sábado, 10 de setembro de 2016

Capítulo dez


Ishmael saiu das trevas, passando a mão pelas prateleiras da estante, e caminhou lentamente até onde estavam os órfãos Baudelaire. À luz pálida do farolete, as crianças não puderam ver se o facilitador estava sorrindo ou com a cara fechada atrás da sua barba desgrenhada e lanuda, e Violet se lembrou de algo que já tinha esquecido quase completamente. Muito tempo atrás, antes de Sunny ter nascido, Violet e Klaus tinham começado uma discussão durante o café-da-manhã sobre de quem era a vez de levar o lixo para fora. Era um assunto bobo, porém uma daquelas ocasiões em que os discutidores estão se divertindo demais para parar, e o dia inteiro os dois irmãos circularam pela casa fazendo as tarefas que lhes foram designadas mal falando um com o outro. Por fim, depois de uma longa e silenciosa refeição, durante a qual seus pais tentaram fazer com que se reconciliassem – uma palavra que aqui significa “admitir que não importava o mínimo de quem era a vez, pois a única coisa importante era tirar o lixo da cozinha antes que o cheiro se espalhasse pela mansão inteira” –, Violet e Klaus foram mandados para a cama sem sobremesa e sem cinco minutos de leitura sequer. De repente, bem quando estava quase pegando no sono, Violet teve uma ideia para uma invenção que faria com que ninguém jamais tivesse de levar o lixo para fora, então acendeu uma luz e começou a desenhar a sua ideia em um bloco de papel. Estava tão interessada em sua invenção que não ficou atenta aos passos no corredor lá fora, e quando sua mãe abriu a porta ela não teve tempo de apagar a luz e fingir que estava dormindo. Violet olhou para a mãe, e a mãe olhou para ela, e sob aquela luz pálida a mais velha dos Baudelaire não pôde ver se a mãe estava sorrindo ou com a cara fechada – se ela estava zangada com Violet por ficar acordada além da hora de dormir, ou se, na verdade, não se importava. Então, finalmente, Violet viu que a sua mãe estava trazendo uma xícara de chá quente.
“Aqui está, querida”, disse ela gentilmente. “Eu sei como o chá de anis-estrelado ajuda você a pensar.” Violet pegou a xícara fumegante de suas mãos e, naquele instante, deu-se conta de que, afinal, tinha sido dela a vez de levar o lixo para fora.
Ishmael não ofereceu chá nenhum para os Baudelaire, e quando ele acionou um interruptor na parede e iluminou o espaço embaixo da macieira com luzes elétricas, as crianças puderam ver que o facilitador não estava nem sorrindo nem com a cara fechada, mas exibia uma estranha combinação das duas coisas, como se estivesse tão nervoso a respeito dos Baudelaire quanto eles estavam a respeito dele.
“Eu sabia que vocês viriam aqui”, disse Ishmael por fim, depois de um longo silêncio. “Está no seu sangue. Nunca conheci um Baudelaire que não balançasse o barco.”
Os Baudelaire sentiram todas as suas perguntas tropeçarem umas por cima das outras em sua cabeça, como passageiros frenéticos abandonando um navio que está afundando.
“O que é este lugar?”, perguntou Violet. “Como você conheceu os nossos pais?”
“Por que você mentiu para nós sobre tantas coisas?”, perguntou Klaus. “Por que está guardando tantos segredos?”
“Quem é você?”, perguntou Sunny.
Ishmael deu mais um passo em direção aos Baudelaire e baixou os olhos para Sunny, que encarou de volta o facilitador, e então olhou para o barro ainda apertado em volta dos seus pés.
