sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 4

— Que droga! — Kylie olhou novamente para a mensagem de texto imaginando que ela fosse desaparecer ou esperando que uma “brincadeirinha” fosse aparecer num passe de mágica no final. Nada desapareceu nem apareceu. Não era uma brincadeirinha.
Mas espere um pouco. Sara não podia estar grávida. Isso não acontecia com garotas como ela. Garotas espertas... Garotas que... Ah, bobagem! Isso acontece com qualquer garota que transa sem camisinha. Ou transa com camisinha vagabunda.
Como poderia esquecer aquele filminho da escola que a mãe lhe recomendou? Ou os folhetos que a mãe tinha levado para casa e, sem nenhuma cerimônia, deixado sobre o travesseiro de Kylie como se fossem biscoitinhos para a hora de dormir?
Um balde de água fria. Kylie voltava para casa depois de um dos encontros mais quentes com Trey, querendo reviver o melhor dos beijos excitantes e das carícias ousadas, apenas para se deparar com estatísticas de gravidez e doenças venéreas indesejadas. E a mãe sabia que Kylie só dormia depois de ler um pouco. Naquela noite, não houve doces sonhos.
— Más notícias? — perguntou alguém.
Kylie ergueu a cabeça e viu a Garota do Sapo ocupando o assento vizinho do outro lado do corredor, com as pernas junto ao peito e o queixo sobre os joelhos.
— Hum... Sim... Não. Quer dizer... — queria dizer que aquilo não era da conta dela, mas ser grossa nunca foi seu forte. Bem, a menos que a pessoa realmente pisasse nos seus calos, calos que sua mãe parecia conhecer muito bem. Sara tinha dado à incapacidade de Kylie de ser mal-educada o nome de síndrome da “boa moça”. A mãe chamaria de boas maneiras; mas, como era mestra em causar reações explosivas em Kylie, achava que a filha tinha lá suas falhas nesse departamento.
Kylie fechou apressadamente o celular para o caso de a Garota do Sapo ter uma visão aguçada demais. Mas concluiu que devia se preocupar mais com a visão aguçada do carinha loiro, com seus... Virou-se para o lado dele — e ele a olhava com olhos... Azuis! Bem, pelo menos uma coisa estava clara: nada ali poderia ficar mais esquisito do que já era.
— Sério, não é nada — disse, forçando-se a olhar para a Garota do Sapo sem reparar em seus cabelos multicoloridos. O ônibus freou de repente e a mala de Kylie caiu no chão. Ciente de que o loiro continuava de olho e com receio de que o assento vazio fosse um convite para ele se aproximar, apressou-se a recolocar a mala na poltrona.
— Meu nome é Miranda — sorriu a garota.
Kylie notou então que, tirando o cabelo e o sapo de estimação, ela parecia bem normal. Kylie se apresentou, olhando rapidamente para confirmar que não havia ali nenhum sapo.
— É a sua primeira vez em Shadow Falls? — perguntou Miranda.
Kylie assentiu com a cabeça.
— A sua também? — fez a pergunta por mera educação e olhou de novo para o celular, que ainda apertava contra a barriga. Precisava responder à mensagem de Sara, dizendo... Meu Deus, o que iria dizer a Sara? O que é que se diz à melhor amiga depois de ouvir que ela talvez esteja...
— Não, esta é minha segunda vez — Miranda puxou os cabelos para cima e os enrolou no alto da cabeça. — Não sei por que me querem de volta lá. A primeira vez não me ajudou em nada.
Kylie desistiu de redigir mentalmente o texto e fixou os olhos castanhos da garota — olhos que ainda não haviam mudado de cor. Curiosa, perguntou, quase gaguejando:
— E como... Como é lá? O acampamento, quero dizer. Não me diga que é uma droga.
— Não chega a ser terrível — soltou os cabelos, que desabaram em volta de sua cabeça como ondas negras, rosa e verde-limão. Em seguida, olhou para o fundo do ônibus, onde a garota pálida, agora de pé, inclinava-se para frente como se estivesse ouvindo algo. — Quer dizer, se você não tem medo de ver sangue — completou, num sussurro.
Kylie deu um sorrisinho, esperando sem muita convicção que Miranda fizesse o mesmo. Mas não. Miranda nem sequer moveu os lábios.
— Você está brincando, né? — o coração de Kylie deu cambalhotas no peito.
— Não, não estou, não — garantiu ela, muito séria. — Mas talvez tenha exagerado um pouco.
Alguém limpou a garganta tão alto que o som ecoou pelo ônibus. Kylie olhou para frente e deu com a motorista espiando pelo retrovisor. Kylie teve a estranha sensação de que o alvo daquele olhar era ela e Miranda.
— Pare com isso! — exclamou Miranda em voz baixa, tapando os ouvidos com as mãos. — Eu não te convidei!
— Parar com o quê? — perguntou Kylie. O comportamento bizarro da garota fez com que ela se afastasse um pouco. — Não me convidou para o quê?
Miranda não respondeu; correu para frente do ônibus e voltou em seguida. Então Kylie chegou à conclusão de que estava errada: errada na conclusão de que as coisas não podiam piorar.
Podiam, sim. E pioraram.


