sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 6

— Relaxe — disse Derek em voz tão baixa que, Kylie teve certeza, ninguém mais ouviu. Nem mesmo ela tinha conseguido ouvir direito por causa das batidas do seu próprio coração.
— As apresentações serão feitas na hora do almoço — disse uma voz feminina. Kylie achou que era Holiday de novo, mas não tinha certeza. Todos continuavam olhando. Olhando para ela. Sua mente e seu coração dispararam. Sons confusos retiniram em seus ouvidos.
Desviou o olhar para a porta, lutando contra a vontade de sair correndo. Correndo para valer. Mas não, nunca tinha sido boa na corrida e muitas aberrações estavam entre ela e a saída. Então, coisa curiosa, lembrou-se de algo que ouvira sobre os animais selvagens. Se você corre, eles pensam que você é o seu jantar e irão persegui-lo.
Duas vezes merda!
Tudo bem, é só respirar fundo. De novo. Seus pulmões se dilataram. Aqueles não eram animais selvagens, apenas adolescentes desajustados. Nesse instante, o celular de Kylie tocou anunciando nova mensagem. Provavelmente Sara. Kylie ignorou. E, pela primeira vez, achou que talvez tivesse errado ao considerar a situação da amiga pior que a sua. Não estava cem por cento certa disso, mas algo lá no fundo lhe dizia que aquilo não era o mesmo que ir a uma festinha do Mark Jameson.
Mas o que mais podia ser? E por quê? Por que, entre tanta gente estranha na sala, ela tinha sido escolhida? Era porque não arqueava as sobrancelhas? Ora, podia fazer isso tão bem quanto qualquer pessoa. Aliás, começaria a praticar logo que ficasse sozinha. O problema era que não entendia bem o significado do gesto. Seria a versão de Shadow Falls de um aperto de mão secreto?
— Vamos, vamos com isso! — retomou a voz cantarolante. — Veteranos, para fora. Novatos, fiquem onde estão.
Kylie sentiu um ligeiro alívio quando as pessoas pararam de olhá-la e ameaçaram a se movimentar, pegando bolsas e mochilas. Ou pelo menos algumas pararam. Kylie virou-se para a direita e notou que o garoto de cabelos pretos e olhos azuis brilhantes continuava imóvel, olhando para ela. Lucas Parker... Lembrou-se do nome, embora já houvesse passado muito tempo desde que o vira pela última vez.
Graças a Deus foram embora, lembrava-se das palavras do pai. Podem ter certeza, aquele garoto ainda será um serial killer.
Kylie sentiu o coração se comprimir e estremeceu. Haveria mesmo um possível assassino no acampamento? Seria mesmo ele? Bem, talvez estivesse enganada. Que droga! Já fazia uns dez anos. Calafrios percorreram sua espinha. Então o garoto se virou e foi se juntar ao grupo dos veteranos que saíam.
Miranda deu alguns passos, parando diante de Kylie.
— Boa sorte — disse. Kylie não sabia se ela estava zombando ou falando sério, então respondeu apenas com um aceno de cabeça.
O garoto loiro, vindo logo atrás, riu para Kylie.
— Eu não queria estar no seu lugar — disse em tom de brincadeira e saiu atrás de Miranda.
Firmando os joelhos para não desabar, Kylie só voltou a si quando pelo menos metade da turma já tinha saído. De seus conhecidos do ônibus, só ficaram a Garota Pálida, a Garota Gótica, Derek e o sujeito dos piercings.
— Muito bem — disse Holiday. — Agora, quem souber por que está aqui vá para a esquerda. Quem não souber, para a direita.
Kylie se lembrou de ter sentido que aquilo era pior do que ir para a delegacia e começou a se movimentar para a direita; mas, vendo que todos se dirigiam para a esquerda e não querendo ser de novo o alvo de todos os olhares, foi para junto de Derek.
Ele lhe lançou um olhar incrédulo. Decidida a praticar a “coisa das sobrancelhas”, Kylie franziu a testa. Notou então que apenas quatro pessoas haviam se dirigido para o lado direito da sala. Uma delas era o sujeito dos piercings. Holiday examinou os dois grupos e Sky, entrando, ficou ao lado da líder de cabelos ruivos.
