sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 38

Holiday estava certa.
Não a respeito de Kylie descobrir o que era. Já haviam se passado cinco dias desde que ela quase se transformara em comida de leão e sua crise de identidade continuava sem solução. A única coisa certa para Holiday até o momento era que o método empregado por Burnett para resolver os crimes na reserva dos animais tinham fracassado. Tão logo ele anunciara que alguém do acampamento era culpado, todos começaram a se acusar mutuamente. Os vampiros acusavam os lobisomens porque quase todos os bichos mortos eram felinos e todos sabem que lobisomens detestam gatos.
Os lobisomens afirmavam que os vampiros tinham feito aquilo porque seu suprimento de sangue estava baixo. As fadas acusavam as bruxas, porque às vezes usavam sangue de tigre em alguns feitiços. As bruxas diziam que as fadas não eram confiáveis porque, como todo mundo sabe, gostam de manipular os sentimentos dos outros. Alguém insinuou que os metamorfos costumam caçar animais selvagens por esporte.
Depois, as acusações contra as espécies cessaram e alguns indivíduos azarados é que começaram a ser alvo de suspeita. Lucas e Fredericka foram os mais votados. Em seguida, mencionou-se o nome de Derek porque ele podia se comunicar com os animais e, ninguém ignorava, queria se livrar desse dom. Finalmente, por ser considerada “muito estranha”, com um padrão mental muito confuso e uma mente fechada, Kylie também foi tida como suspeita.
Kylie achou que o responsável talvez fosse Chan, o primo de Della. Quem sabe não pertencia à Fraternidade do Sangue? Della reagiu como sempre reagia: ficou furiosa. A tensão no acampamento chegou ao nível máximo. Ninguém mais participava da hora do encontro, Holiday e Sky só com muita dificuldade conseguiam impedir que os adolescentes trucidassem uns aos outros.
E havia também o desentendimento entre as duas líderes. Kylie, entrando no escritório, as ouviu discutindo. Para Sky, já era hora de dar um basta e fechar o acampamento. Holiday afirmava que isso só aconteceria se passassem por cima de seu cadáver. Sky acusava Holiday e não ser realista e querer bancar a mártir; Holiday acusava Sky de ter perdido a fé na escola e o interesse pelo trabalho.
Kylie não conhecia Sky muito bem, mas a conhecia o bastante para dar razão a Holiday. Por algum motivo, nunca tinha simpatizado com aquela loba que comandava o acampamento. Ela lhe lembrava a mãe, até certo ponto: fria, distante e inacessível. Sem dúvida, Sky tinha lá suas razões para ingressar na Irmandade da Rainha do Gelo – como sua mãe teve.
O engraçado era que, de repente, Kylie passou a ver com outros olhos o relacionamento entre seu pai e sua mãe. Sim, sua mãe era fria, mas seu pai era infiel. Aquele se tornara um enigma do tipo “quem veio antes, o ovo ou a galinha?”. Um enigma para o qual Kylie não tinha resposta. Embora o assunto do divórcio ainda a magoasse, Kylie resolveu tentar não fazer dele um problema seu. Já tinha problemas demais na vida. Cruzes! Quase tinha virado comida de leão! Ainda se perguntava quem a odiaria tanto a ponto de colocar um leão em seu quarto. O único nome que lhe vinha à mente era Fredericka. Mas, se Fredericka era culpada, Lucas não se tornava ainda mais suspeito?
As lembranças de Lucas se insinuavam em sua mente com mais frequência do que ela gostaria. Mas agora competiam com as lembranças de Derek. Derek e Kylie não tinham ficado a sós desde o episódio do leão, mas às vezes ele se sentava com ela, Miranda e Della durante as refeições. De vez em quando, Kylie o pegava olhando para ela de um jeito que deixava transparecer algo mais que apenas amizade; mas, fiel à palavra dada, Derek não a pressionava.
