sábado, 3 de setembro de 2016

Capítulo cinco


Quando se é convidado para jantar, especialmente com pessoas que você não conhece muito bem, é sempre útil ter algum assunto na ponta da língua, uma expressão que aqui significa “ter uma frase interessante para dizer em voz alta a fim de estimular as pessoas a falar”. Embora ultimamente tenha sido cada vez mais difícil comparecer a jantares sem que a noite acabe em tiroteio ou tapioca, mantenho uma lista de frases de abertura boas e ruins no meu livro de lugar-comum, a fim de evitar silêncios embaraçosos à mesa. “Quem gostaria de ver a coleção de fotografias de minhas férias?”, por exemplo, é uma frase de abertura muito pobre, e provavelmente fará seus colegas convivas dar de ombros em vez de falar, ao passo que boas frases de abertura, como “O que será que leva um homem a virar incendiário?”; “Por que será que tantas histórias de amor verdadeiras terminam em tragédia e desespero?”; e “Madame diLustro, creio ter descoberto sua verdadeira identidade!”, podem provocar discussões, brigas e acusações, tornando o jantar muito mais divertido. Quando Klaus Baudelaire anunciou que tinha descoberto a localização do açucareiro, foi uma das melhores frases de abertura da história dos jantares, porque todos a bordo do Queequeg começaram a falar ao mesmo tempo, e o jantar não tinha sequer sido servido.
“Positivo?”, berrou o capitão Andarré. “Você descobriu para onde a maré o levou? Positivo? Mas você acabou de dizer que não sabia! Positivo! Você disse que ficou confuso com as cartas náuticas e aquele oval assinalado como ‘G.G.’! Positivo! E ainda assim você descobriu! Positivo! Você é um gênio! Positivo! Você é um sabichão! Positivo! Você é um rato de biblioteca! Positivo! Você é brilhante! Positivo! Você é sensacional! Positivo! Se encontrar o açucareiro, eu deixo você se casar com Fiona!”
“Padrasto!”, exclamou Fiona, corando atrás dos óculos triangulares.
“Não se preocupe”, retrucou o capitão, “também vamos achar um marido para Violet! Positivo! Talvez encontremos seu irmão, há tanto perdido, Fiona! Ele está muito mais velho, é claro, e está desaparecido há anos, mas, se Klaus foi capaz de localizar o açucareiro, provavelmente poderá encontrá-lo! Positivo! Ele é um homem charmoso, portanto você vai acabar se apaixonando por ele, Violet, e então poderíamos ter um casamento duplo! Positivo! Bem aqui no salão principal do Queequeg! Positivo! Eu ficaria feliz em oficiar! Positivo! Tenho uma gravata-borboleta guardada para uma ocasião especial!”
“Capitão Andarré”, disse Violet, “vamos tentar nos ater ao assunto do açucareiro.” Ela não acrescentou que não tinha interesse em se casar por um bom tempo, especialmente depois que o conde Olaf tentou se casar com ela em um de seus primeiros planos.
“Positivo!”, bradou o capitão. “É claro! Naturalmente! Positivo! Conte tudo para nós, Klaus! Comeremos enquanto você fala! Positivo! Sunny! Cuque! Sirvam o sopão!”
“O sopão está servido!”, anunciou Phil, saindo apressado da cozinha com duas tigelas fumegantes de sopa grossa. A mais jovem dos Baudelaire veio atrás dele. Sunny ainda era um pouco jovem demais para carregar comida quente sozinha, mas tinha encontrado um moedor de pimenta, e deu a volta na mesa para oferecer pimenta moída na hora para quem quisesse.
“Porção dupla de pimenta para mim, Sunny!”, bradou o capitão Andarré, arrebatando a primeira tigela de sopão, apesar de ser mais educado deixar os convidados serem servidos primeiro. “Uma bela tigela de sopão! Uma porção dupla de pimenta! A localização do açucareiro! Positivo! Isso vai arrancar as cracas do meu couro! Positivo! Estou muito contente por ter baldeado vocês Baudelaire para fora do arroio!”
