sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 39

— Não é assim que funciona — disse Derek dez minutos depois. Trazia a camisa completamente desabotoada. Sem dúvida, Kylie batera à porta de sua cabana quando ele se despia.
Kylie olhou para seu peito e viu que os arranhões estavam quase cicatrizados.
— O que quer dizer com “não é assim que funciona”? Pensei que você pudesse se comunicar com os animais.
Derek fechou a porta da cabana e levou Kylie para a varanda, como se tivesse receio de que algum de seus colegas de alojamento pudesse ouvir a conversa.
— Não posso simplesmente chegar lá e fazer perguntas pra eles. Ouço, ou melhor, sinto suas emoções. E nem todas.
— Mas, segundo você me contou, o leão te disse que não gostava do seu cheiro.
— Ele não me disse. Ele pensou — Derek sacudiu a cabeça. — Isso não vai dar certo, Kylie.
— Tem que dar — Kylie sentiu um aperto na garganta. — Eles vão fechar o acampamento, Derek. Estou começando a entender essa questão dos não humanos e não posso partir agora.
Ele a fitou por alguns instantes.
— Sei disso, mas...
— E não se trata apenas de mim. Você sabe o que vem acontecendo aqui. Um acusa o outro. E todos dizem que só o acampamento mantém a paz entre nós. Se aqueles homens acham que as gangues de sobrenaturais são ruins agora, imagine quando...
Derek pousou um dedo nos lábios de Kylie, que teve de lutar contra o desejo de meter as mãos pela abertura de sua camisa a abraçá-lo.
— Não estou discordando de você. Apenas acho que não vai funcionar.
Então ela se lembrou. Para que ficasse livre de seu dom, Derek teria de continuar se fechando para os animais. No entanto, ele a salvara do leão. Kylie nem tinha levado em conta seu sacrifício. Como podia ter se esquecido disso?
— Sinto muito — Kylie fechou os olhos por um instante. — Você diz isso por causa do seu dom, que não quer mais usar. Eu tinha me esquecido...
— Não — disse ele. — Tudo bem, talvez em parte.
— Não tem problema, Derek — garantiu Kylie, percebendo uma sombra de culpa nos olhos dele. Recordou-se de que, há poucas semanas, ela mesma daria tudo para não ter dom algum. — Não é justo de minha parte te pedir isso — e virou-se para ir embora.
Derek a segurou pelo braço.
— Espere — olhou-a bem nos olhos. — Eu falava sério quando disse que aquilo era apenas uma pequena parte de minha hesitação. Para ser franco, estou a ponto de abrir mão de tudo e assumir meu papel de Tarzan.
Kylie percebeu, por sua expressão, que ele dizia a verdade.
— Não se esqueça de que esse papel de Tarzan salvou minha vida. Portanto, não o menospreze.
— Eu sei. E é por isso que estou considerando a possibilidade de aceitá-lo. Mas o que você me pede... É demais pra mim. Não é como se eu pudesse me sentar e bater um papinho com os animais. Não é assim que funciona.
— Como sabe? — desafiou Kylie. — Já tentou?
— Não, mas... Outros, com o mesmo dom, tentaram. E, se eu pudesse de fato fazer isso, Holiday teria me dito.
— Holiday já explicou milhares de vezes que o dom de cada pessoa é diferente. Você disse que, até agora, só consegue ouvir os pensamentos deles; no entanto, de alguma forma, você pediu àquele leão que não nos transformasse em carne de hambúrguer.
— Mas ainda que, por um milagre, eu conseguisse me comunicar com os animais, não ia adiantar nada. O tal James da UPF não me deixaria chegar perto deles. Hoje mesmo ele me chamou novamente no escritório. Acha que estou envolvido. Chegou a me acusar de ter feito aquilo para impressionar você.
Kylie pensou em procurar Holiday imediatamente sabendo, no entanto, que a líder, com medo de ver alguém se machucar, não concordaria com a ideia. Ergueu o queixo em desafio:
— Pois bem, não vamos pedir nenhuma autorização. Vamos entrar sem que nos vejam.
— Acha mesmo que vai enganar um vampiro? Seria o mesmo que tentar enganar o Super-Homem.
— É, mas acontece que eu sei qual é a criptonita dele.
— O cara tem uma criptonita? — perguntou Derek.
— Tem. E o nome dela é Holiday.


