sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 37

Kylie ficou atrás da cadeira, pensando em usá-la para se defender, mas quando ergueu os olhos, o leão tinha recuado. Meteu a cabeça pela porta do quarto, como se algo lá fora tivesse chamado sua atenção. Então, Kylie ouviu: o gato. O leão saiu do quarto. Kylie podia ter batido a porta e a bloqueado com a cama. E ficar escutando enquanto o animal devorava seu gato vivo.
— Não! — empurrou a cadeira para frente e para trás, a fim de chamar a atenção da fera. — Vem aqui, seu monstro horrível e fedorento!
O leão se virou, rugiu, mostrou os dentes e sacudiu a juba para ela. Por algum motivo, pensou no soldado e em sua decisão de morrer quando voltara para salvar a mulher.
Eu não vou morrer. Eu não vou morrer.
— Daniel, volte, por favor! — gritou ela, angustiada por estar sozinha.
O frio arrepiou novamente a sua pele.
— Holiday foi buscar ajuda.
O leão se aproximou da cadeira. Mais lágrimas afluíram aos olhos de Kylie.
— Não me deixe sozinha de novo, está bem?
— Não vou deixar — disse ele. — Essa nunca foi minha intenção.
— Kylie? — chamou Holiday da sala.
O bicho correu para a porta.
— Não entre! — gritou Kylie, sacudindo a cadeira para distrair o leão caso Holiday não a tivesse ouvido.
Kylie ouviu passos que recuavam.
— Burnett está a caminho com uma arma para sedar o animal. Não demora. Você está segura?
Segura? Tinha um leão em seu quarto. Mas, se Burnett chegasse logo, talvez... Nesse momento, ouviu mais vozes.
— Não — disse Holiday.
— Não o quê? — perguntou Kylie.
— É muito perigoso — prosseguiu Holiday, evidentemente falando com outra pessoa.
Soaram passos na sala. O leão rugiu. Derek apareceu na soleira. Seus suaves olhos verdes se encontraram com os de Kylie e logo se fixaram no leão. O medo se estampou em seu rosto, o mesmo medo que ela sentia. O pensamento de que veria a fera atacar Derek fez o coração de Kylie saltar no peito.
— Saia, Derek — pediu ela, tentando parecer calma, embora estivesse a ponto de gritar. — Ouça Holiday.
— Posso fazer isso — respondeu ele num tom confiante. — Tenho o dom, você se lembra?
Derek deu um passo para dentro do quarto. O leão, sacudindo a juba, rugiu novamente. Derek não se moveu. Olhou fixamente para o animal. E, em seguida, começou a desabotoar a camisa.
— O que está fazendo? — estranhou Kylie. A chance de vê-lo seminu a entusiasmava, mas aquela não era a hora mais indicada para isso.
— Ele não gosta do meu cheiro.
— Então, pelo amor de Deus, se afaste para não ser devorado.
— Está tudo bem — Derek jogou a camisa pela porta. Seu físico era ainda melhor do que ela imaginara. E então, estendendo as mãos, ele deu mais um passo à frente. O leão rugiu, mas não atacou.
Derek se aproximou ainda mais. Dessa vez, a fera avançou contra ele, quase abocanhando seu braço.
— Não! — gritou Kylie, balançando a cadeira para chamar a atenção do animal.
— Pare com isso! — ordenou Derek.
— É para que ele não ataque você.
— Kylie, você está irritando o bicho. Confie em mim. Pare!
A firmeza na voz de Derek chamou sua atenção. O soldado Dude, silencioso num canto, fazia-a tremer de frio.
— Vou para junto de você — avisou Derek. — Quero que fique atrás de mim. Depois, saímos do quarto juntos. Você sai primeiro e eu fecho a porta. Entendeu?
