domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 37

No final das contas, acabamos nos casando na igreja.
Não foi embaixo dos arcos grandiosos e extensos da basílica da missão de Carmel, como sempre planejamos. Foi na capela bem menor e modesta do centro médico do hospital São Francisco, em Monterey.
Mas, por algum motivo, achei melhor assim. Não havia estátuas da Madonna (que, segundo rumores, chorou lágrimas de sangue certa vez porque uma virgem – eu – havia se formado no ensino médio), nem o padre Junípero Serra olhando para nós.
Havia apenas os rostos familiares de amigos e pessoas amadas – nossos verdadeiros amigos e pessoas amadas, pois convidamos apenas os colegas de trabalho de Jesse e meus amigos e familiares que, por acaso, estavam na cidade durante o feriado de Ação de Graças.
O padre Dominic realizou a cerimônia, mas na cadeira de rodas em vez de no altar intimidador na Missão São Carlos Borromeo de Carmelo, o que preferi. A cerimônia ocorreu sem nenhuma falha, com exceção da performance das meninas carregadoras de flores, que, seguindo a tradição de meninas carregadoras de flores, roubaram a cena. Apenas Jesse, o padre Dominic e eu sabíamos, no entanto, que o show delas se deu porque alguns convidados a mais apareceram sem ser convidados... uma senhora que havia falecido momentos antes na ala de cardiologia e decidiu ficar por ali porque, como ela mesma nos informou, “Adoro um bom casamento.”
Teve também um forty-niner (um dos mineiros que participaram da corrida do ouro da Califórnia em 49) que simplesmente ficou de pé no fundo da capela, com o chapéu esmurrado em mãos, como sinal de respeito pela noiva.
Encontrar um lugar para a festa acabou sendo fácil. Convidamos todo mundo – menos os falecidos – para a casa 99 na Pine Crest Road a fim de que desfrutassem do bolo, champanhe, churrasco e cerveja.
— Bem — disse minha mãe, com o braço em volta da minha cintura, parada no deque traseiro que um dia foi dela, mas que agora era meu – não sei como você fez isso, Suze. Nem por quê. Mas aprovo.
— Obrigada, mãe. — Brindei com a taça de champanhe. — Jesse e Jake se esforçaram muito. David ajudou também.
Não mencionei que David chegou sem avisar à Cruzada do Caramujo na tarde de sábado em que Jesse e eu fizemos amor pela primeira vez, querendo saber onde estava todo mundo, e acidentalmente flagrou Jake e Gina em um interlúdio romântico. Então, quando descobriu que eu havia conseguido me tornar proprietária de nossa antiga casa e que não havia mais perigo de “a maldição”, que ele viajou 5 mil quilômetros para ajudar a quebrar, se concretizar, David teve um pequeno surto nervoso, o qual precisamos curar com boa quantidade de cevada e outras coisinhas.
— Não estou falando da decoração — disse mamãe, apontando para os globos de luz que colocamos no jardim para iluminar as mesas de piquenique onde nossos convidados estavam degustando o churrasco que Andy, sempre o chef, insistiu em fazer. — Estou falando da casa. Suze, eu não fazia ideia de que esta casa era tão importante para você. Por que não me falou? Jamais teríamos vendido se soubéssemos.
— Ah — falei, e dei um gole no champanhe. — Não era o momento certo. Jesse e eu tínhamos de resolver umas coisas antes.
O que eu ia dizer? Bem, a verdade, mãe, é que meu marido – como eu amava pensar, e ainda mais dizer, essa palavra – morreu e foi o fantasma desta casa por um tempoEle precisava resolver isso. E eu tinha de dar um jeito em umas merdas que estavam me assombrando. Mas agora está tudo bem. Quero dizer, tudo bem por agora.
— Desculpe perguntar, mas quanto você pagou para Paul pela casa? — Ela olhou para a casa, nostálgica. — Por favor, me diga que você não usou toda a poupança.
— Bem, não vou mentir para você, as taxas vão ser um inferno, mas não é nada que eu não possa pagar. E eu consegui um preço muito bom, no final das contas. — Não era fácil manter a expressão neutra. — Na verdade, Paul praticamente me deu a casa.
Minha mãe ficou impressionada.
