domingo, 18 de setembro de 2016

Capitulo 7

— Nossa — disse Cee Cee, depois que contei a história a ela e a Gina; não a parte sobre Lúcia, é claro, nem os detalhes sobre o machucado de Becca. Isso teria significado uma violação dos privilégios entre aluna e conselheira, e entre mediadora e PMNO.
— Então basicamente o que você está falando é que essa Kelly Prescott é a pior pessoa do mundo para ser responsável por uma criança. — Gina ficou mexendo em um dos dreadlocks curtos e escuros. — Pior. Pessoa. Do. Mundo. Entendi.
— Bem — respondi. — Talvez a pior pessoa para ser madrasta. Ela pode só estar tendo dificuldades em se conectar com uma criança que não é dela.
Eu me senti meio mal por Kelly, pois sabia que ela havia namorado com Paul. Se ele a tratou do mesmo jeito que a mim... Mesmo assim, isso não era desculpa para lidar com a enteada daquela maneira.
Cee Cee havia apoiado o queixo na mão e me olhava com tristeza.
— Levo jeito com crianças, sabe. Mas imagina se um cara desses vai vir atrás de mim? Até mesmo um velho que nem Lance Arthur Walters. Não, eles sempre chegam nas meninas como Kelly. Meninas com pigmento.
Gina teve de se afastar porque, seguindo a previsão de Cee Cee – embora a tia fosse a única pessoa da família que se dizia psíquica – os clientes começaram a chegar. Já eram mais de 18h.
Então restou a mim dizer:
— Ah, para, Cee Cee. Você não ia querer se casar com um velho rico, de qualquer maneira. Não é melhor esperar até encontrar uma pessoa de quem realmente goste, e até você poder se sustentar?
— Como você fez, por exemplo? É, pena que não tenho sua sorte — murmurou Cee Cee com um tom ligeiramente amargo. Seus olhos violeta rapidamente se arregalaram. — Não... eu não quis dizer... com seu pai...
Sorri para ela.
— Não. Eu entendi. É verdade. Eu tenho sorte, de certa forma.
Cee Cee não quis dizer que eu tinha sorte porque meu pai estava morto. Ele foi dar uma corrida na rua um dia, quando eu era bem nova, e nunca mais voltou (pelo menos não fisicamente. Ficou pairando espiritualmente ao meu lado durante anos, oferecendo conselhos sem que eu os pedisse).
Cee Cee se referia ao que aconteceu depois disso.
Só descobri depois que me formei na faculdade – quando minha mãe me contou que havia investido toda a pensão que o governo vinha mandando para mim em nome de meu pai, além de minha parte do seguro de vida dele, que era surpreendentemente alto. Mamãe não precisou do dinheiro para me criar, considerando que tinha um emprego ótimo como jornalista no noticiário local e agora era produtora executiva do show brega sobre retoques no lar, estrelado por meu padrasto, Andy.
Ou talvez não fosse tão brega assim, considerando que o programa fazia sucesso internacional. Era impossível visitar qualquer lugar sem se deparar com o rosto bonitão na lateral dos ônibus, convencendo você a experimentar sua nova marca de peças para furadeiras.
Depois que me formei, herdei o dinheiro. Mamãe disse que eu podia fazer o que quisesse com ele, exceto gastá-lo com “drogas, roupas de marca e plásticas nos seios” (o que achei um insulto: não uso drogas, acho que roupas de marca são para pessoas que não têm criatividade estilística, e meus seios são tão incríveis quanto meus cabelos).
— E nem pensa em gastar o dinheiro no casamento — adicionou Andy. — Sei que você e Jesse querem se casar em breve, mas nós vamos pagar pela festa.
Decidi que a melhor coisa era deixar o dinheiro onde estava, investido em uma combinação de bolsas diferentes (ficou comprovado que existe uma área na qual sou tão conservadora quanto Jesse: nas finanças). Peguei um pouco para os estudos e para alugar meu apartamento de um quarto em Vale Carmel, não muito longe de onde meu meio-irmão Jake comprou uma casa com o dinheiro que fez com seu próprio negócio – e que divide com Jesse.