“Eu também”, disse Fiona, sorrindo com timidez para Klaus.
“Eu não poderia estar mais contente”, disse Phil, servindo mais duas tigelas de sopão. “Pensei que nunca mais iria vê-los, e aqui estão! Todos os três cresceram lindamente, apesar de terem sido perseguidos o tempo todo por um vilão malvado e terem sido acusados de inúmeros crimes que não cometeram!”
“Vocês fizeram uma jornada excruciante”, disse Fiona, usando uma palavra que aqui significa “extrema e desesperadamente penosa”.
“Receio que possamos ter outra jornada excruciante pela frente”, disse Klaus. “Quando o capitão Andarré falou sobre o filósofo que disse que a vida não passa de sombras em uma caverna, me dei conta do que devia ser aquele oval.”
“Um filósofo?”, perguntou o capitão. “Isso é impossível! Positivo!”
“Absurdio”, disse Sunny, o que queria dizer: “Filósofos vivem em picos de montanhas ou em torres de marfim, e não debaixo do mar”.
“Acho que Klaus quis dizer uma caverna”, disse depressa Violet, em vez de traduzir. “O oval deve indicar a entrada de uma caverna.”
“Começa bem ao lado da Aquáticos Anwhistle”, disse Klaus, apontando para a carta. “As correntes do oceano teriam levado o açucareiro para a entrada, e então as correntes da caverna o teriam arrastado para dentro, até bem fundo.”
“Mas a carta só mostra a entrada da caverna”, disse Violet. “Não sabemos como é lá dentro. Eu gostaria que Quigley estivesse aqui. Com seus conhecimentos sobre mapas, ele poderia saber como é formada a caverna.”
“Mas Quigley não está aqui”, disse Klaus gentilmente. “Tenho a impressão de que viajaremos por águas não cartografadas.”
“Isso vai ser divertido”, disse Phil.
Os Baudelaire se entreolharam. A expressão “águas não cartografadas” não se refere apenas a locais subterrâneos que não aparecem nas cartas náuticas. É uma frase que pode descrever qualquer região desconhecida, como uma floresta em que todos os exploradores se perderam, ou o próprio futuro de uma pessoa, que não se pode conhecer antes do tempo. Você não precisa ser um otimista como Phil para achar que águas não cartografadas são divertidas. Eu mesmo já passei muitas tardes agradáveis explorando as águas não cartografadas de um livro que não li, ou um esconderijo que descobri em um guarda-louça – uma palavra que aqui significa “peça de mobiliário de sala de jantar, com prateleiras e gavetas para guardar diversos objetos úteis”. Mas os Baudelaire já tinham passado um bocado de tempo explorando águas não cartografadas, desde as águas não cartografadas do Lago Lacrimoso, com suas aterrorizantes criaturas, até as águas não cartografadas dos segredos encontrados na Biblioteca de Registros do Hospital Heimlich, e as águas não cartografadas da malevolência do conde Olaf, que eram mais profundas e mais escuras que toda a água do mar. Depois de tantas viagens não cartografadas, os órfãos Baudelaire não estavam com disposição para explorar águas não cartografadas de nenhuma espécie, e não podiam compartilhar do entusiasmo otimista de Phil.
“Não será a primeira vez que o Queequeg navegará por águas não cartografadas”, disse o capitão Andarré. “Positivo. A maior parte desse mar foi explorada pela primeira vez por submarinos C.S.C.”
“Nós pensávamos que C.S.C. queria dizer Corporação pelo Salvamento das Chamas”, disse Violet. “Por que um corpo de bombeiros haveria de passar tanto tempo embaixo d’água?”