— Os da direita venham comigo. Sky conversará com os outros.
Holiday deu alguns passos e parou, olhando por cima do ombro. E, fixando Kylie diretamente, disse:
— Acompanhe-me, Kylie.
Espantada pelo fato de a mulher saber seu nome, balançou a cabeça.
— Sei por que estou aqui — mentiu.
— Sabe mesmo? — perguntou Holiday.
Decidida a ir até o fim, respondeu:
— Fui pega numa festa onde havia drogas.
Risinhos chegaram aos ouvidos de Kylie. Holiday fez cara feia para os gozadores e com um gesto ordenou que Kylie a seguisse.
— Será porque meus pais vão se divorciar? — indagou então, desesperada.
Holiday não disse nada e nem precisava. O olhar que lançou a Kylie era o mesmo olhar “não discuta” da mãe. E a única vez que Kylie discutiu, ficou de castigo por um mês. Seguiu então Holiday e cruzou a porta com as outras quatro pessoas.
Quando passaram pelo grupo que já estava lá fora, Kylie percebeu que todos os olhares se voltavam para ela. Miranda acenou e murmurou “boa sorte”. Por algum motivo, Kylie suspeitou que as intenções da garota talvez fossem verdadeiras.
Percebeu, em seguida, Lucas Parker ao lado da garota gótica que há pouco tinha levantado a mão para perguntar sobre ela. Suas cabeças estavam muito próximas e os dois sussurravam, olhando para Kylie como se ela fosse uma estranha no ninho. Kylie não podia deixar de concordar com eles. Notou então que Lucas também estava usando roupas góticas. Pelo menos, sua camiseta era preta — e lhe caía perfeitamente, ajustando-se como uma luva à parte superior do peito esbelto, mas musculoso. Que injustiça, os garotos não precisavam seguir a moda para parecer bem!
Ao se dar conta de que estava olhando demais para os músculos de Lucas e de que a garota gótica tinha nos lábios um sorriso malévolo, virou-se para o outro lado e fingiu que não tinha notado aquela reação. Ah, se pudesse fingir que nada daquilo estava acontecendo! Nesse instante, o sujeito dos piercings emparelhou-se com ela. Kylie olhou para ele e tentou sorrir.
Podiam ser estranhos, mas pelo menos tinham vindo no mesmo ônibus e ele parecia tão perdido quanto ela. Ele se inclinou para Kylie:
— Você não trouxe drogas, trouxe?
Kylie ficou de queixo caído, chocada e mortificada. Atire em mim, acabe comigo de uma vez. Por causa de seu pequeno deslize no refeitório, agora todo mundo a considerava uma drogada.
Holiday, cabelos ruivos cascateando pelas costas, os levou para uma pequena cabine, logo atrás do refeitório. Do portal de madeira, pendia uma placa com os dizeres ESCRITÓRIO DO ACAMPAMENTO. Kylie e os outros quatro a seguiram até um recinto nos fundos que mais parecia uma sala de aula.
— Sentem-se, garotos — e Holiday se debruçou sobre a mesa da frente, aguardando que todos se acomodassem.
A mulher não tirava os olhos dela um instante, como se Kylie estivesse pensando em fugir. E, para crédito de Holiday, essa ideia realmente havia lhe ocorrido mais de uma vez. Por isso mesmo tinha se sentado na cadeira mais próxima da porta. Alguma coisa, porém, a impedia de dar o fora, além do fato de nunca ter sido muito boa em corridas. Sem falar no medo de ser apanhada tentando fugir.
Curiosidade.
Por motivos que desconhecia, Kylie pressentia que Holiday sem dúvida iria explicar o que estava acontecendo. E Kylie precisava desesperadamente de uma explicação.
— Muito bem — começou Holiday, oferecendo a todos um sorriso que pretendia ser tranquilizador. Mas só um sorriso não tranquilizaria Kylie. — O que vou dizer será um alívio para muitos de vocês, pois, lá no fundo, já sabem que têm algo... Diferente. Alguns souberam disso a vida toda e outros só encontraram seu destino há pouco tempo; mas, seja como for, o que vou dizer talvez pareça chocante — os olhos de Holiday se desviaram para Kylie. — Vocês, meninos e meninas, estão aqui porque são especiais. Talentosos.
