sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 9

— Você vai conseguir suportar a verdade? — perguntou Holiday pausadamente com um olhar compreensivo.
Suportar a verdade? Acabo de ver um cara se transformar em unicórnio. As coisas poderiam ficar piores?
Segundos depois de se perguntar isso, Kylie sentiu um calafrio. E se as coisas pudessem ficar piores? Lembrou-se de Holiday dizendo que havia outras criaturas sobrenaturais além de vampiros e lobisomens, os quais, para Kylie, eram as criaturas mais horripilantes. Não que entendesse do assunto, mas, e se Holiday tivesse dito aquilo apenas para tranquilizá-la? Teria mentido?
— Vou conseguir, sim — garantiu Kylie, querendo parecer mais corajosa do que de fato era.
Mas, quando Holiday abriu a boca para falar, Kylie gritou:
— Não! — escondeu o rosto nas mãos, depois as tirou novamente fitou a líder do acampamento. — Não sei se vou conseguir.
Como poderia? Aquilo era demais. Kylie mordeu o lábio inferior com tanta força que ele começou a sangrar.
— Quer dizer, se você vai dizer que estou morta, que preciso começar a gostar de sangue e não posso comer mais nem sushi, não vou suportar. Não vou suportar também se me disser que logo estarei uivando para a lua e devorando os gatos dos vizinhos, tendo de passar o resto da vida me depilando para vestir um biquíni. Gosto de gatos e já tentei me depilar uma vez; dói pra caramba — passou a mão por entre as coxas, lembrando-se do episódio.
Holiday deu uma gargalhada, mas Kylie estava falando sério. A depilação realmente tinha doído e, desde aquele momento, nunca mais deixou Sara convencê-la a fazer nada parecido.
— Você acha que vou suportar? — perguntou, com medo da resposta.
— Honestamente, não a conheço muito bem, mas confio no diagnóstico da Dra. Day.
— O que minha psicóloga tem a ver com isso? — perguntou Kylie, intrigada.
— Sua psicóloga, como você a chama, foi quem a recomendou para nós. Ela reconheceu seus dons e é meio fada, como você sabe.
Kylie tentou processar a informação.
— Estou aqui por causa dela? Aquela mulher é... — inclinou-se para Holiday, como se, sussurradas, suas palavras parecessem menos grosseiras.  — Ela não vale nem o que come. — Pousou as mãos na carteira. — Não vou mentir pra você. Ela não passa de uma sonsa.
Holiday estremeceu.
— Infelizmente, todos os sobrenaturais parecem um pouco estranhos vistos da perspectiva normal. A Dra. Day falou muito bem de você.
Kylie sentiu uma pontada de culpa, o que talvez fosse a intenção da líder do acampamento. Holiday pousou as mãos sobre as de Kylie.
— Eu também não vou mentir pra você, Kylie. A verdade... A verdade é que não sabemos o que você é.
Kylie endireitou-se na carteira, remoendo aquela parcela de informação, enquanto Holiday permanecia em silêncio, dando a ela tempo para se acostumar à ideia. Mas Kylie não queria se acostumar. Droga, não! Queria, é claro, uma opinião positiva sobre o que estava acontecendo.
— Você não percebe? Isso é porque não sou coisa nenhuma. Sou apenas eu. Eu normal.
Holiday balançou a cabeça.
— Você tem dons, Kylie, que podem ter surgido de várias formas sobrenaturais. Quase sempre, são hereditários.
— Hereditários? Nenhum dos meus pais é... Sobrenatural.
Holiday não parecia convencida.
— Em alguns casos raros, uma geração é saltada e não tem dons. Você pode ser uma fada ou uma descendente dos deuses. Pode ter dons...
— Deuses? Dons? Que dons?
Holiday limpou a garganta e seus olhos de novo contemplaram Kylie cheios de compreensão.
— Você pode conversar com os mortos. Às vezes, dormindo; outras vezes, acordada.
As mãos de Kylie ficaram quentes, mas seu coração gelou.
— Com os mortos? — seu cérebro começou a filtrar imagens mentais, todas elas do soldado Dude, visto que não conseguia se lembrar de nada de seus terrores noturnos. — Não, você está errada. Nunca conversei com eles. Nunca, jamais! Nem uma palavra. Mamãe sempre me disse para não falar com estranhos e eu sempre obedeci.
— Mas os viu, não viu?
Lágrimas afloraram de novo aos olhos de Kylie.
— Apenas um. E não sei bem se é ou não um fantasma. Minha mãe, é claro, nunca conseguiu vê-lo, mas minha mãe... Está sempre em seu mundinho particular.
No entanto, sua vizinha também cruzava com o soldado Dude e nem sequer reparava nele. Ah, droga! Droga!