Kylie tinha de admitir que não seria fácil. Mas, quando se tem apenas uma bala, convém caprichar no tiro. E foi o que ela e Derek fizeram. Precisariam de uma pequena ajuda, mas Kylie estava bastante orgulhosa do seu plano. Esperaram a uns cem metros da reserva animal, escondidos atrás das árvores. De acordo com Della, era distância suficiente para que Burnett não conseguisse farejá-los. Kylie trazia consigo o mapa do parque, que imprimira da internet no computador do escritório de Holiday.
Com Burnett fora do caminho, entrar na reserva seria moleza. Bem, seria porque eles contavam com a ajuda de um certo metamorfo com olhos que mudavam de cor. E, para evitar surpresas indesejáveis, Della faria urna varredura do parque e ficaria de vigia. A grande preocupação era se o dom de Derek lhe permitiria saber alguma coisa sobre os animais. Ele próprio não acreditava muito.
Mas Kylie queria acreditar em milagres.
Seu telefone tocou.
— Feito — informou Miranda.
Aquilo significava que Miranda tinha conseguido roubar o telefone de Holiday e enviar a Burnett uma mensagem à qual Kylie sabia que ele não iria resistir. Helen, que se prontificara a ajudar, tinha conseguido arrastar Holiday para bem longe. Quanto mais tempo Burnett gastasse procurando Holiday, mais minutos preciosos Derek teria para lidar com os animais. Primeiro, no entanto, precisavam que Burnett caísse fora. E ele fez isso minutos depois, batendo a porta do escritório e sumindo na noite.
— Parece que está com pressa — sussurrou Derek.
— Acho que ele gosta mesmo de Holiday — sentiu-se um pouquinho culpada por enganar Burnett. Mas, para compensar a mentira, Kylie poderia mais tarde ajudar os dois a se entender.
— Pronta? — perguntou Derek.
Ela assentiu com a cabeça. Correram para o parque, sabendo que corriam também contra o relógio. Perry já tinha aberto o portão para os dois quando chegaram.
— Até mais — disse ele. Como sua presença podia assustar os bichos, apressou-se a ir embora, com fagulhas flutuando à sua volta enquanto se transformava numa águia e desaparecia na escuridão do céu.
— Ver isso ainda me assusta — confessou Della, parando ao lado de Kylie.
— Encontrou alguma coisa? — foi logo perguntando Kylie, pois seu tempo era curto.
— Um guarda humano, dormindo em serviço no escritório dos fundos — Della fez uma pausa. — Não querem mesmo que eu vá com vocês?
Kylie sacudiu a cabeça.
— Acho que, quanto menos gente, mais probabilidades Derek terá de se comunicar com os animais. Vá para o acampamento e nos avise quando Burnett voltar. Tomara que dê tempo de sair daqui.
Tendo já estudado o mapa, Kylie e Derek se encaminharam primeiro para o local conhecido como “toca do leão”. Toca do leão? Isso não parecia nada convidativo. Embora algumas estrelas brilhassem, a lua desaparecia em meio às nuvens de vez em quando. Até os sons dos bichos pareciam mais agourentos que o usual, mas talvez a percepção de Kylie estivesse distorcida por ela saber que estava infringindo a lei. Fosse como fosse, caminhava o mais próximo possível de Derek.
— Os leões estão bem ali, logo depois da curva — avisou ele.
Um cheiro, que Kylie não sabia se era ou não de urina de felino, invadiu suas narinas.
— Posso sentir o cheiro — aquele odor a levou de volta ao quarto onde tinha ficado com o leão. Começava a entrar em pânico.
— Relaxe — disse Derek.
O fato de ele poder ler suas emoções ainda a irritava.
— Estou tentando.
— Eu só gostaria de saber uma coisa — disse Derek, ao mesmo tempo em que um leão começava a rugir.
— O quê?
— O que você vai fazer se descobrirmos que Lucas está por trás disso?
— O mesmo que farei se descobrir que o culpado é outro. Contar a Holiday — parou por um instante. — Mas não é isso que vamos descobrir.
— Você parece bem certa de que ele é inocente.
Kylie podia sentir Derek estudando-a.
— E você, de que ele é culpado.
— Por causa das provas.
— São todas circunstanciais.
— Para quem tinha tanto medo do cara, você mudou muito!
Kylie percebeu aonde aquela conversa podia levar e preferiu parar por ai.
— Só quero descobrir quem anda fazendo isso e impedir aqueles caras de fecharem o acampamento.
— Eu também — disse Derek.
Uma lufada de ar frio a envolveu e Kylie cruzou os braços sobre o peito. Derek a encarou.
— O fantasma está aqui?
— Talvez — Kylie olhou para os lados e não o viu. — Ele só voltou umas poucas vezes depois do incidente com o leão e nunca ficou mais que alguns segundos.