— Nossa, que gentil da parte dele, não? Viu, sabia que vocês dois iam resolver seus problemas.
— É — falei. — Você estava certa quanto a ele.
— Simon! — Uma voz masculina familiar me assustou, vinda de trás. Eu me virei e vi Adam MacTavish, acompanhado de uma de minhas damas, Cee Cee. — Ou é De Silva agora?
— Vamos ver — respondi, e dei um abraço nele. — Ainda não decidi. Nossa, olhe para você, todo jovem profissional urbano.
— Você também não está nada mal, Simon. Posso admirar?
— Pode. — Dei minha taça de champanhe para Cee Cee e fiz uma reverência segurando o vestido de alta-costura.
Adam aplaudiu.
— Amei. Sou fã do decote em V e da saia sereia, sempre fui, não é à toa que são clássicos. Agora gire.
Eu girei. Cee Cee fingiu estar entediada e ficou analisando as nuvens, que haviam tomado um tom laranja e lavanda conforme o sol se punha no oeste.
— Maravilhosa — disse Adam. — Amo a renda, e o corpete deixou seus peitos incríveis, Simon. Está parecendo uma prostituta vitoriana.
— Meu Deus, Adam. — Cee Cee devolveu minha taça de champanhe e tomou a dele. — Já chega para você. A mãe dela está logo ali.
— Não acho que ela tenha escutado.
Minha mãe estava entretida em uma conversa com os pais de Debbie Mancuso, que vi mais cedo balançando as cabeças diante da pequena quantidade de móveis que Jesse e eu possuíamos. Não estávamos nem aí. Tínhamos um ao outro (e Spike e Romeo, que mais ou menos chegaram a uma trégua), e era tudo de que precisávamos.
E tínhamos também o cartão-presente considerável que mamãe e Andy deram para usarmos em uma das lojas de móveis que ele representava. Andy disse que eu podia usar seu desconto de funcionário. Eu já havia escolhido cortinas e tapetes.
— A Sra. Simon não me escutou — disse Adam —, e foi um elogio. Quando digo prostituta vitoriana, Suze, estou me referindo a uma daquelas mulheres lindas de aparência virginal em filmes de vampiro ou de faroeste.
— Exatamente a ideia que eu queria passar — falei. — Vocês me dão licença? Acabei de ver umas pessoas que quero cumprimentar.
— Claro — disse Cee Cee.
Quando saí, ouvi um barulho abafado, e Adam exclamando de dor.
— Que foi? — perguntou para Cee Cee, defendendo-se. — Eu falei que era um elogio.
— Você é tão idiota — respondeu Cee Cee, mas havia carinho na voz dela.
Desde que a história do “suicídio” de Jimmy Delgado foi publicada, Cee Cee ficou muito mais confiante quanto a suas possibilidades profissionais. O artigo que ela escreveu depois daquele, sobre a prisão do padre Francisco e de vários outros residentes proeminentes da área da baía de Monterey que eram membros da “lista de clientes privados” de Delgado, foi publicado pela Imprensa Associada. Ofereceram uma promoção para Cee Cee na Carmel Pine Cone que ela ainda dizia estar “analisando”.
Isso era muito melhor que qualquer presente que eu poderia ter comprado para ela on-line, apesar de eu ainda estar procurando a maneira perfeita de agradecer.
No entanto, ela disse que casar um ano antes – e com tanta pressa que ela não teve tempo de comprar um vestido de madrinha – era o suficiente como forma de agradecimento.
Desci as escadas rapidamente em direção aos novos convidados que vi chegando pelo jardim da frente da casa – ou melhor, o mais rápido que uma pessoa usando um vestido de noiva com corpete apertado e saia sereia podia ir.
— Becca. Kelly. Sr. Walters. — Eu ainda não conseguia chamá-lo de Arthur. — Olá. Que bom que vieram.
— A gente jamais deixaria de vir. — Vi o olhar de Kelly analisando minha cintura e barriga rapidamente. Sabia que ela estava tentando ver se eu estava grávida, e se esse seria o motivo de um casamento tão às pressas. — Você está linda. É um Pnina Tornai?
— Não, Galia Lahav.
Pela primeira vez, tive o prazer de ver Kelly sem palavras.
— Não sei se vocês estão falando minha língua — disse o marido em tom jovial —, mas você está maravilhosa, Susan.
