sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 40

Examinando suas roupas, Kylie constatou que vestia um uniforme militar. Estava... No corpo espiritual de Daniel Brighten de novo – assim como no sonho. Isso significava que não tinha morrido? Olhou para seu próprio corpo e viu que Derek tentava se livrar de mais dois vampiros. Della correu em seu auxílio.
Lembrando-se de que poderia ajudá-los como o fantasma de Daniel, Kylie deu um passo à frente. Mas, de imediato, percebeu que tinha voltado para o próprio corpo. Tentou se levantar. Mas qualquer movimento provocava dores intensas. Alguém apareceu, juntando-se a Derek e Della na luta. Kylie estranhou ao ver seu novo aliado.
Sky?
Lanternas iluminaram a cena. As sombras da noite, bem como vários dos agressores, dispersaram-se como ratos. Burnett e outros indivíduos, com jeito de serem também membros da UPF, pareciam surgir de todos os lados. Agarraram uma dupla de vampiros e algemaram seus pulsos e os tornozelos.
Derek correu na direção de Kylie.
— Você está bem?
Ela fez que sim, embora o corpo doesse em lugares que nunca pensara que pudessem doer.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Burnett a Derek. E estendeu as mãos, como se quisesse também algemá-lo.
— A culpa foi minha — intercedeu Kylie. — Eu o obriguei a fazer isso.
— Não obrigou, não — contestou Derek.
— Eu é que dei a ideia — interrompeu Della, aproximando-se.
— Estão todos mentindo. Nenhum deles tem culpa — disse Sky.
Todos ficaram em silêncio por um longo momento, até que Derek falou:
— Sky plantou as pistas falsas de sangue que conduziam ao acampamento. Ajudou estes caras a pegar os animais. Mas, no fim, veio em nossa defesa.
Kylie sabia que Derek tinha ouvido aquilo de seu contato mental com os leões. Os animais tinham falado com ele, como Kylie tinha esperança que fizessem. Uma centelha de alegria por ter tido razão iluminou o caos do momento e Kylie se permitiu saboreá-la.
— Ele está falando a verdade — e Sky estendeu os braços para ser algemada.
Burnett colocou as algemas nela.
— Por quê? — perguntou, olhando-a com repulsa.
— Eles... — começou Sky, olhando para os vampiros algemados — estão com minha irmã. Ameaçaram matá-la se eu não os ajudasse a fechar o acampamento. — Olhou para Kylie. — Concordei, pensando que era só o que queriam, mas isto... Prometeram que ninguém sairia ferido. Não sei como o leão foi parar na sua cabana, Kylie, juro. Eu deveria levar as bruxas para um passeio. Desconfiava que estivessem planejando alguma coisa, mas não pensei... Eles me garantiram que ninguém sairia ferido — sacudiu a cabeça e voltou-se para Burnett. — Só estava tentando salvar minha irmã.
— Eles? Quem são “eles”? — resmungou Burnett, olhando para os dois vampiros algemados no chão. Um deles rugiu para Burnett e tentou se desvencilhar. Dois outros agentes da UPF o imobilizaram.
Kylie notou então que o vampiro de cabelos avermelhados, o primeiro que a atacara, havia desaparecido. E essa simples constatação fez seu corpo todo se arrepiar.
— A Confraria do Sangue — respondeu Sky. — A gangue dos vampiros.
— E por que queriam fechar o acampamento? — perguntou Burnett.
— Acham que o acampamento está corrompendo membros em potencial — explicou Sky. — E, pelo que dizem, não são os únicos a pensar dessa maneira. A maioria das gangues já começa a se rebelar contra nossa instituição.
— Sabe onde estão mantendo sua irmã presa? — quis saber Burnett. Kylie percebeu em sua voz certa simpatia pelo dilema de Sky.
— Não. Mas meu pai contratou alguém para encontrá-la.
Holiday apareceu correndo e logo seus olhos pousaram nas algemas de Sky.
— Mas o que você está fazendo? — ela perguntou a Burnett.
— Meu trabalho — limitou-se a responder Burnett, afastando-se com Sky.
Holiday impediu sua passagem.
— Solte-a...
