terça-feira, 13 de setembro de 2016

Capítulo 4

Quando voltei para o alojamento naquela noite, foi um caos, e não apenas por causa da “superfrente” repentina que invadiu a região dos três condados, fez com que eu ficasse encharcada e causou inundações nas estradas da baía de Monterey.
Foi também porque havia um homem no meu quarto.
Mencionei para vocês que moro em um alojamento só para meninas? Provavelmente não, porque é vergonhoso demais. Não foi ideia minha, acreditem. Foi ideia do meu padrasto.
Acho que dei sorte de certa forma, apesar do meu chamado “dom”, visto que, mesmo que tenha perdido o meu pai quando pequena, o cara que se casou com a minha mãe quando eu ainda estava no ensino médio (e por quem ela se mudou para o outro lado do país, me arrastando do Brooklyn, NY, para Carmel, Califórnia, quando eu tinha 16 anos) era bem legal.
Pontos positivos: o Andy adora a minha mãe, apresenta um programa de reformas no lar (que acabou de ser liberado para passar em vários canais, então minha mãe e ele estão nadando na grana), e é um cozinheiro incrível.
Pontos negativos: ele tem três filhos – com os quais jamais cogitei ter encontros sensuais, naquele estilo dos romances eróticos – e, sendo quase tão católico quanto o meu namorado, é superprotetor demais.
Então talvez eu não devesse ter ficado surpresa quando estava me candidatando para uma vaga no alojamento e ouvi o Andy falando para minha mãe que a única maneira de me manter protegida dos episódios de violência sexual sobre os quais ele ouvira no Rádio Público Nacional era me colocando no alojamento feminino.
Vamos ignorar o fato de que venho dando porrada em mortos-vivos desde o ensino fundamental, e que durante quase todo o tempo em que morei na casa do Andy, tinha um garoto morto-vivo morando no meu quarto. Esses são dois exemplos daqueles segredos que mencionei para vocês. O Andy não sabe deles, nem a minha mãe. Acham que o Jesse é quem o padre Dominic falou para eles: um “jovem aluno jesuíta que pediu transferência do México para a Missão Carmel e depois perdeu a vontade de ser padre” quando me conheceu.
Essa história sempre acaba comigo.
Então eu não reclamei da sugestão do Andy. Não me dei tão bem nos SATs (as coisas que as pessoas como eu fazem bem não podem ser medidas em testes de múltipla escolha, muito menos em redações), o que deixou a minha mãe bem-sucedida e feminista eternamente mortificada. O fato de os meus melhores amigos, Cee Cee, Adam e Gina, terem passado para escolas excelentes não ajudou, inflando o sonho que minha mãe tinha de me ver em Harvard, morando na casa Kirkland que nem o Mark Zuckerberg, fundador do Facebook.
Ao contrário disso, o único lugar para o qual passei foi o profissionalizante comunitário, onde moro em um quarto no chamado Vão das Virgens – uma brincadeira que não é tão brincadeira assim – com uma bruxa praticante, uma cleptomaníaca e uma menina cuja religião não a permite falar com homens que não tenham a mesma fé que ela.
Sempre digo para a mamãe que está tudo bem. Outra menina que mora com a gente se assumiu lésbica no semestre passado (para a surpresa de ninguém, a não ser dela mesma), e a quinta dorme com um cara que faz parte de uma gangue real de motociclistas.
— Viu, mãe? — falei para ela. — Bem melhor do que Harvard. Tem muito mais diversidade!
Ela não achou a piada engraçada, e é assim com a maioria delas.
Mas, sério, essas são as minhas garotas, todas elas. Estou secretamente as usando como estudos de casos para a minha aula de psicologia biológica.
No entanto, naquela noite não tive tempo de parar e bater papo, muito menos de tomar uns drinques. Precisava tirar as roupas encharcadas, descobrir onde o tal do Zack morava e impedir que Mark Rodgers cometesse o maior erro da sua vida.