Como se adivinhasse o plano dele, o leão rugiu e o encarou, mas recuou para mais perto de Kylie. A cada passo de Derek, o leão se aproximava mais de Kylie. Ela sentiu um forte cheiro de urina. O traseiro do animal golpeou a cadeira e jogou Kylie contra a parede. Quando se recuperou, viu Derek bem perto do leão. Tão perto que a juba do animal roçava em seu ventre nu. Seus músculos se contraíram, destacando-lhe o torso.
— Agora saia de trás da cadeira, Kylie — instruiu Derek.
— Faça o que ele diz — aconselhou Daniel, rompendo o silêncio. Kylie adiantou uma perna e o animal deu uma cabeçada em Derek, quase derrubando-o.
Derek se recompôs rapidamente.
— Devagar, Kylie — sussurrou ele, como se não percebesse que o leão poderia escancarar a boca e usá-lo como brinquedo de mastigar. — Devagar e com calma.
Kylie começou a se mover, temendo até respirar, mas logo Derek pegou seu braço e a puxou para trás dele. Ela o segurou pelas laterais do corpo nu, pressionando as palmas contra sua pele quente.
— Ótimo. Agora vamos caminhar bem devagar até sairmos do quarto. Você está indo bem. Continue andando.
Kylie sentiu com os calcanhares a soleira da porta. Derek aproximou a mão do trinco e, nesse momento, o leão atacou, golpeando-o com as garras.
O gemido de Derek penetrou nos ouvidos de Kylie e ela não teve dúvidas de que as garras da fera tinham perfurado sua pele.
— Você está bem? — perguntou.
Derek não respondeu e procurou de novo o trinco. O leão rugiu, mas não se moveu. Kylie continuou recuando até a sala, enquanto Derek a seguia devagar. E, quando ele fechou a porta, ela viu o sorriso de Daniel.
— Vocês conseguiram — gritou Holiday irrompendo na cabana. Kylie ficou parada, de braços cruzados sobre o peito, o coração agitado, o estômago dolorido.
— Me ajude a colocar o sofá diante da porta para o caso de o leão querer derrubá-la — pediu Derek.
Enquanto Derek e Holiday arrastavam o sofá, Kylie notou o sangue escorrendo do seu abdome.
— Você está sangrando — os dentes de Kylie batiam com tanta força que ela mal conseguia falar. Apontou para ele e sentiu um suor frio escorrer da sua testa.
— É só um arranhão — tranquilizou-a Derek.
Kylie percorreu o espaço que os separava e o abraçou. Nem ligou para o fato de sua camisola ficar toda manchada de sangue. Ainda trêmula, encostou o rosto naquela parede quente de pele e músculos.
Derek a abraçou. Holiday, se aproximando, pousou a mão em suas costas.
Kylie não sabia qual dos sobrenaturais estava fazendo aquilo ou se eram os dois, o que absolutamente não importava. Mas o pânico começou a se dissipar. Sentiu-se segura e tudo o que queria era ficar ali para sempre. Afundou ainda mais o rosto no ombro nu de Derek, sentindo seu cheiro e sua proximidade.
— Kylie, vá para um dos outros quartos — recomendou Holiday.
— Não, estou bem — Kylie ergueu a cabeça, mas não quis fugir do aconchego dos braços de Derek. Precisava daquilo um pouco mais. Ele estava tão quente e ela tão... Gelada!
Kylie viu Daniel de pé atrás de Holiday. O soldado sorriu para ela e desapareceu.
— Obrigada — murmurou Kylie, esperando que Daniel a ouvisse.
— De nada — respondeu Derek.
Kylie se virou para agradecer a ele também, mas um barulho a deteve. A porta da cabana se abriu com estrondo, parecendo que ia se espatifar. Burnett irrompeu na sala, de olhos injetados e com um grande fuzil nas mãos.
— Você prometeu que não viria aqui — ele gritou para Holiday.
— Mudei de ideia — retrucou ela, num tom de desafio.
O leão rugiu do outro lado da porta e Burnett lhe fez eco.
— Vou cuidar dele primeiro e depois conversamos.