Não chega a ser terrível. Quer dizer se você não tem medo de ver sangue.
As palavras de Miranda vibravam como música de filme de terror na cabeça de Kylie. Certo, a garota admitiu ter exagerado, mas convenhamos... Mesmo um pouquinho de sangue já é demais.
Para que espécie de inferno minha mãe está me mandando?, perguntou a si mesma, talvez pela centésima vez desde que entraram no ônibus.
Nesse momento seu celular tocou e um texto apareceu na tela. Sara, de novo.

Por favor, não diga nada... Você já disse.

Kylie deixou de lado seus próprios problemas para pensar somente na melhor amiga. Os últimos meses talvez tivessem sido ruins, mas as duas eram amigas desde o quinto ano. Sara precisava dela.
Começou a digitar.

Fl sério, nem pensei nisso! Não sei o q dizer. Vc tá ok? Seus pais sabem? Vc sabe quem é o pai?

Apagou a última pergunta. Sara sabia quem era o pai, é claro. Um dos três garotos, obviamente. A menos que tivesse mentido sobre o que tinha feito com os dois últimos namorados.
Ah, meu Deus, Kylie só conseguia pensar na melhor amiga. Mesmo considerando as terríveis circunstâncias em que se encontrava — o divórcio dos pais, a morte da avó e a perspectiva de ficar acampada com um bando de gente esquisita no “sangrento” Shadow Falls —, a situação de Sara era pior.
Dali a dois meses, por pior que pudessem estar as coisas, Kylie estaria de novo em casa. Então, esperava, já teria superado o choque de perder o pai e a avó. Além disso, no fim do verão, talvez o soldado Dude não mais se interessasse por ela, desaparecendo para sempre. Mas, em dois meses, Sara estaria com a barriga do tamanho de uma bola de basquete.
Será que Sara voltaria para a escola?
Nossa, isso ia ser bem constrangedor. Para Sara, aparência era... Tudo! Se sombra azul estivesse na moda, podia apostar que Sara apareceria com sombra azul antes do final da semana. Caramba, ela perdeu vários dias de aula só porque uma espinha apareceu na ponta do seu nariz! Não que Kylie gostasse de ir à escola com uma espinha gigante na cara, mas, fala sério, uma “espinhazinha” todo mundo tem de vez em quando. Mas grávida nem todo mundo fica.
Kylie mal podia imaginar o que Sara estaria enfrentando.
Releu o texto, acrescentou um coraçãozinho e enviou. Enquanto aguardava a resposta de Sara, concluiu que nunca tinha se sentido tão feliz quanto agora por não ter transado com Trey.
— Dez minutos para ir ao banheiro — anunciou a motorista do ônibus.
Kylie ergueu os olhos do celular e viu a loja de conveniência. Não estava apertada, mas, como não sabia quanto tempo ainda duraria a viagem, guardou o celular na bolsa e se levantou para seguir os demais. Mal deu dois passos e alguém a segurou pelo braço. Uma mão gelada.
Kylie estremeceu e se virou.
A garota pálida olhava fixamente para ela. Ou, pelo menos, foi o que imaginou. Com aqueles óculos de sol quase pretos não dava para ter certeza.
— Você está quente — disse a garota, como que surpresa.
— E você está fria — retrucou Kylie, soltando o braço.
— Nove minutos — insistiu a motorista com voz firme, apressando Kylie.
Desceu do ônibus, sentindo o olhar da Garota Pálida às suas costas. Aberrações. Teria de aguentar aquelas aberrações durante todo o verão. Aberrações geladas. Tocou o braço no lugar onde a garota o segurara e podia jurar que o frio continuava lá.