Quer dizer, da sua morte, para sermos tecnicamente corretas.
No entanto, as meninas estavam em alvoroço, como descobri assim que abri a porta do alojamento com a minha carteirinha de estudante.
— Que porra é essa, gente? — perguntei para Lauren, a bruxa. As outras meninas do nosso andar estavam no salão comum na frente da televisão, na qual passava um filme com a Drew Barrymore (cada uma de nós tem um quarto privado, mas dividimos o banheiro, a cozinha e a sala de TV/estudos, no estilo Orange Is the New Black, apesar de até então ninguém ter sido esfaqueada).
A brincadeira era: toda vez que Drew ou uma das meninas idiotas que trabalhavam com ela se perguntassem se os homens valem a pena ou não, todo mundo tinha de virar um copo de bebida.
No entanto, a brincadeira parou quando entrei. Todo mundo se virou, levantou os copos vermelhos e começou a dar gritinhos.
— Tem uma surpresa no seu quarto — disse Lauren, me dando uma bebida. — E onde você estava? Tentei ligar pra contar, mas caiu na secretária. Fiquei com medo de você ter sido pega pela tempestade. E — ela fez sinal para o meu cabelo molhado — pelo visto você foi.
— Biblioteca — respondi, e dei um único e agradecido gole na bebida. Não podia beber mais, visto que ia dirigir de novo dali a poucos minutos para onde Zack Farhat morava. — Estudando.
— Há — disse ela com um risinho. — Você. Estudando. Na biblioteca. Boa!
— Há. — Sorri em resposta. — É, eu sei. Tava no shopping.
— Claro que tava. Aqui. — Ela pegou um objeto na mesa. — Chegou isso. Era grande demais pra caber na caixa do correio, então deixaram nas prateleiras lá embaixo pra você pegar, mas fiquei com medo da Ashley pegar, então trouxe pra cá. — Ashley era a nossa cleptomaníaca. Estava melhorando com a ajuda da terapia, mas assim como qualquer outra pessoa que tem uma disfunção que envolve impulsos, ela tinha de lidar com o problema um dia após o outro. — Pelo visto alguém ganhou presente de Dia dos Namorados.
Olhei para o pacote, animada com a ideia de ter sido enviado por Jesse, mesmo que tivéssemos concordado em não contribuir para a histeria em massa do Dia dos Namorados.
Nós nos amávamos incondicionalmente todos os dias, e ele não achava que eu era o tipo de garota que precisava ter garantias disso com um cartão, chocolate ou ursinho de pelúcia baratos e produzidos em massa. (Sem falar que o Dia dos Namorados não é mais a tradição fofa de quando ele era pequeno, quando as pessoas usavam o Pony Express para mandar cartões feitos à mão para pessoas amadas. Entendem quando digo que os segredos dele são um pouquinho obscuros?)
Em parte, ele tinha razão. Não ligo para cartões, e não tenho bichos de pelúcia desde que vi a minha primeira entidade sobrenatural, quando ainda estava aprendendo a andar.
Eu até que não me importaria com doces. Que menina não gosta de doces? E também não diria não para um jantar em um daqueles bistrôs que vi a caminho do cemitério. Aqueles casais agarradinhos sob os aquecedores pareciam tão felizes e contentes que até deu vontade de parar o carro e me aconchegar ao lado deles.
Isso, ou bater a cabeça de um contra o outro de tanta inveja. Não sei direito qual dos dois.
Mas nunca mencionei nada disso para o Jesse porque não queria que ele achasse que eu era o tipo de garota que gostava de ser levada nesses jantares que certamente custavam mais do que deviam. Ainda mais em uma noite que – ele tinha razão – acabou virando um feriado moderno completamente manufaturado, pasteurizado, grotesco e comercial.
Além disso, eu não queria estressá-lo enquanto ele fazia entrevistas para residência. A nossa hora ia chegar... depois que os dois se formassem, cada um na sua escola, e começassem a ajudar outras pessoas a superar os segredos profundos obscuros que pudessem ter.
