domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 6

— Kelly Prescott se casou com Lance Arthur Walters, da Wal-Con Aeronáutica, no verão passado — contou Cee Cee, e deu uma lambida na espuma do chai latte. — Peraí, Debbie não foi dama de honra nesse casamento, ou alguma coisa assim? Achei que você tivesse sido convidada.
— Isso — respondi, ainda zonza por causa do choque na escola. — Eu ignorei o convite.
Porque não sou muito fã de casamentos. Nem da Kelly.
No entanto, se eu não fosse tão boba e tivesse ido, teria conhecido Becca, visto sua pequena companheira fantasma e talvez evitado o que aconteceu naquela manhã.
Eu era uma ridícula que provavelmente merecia tudo que estava acontecendo comigo. E, além disso, precisava de uma bebida. Mas foi minha amiga Cee Cee quem escolheu o lugar do encontro para fofocar depois do trabalho, e pelo visto coquetéis não constavam do menu.
— Bem, Lance Arthur Walters é um dos homens mais ricos dos Estados Unidos, e 25 anos mais velho que nós — continuou ela, enquanto nos sentávamos no Médium Feliz, o café e armazém holístico da tia de Cee Cee. — É claro que se trata de um amor profundo.
— Gente, Kelly levou o casamento por interesse para outro nível. — Suspirei. — Ela é basicamente uma profissional do sexo.
— Julgar outra mulher por suas escolhas, mesmo que sejam péssimas, é muito antifeminista. Se você tivesse se dado o trabalho de ler meus boletins informativos sobre os alunos, já saberia disso.
— Ei! — protestei. — Você é uma de minhas melhores amigas. Devia me contar as coisas, não esperar que eu leia tudo num e-mail.
— Que eu escrevi. — Cee Cee balançou a cabeça. Sua franja branca assimétrica (Cee Cee é albina) quicou na testa. — Sério, Suze, você é a pior. Você fica online algum dia?
— É claro. Para comprar coisas. — Pensei nas botas com desejo. — Nem sempre consigo.
— Quis dizer para se conectar socialmente com pessoas.
— Por que faria isso se todas as pessoas com as quais quero socializar estão aqui na cidade? — Então me lembrei de meu meio-irmão mais novo, que havia acabado de começar em Harvard. — Fora David, é claro. Mas a gente se fala no telefone todo domingo.
— Você é tão estranha — declarou Cee Cee, e abriu o laptop. — Mas não se preocupe. Vou criar uma página bem maneira para quando você e Jesse abrirem o consultório. Drs. Hector J. e Suzannah S. de Silva, Centro Pediátrico Carmel, especializados em saúde geral de crianças. Com licença para diagnosticar e tratar das necessidades físicas, emocionais e de desenvolvimento. Interesseiras não são permitidas.
— Meu Deus, eu estava brincando, ok? Não acredito que Kelly casou literalmente por causa do dinheiro. Se bem que, considerando as coisas que a enteada me contou sobre o que ela acha de alianças, começo a questionar isso.
Cee Cee me ignorou.
— O que você acha? — Ela virou o laptop para mim. — Tenho brincado com os sobrenomes de vocês para fazer um logo. Está vendo como as duas letras S se enroscam como no símbolo da Medicina? Quero dizer, tecnicamente o caduceu é o símbolo do comércio, mas as pessoas têm usado do jeito errado por tanto tempo que acho que ninguém mais sabe o que é. É claro que, mesmo que você não adote o nome de Jesse quando se casar, a gente não precisa mudar nada. O S ainda funciona. Dra. Suzannah Simon, ou Dra. Suzannah de Silva, os dois têm...
Achei melhor interrompê-la. O tópico de meu casamento com Jesse estava ficando sofrido para mim. Nada arruína um casamento mais rápido que o noivo ter um demoníaco surto assassino e matar a noiva e sua família. Nossa, eu realmenteprecisava de um drinque.
— Então, o que mais Kelly tem feito desde a graduação? — perguntei, tentando soar casual. — De vez em quando vejo Debbie com Brad em eventos de família, e a gente conversa. Às vezes ela fala da Kelly, mas acho que não me dei conta de que ela havia virado madrasta.
