terça-feira, 13 de setembro de 2016

Capítulo 6

Jesse foi o primeiro a se recuperar.
— Bem, espero que você esteja satisfeita, Srta. Simon — disse ele. Pegou a caixa da minha mão rapidamente e a recolocou no bolso.
Eu estava emocionada demais para dizer qualquer coisa. Só conseguia sentir, como diz uma galera na internet – minha amiga Cee Cee, que é fera em computadores, me contou.
Senti pânico e alegria e vergonha por causa do meu comportamento. E também alegria ao ver que a caixinha não era grande o suficiente para ter causado toda a firmeza que senti quando nos agarramos mais cedo.
Então eu tinha razão: ele ficou feliz sim de me ver.
— Mas Jesse — falei quando finalmente consegui recuperar minha voz —, achei que o combinado fosse esperar até a gente se formar, e depois se casar, por causa daquela sua ideia idiota de machão do século XIX de que você tem que me bancar. Que é obviamente ridícula porque eu pretendo me bancar totalmente sozinha. E a você.
— Sim — falou ele, se forçando a ser paciente. Odiava quando eu mencionava que ia sustentá-lo, e por isso mesmo eu mencionava o máximo possível. É importante manter o seu par romântico sob controle. — Mas ainda assim a gente pode ficar noivos.
— Noivos? — Minha voz falhou. — Jesse, ninguém da nossa idade fica noivo. As pessoas moram juntas antes pra ver se as coisas vão dar certo, depois...
— A gente já fez isso, Suzannah — lembrou-me ele diretamente. — E acho que você concorda que as coisas “deram certo” pros dois.
— Tá, mas... — Eu estava tendo dificuldade para expressar os sentimentos em palavras. E o motivo era que eu não sabia o que estava sentindo.
É claro que já havíamos conversado sobre nos casarmos um dia. Não temos esse tipo de relacionamento imbecil que vocês veem em livros onde as pessoas não podem conversar sobre ter um futuro juntos porque uma das pessoas não consegue assumir compromisso por causa de traumas do passado. O Jesse tinha os maiores traumas do passado que vocês podem imaginar, e tudo o que queria agora era seguir em frente. Nós dois quase morremos um pelo outro, literalmente. Desistimos de nós mesmos para que o outro pudesse viver. Eu certamente sabia que aquilo ia acontecer.
Só não achei que aconteceria naquele momento.
Naquela noite.
Nem que eu arruinaria tudo pegando a caixinha do anel da calça do meu namorado antes da hora, estragando a surpresa.
— A gente pode fingir que isso não aconteceu? — perguntei. — Digo, a parte em que eu puxei a caixa do seu bolso.
— Com prazer — disse ele, sucinto. — Mas as pessoas da nossa idade ficam noivas, sim, Suzannah. Você acabou de me contar que esse rapaz, Mark...
— Ele estava no ensino médio, e olha o que aconteceu com ele!
— E o seu meio-irmão? — indagou Jesse. — Ele tem a sua idade e é casado.
— Se você estiver falando do Brad, que engravidou a namorada com trigêmeos logo depois da formatura porque os dois foram negligentes e não usaram métodos anticoncepcionais, não acho que ele seja o melhor exemplo.
Nunca tive muitas esperanças para o meu meio-irmão Brad, a quem eu sempre me referia como Dunga. Mas nunca na vida achei que o veria passeando com um carrinho de bebê com três anjinhos dentro, todos chamando-o de papai (e a mim de tia Suze).
Entretanto, isso não apenas acontecia, como acontecia regularmente. E o mais estranho ainda era que o Brad era um dos indivíduos mais felizes que eu conhecia – dava quase para aguentar a presença dele. Era uma pena que a esposa fosse uma pentelha tão grande.
— Nós não somos o Brad e a Debbie — disse Jesse entre os dentes.
— Não, não somos mesmo — respondi. — Eu tomo pílula há quatro anos, só para o caso de você resolver quebrar esse seu voto de abstinência até o casamento porque não quero ter filhos (muito menos trigêmeos) antes de ter pelo menos o mestrado.
— E eu agradeço por isso — falou Jesse — mas também não sou que nem esse seu espírito, que você acha que só estava tentando obrigar a namorada a não trair ele enquanto ela estudava longe.
