sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 36

Papai?
Kylie segurou mais firme a maçaneta para não cair de cara no chão. O que seu pai estava fazendo... Fazendo com... Seu olhar fulminou a mulher, ou melhor, a “garota”. Era a nova assistente do pai, que ela tinha conhecido um mês antes num churrasco da firma. A garota estava no terceiro ano da faculdade.
Ainda encostada à picape, Kylie fez as contas. Matemática não era o seu forte, mas ainda assim calculou que a garota deveria ser cerca de quatro anos mais velha que ela. Outras coisas lhe vieram à cabeça. Por exemplo, as seis cuecas do pai que haviam sido queimadas na grelha. E os incontáveis momentos de rabugice da mãe contra o pai, que afinal pareciam ter uma justificativa.
Quando o casal chegou a um ponto de onde poderia vê-la, Kylie passou para o outro lado da picape. E o frio que a seguiu nesse trajeto revelou que ela não estava sozinha. No entanto, perturbada demais para pensar em fantasmas, procurou apenas não pôr para fora as três bolas de sorvete que tinha acabado de tomar.
Holiday chegou um pouco depois.
— Você está bem?
— Estou — mentiu Kylie, embaraçada demais, horrorizada demais para entrar em detalhes. Já tinha sido ruim seu pai flertar com Holiday, mas vê-lo com alguém que provavelmente ainda tinha espinhas no rosto era o cúmulo.
Na volta para o acampamento, Kylie se voltou para Holiday:
— Sabe o que torna um homicídio justificável?
— Não — riu a líder do acampamento. — Mas se eu tiver de encarar Burnett por mais tempo, vou me tornar uma especialista na matéria. Quem você planeja assassinar?
— Meu pai e minha mãe — a imagem dele agarrando a jovem assistente fez seu peito doer. — Ou talvez só meu pai — Kylie esperou mais alguns minutos e soltou a bomba. — Acha que... Pode esperar mais algumas semanas antes de falar com minha mãe sobre minha saída do acampamento?
Holiday não a olhou, mas Kylie viu o sorriso de vitória estampado em seu perfil, enquanto ela continuava atenta à estrada.
— Pode apostar que sim.


