domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 36

O cheiro era o mesmo. Uma combinação de madeira antiga e o odor suave de alguma coisa que Cee Cee sempre chamava de “livros”.
— Você está louca — falei para ela dá primeira vez que me disse isso. — Nós temos livros, mas não tantos assim.
— Não — insistiu ela. — Sua casa tem um cheiro ótimo. De livros velhos, como uma biblioteca.
Eu não quis falar que o odor que ela relacionava a livros era, na verdade, o de almas velhas. Tem sempre um bocado delas pelos corredores de construções mais antigas, especialmente bibliotecas. O sobrenatural não tem cheiro ruim. Se você de fato conseguir sentir – a maioria das pessoas não consegue, a não ser que sejam extremamente sensíveis, como Cee Cee – vai perceber que é muito parecido (e, se você gosta de ler, reconfortante) com o cheiro de livros velhos, ou de baunilha. Em vez disso, falei:
— Acho que você está pensando na palavra mofo. A fonte desse cheiro está nos pés de Brad.
Quando abri as portas do número 99 da Pine Crest Road, fiquei chocada ao ser recebida exatamente pelo mesmo odor; não o de Brad, mas o de Jesse, antes de eu devolver sua alma ao corpo.
Olhei para ele com surpresa, sem saber o que falar.
— Que foi? — perguntou ele. É claro que não sentia o cheiro. Ninguém sente o próprio cheiro. Ou o cheiro que você tinha quando era fantasma.
— Nada — respondi.
Era irritante, mas Paul tinha razão. E sede de sangue também. Imagine se ele tivesse atingido seu objetivo e destruído aquela casa. O que teria acontecido com Jesse? O que teria acontecido comigo? Com as meninas? Com todo mundo que eu conhecia e amava?
Estremeci, afastando esse pensamento. Não importava. O que importava era que eu havia vencido.
Era estranho ver as paredes tão vazias, sem as fotos emolduradas que sempre estiveram ali, de minha mãe e de Andy no casamento dos dois, de meus meios-irmãos e eu em várias celebrações; as janelas tão nuas sem cortinas ou persianas; os cômodos desprovidos de móveis; o chão de madeira superpolido (sempre tiveram arranhões quando morávamos ali, graças aos skates de meus meios-irmãos e às patas de Max).
A imobiliária que preparou a casa para minha mãe e Andy enquanto eles estavam tentando vendê-la não mudou nada estrutural. Ela havia sido construída em meados do século XIX, afinal de contas, quando as coisas eram feitas para durar. A vida de então tinha desafios diferentes da vida do século XXI.
— Olhe! — exclamei, tocando um pequeno defeito na moldura da parede do salão da frente. — Eles nem taparam o buraco de bala.
Jesse me deu um sorriso tolerante.
— Achei que você detestasse esse buraco de bala.
— Bem — falei, dando de ombros. Segurei no pilar da escada e girei em volta dele (estava um pouco bambo) para subir. — Passei a gostar dele com o passar dos anos.
A luz do meio-dia brilhava através da janela de vidro pintado no topo da escadaria, fazendo um desenho azul, vermelho e amarelo no chão do corredor, perto de meu velho quarto. Dei a volta no desenho, notando, graças às portas abertas, que os antigos quartos de meus meios-irmãos haviam sido deixados relativamente intactos, exceto por estarem limpos como nunca.
A porta de meu antigo quarto – que ficava acima do salão da frente e era o único da casa com vista para o mar, onde conheci Jesse e que mudou nossas vidas para sempre – também estava aberta.
Dei um passo e atravessei o batente.
Tudo estava diferente. O papel de parede creme com os bem-me-queres azuis não estava mais lá, bem como as cortinas com babados, sempre presas com abraçadeiras no mesmo estilo. As paredes haviam sido pintadas com um azul intenso e escuro. A tinta branca dos painéis de madeira foi removida, e a madeira apresentava sua cor original de mogno escuro para combinar com o resto da casa, tudo retocado com verniz.