“Vocês sabiam que eu fui professor?”, perguntou ele. “Foi há muitos anos, na cidade. Havia sempre umas poucas crianças nas minhas aulas de química que tinham o mesmo brilho nos olhos que vocês, Baudelaire. Aqueles estudantes sempre entregavam os trabalhos mais interessantes.” Ele suspirou e se sentou em uma das poltronas de leitura no centro do recinto. “Eles também eram os que me causavam mais problemas. Lembro-me de uma criança, em particular, que tinha o cabelo preto, desgrenhado, e uma única sobrancelha.”
“Conde Olaf”, disse Violet.
Ishmael fechou a cara e piscou para a mais velha dos Baudelaire.
“Não”, disse ele. “Era uma menininha. Tinha uma única sobrancelha e, graças a um acidente no laboratório do pai dela, uma única orelha. Era órfã e vivia com os irmãos em uma casa de propriedade de uma mulher horrível, uma bêbada violenta famosa por ter matado um homem na juventude, sem nada a não ser as mãos nuas e um melão-cantalupo muito maduro. O cantalupo foi cultivado em uma fazenda que não está mais em operação, a Fazenda de Melões Alto-Astral, cujo dono era...”
“Sir”, disse Klaus.
Ishmael fechou a cara de novo.
“Não”, disse ele. “A fazenda era propriedade de dois irmãos, um dos quais foi depois assassinado em uma pequena cidade, onde três crianças inocentes foram acusadas do crime.”
“Jacques”, disse Sunny.
“Não”, disse Ishmael novamente fechando a cara. “Houve uma certa discussão a respeito do seu nome, na verdade, pois ele parecia usar diversos nomes, dependendo do que estava vestindo. Qualquer que seja o caso, a estudante da minha classe começou a ficar muito desconfiada do chá que o seu tutor servia para ela quando chegava em casa da escola. Em vez de beber, ela o despejava em uma planta ornamental usada na decoração de um conhecido e elegante restaurante, com um tema písceo.”
“Café Salmonela”, disse Violet.
“Não”, disse Ishmael, e fechou a cara mais uma vez. “O Bistrô Salmônidas. Minha estudante, é claro, percebeu que não poderia continuar oferecendo chá à planta ornamental, especialmente depois que ela murchou e o dono da planta foi escamoteado para o Peru a bordo de um navio misterioso.”
“O Próspero”, disse Klaus.
Ishmael ofereceu aos jovens mais uma cara fechada.
“Sim”, disse ele, “embora na época o navio se chamasse Péricles. Mas minha estudante não sabia disso. Ela só queria evitar ser envenenada, e eu tive uma ideia, de que um antídoto poderia estar escondido...”
“Despiste”, interrompeu Sunny, e seus irmãos balançaram a cabeça concordando. Com despiste, a menininha queria dizer “A história de Ishmael é tangencial”, uma palavra que aqui significa “responder a perguntas diferentes das que foram feitas pelos Baudelaire”.
“Nós queremos saber o que está acontecendo aqui na ilha agora, neste exato momento”, disse Violet, “e não o que aconteceu em uma sala de aula muitos anos atrás.”
“Mas o que está acontecendo agora e o que aconteceu antes são parte da mesma história”, disse Ishmael. “Se eu não lhes contar como vim a preferir chá tão amargo como absinto, então vocês não vão saber como eu vim a ter uma conversa muito importante com um garçom em uma cidade lacustre. E se eu não lhes contar sobre aquela conversa, então vocês não vão saber como fui parar em um certo batiscafo, nem como acabei naufragando aqui, nem como vim a conhecer os seus pais, nem nada mais do que está contido nesse livro.” Ele pegou o pesado volume das mãos de Klaus e correu os dedos pela lombada, onde o longo e um tanto prolixo título estava gravado em ouro em letras de forma. “As pessoas vêm escrevendo histórias neste livro desde que os primeiros náufragos vieram dar na ilha, e todas as histórias são ligadas de um modo ou de outro. Se você faz uma pergunta, ela o leva a outra, e outra, e outra. É como descascar uma cebola.”
“Mas você não poderia ler todas as histórias e responder a todas as perguntas”, disse Klaus, “mesmo que quisesse.”