— É assustador, eu sei — disse Holiday. — Lembro-me bem das minhas primeiras experiências desse tipo.
Kylie afastou suas mãos das de Holiday.
— Você... Você tem o mesmo... Dom?
Holiday assentiu e olhou à esquerda. Kylie examinou o recinto.
— Mas não há ninguém aqui, certo?
Então, sentiu. Aquele frio misterioso nos ossos, que a vinha incomodando com tanta frequência ultimamente.
— Eles estão sempre aqui, Kylie. Acontece que você se desliga.
— Posso fazer isso? — perguntou Kylie. — Posso ficar o tempo todo desligada?
Holiday hesitou.
— Algumas pessoas podem. Mas trata-se de um dom, Kylie, e não usá-lo é um desperdício.
— Desperdício? Ah, não, eu não pedi esse dom — as palavras ecoaram dentro de sua cabeça e ela compreendeu que estava praticamente aceitando a realidade de tudo aquilo. Não queria de modo algum que fosse real. Não queria aceitar esse dom ou lhe dar crédito. — Não acredito que eu tenha realmente esse tal dom. Quer dizer, já ouvi falar de pessoas normais que veem fantasmas o tempo todo.
— É verdade — concordou Holiday. — Alguns fantasmas acumulam tanta energia que até uma pessoa normal consegue vê-los.
— Então é isso que vem acontecendo comigo. Estou lidando com um fantasma super energizado. Nada mais, porque sou normal.
— Não é o que mostram as evidências.
Kylie prendeu a respiração:
— Que evidências?
Holiday levantou-se e fez sinal para que Kylie a seguisse. Kylie sentia os joelhos trêmulos, mas obedeceu. Holiday foi falando enquanto caminhavam.
— Primeiro, há o fato de você ser ilegível.
— Ilegível? — estranhou Kylie, entrando com Holiday num pequeno escritório.
— Todos os sobrenaturais conseguem ler a mente das outras pessoas. Lendo humanos, notamos um padrão genérico. Lendo outros sobrenaturais, geralmente conseguimos saber o que são. Isto é, quando eles não nos bloqueiam, coisa que quase nunca fazem por questão de cortesia.
— Está se referindo àquela coisa de franzir as sobrancelhas? — quis saber Kylie.
— Você não perde nada, hein? — sorriu Holiday. — Acontece que quem tem o dom de conversar com fantasmas é muitas vezes lento para ler outras pessoas e difícil de ser lido. Não queremos parecer rudes, mas nossas mentes não funcionam no mesmo plano que o dos demais. Com a prática, porém, conseguimos nos abrir o bastante para não dar uma impressão de superioridade. Vejo, por seu padrão e pelo fato de não ser legível, que você no é meramente humana. E também há esta evidência.
A líder do acampamento abriu uma gaveta de arquivo. De uma pasta com o nome de Kylie, tirou um papel e o entregou a ela. Era uma cópia de sua certidão de nascimento. Em nenhum lugar estava escrito que ela era sobrenatural ou via fantasmas. Ergueu os olhos para Holiday, com a cabeça cheia de perguntas. A mulher devia ter lido seus pensamentos ou interpretado sua expressão, pois se adiantou:
— Você nasceu à meia-noite, Kylie.
— E daí? Isso significa alguma coisa?
Holiday deslizou os dedos pelas pastas.
— Todos aqui nasceram à meia-noite.
O coração de Kylie pulsou mais forte. Acompanhou a unha esmaltada de vermelho de Holiday deslizar sobre as etiquetas das pastas, que traziam os nomes em letras maiúsculas. Nenhum daqueles nomes lhe dizia nada até que leu: Lucas Parker.
Não que Lucas Parker tivesse alguma importância para ela. O nome dele chamou a atenção apenas porque era um dos poucos que conhecia ali. Outro calafrio percorreu sua espinha. Kylie virou-se e quase perdeu o fôlego quando o viu. Não Lucas: o soldado Dude. Estava ali de pé, mais perto do que nunca, fitando-a com aqueles olhos gélidos, sem brilho.


Menos de dez minutos depois, Kylie sentava-se para o almoço. Sozinha. Somente ela, Holiday, a outra líder do acampamento e os dois homens ocupavam o refeitório. A cada instante, a mente de Kylie tentava entender o que havia acontecido — do unicórnio ao fato de ela não ser humana. Mas não conseguia se concentrar.
Negue tudo. Negue tudo — as palavras vibravam como música em sua cabeça.
Vozes na frente do refeitório a fizeram erguer os olhos. Holiday tinha recebido uma chamada de Sky e, como de qualquer maneira já era a hora do almoço, convidou Kylie para acompanhá-la, avisando que mostraria sua cabana logo depois de comerem.