“C.S.C. não é só um corpo de bombeiros”, disse o capitão, mas sua voz estava muito mansa, como se ele estivesse falando mais consigo mesmo do que com a tripulação. “Positivo, começou assim. Mas os voluntários estavam interessados em muitas coisas! Eu fui um dos primeiros a me apresentar como voluntário para a domesticação de peixes na Criação Secreta de Cardumes. Essa foi uma das missões da Aquáticos Anwhistle, positivo! Passei quatro longos anos treinando salmões para nadar corrente acima e procurar incêndios florestais. Isso foi quando você era muito jovem, Fiona, mas seu irmão trabalhou ao meu lado. Você devia tê-lo visto escamoteando minhocas extras para os seus peixes favoritos! Positivo! O programa foi um modesto sucesso! Positivo! Mas então veio o Café Salmonela e levou embora toda nossa frota. Os irmãos Snicket lutaram o melhor que puderam. Positivo! Os historiadores chamaram isso de A Batalha Snicket dos Facões! Positivo! Mas como escreveu o poeta: ‘Garçons demais provaram ser traidores’.”
“Os irmãos Snicket?”, Klaus perguntou depressa.
“Positivo”, disse o capitão. “Três deles, cada qual mais nobre que o outro. Positivo! Kit Snicket ajudou a construir este submarino! Positivo! Jacques Snicket provou que o Incêndio dos Jardins Reais foi premeditado! Positivo! E o terceiro irmão, com os saguis...”
“Vocês Baudelaire conheciam Jacques Snicket, não é?”, perguntou Fiona, que não se vexava de interromper o padrasto.
“Muito pouco”, disse Violet, “e recentemente nós encontramos uma mensagem dirigida a ele. Foi como descobrimos sobre o encontro de quinta-feira, no último santuário.”
“Ninguém escreveria uma mensagem para Jacques”, disse o capitão Andarré. “Positivo! Jacques está morto!”
“Odartsigam!”, disse Sunny, e seus irmãos rapidamente explicaram que ela queria dizer: “As iniciais eram J.S.”.
“Deve ser algum outro J.S.”, disse Fiona.
“E por falar em iniciais misteriosas”, disse Klaus, “eu gostaria de saber o que significa G.G. Se nós soubéssemos como se chama a caverna, poderíamos ter uma ideia melhor de nossa jornada.”
“Positivo!”, disse o capitão Andarré. “Vamos adivinhar! Grande Garganta! Positivo! Granito Grená! Positivo! Geleira Glamurosa! Positivo! Game Gaiato! Positivo! Gulash Glorioso! Positivo! Governo Gótico! Positivo! Gengivite Gozadora! Positivo! Garota Graciosa levantando da mesa! Positivo!”
De fato, a enteada do capitão se levantara, limpara a boca em um guardanapo bordado com um retrato de Herman Melville e fora até um guarda-louça encaixado em um canto remoto. Fiona abriu um armário e revelou algumas prateleiras atulhadas de livros. “Ontem comecei a ler uma nova aquisição da minha biblioteca micetológica”, disse ela, na ponta dos pés para alcançar a prateleira. “Acabo de me lembrar de ter lido algo que pode vir a calhar.”
Atônito, o capitão cofiou o bigode. “Você e esses cogumelos bolorentos!”, disse ele. “Achei que não iria viver para vê-la fazer bom uso de seus estudos micetológicos”, e lamento dizer que ele estava certo.
“Vejamos”, disse Fiona, folheando um livro grosso intitulado Cogumelos e suas minúcias, uma palavra que aqui significa “detalhes obscuros”. “Estava no sumário, que é tudo o que li até agora. Mais ou menos no meio.” Ela trouxe o livro para a mesa e correu o dedo pelos itens do sumário, enquanto os Baudelaire se inclinavam para ver melhor. “Capítulo trinta e seis, ‘A levedura das feras’. Capítulo trinta e sete, ‘Comportamento dos cogumelos Morei em uma sociedade livre’. Capítulo trinta e oito, ‘Mofos fungíveis, fungos mofadores’. Capítulo trinta e nove, ‘Valas fúngicas abertas à visitação’. Capítulo quarenta, ‘A Gruta Gorgônea’ – aqui está!”
“Gruta?”, perguntou Sunny.