— Obrigada, Sr. Walters. — Sorri para Becca. — Você também está maravilhosa.
E, pela primeira vez, eu não estava mentindo. Embora Lucia tivesse partido havia apenas uma semana, Becca parecia outra menina, com uma nova e confiante postura e os cabelos negros longe do rosto. A pele dela estava melhor, e o vestido cor de creme era do tamanho certo. Ainda tinha progresso a fazer, mas não estava mais com medo da jornada.
— Obrigada. Srta. Simon — disse ela, me dando uma olhada tímida. O grupo de pessoas no jardim, que era consideravelmente maior (e mais falante) que o da capela parecia intimidá-la um pouco. Além disso, Jake insistiu em contratar uma banda mariachi “de presente” para nós, com a roupa completa, inclusive os sombreros, e, embora eles fossem talentosos, eram surpreendentemente ensurdecedores. — Onde podemos colocar isto?
Becca estava segurando um presente grande, com um embrulho lindo.
— Ah — falei —, pode colocar na mesa ali. Muito obrigada.
— É uma máquina de fazer tortilhas — declarou Kelly. — Você não fez lista de presente em lugar nenhum, então a gente não fazia ideia do que dar. Achei melhor comprar alguma coisa de que ele fosse gostar. — Ela deu uma olhada em Jesse, que estava radiando beleza e alegria em seu terno, gargalhando com Brad e o Dr. Patel por causa de alguma besteira que as trigêmeas e os mini-Patel estavam fazendo na mesa do bolo.
— Poxa, que gentileza sua, Kelly — falei. Eu consegui ser educada, de tão feliz que estava. — Por favor, fiquem à vontade para pegar bebidas no bar. Ah, Debbie chegou, ela leva vocês até lá.
Debbie se aproximara rapidamente, vendo que a amiga havia chegado.
— Kelly, meu Deus do céu, você demorou uma eternidade. O trânsito estava muito ruim? Que pena. Arthur, vem aqui, meu pai quer dar oi. Você também, Becs, quero que conheça meu querido cunhado mais novo, David. Ele estuda em Harvard, vocês vão se amar.
Tanto Becca quanto David pareceram mortificados, mas apenas David, que estava sentado à mesa de piquenique com Jake e Gina, ficou quase tão vermelho quanto os próprios cabelos. Ele havia convidado o “grande amigo”, Shahbaz, para acompanhá-lo ao casamento, e depois deixara bem claro que eram mais que amigos se beijando embaixo de um enfeite feito de visgo na casa de Brad e Debbie durante o jantar de Ação de Graças.
Brad disse apenas:
— Cara, já entendemos, você é gay. Agora me passe o molho.
Shahbaz lidou com a família Ackerman e suas várias esquisitices com bom humor. Chegou até a perguntar para mim, com uma piscadela, como estava meu projeto de pesquisa sobre maldições do Antigo Egito.
— Vai lá, Becca — falei com um sorriso, e dei um empurrãozinho nela. — Não se preocupe, ele é comprometido.
— Não é, não — insistiu Debbie. — Está apenas passando por uma fase.
Revirei os olhos. Debbie era a única pessoa da família resistente a mudanças, mas eu sabia que ela também se acostumaria. Afinal, ela concordou com a escola de mediação – e até com vacinas – para as trigêmeas.
— Você se divertiu na festa de Sean Park, Becca?
— Foi legal, acho. Mas eu não ganhei no Médium.
— Não dá para ganhar sempre no Médium, Becca. Acredita em mim. Eu saberia. Vai lá bater um papo com David e seu amigo. Eles não mordem.
Ela segurou o pingente de cavalo que ainda usava e disse um “Tá bom” com a mesma voz de má vontade que minhas sobrinhas usavam quando concordavam em provar um legume novo. Insegura, ela seguiu Debbie pelo jardim em direção a David e o namorado.
— Mandou bem — disse uma voz atrás de mim. Eu me virei e vi uma mulher baixa e muito elegante, com cabelos brancos reluzentes e um batom vermelho ainda mais reluzente.
— Dra. Jo! Você veio! — Eu me inclinei e a abracei. — Estou tão feliz.