— Pode ser que ele nos ajude agora, como nos ajudou naquele dia.
— É, pode ser. Mas espero não precisar de nenhuma ajuda — disse Kylie. O frio se foi tão depressa quanto veio.
Pararam junto à grade.
— Chegamos — avisou Derek, olhando por entre as barras.
— Eles estão aí? — Kylie não conseguia vê-los.
— Estão, atrás das árvores e na margem do lago, mais adiante.
— Sabem que estamos aqui?
— Ah, com certeza.
Kylie deu um passo para trás.
— Como vai fazer isso?
— Esperava que você me dissesse — riu Derek.
— Fala sério?
— Mais ou menos — retrucou ele, parecendo um tanto inseguro.
— Tudo bem — Kylie mordeu o lábio. — Consegue lê-los?
— Por enquanto, só percebo que eles nos veem como uma ameaça.
— Por quê? — perguntou Kylie, ao mesmo tempo em que o som de outro animal selvagem, talvez um elefante, enchia a noite. — Com certeza não é só isso que estão sentindo.
— São machos — respondeu Derek, com um risinho maroto. — Nós, machos, não expomos facilmente nossos sentimentos.
— Muito engraçado — murmurou Kylie.
— Também acho — concordou Derek, ainda sorrindo.
— Isto é sério — e Kylie deu-lhe uma cotovelada de leve.
— Eu sei — o sorriso de Derek se apagou. — Eu te disse que não sabia se a coisa ia funcionar.
— Tente se concentrar — recomendou Kylie. — Pergunte a eles do que têm medo.
Derek encostou a testa na grade e fechou os olhos. Kylie ficou observando-o enquanto o tempo passava – um minuto, dois. Precisou fazer um esforço para não perguntar se aquilo estava funcionando.
Então pensou que, se ela também se concentrasse, talvez facilitasse as coisas para ele. Colocou-se às suas costas e pousou as mãos nas laterais do seu corpo. Do que vocês têm medo? Do que vocês têm medo?, repetiu mentalmente.
— Kylie? — sussurrou Derek.
— Está captando alguma coisa? — perguntou ela, esperançosa.
— Estava até você...
— Até eu...?
— Encostar seus seios em mim. Depois disso, parei de escutar o leão — riu Derek. — Precisa se afastar um pouco.
Kylie recuou um passo e lhe deu uma tapa nas costas. Derek riu ainda mais, mas logo voltou a se concentrar. Kylie ouviu um rumor por trás da grade.
— Acho que um deles está se aproximando.
— Shiihhh! — ordenou Derek.
Kylie se calou imediatamente, mas, quando o leão arremeteu contra a grade, deixou escapar um grito quase tão alto quanto o rugido da fera – e, dando um pulo para trás, foi cair sentada no chão.
— É o mesmo leão, não é? — perguntou Kylie, fitando a criatura que também não tirava os olhos dela. Jamais esqueceria aqueles olhos, amarelados e famintos.
Derek não respondeu. Nem se voltou para lhe oferecer a mão e ajudá-la a se levantar. Kylie notou então que ele permanecia imóvel, com os olhos abertos, fitando a fera como se... Conversasse mentalmente com ela.
Ainda sentada no chão, para não perturbá-los, esfregou as mãos para limpá-las da areia. Mas não teve nem tempo de pensar quando se viu puxada para cima. Gritou e outra mão lhe tapou a boca. Derek se voltou, mas, antes de conseguir dar um passo, um homem loiro o agarrou pela garganta e o pressionou contra a grade. O leão rugia às suas costas.
— Não faz barulho! — Kylie não identificou a voz. E, pelo toque gelado, concluiu que seu agressor era um vampiro ou outra criatura qualquer de sangue frio.
Derek lutava para se soltar, enquanto o rugido da fera ia se tornando mais ameaçador.
— O que estão fazendo aqui? — perguntou o agressor de Kylie.
Kylie deu um jeito de olhar para ele. Cabelos vermelhos. Olhos vermelhos, combinando com os cabelos. Sem dúvida um vampiro, pensou ela notando, além disso os caninos que se projetavam ligeiramente sobre o lábio inferior.
— Parece que alguém está com fome — zombou Vermelho, o vampiro que a imobilizava. — O gatinho bem que gostaria de devorar uma coisinha fofa como você. O problema é: eu também!
— O que está fazendo? — gritou o garoto loiro que segurava Derek pelo pescoço, antes de cair desmaiado no chão.
Pela expressão rígida de Derek, Kylie percebeu que ele tinha feito alguma coisa com o loiro. Em seguida, seu olhar se desviou para ela e Vermelho.