Não, a pressão que Kylie sentia vinha de si mesma. Num minuto, pensava em correr para ele e beijá-lo; no outro, surpreendia-se pensando no pai ou em Trey e perguntando a si mesma se um relacionamento compensava a decepção que sem dúvida logo viria. Isso sem falar na questão de ter de descobrir o que era. Por algum motivo, chegou à conclusão de que, se resolvesse esse problema, ficaria livre para fazer outras escolhas de vida.
Kylie voltou para sua cabana, parando no caminho a fim de farejar a presença de algum animal. Ainda de nariz levantado, sentiu Socks agarrando-se ao seu pé. Ela o pegou no colo e o aproximou do seu rosto. Sempre que Socks estava brincalhão, Kylie sabia que a cabana esta livre de bichos e fantasmas. Daniel só reaparecera umas poucas vezes – e... Nessas ocasiões, Socks corria para debaixo do sofá. Mas não precisava ficar escondido por muito tempo: Daniel só fazia visitas rápidas e nunca mais falou com ela.
— Então a barra está limpa, hein? — perguntou Kylie a Socks.
— Exceto por uma bruxa muito feliz — disse Miranda, saindo de seu quarto para abraçar Kylie e o gato.
— Me deixa adivinhar — propôs Kylie. — Perry finalmente criou coragem e te beijou.
— Não — disse Miranda. — E acho que nunca vai criar. Mas esqueça Perry por enquanto, porque enfim me livrei de um problema. E com a sua ajuda, é claro.
— Que problema?
— Do Sr. Pepper, meu professor de piano.
— Ah, meu Deus, não vai me dizer que deixou Della cozinhá-lo!
— Não. Descobri o que saiu de errado com meu feitiço e corrigi tudo. Graças àqueles livros que você me deu, descobri que tinha pronunciado letras e palavras ao contrário. Um verdadeiro quebra-cabeça, mas acabei decifrando — levantou os braços em sinal de vitória. — Finalmente, estou livre do sapo — Kylie riu. — E agora vem a melhor parte — continuou Miranda. — O Sr. Pepper se internou por conta própria numa clínica psiquiátrica.
— Então ele quer se curar da sua fixação por garotinhas?
— Não, andou sonhando que era um sapo. Mas... Confessou para o médico que estava preocupado por sentir atração por meninas — Miranda riu. — Dei um jeito de estar presente na sua primeira consulta. O importante é que vão ajudá-lo.
— Você conseguiu! — disse Kylie.
— Não. Nós conseguimos. Eu não teria conseguido se não fosse você. E, embora ainda não saiba se chegarei mesmo a Alta Sacerdotisa, talvez ainda tenha uma chance. Você é minha heroína, Kylie Galen.
— E eu, não? — perguntou Della, saindo também de seu quarto.
— Sinto muito — disse Miranda. — Vai ter que se esforçar mais na próxima semana.
Kylie pôs Socks no chão, para que ele fosse infernizar Della. Sabe-se lá porquê, o gatinho adorava seus chinelos do Pato Donald. Kylie observou Socks golpeando repetidamente o bico do Donald e logo a realidade veio substituir seu bom humor.
— Podemos nem ter uma próxima semana. Eles podem mesmo fechar o acampamento se não descobrirem quem está matando os animais da reserva. Precisamos parar de acusar uns aos outros e fazer alguma coisa. Não sei quanto a vocês, mas eu não quero voltar para casa.
— Por que não? — perguntou Della.
Kylie contou a elas o que tinha ouvido quando fora à cabana de Holiday.
— Eles quase pegaram o tigre branco.
— Mas como? — estranhou Della. — Pensei que o vampirão da UPF estivesse vigiando a reserva.
— Está. Mas alguém entrou de novo no território do leão e, enquanto Burnett investigava o caso, cortou a cerca para chegar até a jaula do tigre.
— Pobres animais — lamentou Miranda.
— É — concordou Kylie. Lembrou-se de Derek dizendo que o leão encontrado em sua cabana estava confuso e com muito medo. — Mas... Esperem! Por que não pensei nisto antes?
— Em quê? — perguntaram Della e Miranda ao mesmo tempo.
— Acho que já sei como esclarecer tudo.

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