Até mesmo o banco que Andy havia instalado na janela – que ainda estava ali, com o estofado que minha mãe fez sob medida – tinha um painel de cerejeira escura. A almofada era azul-escura, para combinar com as paredes.
— Ah, isso — disse Jesse ao entrar atrás de mim — é um quarto de verdade.
Joguei minha bolsa carteiro no chão extremamente polido de madeira.
— Cale a boca.
— Suzannah, você costumava reclamar sobre o quanto odiava a maneira como sua mãe tinha decorado este quarto, embora a amasse demais para falar isso para ela. — Ele foi até a janela a fim de se sentar no banco e testar o estofado. — Dizia que não refletia sua personalidade em nada. Agora reflete.
— Desde quando azul-marinho combina com minha personalidade? Você já me viu usando azul-marinho? Este quarto parece um vômito do catálogo da L. L. Bean.
— Quis dizer escuro — disse Jesse. — Você tem uma tendência a ser meio obscura de vez em quando.
— Disse o fantasma para a mediadora.
— Ex-fantasma. E eu gosto. De você e do quarto.
— Eca... é bem sua cara. Deve estar com vontade de colocar umas figuras de caçadas nas paredes.
— Até que ficaria bom, na verdade. Enfim, o banco da janela ainda é o mesmo. — Ele quicou sobre o estofado e esticou a mão para mim. — Vem aqui. Tem uma coisa que quero fazer desde que a conheci.
Era impossível não captar a mensagem com aquele sorriso pecador.
— Como assim, agora? — Entrelacei os dedos nos dele, e ele me puxou para o banco, ao lado dele. Nossas coxas se tocaram, e, dessa vez, ninguém se afastou.
— O momento nunca foi certo, até agora — disse ele. — E você tinha suas regras, lembra?
— Que regras?
— De quando a gente morou juntos aqui. — Ele deslizou a mão pela minha cintura, por baixo de minha camisa, ao mesmo tempo que seus lábios beijavam a pele de minha clavícula. — Regra número um, sem toques.
Eu me senti ficando quente, e não pela onda de prazer causada por seus lábios.
— Ah, sim — falei. — Aquelas regras. Jesse, isso foi quando você era morto-vivo, e eu estava no ensino médio.
— Eu não sou mais um morto-vivo. — Ele deu um beijo abaixo de minha orelha para provar, subindo a mão que estava sob minha camisa. — Quero dizer, não totalmente. E você já saiu do ensino médio faz tempo.
— Você nunca seguiu minhas regras mesmo. Eu sempre tive de seguir as suas. — Segurei o pulso dele antes que os dedos deslizassem para debaixo de meu sutiã. — Mas não vou mais fazer isso.
— Ah — respondeu ele com uma risada. — Acho que vai sim.
— Ah, é? E aquilo do esperar até se casar? — Eu detestava estragar o momento, por mais lindo que fosse, mas eu não ia conseguir aguentar mais carícias, muito menos beijos, sem pular em cima dele e arrancar suas roupas. — Não me prometa o que você não pretende cumprir, Dr. De Silva.
— Eu já fiz isso, Srta. Simon? — perguntou ele, e a sobrancelha com a cicatriz se ergueu. — Você não é a única que vem mantendo segredos.
Fiquei tão surpresa com aquela resposta que me esqueci de segurar seu punho, dando uma momentânea vantagem física a ele. Ele aproveitou para tirar minha camisa.
— Jesse! — exclamei, chocada. Dava para ver que ele era versado em lidar com pacientes que não cooperavam. — O que você...
Ele me silenciou colocando a boca na minha, depois o corpo todo sobre o meu, pressionando minhas costas no estofado do banco.
Minha mente girou. As sensações que eu estava experimentando não eram nem um pouco desagradáveis – o peso do corpo dele; o toque ligeiro e leve da língua e das mãos; o cheiro limpo e másculo (nenhum traço que eu pudesse distinguir da prisão do condado de Monterey) – mas eu não estava entendendo por que acontecia ali, naquele momento.