Cee Cee olhou para o ambiente ao redor, que estava quase vazio, com preocupação.
— Xiii. Não fale tão alto. Kelly é mais do tipo que vai a clube de regatas, mas nunca se sabe. Ela pode vir aqui de vez em quando.
Dei um sorriso. O café, que costumava se chamar Café Clutch, foi nosso ponto de encontro durante todo o ensino médio, até que uma rede conhecida tentou comprar o espaço.
Isso não fez muito sucesso no conselho de Carmel-by-the-Sea, que até então havia conseguido banir todas as grandes redes de cafés, lojas famosas e até sinais de trânsito e estacionamentos pagos desde que a cidadezinha foi incorporada ao país, em 1916. O objetivo era manter Carmel na posição de Cidade Mais Romântica dos Estados Unidos na revista Viagem + Lazer (estava em terceiro lugar, depois de Paris e Veneza).
Também queriam manter o mesmo visual charmoso de vilarejo praiano (no topo de um penhasco, com vista para uma praia de areia clara) que a cidade exibia havia um século.
O conselho – com a ajuda de pessoas como a tia de Cee Cee, que resolveu participar e comprou ela mesma o Clutch para que o café não virasse uma franquia – com certeza vinha conseguindo atingir seu objetivo ao longo dos anos, a ponto de impedir que proprietários de casas cortassem árvores.
Então como foi que Paul Slater conseguiu permissão para demolir minha velha casa?
Eu não sabia como, mas ele conseguiu... de verdade. Vi os documentos anexados ao e-mail. As consequências do show paranormal da menina fantasma não afetaram esses arquivos em meu computador (Sean Park, um dos colegas de turma de Becca, conseguiu recuperar meu drive, embora não a tempo de eu evitar que Maximillian28 levasse minhas botas, e por muito menos do que eu estava disposta a pagar. Esperava que ela, ou ele, estivesse curtindo a bota... no inferno).
Os planos do Paul para destruir o número 99 da Pine Crest Road – e a maioria das outras casas em meu antigo quarteirão – estavam em ordem, e, além disso, ele tinha razão quanto à Maldição dos Mortos. Com a ajuda da internet, consegui achar uma tradução da maldição no blog de um aluno de egiptologia especializado no estudo de línguas antigas.
O que o blog não me informou – talvez porque não fosse parte do estudo do aluno, ou porque não constava no papiro – era se existia ou não uma forma de quebrar a maldição.
Eu havia mandado um e-mail para o dono do blog – Shahbaz Effendi – e estava cruzando os dedos para que ele acreditasse na mentirinha que contei, quando disse que também era uma entusiasta dos estudos de egiptologia.
Sei como esses papiros podem ser irritantes. Às vezes eles param no meio de uma frase (Paravam? Eu nem sabia direito o que era um papiro.) Mas enfim, se tiver mais alguma coisa escrita sobre a maldição, eu adoraria saber. Ajudaria muito em minha pesquisa atual.
Meu Deus, esse cara ia achar que eu era louca. Ou que tinha 12 anos. Mas, até que ele me respondesse, Jesse e eu estávamos ferrados.
— Bem — continuou Cee Cee —, depois que ela terminou a Academia da Missão, Kelly se formou em merchandising de moda.
Ergui o olhar do meu café.
— Peraí, você está de sacanagem comigo, porra? Merchandising de moda? Igual a Elle Woods em Legalmente Loira?
— Eu ouvi isso — disse minha outra melhor amiga (e atual roomate), Gina, de trás do balcão. A tia de Cee Cee a havia contratado para trabalhar no turno de 16h à meia-noite, de segunda a sexta-feira. Gina bateu uma caneta num jarro grande de vidro. — Um dólar para a jarra dos palavrões. Dois, na verdade, porque ouvi você chamando Kelly de piranha mais cedo.
— Esse pote é pra gorjetas, não para palavrões — respondi. Mesmo assim, abri a bolsa a tiracolo para pegar minha carteira. Não queria ser estraga-prazeres. — E eu falei profissional do sexo, não piranha. Vocês estão oprimindo meu direito de me expressar livremente.