Cinco minutos depois, bexiga vazia, voltava para o ônibus quando viu dois garotos comprando bebidas. A Garota Gótica virou-se para ela, no começo da fila. Então o cara dos piercings, que se sentava na frente, passou bem perto de Kylie sem dizer uma palavra. Kylie resolveu comprar chicletes e, depois de encontrar seu sabor favorito, entrou na fila. Ao ouvir alguém se aproximando às suas costas, voltou-se para ver se era a Garota Pálida de novo. Não, era o garoto dos fundos, o de suaves olhos verdes e cabelos castanhos. O que lembrava Trey.
Seus olhares se encontraram. E ficaram assim por algum tempo.
Kylie não sabia muito bem por que ele a fazia se lembrar de Trey. Sem dúvida os olhos eram parecidos, mas havia algo mais. Talvez o modo como a camiseta caía sobre os ombros e aquele ar de... Distanciamento. Trey não tinha sido a pessoa mais fácil que ela conhecera. Se os dois não tivessem sido escolhidos para serem parceiros de laboratório na aula de ciência, muito provavelmente jamais teriam namorado.
Alguma coisa naquele garoto também parecia difícil de entender. Especialmente porque ele nunca falava. Kylie já ia lhe dando as costas quando ele arqueou as sobrancelhas numa espécie de saudação breve. Seguindo seu exemplo, arqueou também as suas e só então se virou. Logo adiante, Miranda e a Garota Pálida conversavam junto à porta, olhando diretamente para Kylie.
Estariam tramando algo contra ela?
— Só me faltava essa — murmurou.
— Estão apenas curiosas — sussurrou uma voz tão perto de seu ouvido que ela sentiu o calor das palavras no pescoço.
Olhou por cima do ombro. Assim tão de perto, podia ver realmente seus olhos e descobriu que tinha se enganado. Não eram os olhos de Trey. Esse garoto tinha pequenas estrias douradas em volta das pupilas.
— Curiosas a respeito de quê? — perguntou Kylie, procurando não encará-lo.
— De você. Estão curiosas para saber quem você é. Talvez, se abrisse um pouco mais...
— Se eu me abrisse? — essa é boa. Vinha se esforçando para se convencer de que ele era normal e agora o garoto começava a agir como se fosse ela a antissocial. — As únicas pessoas que falaram comigo foram o loiro. Miranda e a outra... E tratei todos bem.
O garoto arqueou para ela a outra sobrancelha. E, por algum motivo, aquilo a irritou.
— Você tem um tique nervoso ou coisa parecida? — perguntou e logo mordeu a língua. Talvez estivesse superando a síndrome da “boa moça”.
Sara ficaria orgulhosa. Já a mãe... Bem, nem tanto.
A mãe.
A imagem da mãe de pé no estacionamento cruzou o cérebro de Kylie.
— Acho que você não sabe... — prosseguiu ele. Seus olhos se arregalaram, fazendo com que as estrias douradas parecessem faiscar.
— Não sei o quê? — perguntou Kylie, mas toda a sua mente estava concentrada na mãe. No fato de ela nem sequer ter-lhe dado um abraço de despedida. Como pôde fazer isso com a filha? Por que seus pais haviam decidido se separar? Por que coisas assim tinham que acontecer? O nó na garganta que ela tanto conhecia começou a se formar.
O garoto olhou para a porta e, acompanhando seu olhar, Kylie constatou que Miranda e a Garota Pálida ainda estavam lá. Os três já teriam frequentado o acampamento? Eram amiguinhos e ela a grande novidade do dia? A novata de quem iam pegar no pé?
A mulher do caixa resmungou:
— E, então, vai pagar os chicletes?
Kylie se virou, depositou o dinheiro no balcão e saiu sem pegar o troco. Passou de queixo erguido por Miranda e a outra garota, sem piscar. Não piscou com receio de que o tremor das pálpebras abrisse caminho para as lágrimas.
Não que a atitude arrogante daqueles caras a fizesse querer chorar. Queria chorar por causa da mãe, do pai, da avó, de Trey, do soldado Dude e, agora, de Sara. Pouco importava se aquelas aberrações gostassem dela ou não.

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