— Ok. Boa sorte, então — desejou Holiday, com um sorriso malicioso.
Burnett foi até a porta.
— Espere — Derek afastou Kylie de si. — Me deixe acalmá-lo antes, senão pode atacar.
Burnett pareceu hesitar a princípio, mas concordou ao ver que Holiday tinha aceitado a ideia. Kylie não tinha certeza se a fera merecia tanta consideração, mas admirou a atitude de Derek. Os dois homens arrastaram o sofá que bloqueava a entrada. Burnett colou o ouvido à porta e informou:
— Ele está do outro lado do quarto — e levou a mão ao trinco.
— Cuidado — advertiu Kylie.
Derek voltou-se para ela e sorriu.
— Vai ser moleza.


— Você não precisa ficar aqui — disse Kylie a Holiday, que estava sentada numa cadeira ao lado de sua cama já fazia uma hora. A líder do acampamento tinha limpado pessoalmente o quarto de Kylie, para tirar o cheiro do animal.
Holiday sussurrou:
— Ou fico aqui ou vou ter que aguentar o Vampiro Gostosão. Portanto, finja que precisa de mim até ele ir embora. Como já levaram o leão, não acho que Burnett vá ficar por muito mais tempo — e, recostando-se, mordeu o lábio. — Estou feliz por Derek ter aparecido.
Algo ocorreu então a Kylie.
— Uma das bruxas não poderia ter impedido aquilo?
— Acontece que não encontrei nenhuma — explicou Holiday. — Todas tinham saído com Sky para um passeio. Fiquei sabendo que Burnett tinha acabado de ir para a reserva e o chamei.
— O que ele ia fazer na reserva dos animais? — perguntou Kylie. — O que está havendo, Holiday? Como o leão chegou até aqui? Quem colocou esse bicho no meu quarto? E não venha me dizer para não me preocupar com isso.
Holiday não parecia disposta a responder. Sua expressão ficou séria e ela deixou cair as mãos no colo.
— Amanhã, de qualquer maneira, você vai ficar sabendo de tudo.
— Sabendo do quê? — perguntou Kylie.
— Alguém anda invadindo o parque. Matando os animais em extinção. Quase todos os espécimes mortos estão na lista dos que correm o risco de desaparecer para sempre. O governo, é claro, não perdeu tempo em nos acusar. Quando qualquer coisa estranha acontece seja onde for, logo alguém põe a culpa nos sobrenaturais.
— Acham que um de nós é o responsável? — perguntou Kylie.
Holiday mordeu novamente o lábio.
— Eles não só acreditam nisso como hoje tiveram uma prova. Pelo menos, é o que pensam.
— Mas então alguém daqui está matando os animais? — estranhou Kylie.
— Descobriram rastros de sangue nas imediações do acampamento.
— Mas o leão não foi morto — ponderou Kylie.
— Não, mas só o fato de ter estado aqui piora muito as coisas. Alguém ajudou aquele bicho a escapar.
— E alguém o fez entrar no meu quarto — completou Kylie.
— Ou então foi mera coincidência — disse Holiday. — Ele poderia ter entrado em qualquer cabana.
— Mas a porta da nossa estava fechada — observou Kylie.
— Talvez alguma de vocês a tenha deixado apenas encostada. Ele empurrou e entrou.
— Ou talvez alguém o tenha trazido até aqui.
Holiday se inclinou e a tocou de novo a fim de acalmá-la. Kylie levantou a mão:
— Eu estou bem.
Afundando-se no travesseiro, Kylie contemplou o teto.
— Será que estão culpando Lucas por isso?
Holiday não respondeu imediatamente.
— Eles o consideram um possível suspeito.
— Não posso acreditar — disse Kylie. — Lucas não faria isso.
— Eu sei, mas... Jamais os convenceria de sua inocência. Sobretudo porque Fredericka foi embora esta tarde.