E é claro que, quando encontrei o vestido perfeito para o casamento (estiloso, mas vintage) durante um fim de semana em São Francisco com Cee Cee e nossas mães, dois verões antes, achei que valia a pena gastar. Ele está em meu armário desde então, com as modificações já feitas, pronto para ser usado.
Jesse, é claro, não me deixa usar nem um centavo do dinheiro para ajudá-lo a pagar sua dívida. É orgulhoso demais (ou apenas cheio de merda no estilo macho superprotetor do século XIX, como costumo dizer, às vezes na cara dele).
Cee Cee tinha razão: eu tenho sorte – se é que podemos usar essa palavra para uma pessoa que perde o pai quando criança. Sim, eu o perdi, mais ainda conseguia manter contato, uma década depois.
E agora eu me sustento enquanto faço um estágio não remunerado em minha própria escola.
No entanto, quando Jesse e eu nos casarmos, ano que vem, meu pai não vai estar lá para entrar na igreja comigo. Não sou uma menina sentimental, mas isso não me parece sorte. Eu devolveria o dinheiro todo se pudesse ter meu pai de volta, só por algumas horas.
Ou para ver Paul morto. Qualquer um dos dois seria fantástico.
— E sua carreira? — perguntei para Cee Cee tentando mudar de assunto. — Pelo menos você tem o emprego dos sonhos. Nem todos os recém-formados podem dizer isso.
Cee Cee deu uma risada pelo nariz.
— Sei. Eu finalmente estou em tempo integral no jornal, e eles me colocaram na editoria de polícia. Sabe o que acontece nesta cidade? Uma senhora qualquer em Sandy Point Way disse que é o terceiro dia seguido que os turistas tiram fotos da casa dela. A velha chamou a polícia porque os turistas param na frente do bangalô e tiram fotos! O que ela quer que eles façam, não olhem? A culpa é dela, por morar em uma casa tão lindinha.
— Cuidado com o que deseja, Cee Cee — aconselhei. — Não vai ser legal ter crimes mais sérios para estampar no jornal. E, falando em jornal, eu queria saber se você poderia...
— Ah, não — interrompeu Cee Cee com um gemido. — De novo, não.
— ... dar uma olhada nos arquivos — continuei. — Tentei procurar sozinha, mas...
—... a função de busca no jornal on-line só lista obituários por sobrenomes — completou ela, com voz de tédio. — E você só tem o primeiro nome. Ou peraí, já sei: você não sabe em que ano a pessoa morreu.
— Hummm... os dois?
— Sério, Suze? E eu não tenho nada melhor para fazer com meus dias?
— Cee Cee, se não fosse muito, muito importante, eu não pediria. O primeiro nome dela é Lucia, e tenho certeza de que morreu no estado da Califórnia nos últimos dez anos.
— Ah, isso diminui a lista bastante mesmo — rebateu Cee Cee, com sarcasmo.
— Ela tem entre 6 e 10 anos, no máximo. E acho que gostava de cavalgar, se é que isso ajuda.
Cee Cee me encarou.
— Espere... é uma criança? Ai, Suze, eu não sabia. Que terrível!
Eu nunca havia explicado meu dom para Cee Cee, mas, ao longo dos anos, ela e meu meio-irmão mais novo, David, foram aprendendo. Isso facilitou meu trabalho, embora a história hilária que o padre Dominic inventou para explicar o surgimento inesperado de Jesse em Carmel – disse que era um “jovem aluno jesuíta que se transferiu de outra missão no México, mas depois perdeu a vontade de entrar para a vida religiosa” depois de me conhecer – quase destruiu minha credibilidade.
Minha mãe e Andy caíram direitinho, no entanto – feito patinhos na lagoa. As pessoas têm uma capacidade incrível de acreditar nas coisas quando querem.
— Eu sei — respondi. — É muito triste. Agora você quer ajudar, Cee Cee? Ainda mais sabendo que pode impedir que a alma inquieta de uma criança fique vagando entre a vida e a morte sem um rumo, durante séculos? Isso pode até contribuir para que você encontre o homem de seus sonhos, o Sr. Lance Arthur Walters.
Cee Cee fechou o laptop com força.