— Como eu não viria? — perguntou ela, me abraçando também. — Fiquei tão curiosa com seu sumiço das últimas semanas. Todo mundo ficou. — Ela me soltou e fez um sinal para Jesse com a cabeça. — Agora eu entendo. Ele é o médico de quem já ouvi falar tanto?
— Ele é o médico de quem você ouviu falar tanto.
— Calma, coração. E é aqui que vocês dois vão morar? — Ela olhou para os fundos da casa que, vista por trás, conseguia parecer ainda maior e mais impressionante do que era se vista de frente.
— Isso. É uma história meio longa...
— Que, tenho certeza, você vai me contar um dia. Quero dizer, vai contar o tanto que Suze Simon consegue contar.
Não sei o que me fez fazer aquilo. Talvez porque não estivesse acreditando que ela estava ali. Talvez porque não estivéssemos no consultório dela, e sim no jardim da casa que aprendi a amar tanto e onde eu me sentia tão segura. Talvez porque fosse meu casamento e eu estivesse tão feliz.
Mas eu me vi olhando para ela bem dentro dos olhos e dizendo:
— Dra. Jo, vou dizer uma coisa para você, mesmo sem saber se vai acreditar. Seu marido, Sy, tem uma mensagem que ele quer que eu dê a você. Ele quer que eu peça para você se preocupar menos com os pacientes, e mais consigo mesma. Ele pediu para você se lembrar de trocar os pneus...
A Dra. Jo se afastou de mim tão rapidamente que achei que ela fosse tropeçar, então eu a segurei por um dos cotovelos. O rosto dela estava totalmente branco, exceto pelo escarlate do batom nos lábios.
— Mas... como você...?
— Desculpe — falei. — Não quis assustá-la. É só porque você disse que acha que sofri um trauma no passado, e eu não sofri. Nada de trauma. Apenas sou capaz de falar com os mortos.
Ela segurou meu braço.
— Acho que preciso me sentar.
Jesse escolheu aquele exato momento para aparecer.
— Está tudo bem? — perguntou ele.
— Não exatamente — respondi. — Você pode pegar uma cadeira para a Dra. Jo?
— Claro. — Ele foi embora e voltou com uma cadeira rapidamente, então ajudou a Dra. Jo a se sentar. — Está melhor assim?
Ela havia fechado os olhos, mas os abriu novamente quando se sentou e olhou para Jesse, ajoelhado ao seu lado na grama, e depois para mim.
— Presumo que ele saiba desse... seu talento? — perguntou ela.
— Ah, sim — respondi. — Ele tem o mesmo talento. Bem mais que eu, na verdade.
— É claro que tem — murmurou ela. — Por que eu perguntei? Então, o que Sy falou exatamente?
— Desculpe, mas é que seu marido não consegue seguir em frente porque se preocupa tanto com você. Está muito chateado porque você não se lembrou de trocar os pneus...
— Isso é mesmo coisa de Sy — murmurou ela. — Aquele carro. Aquela droga de carro.
— Eu não sabia como falar isso para você. Mas eu o vejo quase todo dia no estacionamento da faculdade. Um de meus meios-irmãos trabalha numa concessionária, talvez ele pudesse...
A Dra. Jo não estava escutando.
— Aquela droga de carro. Sempre foi a única preocupação dele.
— Ele se preocupa com a senhora, não com o carro — informou Jesse.
Ela fez um carinho no rosto dele.
— Você é muito querido. Mas acho que preciso ficar sozinha. E preciso de uma bebida. Será que um de vocês pode...?
Jesse disse “claro” e me puxou pela cintura, não em direção ao bar, mas para longe dele.
— Tem certeza de que essa foi uma boa ideia? Ela não é sua conselheira?
— E terapeuta, isso. Mas eu acho que ela precisava ouvir aquilo. Por que a gente não está indo até o bar? Ela disse que quer uma bebida. E eu também acho que quero uma.
— Eu peço para seu meio-irmão levar para ela. — Jesse fez um sinal para Brad, que estava improvisando como barman no bar improvisado: dois cavaletes com uma tábua por cima, coberta por um pano quadriculado de branco e vermelho. — Se ela é terapeuta, é bom que ele converse com ela mesmo. Precisa de um pouco de aconselhamento vocacional. Sabia que ele não vai mais trabalhar com o sogro?
Arfei de surpresa.