— Foi? — Kylie viu Holiday balançar a cabeça afirmativamente e sentiu uma pontada de ciúmes. — Acha que ela está com Lucas?
— Se a conheço bem, sim.
Kylie torceu as mãos, ciente de que deveria esquecer Lucas, mas ainda assim recusando-se a acreditar em sua culpa.
— Vão tentar fechar o acampamento?
A expressão de Holiday ficou ainda mais séria.
— Se não acharem o responsável, vão tentar, sim. Vou fazer tudo para impedi-los e usar cada pitada do meu pó mágico para isso, mas... Talvez não seja suficiente.
Depois de um longo silêncio, Holiday prosseguiu:
— Burnett marcou uma reunião para amanhã e provavelmente vai interrogar a todos. Gostaria de detê-lo, mas infelizmente, diante das evidências, seria inútil alegar que o responsável não é um de nós. Mas jogar a culpa em todo um grupo de sobrenaturais adolescentes não é justo.
— Acredita mesmo que alguém daqui seja o culpado?
— Acredito. Se é que gente de fora não esteja tentando, de todas as maneiras, pôr a culpa em nós.
A porta do quarto se abriu e Burnett pôs a cabeça para dentro.
— Vai voltar agora para o escritório?
Holiday estampou no rosto uma expressão de falsa preocupação. E, pousando a mão no ombro de Kylie:
— Acho que ela ainda precisa de mim — disse. — Nós conversamos amanhã.
Pela cara que fez, Burnett não se deixou enganar. Mas também não discutiu. Se é que sair batendo portas não é discutir.
— Cretino! — sussurrou Holiday.
— Ouvi o que disse — gritou ele do lado de fora do quarto.
Holiday franziu a testa.
— Eu juro, se ele chegar perto de mim, mando um anjo da morte atrás dele — disse ela, sem baixar a voz.
— Pensei que não tivesse certeza de que esses anjos existem — murmurou Kylie depois de alguns minutos.
Se ela própria achasse que existiam, teria pedido a Daniel Brighten, o soldado, para trazer um. Então se lembrou do que Holiday dissera: todos os fantasmas são anjos. Sem dúvida, Daniel contribuiu muito para salvar Kylie. Holiday se inclinou para ela:
— Quando eu ameaço, até vampiros grandalhões e malvados molham as calças.
As duas riram e então Kylie disse:
— Ele me salvou, não foi?
— Derek? Com certeza.
— Não. Quer dizer, Derek me salvou, sem dúvida, mas foi o fantasma que avisou você, não foi?
— Não foi bem assim. Como ele está ligado a você, não pode de fato se comunicar comigo. Mas encontrou alguém que podia — Holiday apertou a mão de Kylie. — Sua avó me pediu para te dizer que te ama muito. Mas lamenta você não ter impedido que ela fosse enterrada com aquele batom vermelho.
Kylie começou a chorar e rir ao mesmo tempo. Depois de alguns minutos, disse:
— Finalmente consegui.
— O quê?
— Ler a mente de outra pessoa — quase contou a ela que tinha lido a mente do fantasma, mas, por alguma razão, achou que não estava pronta para falar sobre aquilo. Precisava, antes, entender bem o que tinha acontecido. Havia muita coisa para entender.
— Bem-vinda ao nosso mundo, garota! — festejou Holiday.
O sorriso de Kylie foi fraco, mas autêntico.
— Isso significa então, de uma vez por todas... Que sou uma de vocês?
— Isso mesmo — Holiday afastou uma mecha de cabelo do rosto de Kylie.
— Quando viu minha avó, você a observou bem para saber se ela era sobrenatural?
— Observei. Ela era humana — Holiday apertou a mão de Kylie. — E o que acha dessa nova descoberta?
Kylie suspirou fundo.
— Estou um pouco assustada. E um pouco aliviada. Agora, só quero saber o que sou.
— Vai saber logo, Kylie. A resposta está aqui. Sempre esteve.

Nenhum comentário:

Postar um comentário