Ishmael sorriu e puxou a barba.
“Foi exatamente o que os seus pais me disseram”, disse ele. “Quando cheguei aqui, eles já estavam na ilha havia alguns meses, mas tinham se tornado os facilitadores e sugerido alguns novos costumes. O seu pai sugeriu que uns poucos náufragos que eram operários de construção instalassem o periscópio na árvore, para procurar tempestades, e a sua mãe sugeriu que um náufrago encanador bolasse um sistema de filtragem de água, para que a colônia pudesse ter água fresca diretamente na pia da cozinha. Seus pais tinham começado uma biblioteca com todos os documentos que havia aqui, e estavam acrescentando centenas de histórias ao livro de lugar-comum. Refeições gourmet eram servidas, e seus pais convenceram alguns dos outros náufragos a expandir este espaço subterrâneo.” Ele fez um gesto para a longa estante que desaparecia no escuro. “Eles queriam escavar uma passagem que levasse a uma central de pesquisas marinhas e serviços de aconselhamento retórico a algumas milhas de distância.”
Os Baudelaire trocaram olhares espantados. O capitão Andarré descrevera um lugar assim e, de fato, as crianças tinham passado algumas horas desesperadoras no seu subsolo arruinado.
“Você quer dizer que se caminharmos acompanhando a estante”, disse Klaus, “chegaremos à Aquáticos Anwhistle?”
Ishmael sacudiu a cabeça.
“A passagem nunca chegou a ser terminada”, disse ele, “e isso é bom, também. A central de pesquisas foi destruída em um incêndio, que poderia ter se propagado através da passagem e atingido a ilha. E revelou-se que um fungo extremamente letal estava contido naquele lugar. Tremo só de pensar no que poderia acontecer se o Mycelium Medusoide chegasse a estas praias.”
Os Baudelaire se entreolharam de novo, mas não disseram nada, preferindo guardar um dos seus segredos, mesmo que Ishmael tivesse contado alguns dos dele. A história das crianças Baudelaire poderia ter conectado a história de Ishmael com a dos esporos contidos no capacete de mergulho que o conde Olaf estava escondendo embaixo do seu vestido na gaiola de passarinho em que era prisioneiro, mas os irmãos não viram nenhuma razão para oferecer voluntariamente essa informação.
“Alguns ilhéus acharam que a passagem era uma ideia maravilhosa”, continuou Ishmael. “Os seus pais queriam transportar todos os documentos que vieram dar aqui para a Aquáticos Anwhistle, onde poderiam ser enviados a um sub-sub-bibliotecário que tinha uma biblioteca secreta. Outros queriam manter a ilha segura, longe da perfídia do mundo. Na época em que cheguei, alguns ilhéus queriam se amotinar e abandonar os seus pais na plataforma costeira.” O facilitador soltou um grande suspiro e fechou o pesado livro no seu colo. “Eu entrei no meio dessa história”, disse ele, “assim como vocês entraram no meio da minha história. Alguns ilhéus acharam armas entre os detritos, e a situação teria ficado violenta se eu não tivesse convencido a colônia a simplesmente abandonar os seus pais. Nós permitimos que eles pusessem alguns livros em um barco pesqueiro que seu pai construíra, e pela manhã os dois partiram com alguns dos seus camaradas quando a plataforma costeira se inundou. Deixaram para trás tudo o que tinham criado aqui, do periscópio que uso para prever o tempo ao livro de lugar-comum, onde continuo a pesquisa deles.”
“Você expulsou nossos pais?”, perguntou Violet, atônita.
