domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 9

Eu me debati e engoli muita água enquanto segurava os dedinhos afiados que apertavam minha garganta.
— Não machuque Becca — sussurrou uma voz bem familiar ao meu ouvido, quando consegui subir à superfície para uma respirada gloriosa, porém curta demais. — Nunca mais chegue perto dela!
Não havia nada que eu pudesse responder. Mesmo que houvesse, eu não conseguia falar. Ela comprimia tanto minha garganta que eu não conseguia emitir nenhum som, nem mesmo enfiar meus dedos entre os dela para afrouxar o aperto. Além disso, ela havia me levado para o fundo da piscina, e seu corpo – que não deveria ter peso – de repente ficou pesado como uma geladeira.
E eu fiquei como um cachorro abandonado que alguém cruel decidiu amarrar à geladeira, antes de jogá-la no fundo de um lago.
Tudo que pude fazer foi lutar para voltar à superfície contra aquele peso que me puxava para baixo sem dó. Quando finalmente consegui chegar ao ar puro, em vez de respirar, só consegui tossir o cloro que eu havia engolido e que queimava minha garganta.
Ela continuou segurando meu pescoço como se pesasse mil quilos. Como era possível? Ela era do tamanho de uma boneca, e um fantasma, ainda por cima. Para uma pessoa cujo nome significava algo tão etéreo quanto a luz, ela não era nada leve.
Certa vez, em minhas buscas por exercícios aeróbicos mais eficazes que tomassem menos tempo, li que ir do fundo até a superfície d’água carregando bastante peso é uma boa solução. É parte do treinamento da Marinha; eles nadam carregando um kit de mergulho em cima da cabeça.
Pareceu exagerado na época, mas agora percebi que era isso que eu devia estar fazendo desde o começo. Quem diria que treinamentos militares e estagiárias teriam tanto em comum!
Quando me dei conta, a menina me segurava no ar, como um salmão preso a uma vara de pescar. Fiquei pendurada pelo pescoço, ainda lutando para soltar os dedos dela e respirar. Eu me perguntei, lá na parte de meu cérebro que ainda conseguia registrar os pensamentos, como aquela cena seria vista por algum vizinho que resolvesse dar uma olhada na piscina. A pessoa não conseguiria ver a PMNO que estava segurando meu pescoço acima d'água. Será que achariam que eu estava fazendo algum tipo de nado sincronizado esquisito? Suze Simon, sereia amadora. Talvez eles batessem palmas e me elogiassem depois... se eu sobrevivesse.
Ela me levou ao fundo da piscina de novo, e eu me perguntei como pude ser tão metida – e- burra – a ponto de achar que ela não teria me seguido até em casa.
E não apenas me seguido até em casa, mas me visto saindo do carro, dando boa noite aos vizinhos e entrando em casa para checar minhas mensagens.
Claro, meu apartamento era à prova de fantasmas.
No entanto, nunca pensei em salpicar uma camada protetora de sal em tomo da piscina. Essa nem era do tipo de piscina ecológica salinizada que Andy vive recomendando no 'Em Casa com Andy”. Era cheia do tipo de cloro perigoso para humanos – e com um gosto horrível – além de outros produtos químicos que queimavam minha garganta naquele momento.
— Lucia — falei assim que finalmente consegui inalar um pouco de ar. — Acho que você não está entendendo. Eu estou do seu lado.
— Não, você não está entendendo — sussurrou ela ao meu ouvido, as unhas arranhando a pele de minhas bochechas quase como se fôssemos amantes. Nem um pouco bizarro. — Becca é minha. Minha amiga. Ninguém nunca mais vai machucar ela.
Ok, ok, quis responder. Já entendi.
Mas não havia como falar mais nada porque a dor era imensa. Meus pulmões estavam cheios d’água, meus cabelos cobriam todo o meu rosto (por que não escutei Christophe e botei a toca de natação?), e ela ainda estava segurando minha garganta.
Ela havia me arrastado para longe das bordas da piscina, então eu não tinha onde me segurar – a não ser água e mais água – nada com que acertá-la, nem nada onde eu pudesse tomar impulso. Onde estavam minhas botas quando eu precisava delas? Ah, sim, com a Maximillian28.
Só havia uma coisa que achei que podia fazer, que era apertar o pescoço dela.
Precisava que ela afrouxasse aquele aperto de ferro que cortava meu oxigênio e fazia com que as luzes ao redor da piscina ficassem cada vez mais fracas.
