domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 4

Olhei da ferida para o rosto da menina. Os traços variavam entre cortes superficiais e profundos, e o “O” deixaria uma cicatriz caso não fosse tratado logo. Ela estava olhando para a irmã Ernestine com nervosismo, depois para a ferida, depois para mim. Seus lábios estavam pálidos e secos. Ela estava de cara limpa, apesar de ter 16 anos e de maquiagem ser permitida no código de vestimentas para meninas da Academia da Missão Junípero Serra.
Alguma coisa me fez achar que Becca nunca havia usado maquiagem, na verdade. Tudo nela – cabelo escorrido, uniforme grande demais, pele manchada – berrava por favor, não olhem para mim.
— Quem fez isso? — indaguei. Eu estava tonta. Será que foi a PMNO? A fantasma fez aquilo? Quem quer que fosse, ele ou ela ia levar o mesmo pé na bunda que eu havia prometido a Paul mais cedo. — Quem fez isso com você, Becca? Não precisa ter medo. Não vou machucar a pessoa.
Não muito.
— Quê? Quem...? — Os olhos dela se encheram de lágrimas por trás dos óculos. Becca balançou a cabeça. — Não. Não, não. Ninguém fez isso comigo. Fui eu... eu que me cortei.
— O quê? — As palavras saíram como uma explosão antes que eu pudesse controlá-las. Mas eu devia ter percebido. Estudamos autoflagelação nos cursos de psicologia juvenil e adolescente. Só que ver aquilo na vida real era completamente diferente de ver em fotos. Não consegui conter minha segunda pergunta. — Por quê?
— Eu... não sei — sussurrou Becca. Pelo rubor nascendo em suas bochechas e pelo fato de não conseguir olhar para mim, vi que ela falava a verdade. Mentirosos, como Paul, geralmente não têm problemas em olhar dentro de seus olhos. — Eu só... eu só me odeio de vez em quando. Mas juro que foi a primeira vez que fiz isso.
Agora ela estava mentindo. Olhou dentro de meus olhos, toda fofa, e mentiu descaradamente.
— Nunca mais vou me machucar, prometo. Por favor, por favor, não fale nada. Meu pai vai ficar tão decepcionado, e minha madrasta... bem, minha madrasta também não vai gostar. Por favor, estou implorando: não conte. Por favor. Você sabe como é.
Eu não sabia, não. Mas, pelo visto, como ouviu dizer que eu tive meus problemas no passado, ela achava que sim.
Meus problemas nunca tiveram nada a ver com eu me cortar com objetos afiados, no entanto, e sim com outras pessoas tentando me cortar.
Tentei me lembrar do que havia estudado sobre pessoas que se machucam. Não fazem isso para receber atenção – na verdade, a grande maioria tenta manter os cortes em segredo, e geralmente conseguem, exceto em casos como o de Becca, quando alguma coisa dá errado e elas acabam sendo pegas. A pequena produção de endorfinas causada pela dor física serve como alívio para qualquer trauma emocional ou estresse que estejam sentindo.
É por isso que se cortar não funciona a longo prazo: o alívio é temporário e dura apenas o tempo em que a dor existe. É o tratamento da raiz da dor emocional (geralmente por meio de sessões com um profissional treinado) que ajuda o paciente a de fato se curar.
Era óbvio que alguma coisa estava atormentando Becca. A deplorável criança fantasma agarrada a ela – a que só eu podia ver – era uma grande indicação, e fácil de resolver.
Mas autoflagelação? Isso ia bem além de meu pagamento não existente.
E agora eu não podia passar a bola para a irmã Ernestine porque Becca me pediu para não falar nada. As conselheiras da escola não conseguem fazer seu trabalho direito se os alunos acharem que não podem confiar nelas porque vão violar seus direitos de privacidade. Não temos permissão para informar o que está acontecendo aos pais a não ser que exista uma ameaça clara à vida do aluno (ou à segurança de outras pessoas).
Eu – ainda – não tinha prova alguma de que a vida de Becca corria perigo, apenas de que ela estava sofrendo – e muito – por dentro e por fora.
Então tudo o que pude fazer foi dizer “tudo bem” e pegar os medicamentos para desinfetar os cortes.
— Mas foi a primeira vez, Becca? Sério? Isso pode funcionar com a irmã Ernestine, mas, ao contrário dela, eu apenas trabalho em um presbitério, não vivo nele. Não sou tão ingênua. O que está acontecendo? Por que você, hum, se odeia tanto a ponto de querer se machucar assim?
Abordar o elefante – ou PMNO – no recinto nunca é fácil. Faço isso há anos e ainda não descobri o melhor método. A abordagem sutil geralmente passava despercebida – “Alguém em sua família morreu recentemente?” – mas soltar um “tem um fantasma atrás de você” pode fazer com que as pessoas ridicularizem a situação, ou pior.