— Ele não pode, Holiday — suspirou Sky. — Ele está certo. Eu estraguei tudo. Lamento muito.
— Lamenta pelo quê? — perguntou Holiday.
Sky olhou para Derek.
— Conte tudo a ela — pediu.
Burnett voltou-se para Holiday como se fosse lhe dizer alguma coisa, mas logo fez sinal a Sky para que continuasse andando.
Holiday se virou para Kylie, Della e Derek.
— É melhor alguém começar a falar. E rápido.
Holiday chamou um médico e pediu que ele examinasse a todos cuidadosamente. Além de alguns arranhões e ferimentos leves, ninguém estava seriamente ferido. Passava das duas da madrugada e os músculos de Kylie doíam tanto que ela só pensava em ir para a cama. Mas, aparentemente, Burnett tinha outros planos.
Kylie e seus “comparsas” – por algum motivo Helen, Perry e Miranda confessaram participação em sua trama – receberam ordens para aguardar no refeitório. Holiday e Burnett entraram. Kylie viu sofrimento nos olhos da líder; sem dúvida, a traição de Sky a magoara muito.
Burnett iniciou o diálogo – ou bronca. Referiu-se ao que tinham feito como estupidez e loucura. Garantiu que tinha sido muita sorte ninguém ter morrido. Blá, blá, blá. E ele estava certo. Mas Kylie faria tudo de novo sem hesitar.
Ficou sentada comportadamente e aceitou seu castigo como os demais. Sabia que, invadindo a reserva, correria alguns riscos, mas jamais poderia imaginar que entraria em guerra com uma gangue de vampiros. Só o que queria era levar Derek até os animais para que ele tentasse obter deles algumas respostas.
E o plano, por sinal, tinha funcionado. Embora Burnett não o reconhecesse em seu longo sermão, evidentemente.
— Vocês pensaram, por um instante sequer, que eles estavam em número maior, na proporção de cinco para um? Não posso acreditar... — e continuou seu discurso, lembrando-lhes que, como sobrenaturais, deviam ser um pouco mais espertos.
Uma pergunta ocorreu a Kylie e, antes que ela pudesse se controlar, escapou-lhe dos lábios:
— Vocês ainda pretendem fechar o acampamento?
Burnett, irritado com a interrupção, franziu a testa.
— Se esse é o tipo de comportamento que podemos esperar de vocês, não tenho alternativa.
Chega! Chega! Chega!
Quando a palavra vibrou na mente de Kylie pela terceira vez, ela se levantou:
— Fizemos a única coisa que, a nosso ver, podia ajudar.
Não sabia de onde lhe vinha tanta coragem, talvez do cansaço, mas não conseguia se conter.
— Você parece ter se esquecido de que não tínhamos intenção nenhuma de brigar com uma gangue de vampiros. Só queríamos que Derek entrasse em contato com os animais para saber quem, afinal, era o responsável por tudo aquilo.
— Deviam ter nos consultado — ponderou Holiday.
Embora Kylie simpatizasse com a líder do acampamento, tinha uma observação a fazer. Se tinha enfrentado Burnett, poderia enfrentá-la também.
— E por que faríamos isso? — perguntou. — Não confiou em nós o bastante para contar o que estava acontecendo. Tudo bem, sabemos que você é a líder, mas não estamos no jardim de infância. Você diz que viemos aqui para aprender a lidar com o mundo lá fora, mas depois tenta nos esconder qualquer coisa que possa parecer desagradável. E se tivéssemos procurado você, com certeza não teria nos apoiado por achar que seria perigoso... — e, apontando para Burnett: — E digo o mesmo de você.
— Já chega — resmungou Burnett.
Ainda não.
— Mesmo que Holiday tivesse concordado, você não deixaria que Derek fosse à reserva porque considerava todos nós suspeitos.
— É isso aí — sentenciou Derek.
— Concordo — disse Della.
— Mandou bem, Kylie — apoiou Miranda.
Todos, na sala, balançaram a cabeça concordando com o que Kylie acabara de dizer.
— Não importa — reagiu Burnett.