“Eles ficaram muito tristes em partir”, disse Ish-mael. “Sua mãe estava grávida de você, Violet, e depois de todos os anos que passaram com C.S.C. seus pais não estavam certos de que queriam ver os filhos expostos à perfídia do mundo. Mas eles não entenderam que, se a passagem tivesse sido terminada, vocês teriam sido expostos à perfídia do mundo do mesmo modo. Cedo ou tarde, um ou dois eventos desafortunados ocorrem na história de todo mundo – uma cisão ou uma morte, a perda de um lar ou a destruição de um conjunto de chá. A única solução, é claro, é ficar o mais longe possível do mundo e levar uma vida segura e simples.”
“É por isso que você mantém tantos itens longe dos outros”, disse Klaus.
“Depende de como você encara as coisas”, disse Ishmael. “Eu queria que este lugar fosse tão seguro quanto possível, então, quando me tornei facilitador da ilha, sugeri alguns novos costumes. Mudei a colônia para o outro lado da ilha, treinei os carneiros para arrastar as armas para longe, depois os livros e os dispositivos mecânicos, para que nenhum detrito do mundo interferisse em nossa segurança. Sugeri que todos nos vestíssemos do mesmo modo e comêssemos a mesma comida, para evitar quaisquer cisões futuras.”
“Jojishoji”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Eu não acredito que restringir a liberdade de expressão e o livre exercício decorrente seja um modo apropriado de conduzir uma comunidade”.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Os outros ilhéus não podiam ter concordado com esses novos costumes.”
“Eu não os forcei”, disse Ishmael, “mas, é claro, o cordial de coco ajudou. A beberagem fermentada é tão forte que serve como uma espécie de opiáceo para as pessoas daqui.”
“Letes?”, perguntou Sunny.
“Um opiáceo é algo que deixa as pessoas sonolentas e inativas”, disse Klaus, “e até esquecidas.”
“Quanto mais cordial os ilhéus bebiam”, explicou Ishmael, “menos pensavam no passado ou se queixavam das coisas de que sentiam falta.”
“É por isso que dificilmente alguém deixa este lugar”, disse Violet. “Eles estão sonolentos demais para pensar em partir.”
“Ocasionalmente alguém parte”, disse Ishmael, e baixou os olhos para a Víbora Incrivelmente Mortífera, que lhe deu um breve silvo. “Algum tempo atrás, duas mulheres zarparam com esta mesma serpente, e alguns anos depois um homem chamado Quinta-Feira partiu com alguns camaradas.”
“Então Quinta-Feira está vivo”, disse Klaus, “bem como disse Kit.”
“Sim”, admitiu Ishmael, “mas, por sugestão minha, Miranda disse à filha que ele morreu em uma tempestade, para que ela não se preocupasse com a cisão que dividiu seus pais.”
“Electra”, disse Sunny, o que queria dizer “Uma família não devia guardar segredos tão terríveis”, mas Ishmael não pediu uma tradução.
“Com exceção daqueles encrenqueiros”, disse ele, “todo mundo ficou aqui. E por que não deveriam? Na sua maioria, os náufragos são órfãos, como eu, e como vocês. Eu conheço a sua história, irmãos Baudelaire, de todos os artigos de jornal, relatórios policiais, boletins financeiros, telegramas, correspondência particular e biscoitos da sorte que vieram dar aqui. Vocês andaram perambulando por este mundo pérfido desde que a sua história começou e nunca encontraram um lugar tão seguro como este. Por que não ficam? Desistam de suas invenções mecânicas, de suas leituras e de sua culinária. Esqueçam o conde Olaf e C.S.C. Abandonem a sua fita de cabelo, o seu livro de lugar-comum, o seu batedor, a sua balsa-biblioteca, e levem uma vida simples e segura nas nossas praias.”
“E quanto a Kit?”, perguntou Violet.
“Pela minha experiência, os Snicket são tão problemáticos quanto os Baudelaire”, disse Ishmael. “Foi por isso que sugeri que vocês a deixassem na plataforma costeira, para que ela não causasse problemas para a colônia. Mas se vocês podem ser convencidos a escolher uma vida mais simples, suponho que ela também possa.”