Fiquei sem saber qual estratégia adotar com Becca. Ela estava em crise, mas parecia que isso já acontecia havia tempo. Eu não sabia se a aparição era um sintoma ou uma causa.
— Olhe — comecei, quando vi que ela manteria o olhar baixo, sem responder. — Não se preocupe, pode falar comigo. Sou especialista em sentir ódio por si mesma.
Becca fez um som que pareceu entre uma risada e uma fungada de desprezo.
— Você? Por que você teria ódio de si mesma? Olhe para você, com esse cabelo todo. É perfeita.
Verdade, meu cabelo é bem maneiro. Mas a questão não era essa.
— Ninguém é perfeito, Becca — respondi. — E não venha me dizer que fez isso porque não gosta de sua aparência. Você é inteligente, e meninas inteligentes sabem o que fazer para mudar a aparência. Você obviamente não faz isso porque não quer. Então, o que está rolando de verdade?
Em um mundo perfeito, isso teria feito com que ela se abrisse: “Minha irmã mais nova morreu ano passado, e sinto muitas saudades!” Depois eu diria: “Eu sinto muito mesmo, Becca, mas nossa, que coincidência! Tenho o dom de ver pessoas mortas, e o espírito de sua irmãzinha está bem ao seu lado! Ela também tem saudade, mas como você se agarra à memória dela, ela se agarra a seu amor, e isso está impedindo que ela passe para a outra vida. Então vocês duas precisam se despedir agora para que ela vá para a luz, e eu para o almoço com meu namorado incrível. Tudo bem? Que bom!”
No entanto, o mundo não é perfeito. E, considerando meu dia até então, era uma loucura achar, mesmo por um segundo, que havia alguma possibilidade de que isso fosse acontecer.
Em vez disso, Becca fechou os lábios e, teimosa, se recusou a responder minha pergunta.
— Tudo bem — falei. — Fique à vontade. — E coloquei o algodão com antisséptico em seu braço.
Isso foi um erro; assim como foi um erro ter ligado para Paul. Só não consegui perceber antes.
Becca deu um gritinho e tentou puxar o braço para longe de mim quando o álcool entrou na ferida, mas eu o segurei e mantive o algodão nos cortes para que o antisséptico pudesse funcionar propriamente.
— Desculpe, Becca — falei. — Eu devia ter avisado que ia arder. Mas não podemos arriscar que você tenha uma infecção. De qualquer maneira, achei que você fosse gostar, já que se odeia tanto e tal.
Eu sabia que a Dra. Jo, minha terapeuta no curso (todos os mestrandos em aconselhamento tinham de fazer alguns semestres de sessões com outro conselheiro), não aprovaria. Conselheiros (e mediadores) devem mostrar compaixão pelos clientes. Não devemos magoá-los, nem mesmo ao limpar suas feridas com antisséptico.
Mas, às vezes, um pouquinho de dor pode ajudar. Radiação mata as células cancerígenas. Transplantes de pele curam as queimaduras.
Falei para mim mesma que a reação de Becca foi boa. Mostrava força de vontade. A fantasma inoportuna não havia sugado toda a sua vontade de viver... ainda.
— Meu Deus — sussurrou Becca. Outro bom sinal: ela ainda não queria que a irmã Ernestine ouvisse nossa conversa. A freira certamente teria interrompido meus métodos nada ortodoxos. — Você realmente derrubou a cabeça daquela estátua, como todo mundo diz. Você é maluca!
— Sim — sussurrei em resposta —, sou. Não se esqueça de reclamar com seus pais da maluca que trabalha no escritório. Assim você vai ter de mostrar o braço a eles e explicar por que veio parar aqui. Aí eles vão saber que você tem se machucado, e talvez arrumem a ajuda que você...
— Saia de perto dela!
Becca não era a única mostrando força de vontade. Pela primeira vez, a fantasminha também se manifestou, levantando a cabeça e demonstrando interesse na cena ao redor.
E definitivamente não gostou do que viu... isto é, de mim. Ela saiu da sombra da cadeira onde Becca estava sentada. Suas sobrancelhas se franziam acima do nariz. Ela abraçou o animal de pelúcia em suas mãos – um cavalo – apontou para mim e falou com uma voz baixa e gutural:
— Pare. Você está machucando Becca.
Receber ordens de um fantasma tão pequeno poderia ter sido cômico. Se não fosse pelo fato de que, quando o assunto é fantasmas, o tamanho não importa. Já levei surras de algumas PMNOs que pareciam totalmente inofensivas... até suas mãozinhas acabarem em volta de meu pescoço.
Além disso, não tinha nada cômico no ódio que queimava em seus olhos, nem na raiva em sua voz.