O olhar de Holiday pousou em Kylie. Kylie olhou para seu celular, fingindo que estava bem à vontade, enquanto Holiday e a outra líder do acampamento, Sky, permaneciam à porta, conversando com os dois sujeitos de terno preto que haviam aparecido por lá antes.
Kylie não podia ouvir a conversa, mas, fosse qual fosse, sem dúvida não parecia nada de bom. Observou-as de novo, de testa franzida. Holiday e Sky estavam carrancudas. Holiday, a mais ansiosa das duas, batia o pé e enrolava cabelos numa mecha compacta.
Então um dos homens levantou as mãos e ameaçou:
— Não estou acusando ninguém, mas repito: é melhor irem fundo e colocarem um ponto final nisso ou, eu juro, os chefões fecharão o acampamento.
Fechar o acampamento?
Kylie baixou os olhos e fingiu que não tinha ouvido aquilo, mas não podia reprimir a esperança que havia brotado dentro dela. Desde que Holiday a deixou sozinha na mesa, Kylie se sentiu tentada a ligar para os pais e pedir para que viessem buscá-la.
Mas o que diria a eles? Papai, mamãe, sabem o que aconteceu? Vocês me mandaram para um acampamento cheio de aberrações, um bando de chupadores de sangue e devoradores de gatos. Ah, e tem mais: eu também sou uma aberração, embora ninguém ainda saiba de que tipo.
O estômago de Kylie se contraiu quando pensou em como aquela conversa com os pais ia terminar. A mãe com certeza a arrancaria do acampamento para interná-la numa clínica psiquiátrica. Não que isso fosse deixar as coisas piores do que já estavam.
Olhando para as mãos, Kylie se lembrou do que Holiday havia dito sobre a hereditariedade dos dons. Será que seu pai ou sua mãe viam fantasmas? Sua mãe não, do contrário não ligaria para a analista da primeira vez que Kylie mencionara o soldado Dude. E o pai teria lhe contado se tivesse algum dom especial.
Kylie ainda não tinha engolido a ideia de ter dons sobrenaturais. Continuava a achar provável que Holiday tivesse se enganado quando disse que ela era uma pessoa especial. Talvez o soldado Dude fosse apenas um fantasma com energia de sobra, conforme Holiday dissera ser possível. E, é claro, havia pessoas normais nascidas à meia-noite, certo?
Ainda assim, a ideia de falar aos pais sobre qualquer uma dessas coisas lhe parecia absurda. Absurda? A quem estava querendo enganar? A ideia era cem por cento maluca e, se ela própria não tivesse visto Perry se transformar num unicórnio, também não acreditaria.
A conversa lá fora subiu um pouco de tom, mas não tanto quanto antes, não o bastante para Kylie entender as palavras. Olhou, então, para o celular e fingiu ler a última mensagem de Sara — que já tinha lido.
A amiga não havia contado aos pais que sua menstruação estava atrasada e, assim que a mãe saiu para um almoço marcado, correu à farmácia e comprou um teste de gravidez. Ainda naquela tarde saberia se estava grávida ou não.
Kylie não perguntou nada a Sara sobre o pai do bebê, nem sequer se a amiga estava considerando a hipótese de aborto. Por algum motivo, não a imaginava fazendo aquilo. Mas também, seis meses antes, juraria que Sara jamais ficaria grávida.
Kylie resolveu se preocupar durante um minuto com Sara antes de voltar aos seus próprios problemas. Como conseguiria sobreviver pelos próximos dois meses? E sobreviver não apenas mentalmente: vampiros e lobisomens matam pessoas.
Só os maus, explicou Holiday a caminho do refeitório, quando Kylie estremecia toda vez que alguém se aproximava.
Será que Holiday tinha certeza de que não havia criaturas más no acampamento? Algumas delas pareciam bem desagradáveis. Não que se achasse uma especialista em distinguir os sobrenaturais bonzinhos dos malvados. Mas devia ser mais ou menos como ela se sentia em relação a cobras e aranhas: havia as inofensivas e as perigosas. Entretanto, por uma questão de segurança, evitava todas.
Ah, só esperava não ter que ficar alojada com nenhuma daquelas criaturas! Sem dúvida, Holiday não esperava que ela dormisse numa cabana ao lado de alguém que... Talvez se sentisse tentado a matá-la em pleno sono. Que ótimo! Precisaria então dormir com um olho aberto durante dois meses!
A conversa entre os dois caras de terno preto e as líderes do acampamento terminou e eles se prepararam para partir. Mas um deles, o mais alto, virou-se e olhou diretamente para Kylie. E fez aquilo: arqueou as sobrancelhas. Kylie desviou o olhar, mas sabia que ele continuava lá, de pé no mesmo lugar, ainda espiando e contraindo a testa. Sentiu suas bochechas arderem.