— Não?
— Não. Ele me contou ontem à noite. Pediu um empréstimo para seus pais a fim de poder se matricular na academia de polícia.
— Policial? Brad? — Por mais que soasse absurdo, até que a ideia parecia boa. Brad amadureceu depois que as meninas nasceram, amando a estrutura que a paternidade deu à própria vida. Um emprego na polícia daria ainda mais estrutura. — Nossa. As reuniões da família Ackerman vão ficar ainda mais interessantes.
— Sim. Mas, por enquanto, tem uma pessoa aqui que quer falar com você.
— Quem? Francamente, não consigo falar com mais ninguém. Estou chocada demais. Além disso, já falei com todo mundo, menos com a pessoa que mais quero. Você. — Eu me virei e passei os braços por trás da nuca dele. — Mal tive um minuto a sós com você hoje. O que achou do vestido? Foi o único que ainda não falou nada.
Ele pegou a taça de champanhe vazia que eu estava segurando e a colocou sobre a mesa de piquenique.
— Eu tenho uma opinião sobre seu vestido — disse ele. — E você com certeza vai saber qual é, mas não agora. — Ele tirou meus braços de cima dele e me girou até que eu ficasse de frente para o padre Dominic, que estava a alguns metros de nós, ainda debaixo de seu cobertor na cadeira de rodas, ao lado de um aquecedor para ambientes externos que havíamos alugado.
— Mas eu já falei com o padre D — sussurrei. — Várias vezes, na verdade. E com a irmã Ernestine. Ela está completamente apaixonada por mim desde que dei um jeito do padre Francisco ser preso. Disse que já fui contratada... com um período probatório, é claro, mas por mim tudo bem. Então, visto que já cumpri minha obrigação de conversar com esses queridos idosos, será que a gente pode, por favor, dar uma fugidinha...
— Suzannah — disse Jesse, me virando até que eu estivesse de frente para um gigante de trench coat de couro, parado ao lado da cadeira de rodas do padre Dominic. — Você não se lembra de Jack Slater?
Tive de inclinar a cabeça para trás a fim de olhar o gigante no rosto. Quando fiz isso, vi que ele tinha apenas uma pequena semelhança com a criança da qual cuidei muitos anos antes no Resort e Hotel Praia Pebble.
— Jack? — Minha voz saiu tão aguda que nem reconheci.
O gigante sorriu.
— Oi, Suze — disse ele com uma voz estranhamente jovial. Estendeu a gigantesca mão direita, que estava coberta por luvas sem dedos feitas do mesmo couro do casaco. — Parabéns para você e Jesse.
Dei minha mão para o gigante e permiti que ele balançasse meus dedos para cima e para baixo. Dei uma olhada rápida para o padre Dominic e vi que ele sorria. Depois de um dia tão longo – o Dr. Patel só permitiu que ele saísse do hospital por algumas horas – ele devia estar exausto.
— Obrigada, Jack — respondi, um pouco impressionada. — Você está... diferente.
— Eu sei — disse ele, e deu uma risada. — É estranho, né? Mas foi muito legal vocês terem me convidado.
Isso me deixou ainda mais sóbria do que a visão daquela mão gigante de adolescente. Jesse e eu nos olhamos rapidamente.
— Hum — falei —, claro. Ainda bem que você conseguiu vir.
Mas é claro que nós não o convidamos. Eu não queria que Paul soubesse que iríamos nos casar; já tivemos problemas o suficiente para uma vida inteira com ele.
Por isso, tomei o cuidado de que nada fosse postado online, e ainda mais cuidado para não mandar convites nem para Paul, nem para seu irmão mais novo, Jack, embora tivesse me sentido mal com isso.
— Pois é, Suzannah — disse o padre Dominic, com uma expressão um tanto constrangida. — Não foi bom Jack ter vindo? Lá de Seattle, que é onde ele mora agora.
Dei uma olhada séria para o padre. Agora entendi quem o convidou.
— Sim — falei. — Muito bom mesmo.
— Estou vendo que meu irmão não está aqui — disse Jack. — Perguntei se ele vinha e ele disse que não tinha certeza. Ele não foi convidado? Não causou mais problemas, causou?