No entanto, meus braços estavam estranhamente pesados. Erguê-los era como levantar os pesos de cem quilos que Brad mantinha na garagem e desafiava todo mundo a levantar. Eu já havia usado energia vital demais para continuar na superfície, não tinha mais como dar um bom soco. Dar um soco no rosto de uma criança morta não era legal, mas eu estava começando a achar que não havia problema, considerando que aquela criança morta em particular estava sendo tão pentelha.
Mas eu ainda tinha força para segurar. Levantei os braços e fechei os dedos em torno de alguma coisa molhada e em fios. Primeiro, naquele estado de quase perda total de consciência, achei que eram algas – mas por que haveria algas na piscina de um condomínio?
Então percebi que eu havia segurado dois cachos louros dos cabelos de Lucia.
Puxar cabelo é golpe baixo – é o que crianças pequenas e mulheres bêbadas em reality shows fazem – mas minha situação era diferente. Era ela ou eu, e com certeza não ia ser eu. Eu tinha um casamento marcado com o doutor Hector “Jesse” de Silva no ano seguinte, na basílica da Missão Carmel, e não tinha intenção alguma de faltar ao evento.
Puxei com toda a força, e, para meu alívio profundo, as garras desapareceram de minha garganta. O corpinho tenaz e forte de Lucia passou por cima de mim e foi aterrissar n'água à minha frente.
Ela aterrissou de costas, então pude ver seu rosto. A expressão era impagável – surpresa total, tipo como eu vim parar aqui?
Eu teria soltado uma gargalhada caso não estivesse tão ocupada tentando não morrer.
Por alguns instantes, ficamos simplesmente boiando na parte funda da piscina – eu engasgada com a água, e a morta completamente chocada por ter sido derrotada, mesmo que temporariamente. Um espírito com tanto poder rapidamente retomaria sua energia, ao passo que eu não tinha mais nenhuma. Subestimei completamente as profundezas da raiva e de sua determinação em impedir que qualquer pessoa interferisse na vida de Becca. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo entre ela e sua hospedeira, mas fosse o que fosse, Lucia não ia deixar que ninguém as separasse.
Mesmo assim, naqueles breves segundos em que os cabelos louros nos circundavam feito uma auréola (quanta ironia), não pude conter o choque em ver o quão incrivelmente doce e vulnerável ela parecia. Ainda segurava o cavalo de pelúcia que vi mais cedo, ainda de calça e botas de montaria; parecia muito com um anjo fã de cavalos que por acaso tropeçou e caiu na piscina.
E depois tentou me afogar.
Fim de papo. Eu tinha de sair dali.
Eu me virei e comecei a nadar para longe dela com a força que me restava. Se conseguisse chegar à escada reluzente de cromo, que estava a poucas braçadas de mim, e me erguer para fora da piscina, sabia que ficaria tudo bem.
É claro que eu estava me enganando, mas precisava acreditar em alguma coisa.
Comecei a bater as pernas com vontade para alcançar a escada, e achei que fosse conseguir – embora meu coração quicasse como se estivesse prestes a explodir – quando certa mão gelada e de garras afiadas segurou meu tornozelo e tentou me puxar de volta para as profundezas cristalinas.
Não.
Então, quase ao mesmo tempo, outra mão forte, mas morna e familiar, segurou meu punho e começou a me puxar para a beirada da piscina. O que estava acontecendo? Tinha alguém tentando me salvar?
Ai, meu Deus, não. Não podia ser um de meus bons vizinhos do Condomínio Paisagem Montanha Carmel, achando que eu estava com cãibra. Lucia puxaria o vizinho para a água também, e o cara que toma conta da piscina acharia nós dois boiando com o rosto para baixo na manhã seguinte.
Será que aquele dia ainda ia piorar? Não tinha como salvar a mim e a outra pessoa também. Não me restava energia o suficiente.
— Pare — implorei, e puxei o punho. Preferia ser afogada por Lucia que deixá-la levar um cidadão inocente comigo. — Estou bem. Por favor, vá embora.
Mas o aperto em meu punho só ficou mais forte. Eu me debati enquanto tentava me manter acima da superfície. Estava sendo puxada em direções opostas por duas forças inteiramente diferentes – e descomunais – porém com a mesma determinação.
— Você não está bem, mi amada — disse uma voz grave e rouca.
Meu coração começou a bater de um jeito diferente. Jesse.
Eu o vi ajoelhado ao lado da piscina, as mãos segurando meu punho. Era difícil ler sua expressão, pois estava com as costas viradas para as luzes de segurança, mas tive a certeza de que estava furioso. A gravata e a camisa que era obrigado a usar no trabalho pareciam encharcadas.
— E sinto informar — disse ele —, mas não vou embora nunca.

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