— Que bom — falei. — Isso é um alívio. Mas também nunca achei que você fosse...
— Mas eu sou homem, Suzannah — continuou ele, e me puxou para perto com uma das mãos enquanto tirava a caixinha de anel do bolso com a outra.
— Bem, isso está perfeitamente claro. — Tive uma vista privilegiada do fecho do jeans dele, e agora que os seus dois bolsos estavam vazios, vi que ele estava de fato feliz em me ver. — Abundantemente.
— E não vou ficar recebendo ordens.
— Quando foi que eu fiquei dando ordens...?
— Em cada minuto de todos os dias desde o momento em que conheci você. E até mesmo agora, está me dizendo pra não te pedir em casamento.
— Bem, eu só acho que o momento não é o melhor. Pedir uma mulher em casamento no Dia dos Namorados é muito clichê. E fazer o pedido no alojamento no Vão das Virgens é ainda pior.
— Pois é, eu teria feito o pedido durante o pôr do sol na praia — disse ele com um sorriso torto —, se você não estivesse por aí causando um fenômeno meteorológico paranormal bizarro.
— Ah, tá bom. Bota a culpa em mim. É tudo culpa minha. Não teve nada a ver com aquele garoto no cemitério.
— É exatamente disso que estou falando. Se dois alunos de ensino médio podem ficar noivos, Suzannah, por que não...
Tapei as orelhas com as mãos. Eu sabia que era uma reação bizarra, mas eu sou bizarra mesmo. Uma genuína aberração biológica que vê fantasmas, e que estava sendo pedida em casamento – ou não, porque arruinei tudo, como sempre faço – por um cara que já foi um.
— Para de falar neles — falei, com as mãos ainda sobre as orelhas. — E onde foi que você arranjou isso? — Fiz sinal com a cabeça para a mão que segurava o anel. Ele abriu a tampa para que eu visse de perto o que estava perdendo. Era de ouro amarelo (não faz o meu estilo, mas ainda assim era muito bonito) com filigranas nos lados de um diamante de tamanho considerável ao centro. Era bem retrô, mas devia valer uma fortuna.
Não que o valor tivesse alguma coisa a ver com o fato de que tive uma vontade repentina de vomitar.
— Você não tem dinheiro — continuei. Então abaixei as mãos e arfei. — Jesse! Você não gastou toda a sua bolsa pra comprar um anel pra mim, gastou?
— Não — disse ele —, porque não sou idiota. Este anel está na minha família há gerações. Foi da minha mãe, e, antes dela, da minha avó. Agora eu quero que seja seu... se você agir que nem uma dama por cinco segundos e me deixar pedir você em casamento direito, e colocar o anel no seu dedo.
Fiquei olhando para ele. Como é que tinha o anel da mãe? Eu sabia tudo sobre ele, mas não desse detalhe.
Quer dizer, não sabia tudo, é claro. Não as coisas que eu mais queria saber, tipo como ele era pelado, ou quando dormia – não inconsciente, e sim dormindo. Depois que eu salvei o Jesse de ter sido assassinado (é uma longa história, e mais um segredo nosso), o padre Dominic falsificou alguns históricos escolares para ajudar a acelerar o seu processo educacional, e ele conseguiu evitar quatro anos de faculdade. Quando você não tem nada para fazer em quase duzentos anos a não ser assombrar o quarto onde morreu na vida anterior, acaba lendo vários livros. Ele passou nos exames com uma das maiores notas da história da Califórnia, e as faculdades vieram babando atrás dele com bolsas de estudo.
Agora ele estava me oferecendo o anel da mãe, e eu estava oferecendo malcriação.
Qual era o meu problema?
— Agora não, tá? — respondi, e me libertei do abraço dele. — Agora a gente tem coisas mais importantes pra fazer. Temos que impedir que um fantasma transforme outro garoto em fantasma, lembra? E talvez a mim também. Então vamos fazer isso, e depois a gente conversa.
Ele franziu o rosto quando eu comecei a andar pelo quarto e coletar os materiais para a caça ao fantasma.
— Suzannah, eu fiz alguma coisa errada?
— Você? O que no mundo você teria feito de errado?