A porta do refeitório se fechou, mas logo se abriu de novo. Kylie ergueu o rosto e viu os outros adolescentes entrando. Tentou adivinhar o que cada um deles seria à medida que desfilavam à sua frente: fada, bruxa, lobisomem, vampiro, mutante. Haveria outros tipos de sobrenaturais? Iria perguntar a Holiday sobre os diferentes tipos, inclusive o que significava “descendente dos deuses”.
Tentou então classificar os tipos que já conhecia em um destes dois grupos: sobrenaturais que não consideravam o homem parte da cadeia alimentar e sobrenaturais que eram de outra opinião.
Derek atravessou a porta e Kylie se perguntou de que tipo ele seria, o garoto deu alguns passos pela sala e olhou em volta. No momento em que os olhos de Derek se encontraram com os seus, Kylie não teve mais dúvidas de que ele havia achado quem estava procurando. Derek estava procurando por Kylie. Mesmo não sabendo o que o garoto seria ou em qual grupo se encaixava, ela concluiu que o simples fato de gostar dela a ponto de procurá-la bastava para fazê-la se sentir menos solitária.
Um leve sorriso iluminou os olhos de Derek quando ele caminhou em sua direção. Ele de fato lembrava Trey. Seria por isso que tinha gostado dele, ou pelo menos gostado mais do que dos outros? Só porque se parecia um pouquinho com Trey?
Precisava ser cuidadosa, disse a si mesma, para não confundir amizade com outra coisa.
— Olá — disse Derek, sentando-se a seu lado. Observando-o, Kylie constatou que seu ombro mal chegava ao antebraço do garoto. Portanto, era mais alto que Trey, talvez uns cinco centímetros.
Kylie respondeu ao cumprimento com um aceno de cabeça e guardou o celular na bolsa.
— Então? — perguntou ele.
Kylie contemplou seus olhos verdes com reflexos dourados. Compreendeu exatamente o que significava aquela pergunta de uma palavra só: Derek queria saber o que ela era. Ela estava prestes a lhe dizer que não sabia o que era, só tinha consciência de seu dom, mas percebeu que não estava preparada para dizer aquilo em voz alta. Dizer em voz alta é acreditar no que se diz. E ela não acreditava. Ainda não.
— Esta manhã está uma loucura — disfarçou.
— Imagino — concordou ele, num tom que Kylie julgou de decepção. Gostaria sem dúvida que ela confiasse nele.
Nisto, estou com sorte, pensou Kylie.
Entre pessoas morrendo — isto é, a avó —, pessoas se divorciando — isto é, os pais — e pessoas abandonando-a porque ela não queria transar —, sua capacidade de confiar em alguém tinha rolado morro abaixo, indo cair num poço profundo, em algum lugar perto do seu coração.
Miranda esparramou-se na cadeira ao lado de Derek e inclinou-se para Kylie:
— Olá! Vamos ficar juntas. Isso não é ótimo?
— É — respondeu Kylie, tentando rapidamente fazer uma ideia do que Miranda poderia ser. Lembrou-se do sapo e concluiu que ela talvez fosse uma bruxa.
— Estarei com vocês também, meninas — disse alguém, sentando-se do outro lado de Kylie.
Kylie virou-se e contemplou seu próprio reflexo nos óculos da Garota Pálida. Calafrios percorreram sua espinha. Kylie não sabia se a garota pertencia ao grupo dos vampiros ou dos lobisomens, mas algo lhe dizia que a um dos dois devia pertencer. Ou seja, para ela, os humanos faziam parte da cadeia alimentar. A garota baixou os óculos e Kylie viu seus olhos pela primeira vez. Eram pretos, levemente estrábicos e exóticos, com um toque asiático.
— Meu nome é Della... Della Tsang.
— Ah... E o meu, Kylie Galen — conseguiu dizer, esperando que a hesitação não parecesse medo. Mas era medo, Kylie não tinha como negar.
— Então, Kylie — prosseguiu a outra, puxando os óculos para baixo mais alguns centímetros —, conte pra nós: o que você é exatamente?
Estaria imaginando coisas ou pelo menos doze outros adolescentes se viraram para olhá-la? Teriam um ouvido biônico? O celular de Kylie tocou.
— Com licença, preciso... Atender.
Tirou o aparelho da bolsa, levantou-se e foi para um canto, longe de todos. Examinando a tela para ver a quem agradeceria mil vezes por tê-la chamado justamente naquele momento, sentiu o coração saltar no peito. Esperava que fosse Sara, talvez o pai ou a mãe. Só não esperava que fosse Trey.

Nenhum comentário:

Postar um comentário