— Você devia agradecer — retrucou Gina, quando me aproximei do balcão. — Uma futura doutora devia ser refinada, não desbocada. Ainda mais uma que vai ser esposa de um médico.
— Jesse diz que me ama do jeito que eu sou. — Joguei dois dólares na jarra, que já estava cheia. — E você não devia estar trabalhando em vez de ficar escutando minha conversa?
— É — disse Gina, apontando para as mesas do café, todas com pinturas caprichosas. Tia Pru era bem caprichosa. — Até porque está supercheio aqui.
— Vai bombar depois das seis — disse Cee. — Happy hour dos loucos por cafeína.
— Vamos voltar ao assunto Kelly? — sugeri.
— Ah — disse Cee Cee —, sim. — Voltou a olhar para a tela do laptop. — Pelo visto as coisas não deram muito certo para ela no curso, considerando que voltou a morar com a mãe no ano passado.
— Nossa. Debbie nunca falou isso. — Voltei para meu lugar. — Kelly não deve ter postado sobre o assunto no Instagram.
— Vocês são péssimas — disse Gina. — Qual o problema de merchandising de moda? E será que preciso lembrar vocês de que as duas são universitárias que voltaram para a cidade onde cresceram? Vocês não deviam julgar essa coitada da Kelly por ter feito o mesmo.
— Hum, em primeiro lugar — falei — se eu fosse zoar com ela não seria pelo que escolheu estudar, ou por ter voltado a morar com a mãe, e sim porque Kelly é uma pessoa má e terrível. Você sabia que ela costumava chamar Cee Cee de “esquisita”? Na cara dela.
Gina deu uma olhada rápida em Cee Cee; rápida, mas o suficiente para ver o couro cabeludo Cee Cee, bem visível embaixo dos fios brancos de cabelo, ganhar um tom rosado de embaraço por conta da lembrança.
— Poxa, Cee Cee — disse Gina, colocando a mão bronzeada sobre a quase transparente da amiga. — Foi mal. Eu não sabia.
— Tudo bem. — Cee Cee pegou seu latte e tomou um gole longo. — Hoje em dia é legal ser esquisita. Mesmo que eu ainda more com minha mãe.
Gina mordeu o lábio.
— Desculpe por eu ter falado isso também. E você não é esquisita. É que... eu me identifico com Kelly por não ter conseguido se sair bem na cidade. É por isso que eu estou aqui dormindo no sofá de Suze.
— Isso é totalmente diferente — analisei rapidamente. — Você é de Nova York, como eu. Está acostumada a usar transporte público. Dirigir naquelas vias expressas de L.A. deve ter sido péssimo. E você está só dando um tempo de Hollywood até conseguir juntar dinheiro e organizar essa merda toda...
Tanto Cee Cee quanto Gina apontaram para a jarra dos “palavrões” – o que era meu objetivo. Xinguei de propósito para aliviar o clima. Sempre que Gina começava a refletir sobre por que se desviou do sonho de ser uma estrela do cinema e acabara em meu apartamento em Carmel, ficava com a voz embargada e os olhos cheios d'água.
Ela morava em minha casa fazia vários meses, embora ninguém soubesse o que havia acontecido; nem mesmo Jesse, que era a mais reconfortante das almas. Sabíamos apenas que Hollywood foi mais difícil do que ela havia antecipado.
— Não a pressione por enquanto — sugerira Jesse certa vez. Uma longa conversa tarde da noite ao redor da fogueira do jardim da casa que Jesse e meu meio-irmão Jake dividiam a deixara com uma expressão especialmente apreensiva. — Ela vai contar o que aconteceu quando estiver pronta. Deixe ela sarar.
Gina ainda estava sarando em meu sofá-cama e recebendo um salário mínimo, mais gorjetas, no Médium Feliz.
Eu me levantei para colocar mais um dólar na jarra e continuei falando.
— Não acho que Kelly mudou desde o ensino médio.
A madrasta de Becca mal olhou para a irmã Ernestine enquanto a freira explicava por que havia ligado.