— Importa, sim — Holiday ergueu a mão para silenciar o vampiro alto, moreno e ameaçador. — Kylie está certa. É difícil admitir, mas ela está certa.
Holiday respirou fundo.
— Costumo mesmo ser superprotetora — olhou para Burnett. — E você costuma ser... Bem, um idiota — a expressão de Burnett oscilava entre o choque e a raiva. — Estou apenas sendo honesta — continuou Holiday, fitando Kylie e os demais. — E respondendo à sua pergunta, Kylie, Burnett já me informou que felizmente o acampamento não será fechado.
Ouviu-se no recinto um brado geral de vitória.
— Na verdade... — Holiday relanceou os olhos para Burnett, como se lhe pedisse permissão para continuar. Ele fechou a cara, mas não se opôs. — Na verdade, me informou também que meu pedido para transformar o Acampamento Shadow Falls em Escola do Acampamento Shadow Falls foi aceito.
— Uma espécie de escola de tempo integral? — perguntou Kylie.
Holiday fez que sim e relanceou os olhos para Della.
— Temos esperança de que isso ajude a aliviar um pouco a pressão sobre os novos sobrenaturais que acham impossível conviver com suas famílias normais. Permitirá que mantenham contato e, se Deus quiser, evitará que essas famílias se desagreguem por completo.
Kylie sorriu e virou-se para Della, que parecia prestes a chorar.
— E — continuou Holiday —, embora eu tenha chamado o Sr. James aqui de idiota, o que é verdade, gostaria de acrescentar outra coisa: hoje à noite, seu chefe me contou que, ao contrário do que eu pensava, ele tem sido um defensor da escola. Segundo esse chefe, o Sr. James vem nos apoiando o tempo todo. Assim, gostemos ou não... E eu, devo confessar que não gosto... Ele merece o nosso respeito.
Burnett, de braços cruzados sobre o peito, não tirava os olhos de Holiday. E Kylie suspeitou que Holiday não correspondia o olhar só para aborrecer Burnett.
— Era só isso o que eu tinha a dizer — e a líder caminhou para a porta. — Já é tarde e, como amanhã é dia da visita dos pais, teremos que nos levantar bem cedo e bem dispostos, mesmo que seja preciso fingir.
Miranda, Della e Kylie saíram juntas.
— Chan não estava lá — disse Della. — Eu teria sentido seu cheiro.
— Sei disso — tranquilizou-a Kylie.
— Quem é Chan? — perguntou Miranda.
— Mais tarde eu explico — prometeu Della. E, virando-se para Kylie: — Quando Sky disse que não colocou o leão no seu quarto, estava falando a verdade.
— Foi o que pensei — disse Kylie. Mas algo naquele incidente ainda a intrigava, embora ela não soubesse o quê.
Aproximavam-se de sua cabana quando Kylie avistou Derek.
— Vão vocês — disse às amigas. — Quero dizer boa-noite a ele.
— Sentiu o cheiro dos hormônios? — perguntou Della a Miranda.
Kylie fez uma careta para Della enquanto as duas amigas se afastavam e virou-se para ir ao encontro de Derek.
— Ei, espera um pouco! — chamou.
Derek deu meia-volta e caminhou na direção dela. Quando se encontraram, ele sorria.
— Gostei de vê-la enfrentar Burnett e Holiday.
Kylie deu de ombros. Não sabia de onde tinha tirado tanta coragem, mas pelo menos tinha conseguido dizer o que queria. E não estava nem um pouco arrependida.
— E eu gostei do modo como você enfrentou aqueles vampiros. Como conseguiu? Eles iam caindo um depois do outro.
— Aparentemente, tenho a capacidade de abalar seu sistema com uma sobrecarga emocional — sorriu Derek. — Foi demais, não foi?
— Se foi! — exultou Kylie.
Derek olhou-a atentamente.
— Seu fantasma também estava lá, não estava?
— Estava — respondeu Kylie, sem se sentir ainda pronta para comentar sua experiência fora do corpo.
Seus olhares se encontraram e não se desviaram.
— O plano funcionou, hein? — disse ela. — Você se comunicou com os animais. Por isso sabia tudo a respeito de Sky.
— É. Você estava certa.
