sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 8

O unicórnio, isto é, Perry, balançou o rabo de maneira pomposa e trotou na direção de Kylie. Deu dois passos e chegou tão perto que ela poderia tocá-lo se quisesse. Mas não queria. O bicho, empinando a cabeça, relinchou e piscou um olho para Kylie.
— Merda!
— Caramba!
— Meu Deus do céu!
— O que é isso?!
— Nossa!
Kylie não conseguiu identificar quem disse o quê, ela mesma talvez houvesse dito alguma coisa, pois todas as exclamações lhe confundiram ainda mais a cabeça. Inspirando outra golfada de ar, virou-se para Holiday, que a fitava com seus olhos verdes e suaves.
— Já está bom — disse Holiday. — Perry, volte à forma normal.
Kylie encostou a testa na superfície lisa e fria da carteira e procurou respirar, não pensar. Se pensasse, começaria a chorar — e a última coisa que se permitiria diante daquela gente era dar sinais de fraqueza. Por Deus, talvez aquelas aberrações se alimentassem dos fracos!
— Já podem ir, meninos — a voz de Holiday, agora num tom autoritário, ecoou pela sala e vibrou dentro da cabeça de Kylie.
Contou até dez e, de algum modo, conseguiu se levantar. As outras carteiras já estavam todas vazias. Perry, de volta à forma humana, também foi saindo com os outros e lhe lançou um olhar sobre o ombro. Seus olhos castanhos — desta vez, normais — quase pediam desculpas.
Lembrando-se da ordem de Holiday para sair, Kylie fez um esforço para ficar de pé. Saindo, poderia descobrir um lugar isolado para surtar á vontade. Um lugar onde pudesse chorar e tentar chegar a uma conclusão...
Não. Não pense. Ainda não. Reteve as poucas lágrimas que teimavam em aflorar e suas narinas arderam.
— Aonde vai? — perguntou Holiday.
Kylie se voltou. Um nó apertava sua garganta, dificultando a fala.
— Você disse para sairmos — conseguiu dizer.
— Eles, sim. Você, não.
— Por quê? — uma película úmida embaçou sua visão e Kylie reconheceu que não poderia detê-la. As lágrimas haviam chegado. Por quê? Essa pergunta curta navegou por sua mente confusa, transformando-se em dezenas de outras. Por que tudo aquilo estava acontecendo? Por que ela era, de novo, a “escolhida?” Por que a mãe não a amava? Por que o pai lhe voltara as costas? Por que Trey não lhe dera um pouco mais de tempo? Por que aquela gente esquisita agia como se, ali, a esquisita fosse ela?
Piscou para disfarçar as lágrimas e sentou-se de novo.
— Por quê? — perguntou outra vez. — Por que estou aqui?
Holiday sentou-se ao seu lado.
— Você é especial, Kylie.
— Não quero ser especial — disse Kylie, sacudindo a cabeça. — Quero ser apenas eu... Eu normal. E... para ser bem honesta com você, acho que estamos cometendo um grande erro aqui. Você sabe que não tenho... Dons. Sem dúvida, não posso me transformar em outra coisa. Minhas notas estão na média em tudo, exceto talvez em álgebra. Esportes não são a minha praia, não tenho grandes talentos, não posso me considerar esperta. E, acredite ou não, gosto disso. Não me desagrada estar na média... Ou ser normal.
Holiday riu alto.
— Não há engano nenhum, Kylie. Mas sei exatamente como está se sentindo. Eu mesma me sentia assim quando tinha a sua idade e, sobretudo, quando descobri o que era.
Kylie passou a mão no rosto a fim de apagar a evidência das lágrimas e se esforçou ao máximo para fazer a pergunta sobre a qual vinha tentando não refletir desde que tudo havia começado.
— E eu, o que sou?

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