Notem o sarcasmo. Não que eu duvidasse que o Jesse fosse se tornar um grande sucesso na profissão que escolheu. Só não sabia se o momento de superar os nossos segredos obscuros daria certo. Levaria certo tempo até que Jesse se recuperasse do fato de ter sido assassinado e depois forçado a viver como um ser paranormal por um século e meio.
E, considerando a confusão que criei na mediação daquela noite, eu diria que a minha chance de ser uma conselheira escolar razoável era nula, na melhor das hipóteses.
Por isso, não me surpreendi quando olhei para o canto superior esquerdo do envelope vermelho ridiculamente grande que a Lauren me entregou e vi que não era do Jesse. Era de outra pessoa que eu conhecia. Bem demais.
Paul Slater.
O meu próprio Zack Farhat.
Senti um frio na espinha que não tinha nada a ver com o meu cabelo molhado e minhas roupas encharcadas.
— Obrigada, Lauren — falei, e coloquei o envelope na minha bolsa-carteiro rapidamente. — Vou trocar de roupa e tomar um drinque com vocês. Depois tenho que sair de novo. Tenho uma coisa pra, hum, resolver.
— Ou não — berraram algumas das meninas mais sociáveis na frente da TV.
Mas, como elas sempre falam coisas daquele jeito de brincadeira, eu não dei muita atenção...
Até que abri a porta do meu quarto e dei de cara com um metro e oitenta de gostosura hispano-americana masculina intocada deitada na minha cama.
— Ah — disse Jesse, abaixando o livro preparatório para a segunda fase dos exames. — Você chegou. Finalmente. Estava ficando preocupado.
— Nossa. — Eu estava chocada demais para pensar em alguma coisa mais inteligente para dizer. — Você não imagina como estou feliz em ver você.
Pulei em cima dele que nem um cachorro que se perdeu do dono. Fiz tudo, menos lamber o rosto dele. Na verdade, acho que lambi um pouquinho, sim. Foi constrangedor, mas era um rosto lindo.
— Bem — disse ele quando finalmente deixei que tomasse fôlego —, se eu soubesse que a recepção seria assim, teria chegado mais cedo.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei um pouco sem fôlego. Havia partes do corpo dele fazendo pressão no meu que eu definitivamente queria sentir mais de perto, mas estávamos vestidos, o que fazia com que esse tipo de intimidade fosse impossível, a não ser que tirássemos algumas peças. — Achei que você estivesse fazendo plantões e entrevistas, ou uma lobotomia, sei lá.
— Então você realmente presta atenção quando conto o que faço — disse ele, seco. — Que fofa. Na verdade, eu queria fazer uma surpresa. Estou esperando aqui há horas. — Ele mostrou o celular. — Você não checa as suas mensagens nunca?
— Desculpa, meu celular estava sem serviço. Depois ficou encharcado de chuva e não ligou mais. Eu estava...
— Nem tenta me dizer que estava na biblioteca. — Seus olhos negros como a noite tinham uma expressão de divertimento. — Você pode ter enganado suas amigas com essa, mi amada, mas não vai me enganar. Onde você estava de verdade? E pode botar essa bebida na mesa? Acho que você já batizou nós dois o suficiente.
— Ai, desculpa. — Coloquei o copo no chão, depois tirei a bolsa-carteiro e o casaco e deixei os dois ao lado. Não queria acabar com o clima contando para ele a verdade sobre quase ter sido assassinada por uma PMNO. Ele tinha uma tendência de ficar de mau humor quando ouvia essas histórias. Era ainda mais superprotetor do que o meu padrasto, apesar de eu até achar essa característica atraente em um namorado. — Eu estava ajudando uma amiga que vai repetir em Estatística. Mas quer saber? Essa história é chata, então vamos voltar a falar de você. O que veio fazer aqui, sério? Achei que tínhamos concordado que o Dia dos Namorados é um feriado comercial e que não acreditamos nele.