— Tira as mãos dela — ordenou Derek, com voz ameaçadora.
Derek avançava na direção dele quando, aparentemente do nada, mais dois sujeitos apareceram e o agarraram, cada um por um braço. Ele reagiu, tentando se soltar.
— Queiram me desculpar — disse o agressor de Kylie. — Acho que vou comer um petisco.
De um salto, recuou quase dez metros, arrastando Kylie com ele. Foram cair com estrondo no chão. O corpo todo de Kylie se chocou contra o chão e ela mordeu a ponta da língua com força. Sentiu o gosto do sangue que escorria da língua. Tentou se soltar, mas a força do vampiro fazia-a sentir-se tão indefesa quanto um besouro diante de um para-brisa de um carro em movimento.
— Ah, que cheirinho bom! — o vampiro levantou Kylie do chão e virou-lhe a cabeça para seu lado. — E ainda por cima, bonita — examinou os seus traços por um segundo, como se lesse seu padrão e colou seus lábios aos dela – não queria beijá-la e sim beber seu sangue. Mas Kylie não iria deixar que isso acontecesse.
Lute. Jogue sujo. Lembrou-se da lição número um que o pai tinha lhe ensinado para se livrar de tarados. Recuando a perna e concentrando toda a sua força, golpeou com o joelho os genitais do cretino. Nem tinha sequer considerado se os vampiros tinham o mesmo ponto fraco. O grito daquele, porém, revelou que tinham. Só não tinha contado com a possibilidade de ser arremessada pelos ares como uma boneca de pano. Suas costas bateram contra a grade e ela desabou no chão.
Uma voz lhe dizia que se levantasse e se preparasse para lutar. Mas, incapaz de respirar, teve que fazer um esforço descomunal apenas para abrir os olhos. Viu então os dois vampiros que haviam atacado Derek estendidos no chão, como o primeiro.
— Kylie, você está bem? — Derek surgiu de repente ao seu lado.
— Ela é minha — disse uma voz grave.
Paralisada, Kylie viu o vampiro que a beijara agarrar Derek pelo pescoço e arremessá-lo por sobre a cerca, no território dos leões. As feras rugiram e ela imaginou Derek sendo estraçalhado.
— Não! — gritou.
O vampiro olhou-a como se ela fosse o brinde na caixinha de cereais.
— Você é o quê? — perguntou ele e adiantou-se para erguê-la do chão.
Kylie sentiu-se congelar. Como nunca antes. Agulhas de gelo picavam sua pele, penetravam nos tecidos e chegavam até os seus ossos. Por um segundo, seus membros ficaram paralisados. Mas, de repente, viu-se de pé. O vampiro segurava alguém nos braços. E esse alguém era ela. Os olhos da criatura agora faiscavam, mais vermelhos ainda. Coisa estranha, não estava com medo. Esperou que ele se aproximasse mais, sentindo que podia enfrentá-lo. Mas sem saber como. Com o canto dos olhos, viu Derek pular a grade.
— Mandei soltá-la — gritou ele, avançando contra Vermelho.
A criatura largou Kylie e empurrou Derek contra a grade.
— Parece que você não sabe a hora de morrer, não é? — zombou.
Mas então outra figura surgiu do nada e golpeou Vermelho com tamanha violência que ele caiu. Kylie reconheceu Della imediatamente. Derek se virou para socorrer Kylie, mas outra figura negra o jogou de novo contra a grade. Sem pensar, Kylie avançou. Agarrou o vampiro que atacava Derek e o arremessou para longe. Numa espécie de transe, viu o corpo dele voar dez ou quinze metros no ar até cair num amontoado de arbustos. Virou-se. Derek olhava através dela.
— Uau, viu isso? — ela perguntou, mas ele não respondeu. Derek foi juntar-se a Della para conter o vampiro que Kylie tinha golpeado. O gosto da boca do vampiro continuava na língua de Kylie e ela queria cuspir. Mas antes disso se aproximou, escolheu um ponto vulnerável no corpo dele, fechou o punho e socou. O vampiro voou para trás e caiu sobre um monte de terra.
Derek e Della olharam um para o outro, perplexos.
— Kylie? — chamou Derek.
— Estou aqui — respondeu ela. Mas imediatamente o viu correr e debruçar-se sobre seu corpo estendido no chão, virando-o. Um choque a percorreu da cabeça aos pés. Se ela não estava em seu corpo, onde estaria?
Derek chamou-a de novo e disse por fim:
— Anda, respira! Pelo amor de Deus, Kylie, respira! — disse ele.
Caramba! Estaria morta?

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