— Não estou machucando Becca — expliquei para a menina morta com o tom de voz mais calmo possível. — Ela tem se machucado, estou tentando ajudá-la.
Perplexa, Becca olhou para onde eu estava virada enquanto falava, mas não viu ninguém ali.
— Hum... Srta. Simon? Você está bem?
Eu não tinha tempo para lidar com a preocupação de Becca, que parecia achar que eu havia embarcado em uma viagem para a Cidade da Loucura.
— Também estou tentando ajudar você, menina — falei para a fantasma. — Aliás, quem é você?
Grande erro. Sério, esse foi meu terceiro grande erro naquela manhã, depois de ligar para Paul e de jogar antisséptico na ferida de Becca.
O que posso dizer em minha defesa é que não se deve deixar mortos-vivos por aí sem supervisão, da mesma forma que não se deve deixar feridas sem serem limpas durante muito tempo.
A fantasminha reagiu dando um passo desequilibrado para trás e caindo, perplexa por, depois de tantos anos morta, alguém ter finalmente sido capaz de vê-la – ainda mais, se comunicar com ela. Ela foi parar no chão, com uma queda barulhenta na pedra fria... um barulho que a deixou chocada e humilhada.
Mas o que veio depois não foi um ataque de menina. Ela pode ter parecido fofa com a franja loura, cavalinho de pelúcia, botas de montaria e esporas – deve ter sonhado em ser amazona quando viva – mas não era um anjo de forma alguma (ainda não, visto que alguma coisa a mantinha presa à terra). Ela me lançou um olhar ameaçador.
— Lucia — berrou ela, com tanta força que meus cabelos se esvoaçaram e as janelas tremeram. — E ninguém machuca Becca!
E foi aí que a simples mediação que eu planejava foi para o inferno.
As pedras embaixo de meus pés começaram a tilintar e se mover... o que era impressionante, visto que eram pedras maciças, cada uma com mais de 60 centímetros de largura. Foram colocadas ali havia 300 anos por crentes sob o comando do padre Serra. Nunca mostraram nem uma rachadura apesar de todos os terremotos que já haviam sacudido o Norte da Califórnia.
E agora uma menininha fantasma soltando sua raiva contra mim fez com que aquele chão ancestral se partisse, que paredes de 1 metro de espessura tremessem, que as luzes fluorescentes acima de nós balançassem e até que o vidro das janelas tintilasse.
— Pare! — berrei, me segurando nos braços da cadeira ocupada por Becca, tanto para me equilibrar quanto para protegê-la de algum eventual caco de vidro. Os olhos da adolescente estavam arregalados de tanto horror. Não conseguia nem ouvir, nem ver Lucia, então não fazia ideia do que estava acontecendo.
Eu fazia, e me sentia não apenas tão assustada quanto Becca – meu coração parecia uma britadeira no peito – mas também com raiva de mim mesma. Fiquei tão distraída com a potencial maldição de meu namorado que acabei me esquecendo da coisa mais importante da mediação: Jamais, de forma alguma, subestime um fantasma.
— Desculpe — berrei para o espírito de Lucia. — Juro que estava só tentando ajudar...
— Cale a boca! — berrou a menininha, com uma voz que parecia vinda diretamente dos confins do inferno. — Caleabocacaleabocacaleaboca!
Cada sílaba foi enfatizada por mais um tremor no chão e nas paredes, o que fez com que as gavetas dos arquivos batessem com força. As pastas e papéis ali dentro saíram voando feito uma nevasca de celulose, e as persianas de madeira que, até onde eu lembrava, nunca foram abaixadas, despencaram até o chão de repente.
— O que está acontecendo? — berrou Becca. Era difícil ouvir alguma coisa além do tilintar dos vidros e do rangido do teto de madeira que os turistas adoravam fotografar para depois mostrarem aos arquitetos e pedir uma sala igual àquela. — É um terremoto?
Eu gostaria que fosse um terremoto. Uma explicação geológica seria bem melhor que: Na verdade, é um fantasma. Ninguém jamais acredita nisso.
Em vez de responder, soltei apenas um “Merda”, porque percebi que meu computador tinha começado a deslizar sobre a mesa. O monitor gigante – não de tela plana, pois a escola não tinha como pagar algo tão avançado – vinha em nossa direção.
Becca, ao ouvir meu xingamento e seguir a direção de meu olhar, berrou e abaixou a cabeça. Eu me abaixei por cima dela para que minhas costas recebessem a maior parte do peso do computador, caso desse tudo errado, e dei um chute para trás, aliviada ao sentir que a sola de minha plataforma entrou em contato com um plástico duro e pesado.
Era por isso que eu precisava de botas novas. Nunca se sabe quando você vai precisar se defender de um fantasma tentando usar seu computador para matá-la (e a uma aluna).

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