— Acho que deixei bastante claro que não sinto atração alguma pelo marido de Kelly Prescott. O que ele tem a ver com isso, afinal?
Foi só então que me dei conta de que violei a confidencialidade entre mediadora e PMNO.
— Hum... nada. Foi mal. Bebi café demais hoje. Mas enfim, como está Adam? Tem tido notícias dele ultimamente? — Eu sempre usava meu tom de voz mais delicado, como instruíram que fizéssemos no curso de aconselhamento (curso obrigatório, três créditos inteirinhos), quando abordava o assunto do namorado vai e vem de Cee Cee.
— Adam? — Cee Cee deu uma gargalhada amarga, cruzou os braços e deslizou mais para a frente da cadeira. — Vai saber. A gente saiu algumas vezes no verão passado, e ele disse que tentaria manter contato, mas que estaria muito ocupado com o curso este ano. E, sim, entendo que ele acabou de fazer os exames de Direito, e, sim, estou feliz por ele. Mas é como se ele tivesse se esquecido de que eu existo. Nunca responde as minhas mensagens, e nem curte mais o que eu posto.
Seus olhos ficaram tão tristes quanto os daqueles filhotes de cachorros nos comerciais que pedem doações para animais famintos e abandonados.
— Então ele é um babaca — falei, mostrando lealdade embora Adam também fosse meu amigo e as histórias sempre tivessem dois lados. — Dane-se ele. Mas, na boa, Cee Cee, não dá para esperar que um cara curta tudo que você posta. Fala sério. Se esse fosse o parâmetro, nenhum namoro jamais aconteceria na história da humanidade. Você conhece Adam. Ele adora você...
Cee Cee balançou a cabeça com tristeza.
— Sabia que não ia entender. Você encontrou o cara perfeito. Você e Jesse não têm problema algum.
— Hum — respondi. Por onde começar? — Isso não é nem um pouco verdade, Cee Cee, eu não consigo nem...
Felizmente, meu celular tocou naquele exato instante.
— Preciso atender — falei, me levantando. Torci para que fosse o cara do blog, Shahbaz, pois dei meu telefone no e-mail mas era alguém quase tão importante. — É minha mãe. Mas segure o assunto, Cee Cee. Quero falar sobre isso. Seus sentimentos são importantes para mim. De verdade.
Cee Cee revirou os olhos e voltou a abrir o laptop.
— Você acha que eu não percebo quando você está usando esse papinho estúpido de terapeuta comigo? Enfim, mande oi para a Sra. S por mim.
Mamãe manteve o nome de meu pai em vez de adotar o de Andy, porque Simon foi o nome com o qual se tornou conhecida profissionalmente. Além disso, Simon é meu último nome. Um sobrenome irado.
Por outro lado, De Silva também é irado. Se eu mudasse meu nome quando Jesse e eu nos casássemos – se nos casássemos, o que estava parecendo cada vez mais difícil, a não ser que eu arrumasse um jeito de deter Paul – eu não teria de mudar minhas iniciais, como Cee Cee já havia notado, era só adicionar o de.
— Mando, sim — garanti. — E obrigada por qualquer coisa que você consiga fazer com a situação da, hum, garota morta.
Cee Cee me mostrou o dedo do meio, o que fez com que mais que uma pessoa no café erguesse as sobrancelhas. Não é sempre que você vê uma albina com corte assimétrico de cabelo mostrando o dedo do meio para uma morena gostosa.
Eu teria de retribuir de alguma forma que não fosse apenas “obrigada”. Dessa vez ia ter de rolar um cartão generoso de presente de uma das lojas virtuais favoritas dela.
Saí do café – a tia de Cee Cee não permite o uso de celulares dentro do Médium Feliz porque está certa de que a radiação eletromagnética interfere no fluxo psíquico, além de matar abelhas – e atendi o celular.
— Mãe?
— Oi, Suzie.