— É isso que estou perguntando. Mi Amada, você está corando?
— Claro que não. — As minhas bochechas estavam pegando fogo. Mas eu não tinha como dizer por quê; realmente não sabia o motivo. — Quer dizer, talvez um pouco. Só não tenho como lidar com isso agora.
— Não tem como lidar com o que agora? O homem que ama você pedindo pra passar o resto da vida ao seu lado?
— Não isso. Essa parte é óbvia. Eu mataria você se não me pedisse isso.
— Tem a ver com a sua mãe? — perguntou ele, e fechou a caixinha. Coloquei o celular um uma tigela de arroz cru que deixo na prateleira de livros para emergências como aquela. — Tem a ver com ela querer que a gente saia com outras pessoas enquanto estamos estudando em lugares separados? Você está se arrependendo por não ter aceitado o conselho dela? Ou... — A voz dele ficou estranhamente calma. — Você seguiu o conselho dela? Era isso o que você estava fazendo mais cedo?
— Meu Deus, Jesse, é claro que não! — explodi. — Você acha que eu inventei essa história toda sobre o menino no cemitério pra você não descobrir que estou traindo você com algum universitário idiota? Tá brincando comigo?
Jesse ficou pensativo.
— Eu estava imaginando um professor assistente. Não vejo você com um universitário. Iria assustá-lo.
Peguei a minha bolsa-carteiro.
— Obrigada pelo elogio. Agora a gente precisa ir. O seu telefone tá carregado? Preciso que você confira se existe algum endereço registrado no nome de uma família Farhat. Por favor, Deus, tomara que não tenha mais do que uma.
— Ou você acha que estou tentando aprisionar você do mesmo jeito que o garoto morto fez com a namorada porque não sei onde vou parar ano que vem com a residência? — falou ele, pensativo. — É capaz de ficarmos ainda mais distantes do que agora. Mas juro que não é isso. Tenho certeza de que, independentemente de onde eu for, a gente vai dar um jeito.
— Meu Deus, Jesse, eu sei. — Peguei a vodca com cranberry que a Lauren havia me dado. Agora que o Jesse estava ali, ele dirigiria. É melhor motorista do que eu, o que é preocupante, visto que tenho carteira há mais tempo, e eu precisava de uma coragem líquida. Para o que estávamos prestes a fazer e, bem, para outras coisas.
— Então é receio de contar pra sua mãe e seu padrasto sobre os nossos planos? — perguntou ele. — Se estivéssemos em 1850 (e ainda bem que não estamos, porque sou grato pelas vacinas e antibióticos), eu pediria permissão pro Andy. — Ele ignorou o meu engasgo, que não teve nada a ver com a bebida que eu estava virando. — Não vou fazer isso, não só porque entendo que seria... como foi que você disse, mesmo? Ah, sim, ridiculamente chauvinista, mas porque está claro que você tem algum tipo de problema com a ideia de ficar noiva agora. Tudo bem. Eu posso esperar. Mas acho mesmo que a gente devia pensar em contar pros seus pais a verdade sobre como a gente se conheceu, e quem eu sou de verdade, e que você vê mortos. Começar um casamento com mentiras não é boa ideia...
— Meu Deus, não, não! — exclamei, mas não alto o suficiente para chamar a atenção das minhas amigas de apartamento, que deviam estar ouvindo atrás da porta. Eu não duvidaria. Algumas delas nunca haviam nem saído com um cara num encontro, então eram extremamente curiosas sobre o assunto. — Você enlouqueceu? Não posso contar nada disso pra minha mãe, muito menos pro Andy. A cabecinha deles explodiria. Eles achariam que fazemos parte de um culto, ou coisa parecida.
— Ter o dom da segunda visão não tem nada a ver com estar num culto, Suzannah.
— Você conhece a minha mãe. Ela é repórter. E agora é produtora executiva do programa do Andy. Só acredita em fatos que pode ver.
Jesse esticou a mão que estava segurando a caixinha de anel.
— Isto aqui é fatual o suficiente pra você, Suzannah?