— Não exatamente — respondi, e ao meu lado vi que o queixo de Jesse ficou tenso. Não dava para ouvir os dentes trincando por causa da música, mas eu tinha certeza de que era isso que estava acontecendo.
Só então entendemos como foi que Paul descobriu que mudamos a data do casamento, apesar dos cuidados que tomei.
Uma caixa havia chegado via FedEx naquele mesmo dia, mais cedo, com um cartão de Paul desejando “vários anos de um casamento abençoado”.
Dentro da caixa havia uma notificação emoldurada informando que, respondendo a pedidos, a casa 99 da Pine Crest Road foi determinada como elegível para ser parte do Registro Nacional de Locais Históricos, pois era associada a “eventos que contribuíram significativamente para a história” e a “vida de pessoas significativas para o passado do país”. Sendo assim, a propriedade jamais poderia ser demolida ou alterada de forma alguma.
O pedido havia sido feito pela Sociedade Histórica de Carmel-by-the-Sea quatro meses antes. A notificação estava datada com um dia depois do dia em que Paul teria começado a demolir minha casa... se eu não tivesse impedido.
Achei que Jesse e eu já havíamos esgotado nossa cota de milagres, mas fiquei feliz em receber mais um.
Jesse, muito satisfeito, prendeu a notificação acima da lareira no salão de entrada.
Segundo a notificação, um selo oficial – o mesmo presente na parede externa da prisão do condado de Monterey, outro prédio histórico onde Jesse passou algum tempo – chegaria em breve, assim que fosse fabricado.
Para dar algum crédito a Paul, eu não acho que ele teria conseguido achar um presente de casamento melhor que aquele... apesar da mensagem que ele me mandou mais tarde expressar sentimentos mais verdadeiros quanto ao meu casamento:

El Diablo
Pelo visto você não precisa se preocupar em arranjar uma coisa velha para o casamento, não é, Simon?
Quando finalmente estiver pronta para algo novo, me ligue.
Nov 26 1:24 PM

Por mais que fosse insultante, era bom saber que ele estava melhor. Isso mostrava que, por mais que a mandíbula estivesse quebrada, o coração dele nunca o esteve de verdade – se é que tinha um, o que eu duvidava.
Entretanto, eu já havia decidido que era melhor não responder com uma cópia emoldurada dos resultados do teste de paternidade que tomaram alguns milhares de dólares de meu próprio bolso, visto que pedi urgência durante o feriado.
A probabilidade de Paul ser o pai das trigêmeas (ou das Crianças A, B e C, como foram chamadas no laboratório) era de 99,999 por cento... não que eu tivesse duvidado disso, ou tivesse a intenção de contar a alguém, exceto Jesse. Era apenas uma segurança, caso eu precisasse no futuro.
— É — continuou Jack. — Eu e Paul não somos mais tão próximos. Não que a gente já tenha sido, na verdade. Eu basicamente só o vejo nas reuniões dos sócios.
— É? — perguntou o padre Dominic. Dava para ver que o velhinho estava se divertindo. Entediado por ficar preso no hospital por tanto tempo, teria se animado até mesmo com um casamento normal. Mas aquele em particular o interessava muito. — Seu avô deixou parte da empresa para você?
— Ah, não, deixou nada — respondeu Jack. — Vovô não me deixou nem um centavo. Eu comprei parte da empresa de Paul com meu próprio dinheiro. Faço videogames. E sou bem bom nisso. Quem diria que eu seria bom em alguma coisa, hein, Suze?
Ele riu de si mesmo de uma maneira autodepreciativa que o irmão jamais teria. A gargalhada, no entanto, me lembrava bizarramente a de minhas sobrinhas.
— Videogames? — repeti. — Achei que você gostava de escrever roteiros.
— O quê? Não. Quero dizer, um pouco. Eu faço uns jogos meio bobos, na verdade. Você já deve ter ouvido falar de um deles. — Jack falou a palavra ao mesmo tempo em que eu adivinhava qual seria. — Médium.
Jesse ficou chocado.
— É você que faz aquilo?
Jack riu mais, como se também não acreditasse.
— Eu sei. Estranho, né? Quero dizer, sei que é para a gente manter o negócio da mediação em segredo, mas nunca achei que alguém veria meu jogo, muito menos o levaria a sério. Eu me inscrevi em um concurso. Honestamente, nunca esperei que fosse ganhar. Chegaram até a fazer um programa de TV ridículo baseado nele.