Na noite de segunda-feira, quase todos foram para o refeitório para ver filmes. Kylie, Miranda e Della tinham ficado acordadas até tarde no domingo, curando as feridas provocadas pelas visitas dos pais. Depois, Miranda e Kylie resolveram consultar os livros que ela havia comprado sobre dislexia.
— Isso não vai funcionar — disse Miranda, sem ânimo nem para ler o primeiro capítulo.
— Quer que eu leia pra você? — ofereceu-se Kylie.
Miranda fitou-a e seus olhos se encheram de lágrimas.
— Faria isso?
— Você faria por mim, não faria? — perguntou Kylie.
— Com certeza — respondeu Miranda.
E assim as duas ficaram acordadas até tarde da noite. Por isso, em vez de ir ver filmes, Kylie voltou para a cabana.
Quando abriu a porta, sentiu logo o cheiro e torceu o nariz. Sem dúvida, ia ter que dar um jeito no lixo. Então a cabeça de Socks, a coisinha peluda que Lucas tinha lhe dado como presente de despedida, apareceu debaixo do sofá e miou.
— Vem cá, docinho — chamou Kylie, mas só o que conseguiu foi fazer com que Socks se encolhesse ainda mais sob o sofá. O celular tocou. Kylie o tirou do bolso, viu que quem chamava era a mãe, colocou-o sobre a mesa da cozinha e continuou tentando atrair o bichinho para fora.
Depois de várias tentativas inúteis, desistiu.
— Tudo bem, durma aí mesmo debaixo do sofá — frustrada e cansada, tirou a blusa e foi até o guarda-roupa para pegar um pijama.
Ao chegar, tirou o tênis e pegou sua camisola favorita. Tirou o sutiã e colocou numa cadeira. E, só então, olhou no espelho. Quase perdeu o fôlego. Levou um segundo para descobrir o que estava vendo no reflexo. E outro para ficar louca de raiva.
— Saia já daqui, seu imbecil — enfiou às pressas a camisola antes de voltar toda a sua fúria contra Perry que, transformado em leão, estava estirado sobre a cama, ocupando-a inteira. — Fora! — repetiu Kylie. O leão rosnou. Kylie cobriu os seios sob a camisola e prosseguiu: — Finalmente você viu seu primeiro par de peitos, não foi? Você é tão... Patético! E pode ter certeza de que vou contar tudo para Miranda — Kylie se abaixou, apanhou um sapato e o atirou na fera. — Saia! — o leão rosnou de novo. — Juro por Deus, Perry, se não der o fora daqui já, vou puxar suas duas orelhas até quebrar seu pescoço.
De repente, a temperatura do quarto baixou perceptivelmente.
— Não grite — disse uma voz masculina —, e não faça nenhum movimento brusco.
O coração de Kylie batia descompassado quando ela viu o soldado de pé ao lado da mesinha de cabeceira. Não foi o fato de ele estar ali que a assustou; foi o fato de ele ter falado com ela. Kylie respirou fundo. E uma nuvem de vapor escapou dos seus lábios quando ela expeliu o ar.
Cruzou os braços para amenizar o frio que lhe chegava aos ossos.
— O leão não é de verdade — conseguiu dizer. — É Perry, um metamorfo.
Dessa vez, o soldado não sangrava. Mas a imagem do sonho, com aquele homem agonizando no chão imundo, dominou a mente de Kylie. Seu coração se doía por ele. Agora que estavam conversando, o soldado diria seu nome? Coisa estranha, chamá-lo mesmo que só em pensamento de soldado Dude não parecia certo. Ele merecia mais respeito.
— É de verdade sim, Kylie — disse o soldado, enquanto o leão rosnava de novo – Kylie pegou o outro sapato e o jogou em Perry. — Kylie, me ouça — a voz dele ficou mais alta, mais firme. — Esse aí não é Perry. É um leão de verdade e perigoso. Não o provoque. Vá andando até a porta. Agora.
As palavras do soldado calaram fundo em Kylie, que olhou o leão com mais atenção. O leão que, numa nuvem de fagulhas, não retornava à forma humana. O leão que se ergueu e saltou da cama. O leão que se sentou diante da porta para impedi-la de sair. O leão que ia e vinha estudando-a, como para decidir com que tipo de molho gostaria que ela fosse servida.
Kylie, sem afastar os olhos da fera, dirigiu-se ao fantasma:
— Muito bem, a porta está fora de cogitação. Tem outra ideia?
— Fique calma — suas palavras foram acompanhadas pelo rugido do leão, que parecia furioso, faminto.
— Isso não é muito fácil — Kylie estremeceu, tanto por causa do frio quanto da imagem do leão dilacerando seu corpo.
— Ele espera que você corra. Se ficar, teremos algum tempo.
— Tempo para fazer o quê? — perguntou ela. A fera, estirada no chão, lambia as patas. Estaria lavando-as antes do jantar?
— Para pensar em alguma coisa — respondeu o fantasma.
Ouvindo seus próprios dentes bater, Kylie olhou de relance para o soldado.
— Você não pode... Mandá-lo embora?
— Se pudesse, ele já estaria longe — a sinceridade tornou sua voz ainda mais profunda. A despeito de todo o pânico, Kylie teve de novo a estranha sensação de que já o conhecia. Ou devia conhecê-lo.
— Como se chama? — perguntou ela.
— Daniel Brighten.
Kylie revolveu aquele nome na mente, em busca de uma ligação. Nada. Virou-se de novo para ele, que agora tinha uma mecha de cabelos louros sobre a testa.
— Por que anda me perseguindo? Tem algo a ver com o modo como morreu?
— Não — disse ele. — Só queria que você soubesse que não tive escolha.
E por que ele quer que eu saiba isso?
Kylie olhava alternadamente para o soldado e para o leão.
— Você quer que eu fale com alguém? Foi acusado de molestar aquela mulher?
— Não.
O leão se ergueu e Kylie se assustou. Olhou em volta, à procura de alguma coisa com que se defender.
— Não faça isso — advertiu o fantasma.
— O quê?
— Não pegue a cadeira.
Kylie fitou-o, intrigada.
— Consegue ler minha mente?
— Não, você estava olhando para ela.
— Estou com medo — confessou ela.
— Eu sei, mas, se pegá-la, o leão vai se sentir ameaçado.
— Mas eu também me sinto ameaçada. O leão deveria estar no parque, não no meu quarto — lembrou-se subitamente de Della lhe dizendo que os animais da reserva pareciam irritados. Será que aquele leão estava irritado com Kylie agora? — Como ele chegou aqui?
— Não sei, mas é melhor nos preocuparmos com isso depois — um ruído surdo escapou do peito do leão. Kylie não sabia se aquele som indicava irritação, mas, de onde estava, pareceu bastante assustador. — Não entre em pânico, Kylie. Ele consegue farejar o medo.
Daniel estava certo, concluiu Kylie. Os bichos, como os sobrenaturais, podem mesmo farejar sentimentos como o medo. Inspirou lentamente. Pense em outra coisa, qualquer coisa. Sua mente encontrou um tema e ela se voltou de novo para Daniel.
— Minha avó está no céu?
— Claro!
— Se você pode vir até mim, por que ela não vem? — o vapor que lhe safa dos lábios chegava até o teto.
— Eu estava aqui antes.
— Onde? — os dentes de Kylie bateram de novo.
— Esperando que você tivesse idade suficiente para compreender. Só permitem que um espírito de cada vez venha até a pessoa, quando ela se torna capaz de enfrentar a situação.
— Bem, estavam errados — e Kylie relanceou os olhos para o leão.
— Errados em quê?
— Ainda não sou capaz de enfrentar a situação.
Daniel sorriu. Mas Kylie não tinha a intenção de fazer graça.
— Então viu mesmo minha avó? — novos arrepios percorreram seu corpo. Kylie sabia que se sentiria mais aquecida caso o fantasma fosse embora, mas a ideia de ficar sozinha com o leão não a atraía em nada.
— Ela não é uma mulher que se possa ignorar — disse ele. — Nem mesmo em forma de espírito.
Kylie ficou curiosa.
— Você a conheceu antes... De ela morrer?
— Há muito tempo — os olhos azuis de Daniel, combinando com seus cabelos loiros, a intrigaram por um instante.
Examinou-o atentamente. E então, aconteceu? Começou a ler a mente dele. Estava fazendo o que todos os outros sobrenaturais podiam fazer. Estava captando seu padrão mental. Kylie estremeceu. Continuou examinando o padrão mental de Daniel, que apresentava linhas verticais e um tipo exótico de escrita, semelhante aos caracteres chineses ou a certos símbolos pré-históricos.
— Você é... Você era sobrenatural, não era?
O leão rugiu de novo. Kylie se encolheu toda, vendo-o se agitar.
— Acho que ele está com fome — ela disse. — Talvez seja melhor pegar a cadeira, não acha?
O fantasma não respondeu. Kylie sentiu que a temperatura começava a subir. Ai, que droga! Até o fantasma tinha medo de ser devorado! Mas para ele não havia problema, pois já estava morto. Assim como Kylie também estaria, caso não lhe ocorresse logo uma saída. Seus olhos se encheram de lágrimas. Estava sozinha. Completamente sozinha. E então a fera, sacudindo a juba, investiu contra ela.

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