Kylie notou algo diferente na voz dele – talvez arrependimento.
— Está chateado por causa disso? — perguntou. Uma forte sensação de culpa oprimiu seu peito. Derek tinha feito aquilo por ela. — Se está... Espero que me desculpe...
Derek pousou um dedo sobre os lábios dela.
— Não precisa se desculpar. Estou feliz com o que fiz. Foi o certo — ajeitou uma mecha dos cabelos de Kylie atrás de sua orelha e deixou a mão lá. — Mandamos bem. Somos uma boa equipe.
— Você já salvou a minha vida duas vezes. Três, se contarmos a cobra — ergueu os olhos para ele, para seu sorriso doce. O toque da mão de Derek em seu pescoço era agradável. Muito bem-vindo. Sem pensar, Kylie ficou na ponta dos pés e pressionou os lábios contra os dele.
Não foi Derek que começou o beijo. Foi ela. Não foi Derek que aprofundou o beijo. Foi ela. Não foi Derek que se aproximou um pouco mais. Foi ela. Não que ele tenha se importado, é claro. Mas foi ele que invadiu com a língua a boca de Kylie. E ela ouviu uma voz interior sussurrar: “Opa!” Kylie recuou um pouco. Estavam ambos sem fôlego. Kylie achou que, nem quando lutavam contra os vampiros do mal, tinham respirado com tanta dificuldade.
Derek abriu os olhos e a observou atentamente.
— Uau!
Kylie inspirou, ainda com esforço, tentando desanuviar a cabeça. Fitou os próprios pés, pois olhá-lo agora nos olhos era demais para ela. Não tinha pensado que aquilo fosse acontecer. Ou tinha?
Derek segurou o queixo de Kylie e levantou sua cabeça. Que droga, ia obrigá-la a olhá-lo! E talvez fazer a pergunta a que ela não poderia responder.
— O que foi isso, Kylie? Apenas um agradecimento por salvar a sua vida ou... Algo mais?
Era a pergunta que ela temia.
— Não sei — respondeu Kylie com sinceridade. — Talvez um momento de fraqueza.
— Então me faça um favor — riu Derek, aproximando-se.
— Qual?
— Sempre que se sentir fraca, me procure.
Kylie levantou a mão para lhe dar um soco de leve no peito, mas ele a deteve. Levou a mão dela aos lábios, sem desviar seus olhos verdes dos dela e, gentilmente, beijou a ponta dos seus dedos. A umidade de seus lábios fez com que um arrepio delicioso percorresse a espinha de Kylie.
Por alguma razão desconhecida, o segundo beijo foi mais perturbador que o primeiro. Kylie notou então como o céu estava bonito. Um céu... Encantado. As estrelas cintilavam como num filme da Disney. Aquilo seria obra de Derek? Estaria usando seus dons para fazê-la ver as coisas de maneira diferente? Mas, e se estivesse? Que importância tinha? Kylie não saberia responder.
— Acho que... Acho que é melhor eu ir. Amanhã é o dia da visita dos pais.
— Vou acompanhar você até a cabana — prontificou-se Derek, arqueando a sobrancelha.
— Não vou te beijar de novo — disse ela, sem pensar.
— Aposto que vai — riu ele.
Kylie sabia que Derek estava certo, mas...
— Esta noite, não.
— Eu imaginei. Ainda bem que sou paciente.


O beijo de Derek e talvez também tudo o que tinha acontecido antes ajudaram Kylie a não pensar na visita da mãe – e no que lhe diria ou não diria a respeito do pai se esfregando com a garota no meio da rua. E havia aquela pergunta a fazer. A pergunta que dava um nó na sua garganta. A pergunta em que não queria pensar.
Mas agora, aguardando a chegada da mãe no refeitório, ela achava que talvez devesse ter refletido sobre aquilo, porque algumas coisas simplesmente ela não podia falar sem pensar.
A mãe entrou, procurando-a com os olhos. Kylie aproveitou aquele instante para observá-la bem. Cabelos e olhos castanhos. Kylie não se parecia em nada com ela, exceto pelo nariz ligeiramente arrebitado.