“‘Gruta’ é um outro nome para ‘caverna’“, explicou Klaus, enquanto Fiona abria o livro no capítulo quarenta.
“A Gruta Gorgônea’“, leu ela, ‘“localizada na propinquidade da Aquáticos Anwhistle, possui apropriadamente uma denominação sombria que, com raízes na mitologia grega, descreve uma furna cônica fecunda naquele que é, quiçá, o bicho-papão de todo o panteão micetológico.’”
“Positivo! Eu bem que falei que esse livro era difícil demais!”, disse o capitão Andarré. “Uma criancinha não pode decifrar esse tipo de vocabulário.”
“É um estilo de prosa muito complicado”, admitiu Klaus, “mas acho que sei o que significa. A Gruta Gorgônea ganhou esse nome em homenagem a alguma coisa da mitologia grega.”
“Uma górgone”, disse Violet. “Como aquela mulher com serpentes no lugar de cabelos.”
“Ela podia transformar as pessoas em pedra”, disse Fiona.
“Devia ser uma boa pessoa por trás das aparências”, disse Phil.
“Positivo! Acho que frequentei a escola com uma mulher assim!”, disse o capitão.
“Eu não acho que ela era uma pessoa real”, disse Klaus. “Acho que era legendária. O livro diz que é apropriado a furna ter sido chamada pelo nome de um monstro legendário, porque existe uma espécie de monstro que vive em uma caverna: um bicho-papão.”
“Papão?”, perguntou Sunny.
“Um bicho-papão pode ser qualquer tipo de monstro”, disse Klaus. “Poderíamos chamar o conde Olaf de bicho-papão, se tivéssemos vontade.”
“Eu prefiro não chamá-lo de jeito nenhum”, disse Violet.
“Esse bicho-papão é algum tipo de fungo”, disse Fiona, e continuou a ler o Cogumelos e suas minúcias. ‘“O Mycelium Medusoide possui uma estratégia conducente singular de alternar as fases crescente e minguante: a princípio um breve ciclo latente em que o micélio é quase invisível, e a subsequente floração precipitada em talos e píleos salpicados, de veneno tão potente que é uma sorte haver a gruta para servir de local de quarentena.’“
“Eu não entendi toda essa terminologia científica”, disse Klaus.
“Eu entendi”, disse Fiona. “Um cogumelo tem três partes principais. Uma é o píleo, ou chapéu, que tem a forma de um guarda-chuva, e a segunda é o talo, que sustenta o píleo. Essas são as partes que se podem ver.”
“Existe uma parte do cogumelo que não se pode ver?”, perguntou Violet.
“Chama-se micélio”, respondeu Fiona. “É como um feixe de fios que se ramificam e se espalham debaixo da terra. Alguns cogumelos têm micélios que se estendem por quilômetros.”
“Como se escreve ‘Mycelium’?”, perguntou Klaus, enfiando a mão em seu bolso à prova d’água. “Quero anotar isso no meu livro de lugar-comum.”
Fiona apontou a palavra na página. “O Mycelium Medusoide alterna as fases crescente e minguante”, disse ela, “o que quer dizer que os píleos e os talos brotam do micélio e depois murcham, e então brotam de novo. É algo parecido com afirmar que não dá para saber que os cogumelos estão lá antes que eles surjam do solo outra vez.”
Os Baudelaire imaginaram um grupo de cogumelos brotando do chão sob seus pés, e se sentiram meio enjoados, como se antecipassem o apavorante encontro que logo iriam ter com aqueles fungos terríveis. “Parece assustador”, disse Violet.
“Fica ainda pior”, disse Fiona. “Os cogumelos são extremamente venenosos. Escutem isto: ‘Como diz o poeta: De um único esporo é tão cruel o poder/ Que em menos de uma hora tu podes morrer. Um esporo é como uma semente: se tiver um lugar para crescer, se tornará um outro micélio. Mas se alguém o comer, ou até inspirá-lo, ele pode causar a morte.”
“Em menos de uma hora?”, disse Klaus. “É um veneno de ação rápida.”