Mas, no final das contas, para que perder tempo pensando? Quantas vezes eu havia me deitado naquele mesmo quarto, sonhando com aquilo (apesar de que nunca pensei que seria no banco à janela)?
E agora estava acontecendo, e eu estava questionando o momento em vez de curtir por exemplo, o fato de ele ter conseguido tirar meu sutiã e estar fazendo um caminho quente com a boca de minha garganta até a parte do corpo que o sutiã revelou. No entanto, em alguma parte do cérebro eu não pude deixar de me perguntar: e se aquelas coisas sobre a maldição fossem verdadeiras? Então ele começou a abrir meu jeans, e eu me lembrei do que havia dito para Jesse na noite anterior. Eu não tinha medo de fantasmas... muito menos daquele.
Eu alcancei o zíper do jeans dele, e o som daquela calça se abrindo deve ter sido a coisa mais satisfatória que já ouvi na vida... pelo menos até o momento em que senti, assim que ele tirou a camisa, o toque da pele desnuda do peito dele na minha pele.
Decidi que não, essa era a sensação mais incrível da vida. Ele me beijou profundamente, mas, depois que tirou minha calça, beijar nunca mais seria suficiente.
Nós dois vimos e sentimos – pela primeira vez – todos os segredos um do outro, e agora nada ia impedir que explorássemos tudo a fundo, independentemente das regras que estivéssemos quebrando.
Depois de alguns segundos de corações palpitando e respiração ofegante, nossas roupas formaram um amontoado no chão e ele estava dentro de mim. Foi exatamente como eu sempre havia imaginado, e ao mesmo tempo inimaginavelmente melhor. Se o mal estava sendo libertado, eu não conseguia ver, nem sentir. O que senti foi o oposto. Foi um momento repleto de uma alegria divertida, como se as paredes azuis ao nosso redor estivessem nos levantando e nos levando para o Pacífico azul além da janela, cheio de calor e luz. Foi uma onda que nos tomou várias e várias vezes, deixando-nos cansados e felizes e cheios de gratidão e amor. Como poderia existir algum mal naquilo?
Não podia. Apenas o bem.
Talvez fosse isso que Paul sabia que iríamos descobrir, e o que temia acima de tudo. Pois bem. Tarde demais.
Estava tão cansada depois que senti que não conseguiria nem erguer a cabeça, mas fui capaz de notar uma coisa.
— Caramba, Jesse. Não tive tempo nem de tirar as botas.
Ele estava com a cabeça apoiada em meu ombro, desenhando círculos preguiçosos com um dedo em minha coxa.
— Tentei tirar numa hora, mas você parecia mais interessada em fazer outras coisas. — O tom era de brincadeira. — Eu estava apenas tentando atender seus desejos.
— Ah, tá! Se isso fosse verdade, a gente já teria transado há muito tempo. O que foi que mudou de uma hora para outra?
Os olhos escuros dele brilhavam.
— Você ainda não sabe?
— Não, eu ainda não sei. Quero dizer, tirando o fato de que isso prova que você não virou um demônio homicida só porque transou comigo, para onde foi seu termos de esperar até nos casarmos por respeito a tudo o que você deve a mim e a minha família e à igreja e à humanidade? Esse tempo todo você e o padre Dominic...
Jesse parou de desenhar círculos em minha coxa e levantou a cabeça para me lançar um olhar de reprovação.
— Eu realmente gostaria que você não falasse nele neste momento, Suzannah.
— Também não quero falar sobre ele — respondi. — Mas foi você quem me levou em todas aquelas aulas chatas sobre casamento religioso. Eu certamente não estou reclamando de como as coisas aconteceram, mas qual foi o objetivo de esperar esse tempo todo se você ia acabar abandonando seus escrúpulos religiosos quando...
— Eu não abandonei nada. Meramente decidi que tinha motivos para ser mais flexível.
Eu sorri.
— Será que um desses motivos tem a ver com certa pessoa do passado que veio como um furacão para a cidade esta semana a fim de declarar seu amor infinito por mim, então você quis marcar território?