— Então foi só mais um acidente com Becca? — perguntara Kelly. — Ela é tão desastrada. — O tom de voz sugeria outra pergunta: por que as pessoas ficam me ligando por causa dela?
O fato de Becca ter tido mais de um “acidente” daqueles me deixou alarmada; aquela família parecia ter várias questões com a palavra acidente.
Entretanto, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a irmã Ernestine se manifestou.
— Bem, sim, Sra. Walters, mas dessa vez talvez seja melhor levar Becca ao pediatra. A Srta. Simon e eu não somos médicas, e, pelo que a senhora pode ver no uniforme, Becca sangrou bastante...
— Becca, você tem uma saia extra no armário de Educação Física, não tem? — perguntou Kelly.
Becca fez que sim com a cabeça, parecendo acovardada pela madrasta glamourosa.
— Ótimo! — disse Kelly. — Então não preciso levá-la para casa. — Ela deu um dos sorrisos patenteados de Kelly Prescott, no estilo olhe para mim, sou uma loura da Califórnia cheia de dentes brancos. — Bem, obrigada por ligar, irmã E e Suze, foi, hum, bom ver você de novo. Tchauzinho.
— Não tão rápido, Kelly — falei no mesmo momento em que ela se virou sobre os Louboutins com solas vermelhas. Seus longos cachos cor de mel deixaram um aroma delicado de cabelo queimado depois de muito tempo no babyliss. — Realmente acho que algum médico precisa dar uma olhada em sua enteada. Na verdade, eu a levaria à emergência do São Francisco em Monterrey agora mesmo e pediria para chamar o médico Jesse de Silva. Ele é excelente. Aqui, vou escrever para você.
Catei caneta e papel. A aparência geral não era muito profissional, considerando que todas as canetas e papéis haviam sido jogados no chão pelo anjo da guarda de Becca, ainda ausente.
— Para a emergência? — Kelly havia levantado os óculos escuros sobre a testa. — Você não pode estar falando sério. Foi só um corte. Ela disse que tem uma saia extra. Ela está bem.
— É. — Becca fez que sim com a cabeça, vigorosamente. — Estou bem.
— Ela não está bem, Kelly. — Botei o contato de Jesse nos dedos manicurados de Kelly. — Leve-a para ver esse médico. Ela precisa que alguém dê uma olhada no corte, e alguém profissional. Você está entendendo o que estou falando, Kelly? — Eu quis adicionar um sua vaca burra, mas é claro que não podia.
Kelly olhou para o papel que eu preparei rapidamente.
— Jesse de Silva. — Ela leu em voz alta. — Por que esse nome me é familiar? — Foi como se uma lâmpada tivesse se acendido naquela cabeça linda e obscura. — Meu Deus, é seu namorado? Peraí, sim. É ele! Li nos boletins informativos dos alunos que vocês estão noivos. Vai se casar com seu amor de escola. Não é fofo?
Eu me senti enrubescer.
— Isso — admiti. — Jesse é meu noivo. Mas não significa que não é um pediatra maravilhoso...
Kelly amassou o papel e o jogou no chão, junto dos outros papéis. Ficou claro que o não é fofo? foi um comentário sarcástico.
— Você devia ter vergonha de si mesma — disse ela, os olhos perfeitamente maquiados reluzindo. — Usando seu emprego aqui para ajudar o negócio de seu namorado. Sei que as coisas não estão boas na indústria medica, mas honestamente Suze. Achei que você, dentre todas as pessoas, teria mais noção. Engraçado como eu costumava acha-la inteligente, vinda de Nova York e tal. Lembro que algumas de nós na escola até admirávamos você, no passado, e achávamos que ia longe. Mas, obviamente, isso faz muito tempo.
Ela deu um sorriso maldoso, pisou em uma das persianas caídas e completou:
— Irmã Ernestine, talvez a senhora devesse reconsiderar a contratação dessa pessoa. Meu marido é um dos principais doadores da academia, sabe. Duvido que a senhora queira fazer alguma coisa que o incomode.
Então ela jogou os cabelos e foi embora, os saltos altos fazendo barulho nas pedras da escola.

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