“A maior parte dos venenos fúngicos tem antídoto”, disse Fiona. “O veneno de um fungo letal pode ser a fonte de alguns remédios maravilhosos. Eu mesma já estive trabalhando em alguns. Mas este livro diz que é uma sorte haver a gruta para servir de local de quarentena.”
“Quarquê?”, perguntou Sunny.
“Quarentena é quando uma coisa perigosa é isolada, para que o perigo não se espalhe”, explicou Klaus. “Como o Mycelium Medusoide está em águas não cartografadas, as pessoas envenenadas foram muito poucas. Se alguém trouxesse um esporo que fosse para a terra seca, quem sabe o que iria acontecer?”
“Nós não vamos descobrir!”, disse o capitão Andarré. “Não vamos levar esporo nenhum! Positivo! Vamos só agarrar o açucareiro e dar o fora! Positivo! Vou traçar um curso agora mesmo!”
O capitão levantou-se de um pulo e começou a escalar a escada de corda para os controles do Queequeg. “Você tem certeza de que devemos prosseguir com nossa missão?”, perguntou Fiona ao padrasto, fechando o livro. “Isso parece ser muito perigoso.”
“Perigoso? Positivo! Perigoso e assustador! Positivo! Assustador e difícil! Positivo! Difícil e misterioso! Positivo! Misterioso e incômodo! Positivo! Incômodo e arriscado! Positivo! Arriscado e nobre! Positivo!”
“Imagino que o fungo não poderá nos fazer mal se estivermos dentro do submarino”, disse Phil, esforçando-se para continuar otimista.
“Mesmo que pudesse!”, bradou o capitão, em pé no alto da escada de corda, gesticulando dramaticamente enquanto proferia um discurso de apaixonada eloquência, uma expressão que aqui significa “um discurso que os Baudelaire acharam bastante convincente, mesmo não concordando com todas as palavras”. “A quantidade de perfídia no mundo é enorme!”, bradou. “Positivo! Pensem nas embarcações que vimos na tela do sonar! Pensem no enorme submarino do conde Olaf, e no ainda mais enorme que o afugentou! Positivo! Há sempre alguma coisa mais enorme e mais aterrorizante em nosso encalço! Positivo! E tantos de nossos nobres submarinos se foram! Positivo! Você acha que as roupas de Herman Melville são os únicos uniformes nobres do mundo? Havia voluntários com P. G. Wodehouse nos uniformes, e Carl Van Vechten. Havia Comyns, e Cleary, e Archy, e Mehitabel. Mas agora os voluntários são raros! Portanto, o melhor que podemos fazer é uma única coisinha nobre! Positivo! Como resgatar o açucareiro da Gruta Gorgônea, não importa quão funesto possa parecer! Positivo! Lembrem-se de minha filosofia de vida! Aquele que vacila está perdido!”
“Ou aquela!”, disse Fiona.
“Ou aquela”, concordou o capitão. “Positivo?”
“Positivo!”, exclamou Violet.
“Positivo!”, gritou Klaus.
“Positivo!”, guinchou Sunny.
“Hurra!”, berrou Phil.
Lá de cima, o capitão Andarré encarou Phil, contrariado. Preferia que ele tivesse dito “positivo!”, como todo mundo. “Cuque!”, ordenou ele. “Cuide dos pratos! E o resto de vocês, por favor vão tirar uma pestana! Positivo!”
“Uma pestana?”, perguntou Violet.
“Positivo! Quer dizer ‘dormir’!”, explicou o capitão. “Dormir!”
“Nós sabemos exatamente o que quer dizer”, disse Klaus. “Só ficamos surpresos por ter de dormir durante a missão.”
“Vamos levar algum tempo para chegar à caverna!”, disse o capitão. “Quero vocês quatro bem descansados para o caso de serem necessários! Agora recolham-se a seus alojamentos! Positivo!”