— Não tem, não — disse ele. — Apesar de que agora eu acho que vou precisar adicionar “imaginação altamente ativa” a sua lista de qualidades.
— Você não pode me culpar por achar isso depois do que aconteceu ontem à noite.
— Meus motivos têm mais a ver com o que aconteceu esta manhã. Foi por isso que falei com o padre Dominic.
Toda aquela sensação de letargia pós-coito sumiu. Eu me sentei com tanta pressa que bati na cabeça dele com o ombro.
— Você o quê?
— Ai, Suzannah. Eu perguntei se a tinha machucado agora há pouco, mas estou vendo que está ótima. Se eu fosse um homem menos ajustado, você teria ferido minha dignidade.
— Ah, não se preocupe com sua dignidade, vou andar com as pernas meio abertas durante uma semana. A gente vai ter de comprar uma almofada nova, aliás, ou pelo menos virar esta daqui. Mas por que você falou com padre Dominic? Entendo que é com ele que você se confessa, mas ele é meu chefe também. Não preciso que ele saiba tudo que faço em minha vida pessoal. Você não contou isto para ele, contou? — Apontei para nossas roupas no chão. — Como é que você confessou uma coisa que não sabia que ia fazer? A não ser que... — Eu engasguei. — Jesse! Seu pilantra! Isso foi sexo premeditado?
— Eu não confessei nada — disse Jesse. — Apenas comuniquei a ele a mesma boa notícia que comuniquei a você.
— Que boa notícia?
Ele também se sentou, e os músculos endurecidos de seu abdômen se flexionaram quando ele abaixou a cabeça, com vergonha de minha ignorância.
— Beca em inglês não é bacon, Suzannah. É bolsa.
Demorei meio segundo para me lembrar.
— Jesse! — exclamei. — Você conseguiu a bolsa?
Ele fez que sim. Dessa vez o sorriso não foi só de um lado.
Os dois cantos da boca se ergueram.
— Eles mandaram o e-mail dando parabéns ontem. Mas eu só vi hoje de manhã, quando a polícia devolveu meu celular. Eu quis arrumar umas coisas antes de contar para você. — O brilho de orgulho nos olhos dele era adorável. Não era multimilionário, ainda, mas cada centavo que tinha, ganhou por si só, com trabalho árduo. — E uma das coisas que eu tinha de arrumar era com o padre Dominic, que, aliás, está bem melhor hoje. Ele ainda vai demorar um pouco para poder voltar a trabalhar, mas talvez (só talvez) esteja bem o suficiente para nos casar no fim de semana que vem.
— Peraí. — Olhei para ele, sem ter certeza de que ouvi corretamente. — No fim de semana que vem?
Ele fez que sim de novo, parecendo quase apreensivo. Sua cabeça estava ligeiramente abaixada, tímida.
— Sim. Eu não sabia o que você ia achar disso, ainda mais depois... bem, depois de tudo que aconteceu ontem à noite. Mas, quando eu falei com o padre Dominic, hoje de manhã, ele achou que você ia gostar da ideia. Na verdade, foi ele quem sugeriu. Não sei por quê.
Agora eu entendi por que Jesse não quis me ver naquela manhã. Fazia sentido. Com a ajuda do padre Dominic, ele finalmente colocou o passado para trás e estava ocupado fazendo planos para o futuro – nosso futuro.
Quando eu visse aquele padre, lhe daria o maior abraço do mundo.
— Seria uma cerimônia bem pequena e privada, é claro — continuou Jesse. — E com tão pouca antecedência, vários convidados de seus pais talvez não consigam comparecer. Mas David vai estar na cidade por causa do feriado, e acho que casar no fim de semana de Ação de Graças... bem, não tem maneira melhor de mostrar que somos gratos por termos nos encontrado, e por tudo que todos fizeram por nós. Ainda podemos fazer uma cerimônia formal em um ano se você quiser, mas achei que, já que finalmente tenho dinheiro, e você tem esta casa...
Eu já o estava abraçando.
— No fim de semana de Ação de Graças é perfeito — sussurrei. — Simplesmente perfeito.

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