— Não mesmo — disse ele. Não deixei de notar o olhar sugestivo que ele lançou para minha camiseta grudada, que ficou toda molhada mesmo que eu estivesse usando jaqueta de couro. Oba, ainda tenho esse poder. — Mas hoje de manhã um pessoal no hospital estava conversando sobre o que ia fazer hoje à noite pro Dia dos Namorados com seus amados, e quando falei que não acredito nesse feriado, eles...
— Esculacharam você? — Eu me joguei em cima dele de novo. — Ai, meu Deus, me dá o endereço dessas pessoas pra eu mandar cestas de frutas.
Ele me apertou. O volume ainda estava lá. Dava para senti-lo, duro que nem pedra, contra a minha barriga. Enterrei o rosto no pescoço dele e inspirei fundo. Acho que nunca vou me cansar do cheiro dele, embora tenha mudado ao longo dos anos – de uma combinação de fumaça e livros velhos de couro para o odor limpo e pungente de sabonete antisséptico. Ele tinha de lavar as mãos várias vezes ao dia por causa dos pacientes que tratava nos plantões.
Nunca achei que o cheiro de sabonete antisséptico poderia ser tão sexy.
— Alguns médicos disseram que eu deveria reorganizar as minhas prioridades, sim. — Sorriu para mim. — E foi o que fiz. Entrei no carro e comecei a dirigir.
— Mas como você chegou aqui? — perguntei, fingindo não notar o que estava acontecendo abaixo da cintura dele. — Meninos não são permitidos no Vão das Virgens.
— Pelo visto há exceções para estudantes de Medicina jovens e bonitos com reservas para um restaurante. — Olhou para o relógio de pulso. — Que acabamos de perder.
— Ai, Jesse, desculpa. Se você tivesse me ligado mais cedo, eu teria mudado o meu horário. — O que teria sido bem melhor do que a bagunça que criei no cemitério. — Aonde a gente ia?
— Estava tarde demais para eu conseguir fazer reserva em um lugar decente — disse ele. — E, além disso, não tinha como bancar um bom restaurante com a minha bolsa miserável de aluno. Então eu ia levar você pra fazer um piquenique na praia e ver o pôr do sol.
Eu me senti pior ainda.
— Ai, meu Deus. A gente ia ficar abraçado embaixo de uma coberta ao lado de uma fogueira?
— Ia. Se bem que com essa tempestade, que parece ter caído do nada, acho que foi até bom que os meus planos não deram certo.
Me controlei para não mencionar que fui eu quem causei a tempestade, aquela chuva torrencial que ainda ouvia batendo na minha janela. Quer dizer, não eu, e sim o meu cliente, que passou de meramente não obediente para assassino.
Era muito errado que eu de repente não me importasse mais? A julgar pelo que Mark contou, a impressão era a de que Zack Farhat merecia o que estava por vir.
Tudo bem, sim, era errado.
— Ia ser muito romântico — disse Jesse —, comprei até champanhe. Quer dizer, não champanhe de verdade porque não posso bancar. É vinho espumante da Califórnia...
— Eu prefiro vinho espumante da Califórnia — interrompi. — Você nasceu na Califórnia.
— Mas agora — continuou ele, e pegou uma garrafa que estava na outra ponta da minha cama — já esquentou. Não coube no seu refrigerador em miniatura. Tem energético demais lá dentro. Suzannah, você devia parar de tomar aquilo. Você sabe que eles estão cheios de...
— Frigobar — corrigi. — Chama frigobar, e não refrigerador em miniatura. E eu gosto de espumante quente.
— Ninguém gosta de champanhe quente, Suzannah, nem mesmo quando é de onde eu nasci. Então, por que você não tira essa roupa molhada e...
— Vou pra cama com você? — perguntei. — Acho uma ótima ideia.
— ... e para de mentir sobre onde você estava esta noite.

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