Uma das verdades mais amargas da vida é que muitas vezes a hora de dormir chega bem quando as coisas estão ficando interessantes. Os Baudelaire não estavam especialmente dispostos a ficar rolando na cama nos alojamentos do Queequeg – uma expressão que aqui significa “um tipo de quarto que costuma ser desconfortável” – enquanto o submarino se aproximava cada vez mais da gruta misteriosa e de seu item imprescindível, uma expressão que aqui significa “o açucareiro, apesar de as crianças não saberem por que era tão importante”. Porém, enquanto seguiam Fiona para fora do salão principal e de volta ao corredor, passando pela placa que anunciava a filosofia de vida do capitão, e depois pela porta da sala de suprimentos e por um número incontável de tubulações metálicas gotejantes, os irmãos começaram a se sentir muito cansados, e quando Fiona abriu uma porta para revelar um quarto pequeno com iluminação verde, atulhado de beliches vergados, as três crianças já estavam bocejando. Talvez fosse por causa do dia longo e exaustivo, que começara no pico gelado do Monte Fraught, mas quando Violet deitou na cama, não refletiu sobre uma só ideia mecânica como costumava fazer antes de dormir. Klaus mal colocou os óculos em cima de uma pequena mesa-de-cabeceira e despencou na cama, uma expressão que aqui significa “caiu no sono sem refletir sobre um só livro que tivesse lido recentemente”. Sunny se enrolou em cima de um travesseiro e não desperdiçou um só momento planejando novas receitas – de preferência entradas, que eram menos empapadas do que um sopão, pois ela ainda gostava de morder coisas como quando era bebê – antes de começar a sonhar. E até Fiona, cujos hábitos na hora de dormir me são menos familiares que os dos Baudelaire, pôs seus óculos ao lado dos de Klaus e adormeceu num instante. O motor ronronante do Queequeg os fez dormir cada vez mais profundamente durante várias horas, e teriam dormido muito mais se não tivessem sido despertados por um terrível – e terrivelmente familiar – ruído. Era um som alto, estridente e enervante, como o de unhas raspando contra uma lousa, e os Baudelaire quase foram derrubados da cama quando o submarino inteiro se sacudiu com estrépito.
“O que foi isso?”, perguntou Violet.
“Batemos em alguma coisa”, disse Fiona, soturna, agarrando seus óculos com uma das mãos e o capacete de mergulho com a outra. “É melhor a gente ver qual é a situação.”
Os Baudelaire balançaram a cabeça concordando e correram dos alojamentos de volta ao corredor. Um preocupante ruído de água jorrando vinha de algumas tubulações, e Klaus teve de pegar Sunny no colo para passar por cima de diversas poças grandes.
“Será que o submarino está implodindo?”, perguntou Klaus.
“Logo vamos saber”, disse Fiona, e estava certa. Em poucos momentos ela levou os Baudelaire de volta ao salão principal, onde Phil e o capitão, em pé junto à mesa, olhavam fixamente para o negrume vazio do outro lado da vigia. Ambos estavam com expressões austeras, embora Phil tentasse sorrir.
“Foi bom vocês darem uma descansada”, disse o otimista. “Uma aventura de verdade os aguarda.”
“Fico contente por terem trazido seus capacetes”, disse o capitão Andarré. “Positivo!”
“Porquê?”, perguntou Violet. “O Queequeg está muito danificado?”
“Positivo!”, disse o capitão. “Quero dizer, não. O submarino está danificado, mas vai aguentar – por enquanto. Chegamos à Gruta Gorgônea há cerca de uma hora, e consegui manobrar para dentro sem problemas. Mas a caverna foi ficando cada vez mais estreita à medida que nos dirigíamos mais para dentro.”
“O livro dizia que a furna era cônica”, disse Klaus. “O que significa que ela tem a forma de um cone.”
“Positivo!”, disse o capitão. “Entramos pela extremidade larga do cone, mas agora está estreito demais para passar com o submarino. Se quisermos resgatar o açucareiro, teremos de usar algo menor.”
“Periscópio?”, perguntou Sunny.
“Não”, respondeu o capitão. “Uma criança.”

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