sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 7

— Sim, provas seriam bem-vindas — concordou Kylie, incapaz de tirar o sarcasmo da voz. — Mas você vai me dizer, com certeza, que provas não poderá me dar, certo? Vai fazer um pequeno discurso sobre a necessidade de acreditarmos nessas coisas de qualquer jeito, não é?
— Não, na verdade estava pensando mesmo em lhe dar uma prova — a voz de Holiday exibia uma estranha calma, que fez Kylie respirar fundo e sentir medo.
E se Holiday estivesse dizendo a verdade? E se... Kylie se lembrou de como a garota de pele pálida estava fria no ônibus. Mas não. Não iria acreditar naquilo. Vampiros e lobisomens existiam na ficção, não na vida real.
A mulher tirou um celular do bolso da calça jeans e fez uma ligação.
— Pode mandar Perry à sala de aula do escritório? Obrigada.
Recolocou o aparelho no bolso.
— Agora, todos vocês estão convidados a ficar e ver o que vai acontecer. Mas, se quiserem sair, um assistente está à espera de cada um de vocês lá fora. A função deles é responder às suas perguntas.
Kylie os viu olhar uns para os outros e decidir ficar. Sentiu-se melhor por não ser a única a ter dúvidas sobre o assunto. Depois de longos minutos, durante os quais o silêncio invadiu a sala como uma névoa, Kylie ouviu o som de passos na frente da sala. A porta se abriu e o garoto loiro do ônibus — o de olhos estranhos —, entrou.
— Olá, Perry! Bom ver você de novo — disse Holiday sinceramente.
— Bom também estar de volta — virou-se para Kylie, que quase perdeu o fôlego ao notar que os olhos dele estavam pretos a ponto de nem parecer humanos. Agora ele estava estranhíssimo.
— Eu ficaria feliz se você nos fizesse o favor de demonstrar seu dom especial.
Os olhos não humanos de Perry não se desviavam de Kylie. Ele sorriu.
— Então você tem aqui pessoas incrédulas, não é? — voltou-se para Holiday. — O que gostaria de ver?
— Por que não deixamos Kylie decidir? — Holiday encarou-a. — Kylie, este é Perry Gomez, especialista em metamorfoses, um dos melhores que existem. Pode se transformar em praticamente tudo o que você imaginar. Diga no que gostaria que ele se transformasse.
Kylie alternava o olhar entre Holiday e Perry. Vendo que aguardavam sua resposta, fez um esforço para falar.
— Num... Unicórnio.
— Unicórnios não existem — disse Perry, num tom de quem se sentia ofendido com a escolha.
— Existiam — intercedeu Holiday, como que para defender Kylie.
— Que merda! — exclamou Perry. — Existiam mesmo?
— Sim, que merda — repetiu Holiday. — Mas vamos melhorar nossa linguagem — sorriu. — Basta pensar num cavalo com um chifre na testa. Sei que pode fazer isso.
Ele concordou com um gesto de cabeça e, juntando as palmas, revirou os olhos negros. De repente, o ar da sala ficou rarefeito, como se algo houvesse sugado todo o oxigênio. Kylie o olhava fixamente, embora tudo dentro dela lhe recomendasse para não fazer isso. Então, sua curiosidade, sua necessidade de saber evaporou-se na atmosfera quase irrespirável. Só agora entendia o sentido da frase “A ignorância é uma bênção”. Queria continuar ignorante. Não queria ver, não queria acreditar.
Mas viu.
Viu fagulhas cintilando em volta do corpo do garoto, como se um balde de purpurina tivesse sido despejado em torno dele, como se mil lâmpadas se acendessem refletindo cada fragmento da purpurina em suspensão. Centenas de partículas em forma de diamante o envolviam. Aos poucos, foram se depositando no chão e ali onde Perry estava antes surgiu um enorme unicórnio branco, com um chifre cor-de-rosa bem no meio da testa.

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