Holiday fez uma pausa e Kylie esperou que alguém arriscasse a pergunta. Como ninguém disse nada, ela própria arriscou:
— Defina “especial”.
— Todos já lemos sobre criaturas sobrenaturais, lendárias, e desde a infância nos dizem que elas não existem. Mas, na verdade, existem, sim. Neste mundo, nem todos são iguais. Alguns são muito diferentes dos outros. Alguns nasceram assim, outros foram transformados. Mas, não importa o que aconteceu a vocês, se estão aqui é porque este é o seu destino. Um destino escolhido por vocês mesmos.
— Espere um pouco — disse Kylie sem poder se conter. — Está querendo dizer que... Que coisas como... Como...
— Os vampiros existem? — perguntou o carinha dos piercings. — Ai, que merda! Eu sabia que não era maluco. Por isso fiquei tão doente.
Kylie se esforçou para não rir. Ela tinha a intenção de falar em anjos ou coisas assim, mas aquilo... Era pura bobagem. O garoto sem dúvida tinha se entupido de drogas. Ninguém ignorava que... Vampiros e besteiras do gênero não existiam.
Aguardou que Holiday corrigisse o sujeito. Mas esperava algo mais. Durante essa segunda pausa, Kylie lembrou-se de como era frio o toque da Garota Pálida, lembrou-se do Loiro mudando o tempo todo a cor dos olhos. Lembrou-se do sapo de Miranda que desapareceu. Não. Não comece com isso...
— Você está certo, Jonathon — assegurou Holiday. — Os vampiros existem. E, sim, você se transformou num deles a semana passada.
— Eu sabia que não eram apenas sonhos — disse a outra garota. — O lobo com que sonhei... Parecia tão real!
Holiday assentiu.
— Não — Kylie levantou a mão e sacudiu a cabeça com tanta força que seus cabelos louros lhe golpearam o rosto dos dois lados. — Não posso acreditar nisso.
Holiday fitou-a.
— Não estou surpresa, Kylie, com sua incredulidade.
— O que eu sou? — interrompeu outra garota de cabelos amarelos.
O que eu sou?
A pergunta intrigou Kylie. Não que ela própria tivesse a menor vontade de fazê-la. Não acreditava naquelas bobagens. Eu não acre...
Holiday lançou um sorriso amistoso para a garota.
— Sua mãe biológica foi uma fada. Você tem o dom da cura. E acho que já sabia disso.
Os olhos da garota se arregalaram com o que parecia uma sensação de alívio.
— Sim, curei minha irmãzinha, não foi? Meus pais pensaram que eu estava louca — disse ela. — Mas sei que fiz aquilo. Eu soube no momento em que aconteceu.
Holiday a olhou, compreensiva.
— Essa é, muitas vezes, a pior parte. Saber o que sabemos sem poder compartilhar com ninguém. Infelizmente, poucas criaturas humanas comuns nos aceitam como somos. É também por isso que você está aqui: para aprender a usar seus dons e viver num mundo normal.
A cabeça de Kylie dava voltas. Lembrou-se das coisas estranhas que vinham acontecendo — o reaparecimento dos terrores noturnos e... O soldado Dude, o cara que só ela conseguia ver. O pânico começou a confundir sua lógica. Fechou os olhos e tentou desesperadamente acordar. Aquilo só podia ser um sonho.
— Kylie? — a voz de Holiday a fez abrir os olhos. — Sei que, para você, isso é difícil de aceitar.
— Mais que difícil. Impossível. Não acredito...
— Mas tem medo de perguntar, não é? Medo de perguntar por que está aqui, pois, lá no fundo, sabe que pertence a este lugar.
O que sei é que meu pai e minha mãe não me querem... Por isso estou aqui.
— Eu não deveria ter vindo — disparou Kylie. — Nunca sonhei com lobos. O que tenho são terrores noturnos. Mal consigo me lembrar do que sonho. Não fui mordida por um morcego e não curei ninguém.
— Vampiros e lobisomens não são as únicas criaturas sobrenaturais que existem — Holiday fez uma pausa e pressionou as mãos contra o peito. — O que você quer, Kylie? Provas?

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