— Já ouvi falar — comentei com impaciência.
— Eu sei, é muito ruim. — Jack pareceu um pouco desanimado com minha falta de entusiasmo. — Mas deu certo internacionalmente, e eu recebo pelos direitos. Aquela mulher que faz a protagonista...
— Ela é uma charlatã — interrompi. — As leituras dela não são reais.
— É, eu sei. Mas as pessoas parecem gostar muito dela. Eu tento doar bastante dinheiro para caridade. Abrigos de animais, na maioria das vezes, mas para caridades infantis também. Ei, eu podia doar um pouco para o hospital onde você trabalha, Jesse. Isso realmente irritaria meu irmão.
— Acho uma ótima ideia. — Jesse deu um tapinha no ombro do Jack. — Bom trabalho, continue assim. — É claro que Jesse ia dizer isso.
— Obrigado. — Jack olhou em volta, tímido. — Então... não tem nenhuma, hum, menina aqui de minha idade, tem? Se não tiver, tudo bem. Sei que é pedir demais. — Ele estava olhando para Gina, que estava linda, como sempre, mas tinha acabado de dançar com Jake. Os dois estavam sorrindo para o nada. Gina vinha fazendo isso o tempo todo, não apenas porque sua vida romântica estava melhorando, mas porque conseguiu um papel secundário na produção ao ar livre de Pippin. O teatro de Carmel não era a mesma coisa que Hollywood, mas era melhor que nada.
— Ela, não — falei para Jack. — É velha demais para você. E acho que está comprometida. — Continuei olhando, e notei que Adam e Cee Cee estavam tendo outro debate épico perto da mesa do bolo. Foi então que vi Becca. — Sabe de uma coisa? — Sorri. — Aquela menina ali, sentada com meu meio-irmão David e com cara de tédio, tá vendo? Ela gosta de Médium de verdade.
Jack se iluminou.
— Gosta? Ah, legal, então talvez eu vá dar um oi a ela. Obrigada de novo por me convidar. A gente se fala depois. — E traçou um ziguezague todo sorridente em direção a Becca, se esquivando casualmente das sobrinhas dele, que estavam ensinando às crianças do Dr. Patel a brincar de “menina flor” (a versão delas consistia em jogar pinhos violentamente umas nas outras).
— Então — disse o padre Dominic, sem nem mesmo abaixar o volume da voz. — O menino não sabe que aquelas garotas são filhas do irmão dele?
— Shhh! — Olhei para Jesse com raiva. — Você contou tudo mesmo para ele.
— É claro. Você contou tudo para ela. — Ele apontou para a Dra. Jo, que havia se recuperado do choque e estava comendo bolo e bebendo champanhe com o pai e a madrasta de Becca. Não sei se ela já os conhecia (talvez eles tivessem marcado uma sessão de terapia em família) ou se era um encontro casual.
— Não tudo — falei, e olhei de maneira irritada para ele. — Muito obrigada por convidar gente bizarra de meu passado para o casamento, padre D. Quem mais vai aparecer? Se o senhor falar Backstreet Boys, não respondo por meus atos.
— Não faço ideia do que você está falando, Suzannah — disse o padre Dominic. — Jack Slater não devia ser discriminado por causa do comportamento antissocial do irmão. Agora, quem é aquela mulher adorável ali? — Ele deu uma olhada apreciativa na Dra. Jo. — Por que nunca a conheci antes?
Olhei da Dra. Jo para o padre Dominic várias vezes.
— Não — falei com firmeza.
Ele teve a graça de parecer frustrado.
— Ah, Suzannah, por favor. Não estou interessado nela romanticamente. Fiz um voto de castidade há mais de seis anos, e não é algo que vou abandonar assim, mesmo que outras pessoas na minha profissão vejam isso... e outros limites concebíveis de moralidade... com menos firmeza.
Ele ia levar muito mais tempo para se curar das revelações sobre o padre Francisco do que dos ferimentos que Lucia deixou nele.
— Tanto faz, padre — falei. — Não vou apresentar vocês.