A minha mãe é a única pessoa do mundo que tem permissão para me chamar de Suzie. Quando eu era pequena, eu não gostava porque era uma garotinha com jeito de moleque que via gente morta, e não achava que um nome com o som infantil de iii no final me caía bem. Depois, quando fiquei mais velha, o nome me lembrava muito a música “Suzie Q”, que meu pai gostava de cantar para mim. A música é ótima, mas meu pai morreu, e escutar aquilo sempre me deixa um pouco triste, pensando no que poderíamos ter vivido.
— Tudo bem, meu amor? Olhe — continuou mamãe antes que eu pudesse responder —, não dá para falar muito agora. Estamos numa filmagem, mas você soou tão nervosa na mensagem. Espero que esteja tudo bem.
— Na verdade, não está. Eu preciso...
— Se é sobre o feriado de Ação de Graças, eu e Andy ainda estamos planejando uma visita na semana que vem. Vamos ficar na Pousada Carmel, no centro, perto da praia. Debbie disse que vai preparar o jantar, mas sabe Deus no que isso vai dar (você deve se lembrar da briga que ela teve com Brad na última vez), então eu consegui uma mesa para todo mundo no Mariner's, só como garantia. Ah, e Jesse conseguiu aquela bolsa para qual se candidatou?
— Hum, não — respondi. — Ainda não. Não liguei por causa do dia de Ação de Graças. Só queria saber por que vocês não me contaram que venderam a casa para as Indústrias Slater.
— Indústrias Slater? — Mamãe parecia confusa. — Nós não vendemos a casa para as Indústrias Slater. Vendemos para um homem chamado Mitchell Blumenthal. Ele parecia uma pessoa maravi...
— Mitchell Blumenthal é o presidente da Propriedades Slater, uma subsidiária das Indústrias Slater, que é a empresa de Paul Slater — interrompi. Dei uma pesquisada mais cedo, depois de meu computador ser consertado. — Recebi um e-mail de Paul hoje, dizendo que a empresa dele comprou a casa. Ele marcou a demolição para o final do mês.
— Ai, querida, que péssimo. — Mamãe realmente parecia chateada. — Tem certeza? O mesmo Paul Slater de sua turma? Achei que vocês não se falavam mais.
— Sim, tenho certeza, e não, não nos falamos.
Dava para ouvir algumas marteladas pelo telefone. Na última vez em que assisti ao programa de renovação de Andy, ele estava retocando um rancho em Santa Mônica, mas a TV não exibia as filmagens em ordem cronológica, então nunca sei onde eles realmente estão, a não ser que mamãe me conte.
— Nossa, meu amor — disse mamãe. — Que coisa mais terrivelmente... agressiva.
— Você acha?
— Sabe de uma coisa? Sempre achei que Paul tinha uma queda por você, Suzie, mas você só tinha olhos para Jesse. Nem se candidatou para nenhuma faculdade em outro estado, o que ainda acho que foi um erro. Não que Jesse tenha alguma coisa de errado; você sabe que eu e Andy o adoramos, mas quando eu tinha sua idade...
— Mãe — falei, com cansaço. — Paul Slater é um filho da puta.
— Ai, Suzie, sério, você precisa mesmo usar esse tipo de linguajar? Às vezes eu nem acredito que frequentou uma escola particular. E sei que você e Paul tiveram dificuldades, mas sempre senti um pouco de pena dele.
— Pena? De Paul?
— Sim. Ele era um daqueles meninos que recebia bastante dinheiro da família, mas nada de atenção ou amor. Sempre me pareceu meio perdido.
— Perdido? Eu acho que ele sabe exatamente aonde está indo. — E o que quer. Isto é, eu.
— Acho que ele queria fazer parte de nossa família — disse mamãe. — Mas não exatamente como seu irmão... se é que você me entende.
— Eca — respondi. — Nojento. E mesmo que isso seja verdade, não explica por que ele acha que destruir nossa velha casa e construir uma droga de McMansão de 10 mil metros quadrados no lugar faria com que a gente gostasse dele.
— Não, tem razão — concordou mamãe com um suspiro. — Mas acho que para ele, até mesmo uma atenção negativa de você é melhor que atenção nenhuma.
— Hum — respondi, pensando melhor. — Isso pode ser verdade.
Minha mãe era boa com conselhos. É claro que não dava para contar tudo porque ela surtaria. Coisas do tipo o tecido do cosmo, fantasmas ou maldições egípcias ancestrais não eram sua praia.