Os Baudelaire se entreolharam em dúvida. Já sabiam que Kit queria retornar ao mundo e certificar-se de que a justiça seria feita e, como voluntários, deviam estar ansiosos por juntar-se a ela. Mas Violet, Klaus e Sunny não tinham certeza de que poderiam abandonar o primeiro lugar seguro que encontraram, mesmo sendo um pouco maçante.
“Não podemos ficar aqui”, perguntou Klaus, “e levar uma vida mais complicada, com os itens e documentos aqui no arboreto?”
“E temperos?”, acrescentou Sunny.
“E manter isso em segredo para os outros ilhéus?”, disse Ishmael com a cara fechada.
“É o que você está fazendo”, Klaus não pôde deixar de ressaltar. “Você fica o dia inteiro sentado na sua cadeira e certifica-se de que a ilha está a salvo dos detritos do mundo, mas depois escapa sorrateiramente para o arboreto com os seus pés perfeitamente saudáveis e escreve em um livro de lugar-comum enquanto faz um lanche de maças pungentes, amargas. Você quer que todo mundo leve uma vida simples – todo mundo, menos você.”
“Ninguém deve levar a vida que eu levo”, disse Ishmael com uma longa e triste puxada na barba. “Eu passei anos incontáveis catalogando todos os objetos que foram arrastados para estas praias e todas as histórias que esses objetos contam. Consertei todos os documentos que as tempestades danificaram e fiz anotações de todas as minúcias. Li mais sobre a história pérfida do mundo do que quase qualquer um e, como disse certa vez um dos meus colegas, essa história é de fato pouco mais que o registro de crimes, desatinos e desventuras da humanidade.”
“Gibbon”, disse Sunny. Ela queria dizer algo como “Nós queremos ler essa história, não importa o quão miserável seja”, e seus irmãos foram rápidos em traduzir. Mas Ishmael puxou a sua barba de novo e sacudiu a cabeça firmemente para as três crianças.
“Não estão vendo?”, perguntou ele. “Eu não sou apenas o facilitador da ilha. Eu sou o pai da ilha. Mantenho esta biblioteca afastada das pessoas sob meus cuidados, para que elas nunca venham a ser perturbadas pelos terríveis segredos do mundo.” O facilitador enfiou a mão em um bolso da sua túnica e mostrou um pequeno objeto. Os Baudelaire viram que era um anel floreado, brasonado com a inicial R, e olharam para ele, um tanto intrigados.
Ishmael abriu o enorme volume no seu colo e virou algumas páginas para ler as suas anotações.
“Este anel”, disse ele, “pertenceu outrora à duquesa de Winnipeg, que o deu à sua filha, que também era a duquesa de Winnipeg, que o deu à sua filha, e assim por diante, e assim por diante, e assim por diante. Por fim, a última duquesa de Winnipeg juntou-se a C.S.C. e deu o anel ao irmão de Kit Snicket. Ele o deu à sua mãe. Por razões que ainda não entendo, ela o devolveu a ele, e ele o deu a Kit, e Kit o deu ao pai de vocês, que o deu à mãe de vocês, quando eles se casaram. Ela o manteve trancado em uma caixa de madeira, que só podia ser aberta com uma chave que era mantida em uma caixa de madeira, que só podia ser aberta por um código, que Kit Snicket aprendeu com o avô dela. A caixa de madeira se transformou em cinzas no incêndio que destruiu a mansão Baudelaire, e o capitão Andarré achou o anel nos destroços, para então perdê-lo em uma borrasca que acabou por arrastá-lo para as nossas praias.”
“Neiklot?”, perguntou Sunny, o que queria dizer “Por que você está nos contando sobre esse anel?”.