— Que dificuldade para te encontrar! — exclamou a mãe, enquanto se sentavam numa das mesas mais vazias. Ela mal se sentara na cadeira e já foi dizendo: — Você não tem dormido bem, não é, Kylie?
Seria aquilo uma espécie de radar materno, que a fazia adivinhar essas coisas?
— Apenas um pouco de insônia — mentiu Kylie.
A mãe debruçou-se sobre a mesa e perguntou em voz baixa:
— Não tem tido aqueles pesadelos, tem?
— Não — respondeu Kylie.
O olhar da mãe assumiu a expressão “não minta para mim”.
— Juro — reforçou Kylie.
— Está bem.
— Olá para todos — saudou Holiday à porta. — Normalmente não falo com vocês durante estas visitas, mas tenho notícias que gostaria de comunicar. Primeiro, lamento informar que, por motivos pessoais, Sky Peacemaker, minha colega no comando do acampamento, precisou se afastar — Kylie tinha que reconhecer: Holiday tinha dado um jeito de explicar as coisas sem necessariamente mentir. — No entanto — prosseguiu a líder — a vaga logo será preenchida. Até lá contaremos com um substituto temporário. Apenas temporário. Apresento-lhes o Sr. Burnett James, que foi muito bem recomendado — Holiday devia ter dito o “apenas temporário” com imenso alívio, pensou Kylie. Trabalhar com Burnett seria sem dúvida um fardo para ela. — A segunda notícia é... — e Holiday contou que o acampamento se transformaria num internato.
Kylie ficou observando a mãe enquanto Holiday contava as novidades. Só faltava a mãe se levantar, aplaudir e gritar: Finalmente livre, finalmente livre. Mas, estranhamente, a mãe conteve seu entusiasmo. Kylie sentiu uma pontada de culpa. Seria injusto que, querendo ela própria permanecer ali em tempo integral, recriminasse a mãe por querer o mesmo.
Depois que Holiday concluiu o discurso, Kylie se voltou para a mãe e disse:
— Quer dar uma voltinha? Há uns lugares bem bonitos no bosque.
A mãe olhou para baixo.
— Claro. Ainda bem que vim de tênis.
Kylie decidiu levar a mãe até a trilha menos difícil, que terminava perto do riacho, O lugar não era tão agradável quanto o dela e de Derek, mas serviria. Antes, passou na cabana para apanhar um cobertor no qual pudessem se sentar.
A mãe percorreu os cômodos, examinando-os.
— Meio apertado, mas agradável — comentou ela.
Socks saiu correndo do quarto e atracou-se com os cadarços de seu tênis.
— Ah, que gracinha! — disse ela, apanhando o gato e aproximando-o do rosto. — De quem é?
— Meu — respondeu Kylie.
A mãe pareceu surpresa.
— Não acha que deveria ter me consultado antes a respeito disso?
— Bem... Tem razão, acho que sim — balbuciou Kylie.
A mãe continuou admirando o gato.
— Sabe que gato este aqui me lembra?
— Socks? — arriscou Kylie.
— É. Você se lembra dele também? Nós o tínhamos quando você nasceu. Seu pai me deu no dia em que fizemos nosso primeiro ultrassom. Ele estava tão entusiasmado... — interrompeu-se e sacudiu a cabeça como para se livrar daquela recordação. — É, um belo gatinho — e colocou-o no chão quase como se o censurasse por ter evocado nela uma lembrança dolorosa.
Kylie notou a emoção nos olhos da mãe e desejou poder dar um soco no pai. Engoliu em seco para desfazer o nó que ia se formando em sua garganta e foi procurar o cobertor. Caminharam em silêncio durante algum tempo e por fim a mãe perguntou:
— Tem telefonado para seu pai, não tem?
Kylie pensou em inventar uma mentira, mas disse apenas:
— Ele também tem meu telefone, mãe. Quando quiser falar comigo, pode me ligar.
— Querida, os homens não são muito bons nisso...
— Não estamos falando dos homens. Estamos falando do papai.
— Tenho certeza de que ele teve motivos para não vir ver você. Seu trabalho às vezes o absorve muito.
— Verdade? Então foi por isso que você fez churrasco da cueca dele?

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