Mas de pessoas ela entendia.
— Ai, querida — disse ela —, isso vai deixar Andy e os meninos tão chateados.
— Os meninos? E eu? Eu estou muito puta.
Mamãe deu outro suspiro preocupado.
— Suzie, sério, preciso falar toda hora? Se você espera ser levada a sério no trabalho, tem de limpar essa boca suja...
— Ai, meu Senhor Jesus morto na cruz — respondi. — Eu não estou no trabalho agora. E eu preciso te lembrar toda hora: não é um trabalho, é um estágio. Eles nem me pagam.
— Bem, eu tenho certeza de que aqui em L.A. existem muito mais empregos remunerados para conselheiras escolares que aí. Esquece a casa. Por que você não se muda para cá? Você pode morar comigo e com Andy. Jesse pode vir quando terminar a residência, e, se vocês realmente resolverem se casar, podem comprar um apartamentinho. Seria tão mais fácil visitar meus futuros netos se vocês estivessem aqui na cidade, bem mais que...
Seria interessante ver que tipo de netinhos ela teria – caso eles existissem – se eu não me encontrasse com Paul, e se ele realmente destruísse a casa na Pine Crest Road.
— Olhe, mãe — interrompi. — A gente pode conversar sobre tudo isso depois. Agora eu tenho de ir.
— Tudo bem, Suzie. Lamento pela casa. Mas precisamos vendê-la. Andy e eu nunca íamos lá, nem vocês. E era grande demais para mantermos apenas como casa de veraneio. E tão gelada. Você vai rir, mas sabe, de vez em quando eu podia jurar que era mal-assombrada.
Isso quase me fez engasgar com a própria saliva.
Nunca achei que ficaria feliz em ser interrompia pela louca da tia Pru.
— Suze? É você?
— Ah, oi, Pru — falei para a mulher de cabelos longos, toda vestida de lilás. — Sim, sou eu.
— É a tia da Cee Cee? — perguntou minha mãe, com voz nostálgica. — Por favor, diz que mandei um oi.
— Minha mãe está mandando oi, Prudence — falei, balançando o celular para a tia de Cee Cee para que ela entendesse que minha mãe estava no celular.
— Maravilha. Fale para sua mãe que gostei muito do último episódio do programa de Andy — disse Pru. Como sempre, estava usando um chapéu de abas enormes, bem como luvas longas de seda, para proteger a pele dos terríveis raios UV, embora o sol já tivesse se posto por trás das árvores fazia tempo. Assim como Cee Cee, Pru tinha albinismo. Mas, ao contrário de Cee, Pru se dizia em contato com o mundo psíquico. — Ele realmente está fazendo coisas incríveis com aquela casa.
— É — respondi. — Vou falar para ela. — A tia da Cee Cee era muito querida, mas meio louca. E, para não me desmentir, tinha uma previsão para mim antes de entrar no café.
— Ah, Suze — disse ela da porta.
— Oi.
— A criança — falou.
Olhei para a fachada do café, que tinha decoração caprichosa, assim como o interior, cheio de luzinhas pisca-pisca e mesas de aço com plantinhas em vasos.
— Que criança? — perguntei para ela. Não havia nenhuma criança. Já estava escurecendo e ficando meio frio. Apenas pais extremamente péssimos deixariam seus filhos correndo na frente do Médium Feliz à noite. — Não tem criança aqui, Prudence.
— Não, aqui não — disse Pm. — A que você conheceu na escola.
De que diabos ela estava falando?
— A criança está perdida, e muito aterrorizada, e sentindo muita dor — continuou. — E crianças perdidas e sofrendo às vezes podem ser muito cruéis. Que nem animais selvagens, sabe? Elas se rebelam e machucam os outros, às vezes sem querer. Mas às vezes de propósito também.
Então deu seu sorriso feliz e confuso, e entrou no café.
Fiquei olhando para ela e me lembrei, tarde demais, que às vezes as previsões de tia Pru eram de fato verdadeiras.
— O que foi isso? — perguntou mamãe.
— Nada.
Tomara.

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