— Suzannah, você tem mesmo uma tendência a esperar o pior das pessoas; mesmo as que você supostamente conhece e em quem confia. Não estou dizendo que não é uma mulher bonita. Só estou falando que seria agradável conhecer alguém de minha idade que não está afiliada à igreja ou à escola. É uma cidade pequena, e eu raramente conheço gente nova...
— Não — falei de novo, com ainda mais firmeza, e peguei Jesse pela mão. — O senhor vai ter de fazer isso sozinho, padre D. Vá rolando a cadeira até lá e se apresente. A gente vai entrar agora. Preciso conversar sobre uma coisa com meu marido. — Marido! Era divertido dizer isso, e ainda mais divertido arrastar Jesse da festa para dentro da casa – nossa casa – e não ter de ouvir nenhum comentário. Ninguém podia falar nada porque éramos oficialmente um casal, e a casa era oficialmente nossa, e podíamos fazer o que quiséssemos nela.
Lá dentro estava silencioso, pois todo mundo estava reunido lá fora, bebendo, comendo, rindo e escutando música alta e alegre. Agora que a chaminé estava limpa e a eletricidade estava no nosso nome, havia madeira queimando nas lareiras à noite e ar-condicionado refrescando os quartos de dia, então a casa não tinha mais tanto cheiro de “livros”. Mas ainda havia um odor bem sutil, e não apenas porque Jesse tinha muitos livros, o suficiente para encher todas as prateleiras embutidas e ainda mais.
Puxei Jesse escada acima por uma das mãos, usando a outra para segurar a calda longa de meu vestido e não tropeçar.
— O que é tão importante assim — perguntou ele, enquanto me seguia — que não podemos falar lá embaixo?
— Nada — respondi, quando chegamos ao quarto. Era realmente nosso quarto agora, e não apenas meu. Jake havia nos ajudado a tirar a cama enorme de Jesse da Cruzada do Caramujo, e agora ela ocupava um grande espaço no cômodo. Foi uma luta para arrastá-la escada acima, mas valeu a pena. — Só achei que era o momento de nos retirarmos com graciosidade. — Brinquei com a gravata borboleta dele quando se deitou ao meu lado. — Preciso que você abra o corpete para que eu consiga respirar, parceiro.
— Se isso for outra piadinha me chamando de caubói, você sabe que não gosto. — Ele passou os dedos pelo volume de meus seios acima do bustiê do vestido. — Você realmente quer tirar o vestido? Ainda não sabe o que eu acho dele.
Eu rolei e me deitei de barriga para cima.
— Ah, eu já faço uma ideia do que você acha dele.
Ele riu e veio para cima de mim.
— Faz mesmo? Você se acha demais.
— Amo. Eu me amo demais.
Ele me beijou, rindo.
— Eu acho que você deveria usar vestidos como esse o tempo todo, Suzannah. Se bem que é sorte minha que você não use, ou eu iria para a prisão do condado de Monterey todos os dias.
— Ah! Você está dizendo que finalmente fiz alguma coisa que sua mãe aprovaria?
— Eu não iria tão longe — disse ele, e me beijou mais.
Pouco tempo depois, os últimos raios de sol estavam entrando na sala, formando palhetas douradas nas paredes, nos painéis de madeira e nos poucos pedaços de pele nua – a pressa foi tanta que nem abrimos o corpete – enquanto eu tirava um cochilo nos braços dele. Descobri, depois de tantos anos, que era capaz de cair no sono rapidamente, contanto que Jesse estivesse na cama ao meu lado.
É claro que talvez eu tenha caído no sono porque ele estava lendo para mim um de seus incontáveis livros antigos; esse era do poeta William Congreve.
— “Assim é o estado triste, porém, oh, tão aprazível! Minha alma se firma em nada, apenas em ti; a ti contempla, admira, de ti depende, confia somente em ti.”
Eu o ouvi fechando o livro e se inclinando sobre mim.
— Suzannah — sussurrou ele. — Suzannah, você está acordada? Já estamos fora da festa há muito tempo. Deveríamos voltar para ficar com os convidados.
— Um minutinho. — Levantei a mão para secar os cantos dos olhos.
— Suzannah. — Jesse parecia surpreso, mas de forma positiva. — Suzannah, você está chorando?
— Não — falei com um sorriso. — É minha alergia de novo.

Jesse riu e me beijou conforme o sol se escondia debaixo do mar.

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