumaça negra erguendo-se diretamente da água. Era como se o mar inteiro estivesse em chamas.”
“Você deve ter sentido orgulho de sua obra”, disse Fiona com tom amargo.
“Orgulho?”, disse o homem de mãos de gancho. “Foi o pior dia da minha vida. Aquela coluna de fumaça foi a coisa mais triste que já vi.” Ele espetou o jornal com o outro gancho e rasgou a matéria em pedacinhos. “O Pundonor entendeu tudo errado”, disse ele. “O capitão Andarré não é meu pai. Andarré não é o meu sobrenome. E há muito mais coisa envolvida naquele incêndio. Vocês Baudelaire precisam saber que O Pundonor Diário não contou a história inteira. Assim como o veneno de um fungo letal pode ser a fonte de alguns remédios maravilhosos, alguém como Jacques Snicket pode fazer algo vilanesco, e alguém como o conde Olaf pode fazer algo nobre. Mesmo seus pais...”
“Nosso padrasto conhecia Jacques Snicket”, disse Fiona. “Ele era um bom homem, mas o conde Olaf o assassinou. Você também é um assassino? Você matou Gregor Anwhistle?”
Em soturno silêncio, o homem ergueu os ganchos diante das crianças. “Na última vez que você me viu”, disse ele a Fiona, “eu tinha duas mãos, e não ganchos. Nosso padrasto provavelmente não contou a você o que me aconteceu – ele sempre disse que havia segredos neste mundo que eram terríveis demais para que gente jovem os conhecesse. Que trouxa!”
“Nosso padrasto não é um trouxa”, disse Fiona. “Ele é um homem nobre. Positivo!”
“As pessoas não são vis nem nobres”, disse o homem de mãos de gancho. “Elas são como as saladas do chefe, com coisas boas e ruins misturadas num molho vinagrete de confusão e conflito.” Ele voltou-se para os dois Baudelaire mais velhos e apontou para eles com seus ganchos. “Vocês mesmos, Baudelaire. Vocês realmente acham que somos assim tão diferentes? Quando aquelas águias me carregaram para longe das montanhas numa rede, vi as ruínas do incêndio no sertão – um incêndio que ateamos juntos. Vocês tocaram fogo nas coisas, e eu também. Vocês se juntaram à tripulação do Queequeg, e eu me juntei à tripulação do Carmelita. Ambos os nossos capitães são pessoas voláteis, e estamos ambos tentando chegar ao Hotel Desenlace antes de quinta-feira. A única diferença entre nós são os retratos em nossos uniformes.”
“Estamos usando Herman Melville”, disse Klaus. “Ele foi um escritor de enorme talento, que dramatizou com sua prosa filosófica insólita, por vezes experimental, a dura condição das pessoas negligenciadas, tais como os marinheiros pobres ou os jovens explorados. Fico orgulhoso de expor seu retrato. Mas você está usando Edgar Guest. Ele era um escritor de talento limitado, que escreveu uma poesia canhestra e tediosa sobre assuntos irremediavelmente sentimentais. Você devia ter vergonha.”
“Edgar Guest não é meu poeta favorito”, admitiu o homem de mãos de gancho. “Antes de me juntar ao conde Olaf, eu estudava poesia com meu padrasto. Costumávamos ler um para o outro no salão principal do Queequeg. Mas agora é tarde demais. Não posso voltar à minha vida anterior.”
“Talvez não”, disse Klaus. “Mas pode nos mandar de volta ao Queequeg, para que possamos salvar Sunny.”
“Por favor”, as crianças ouviram Sunny dizer de dentro do capacete, muito embora sua voz estivesse um tanto rouca, como se ela não fosse mais conseguir falar, e por um momento, enquanto os minutos cruciais se esgotavam, os únicos sons no calabouço eram a desesperada tosse de Sunny e os resmungos do homem de mãos de gancho andando de um lado para outro, enquanto girava os ganchos e meditava. Violet e Klaus olhavam para os ganchos e pensavam em todas as vezes em que ele os usara para ameaçar os irmãos. Uma coisa é acreditar que as pessoas têm tanto o mal quanto o bem dentro de si, misturados como os ingredientes de uma salada. Mas outra muito diferente é olhar para o parceiro de um vilão desprezível, que buscou seguidamente causar o mal, e tentar ver onde estão enterradas suas partes boas, quando tudo o que lhe vem à lembrança são a dor e o sofrimento que ele causou. Enquanto o homem de mãos de gancho andava em círculos pelo calabouço, era como se os Baudelaire estivessem revirando uma salada do chefe feita principalmente de apavorantes – e talvez até venenosos – ingredientes, para tentar achar a única torradinha nobre que poderia salvar sua irmã, assim como eu, no tempo entre um e outro parágrafo, reviro essa salada que está na minha frente, na esperança de que o meu garçom seja mais nobre do que perverso e que minha irmã, Kit, possa ser salva pelo pequeno e condimentado pedaço de torrada que espero resgatar dessa gamela. Entretanto, depois de muito andar à roda e tergiversar – uma expressão que aqui significa “resmungos e pigarreios usados para fugir de uma decisão rápida” –, o capanga do conde Olaf parou na frente das crianças, pôs os ganchos na cintura e ofereceu a elas uma escolha de Hobson.
“Vou mandar vocês de volta ao Queequegdisse ele, “se vocês me levarem junto.”

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