“O ponto da história não é o anel”, disse Ishmael. “É o fato de que vocês nunca o viram até este momento. Este anel, com sua longa história secreta, esteve na sua casa por anos, e seus pais jamais o mencionaram. Seus pais nunca contaram a vocês sobre a duquesa de Winnipeg, ou o capitão Andarré, ou os irmãos Snicket, ou C.S.C. Seus pais nunca contaram a vocês que viveram aqui, nem que foram forçados a partir, nem qualquer outro detalhe da sua desafortunada história. Eles nunca contaram a história deles inteira.”
“Então deixe-nos ler esse livro”, disse Klaus, “para que possamos descobrir nós mesmos.”
Ishmael balançou a cabeça.
“Vocês não entendem”, disse ele, frase que o Baudelaire do meio nunca gostou que lhe dissessem. “Seus pais não lhes contaram essas coisas porque queriam protegê-los, assim como esta macieira protege os itens no arboreto contra as frequentes tempestades da ilha, assim como eu protejo a colônia contra a complicada história do mundo. Pais sensatos jamais deixariam que seus filhos lessem sequer o título desta crônica triste e assustadora, quando em vez disso pudessem mantê-los longe da perfídia do mundo. Agora que vocês vieram parar aqui, não querem respeitar a vontade deles?” Ele fechou o livro de novo e levantou-se, olhando fixamente para os três Baudelaire, um por um. “Só porque seus pais morreram”, disse ele mansamente, “não quer dizer que eles os desapontaram. Não se vocês ficarem aqui e levarem a vida que eles queriam que vocês levassem”.
Violet pensou novamente em sua mãe, trazendo a xícara de chá de anis-estrelado naquela noite agitada.
“Você tem certeza de que é isso que nossos pais iriam querer?”, perguntou ela, sem saber se poderia confiar na resposta.
“Se eles não quisessem mantê-los seguros”, disse ele, “teriam contado tudo a vocês, para que pudessem acrescentar mais um capítulo a essa desventurada história.” Ele colocou o livro de volta na poltrona de leitura e pôs o anel na mão de Violet. “Vocês pertencem a este lugar, irmãos Baudelaire, a esta ilha, sob os meus cuidados. Vou dizer aos ilhéus que vocês mudaram de ideia e que estão abandonando o seu passado perturbador.”
“Eles vão apoiá-lo?”, perguntou Violet, pensando em Erewhon e Finn, e o plano delas para começar o motim no desjejum.
“É claro que vão”, disse Ishmael. “A vida que levamos aqui na ilha é melhor do que a perfídia do mundo. Deixem o arboreto comigo, crianças, e poderão se juntar a nós para o desjejum.”
“E cordial”, disse Klaus.
“Sem maçãs”, disse Sunny.
Ishmael deu às crianças um último aceno de cabeça e as levou para cima através do vão nas raízes da árvore, apagando as luzes ao passar. Os Baudelaire saíram para o arboreto, e voltaram-se para trás a fim de olhar pela última vez para o espaço secreto. À luz pálida, eles só podiam distinguir as formas da Víbora Incrivelmente Mortífera, que coleou por cima do livro de lugar-comum de Ishmael e os seguiu para o ar matinal. O sol filtrou-se através da sombra da enorme macieira e luziu sobre as letras de ouro na lombada do livro. Os irmãos se perguntaram se as letras tinham sido gravadas ali pelos seus pais, ou talvez pelo autor anterior do livro de lugar-comum, ou o autor antes desse, ou o autor antes desse. Eles se perguntaram quantas histórias continha a história estranhamente intitulada, quantas pessoas tinham olhado para as letras de ouro antes de folhear os crimes, desatinos e desventuras anteriores, acrescentando enfim mais dos seus próprios, como as finas camadas de uma cebola. Caminhando para fora do arboreto, liderados pelo seu facilitador de pés de barro, os órfãos Baudelaire se perguntaram sobre a desventurada história deles, a de seus pais e a de todos os outros náufragos que tinham ido parar nas praias daquela ilha, acrescentando capítulo após capítulo às Desventuras em Série.

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