Eu sabia que ele estava falando sobre o anel, mas era difícil não notar o quão firme e musculosa a sua mão era. Especialmente anexada àquele braço longo e igualmente musculoso. Aquilo era outra coisa que minha mãe não conseguiria ignorar. Era difícil acreditar que uma pessoa de masculinidade tão vibrante, e tão lindamente atraente, cujos olhos escuros praticamente reluziam de tanta inteligência e vida, foi morto um dia.
Se alguma residência não o aceitasse, seria loucura. Eu devia ser uma idiota por não ter dito Sim, Jesse, serei a Sra. de Silva, e colocado aquele anel no dedo assim que o descobri, ainda tão quente por causa do calor do corpo dele.
Mas alguma coisa não me parecia correta.
Devia ser eu. Eu não me sentia correta.
— Hum, sim — falei e engoli a saliva —, mas o problema não é esse. A minha mãe e o Andy já têm preocupação suficiente com o Brad e as bebês, e agora com o Jake, que está iniciando o seu próprio, digamos, negócio.
O meu meio-irmão mais velho, Jake – cuja única aspiração de carreira até a época do ensino médio foi ser entregador de pizzas em tempo integral – surpreendeu todo mundo quando usou o que havia recebido entregando pizzas não para comprar o Camaro que sempre quis, mas para comprar um terreno em Salinas.
Pouco tempo depois, ele abriu uma loja à beira-mar que vendia outro produto que os estudantes adoravam consumir tarde da noite – e não era pizza. A diferença é que era preciso ter uma licença médica especial no estado da Califórnia para comprar esse produto.
Eu achava o negócio do Jake altamente empreendedor, ao mesmo tempo em que era irônico, considerando que eu o havia apelidado secretamente de Dorminhoco porque ele parecia viver com os olhos semifechados. Se ao menos eu soubesse o motivo antes.
Bem, agora todo mundo sabe.
A loja de maconha medicinal do Jake – a única na região dos três condados – vendia muito bem, e ele estava rapidamente se tornando um dos empresários mais ricos da área. Comprou uma casinha muito maneira no Vale, e, seja por generosidade ou porque genuinamente gostava de Jesse, o convenceu a ir morar com ele no quarto extra. Dessa forma ele teria um lugar para ficar quando viesse para a cidade nos feriados e férias.
— Você não pode continuar ficando com aquele velho quando vier pra cidade, meu irmão. — Foi o que Jake falou. O “velho” era o padre Dominic. — Ninguém merece morar num monastério, a não ser que seja padre. E você não é padre, meu irmão. Eu já vi o jeito que você olha pra minha irmã. Sem querer ofender.
Não achei que Jesse fosse aceitar, ainda mais com um convite feito daquela maneira. No entanto, ou morar com o padre Dominic havia realmente se tornado mais difícil do que até o Jesse poderia aguentar, por mais beato que fosse, ou ele estava pronto para ingressar no século XXI, visto que ele sempre fica com o Jake quando vem me visitar.
Considerando o empreendimento herbáceo do Jake e a paternidade adolescente do Brad, eu teria virado a filha de ouro dos meus pais caso o meu meio-irmão mais novo, David, não tivesse sido aceito precocemente em Harvard e designado para morar na (onde mais?) Kirkland House.
Manter o meu “dom” em segredo é bem difícil de vez em quando, mas a outra opção – ter um programa cafona na Lifetime Network no qual conto para as pessoas que um parente falecido está no céu sorrindo para elas – me parece bem pior.
Jesse abaixou a mão e franziu o rosto.
— Suzannah, achei que nosso noivado seria uma notícia boa, uma coisa que toda a sua família iria gostar, até comemorar. O que está deixando você tão incomodada com a minha tentativa de pedir você em casamento?
— Nada — falei, e peguei o casaco. — Já falei. Só não tenho como lidar com isso agora. Encontrou o endereço do menino que já deve estar morto?
Ele guardou o anel e fez a pesquisa no celular rapidamente. Para uma pessoa que detesta tecnologia, ele era extremamente bom.
— Não. Tem o telefone, mas não o endereço. Não existe esperança pra esses negócios.
— Tem esperança pra tudo — falei. — Você, dentre todas as pessoas, já devia saber disso. — Abri a porta do meu quarto. Não devia ter me surpreendido ao ver todas as minhas seis colegas de apartamento agachadas do lado de fora.

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