domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 33

Eu não sei o que estava esperando quando parei o carro na frente da casa onde Becca Walters morava. Sabia que os Walters eram ricos, é claro.
Mas não achei que o domicílio da família seria uma das mansões de 20 milhões de dólares na 17-Mile Drive – uma das que Jesse e eu zoamos no caminho para a Sagrada Trindade no dia anterior, brincando que era o tipo de lugar onde o Dr. e a Sra. Baracus morariam.
Com o Pacífico como praia “particular”, uma piscina e um spa lindos à beira-mar, dez quartos e banheiros e vários chalés para convidados, a casa de Becca parecia mais o Resort Praia Pebble que uma moradia.
No entanto, essa ilusão foi despedaçada quando tive de falar ao interfone na frente do portão de entrada. Eu estava preocupada – porque pela primeira vez usei meu nome verdadeiro – que não permitiriam minha entrada, ainda mais porque foi Kelly que atendeu.
— Suze Simon? — repetiu ela. Difícil dizer se ela estava mais surpresa ou incomodada.
— Isso, oi, Kelly, sou eu. — Precisei me debruçar para fora do carro a fim de alcançar o interfone, que foi construído em uma das colunas colossais que ficavam de cada lado do longo caminho que levava à casa. É claro que os Walters haviam dado um nome para sua mansão. Todas as propriedades chiques da 17-Mile Drive tinham nomes. Uma placa em uma das colunas da casa de Becca dizia CASA DI WALTERS.
Podia ser pior, acho, mas nem sei como.
— Preciso só de cinco minutinhos de seu tempo — garanti para Kelly. — Quero falar com você e seu marido sobre Becca.
Depois de uma longa pausa, ouvi um som, e as portas enormes de aço se abriram eletronicamente. Recebi permissão para adentrar a Casa di Walters. Eu me senti como uma plebeia recebendo permissão para visitar a rainha. Rainha Kelly.
Precisei vagar por algum tempo pela propriedade até finalmente encontrá-los. Não fui recebida por empregadas ou governantas (surpreendentemente), embora eu tivesse batido na porta e tocado a campainha. Achei que Kelly teria uma empregada e que a forçaria a usar uniformes com um avental de babados.
Talvez Kelly não tivesse convencido Lance Arthur a concordar com esse plano. Ou talvez a empregada tivesse folga nos fins de semana. Essa opção parecia mais provável que a de eles não terem empregada.
Finalmente, ouvi o pec-pec de bolas de tênis batendo em raquetes e me dei conta de que a família estava no jardim. No final das contas, a previsão do tempo não estava errada. O sol dissolveu a neblina matinal, e agora me fazia fritar embaixo do cardigã preto de caxemira que coloquei por cima da camiseta e do jeans. Considerando que meu noivo e eu não estávamos nos falando – ou fosse lá o que estava acontecendo – resolvi me vestir de maneira confortável em vez de tentar libertar demônios interiores com minha sensualidade. Estava até usando minhas botas para briga – a segunda melhor e única que eu tinha.
Achei Kelly na quadra, jogando uma partida energética com o novo marido. De perto, e vestindo roupas brancas de tênis, Lance Arthur Walters era mais bonito que nas fotos da internet. Chegava até a parecer gente boa, para um bilionário careca de rosto vermelho e de meia-idade. Quando ele notou minha presença, parou o jogo – Kelly me viu primeiro, mas fez questão de fingir o contrário – e veio rapidamente ao meu encontro, usando uma toalha para secar um pouco do excesso de suor.
— Olá — disse ele, com a mão direita esticada. — Você deve ser a professora de quem Becca tem falado tanto recentemente.
Kelly veio atrás dele correndo, o longo rabo de cavalo balançando. Não estava nem um pouco suada.
— Ela não é professora — disse Kelly, com amargura.
— Suze Simon. — Apertei a mão do pai de Becca. — Eu trabalho no escritório administrativo da Academia da Missão. Na verdade, eu e Kelly estudamos na mesma turma.
Lance Arthur se virou para olhar a esposa nova e linda com surpresa.
— É mesmo? Você nunca me falou isso, querida. Precisa chamar Suze para o Pilates com sua outra amiga. Qual o nome dela? Ah, sim, Debbie.
— Debbie é minha cunhada — falei.
Lance Arthur quase caiu de tanto espanto.
— Cunhada? Não! Eu jamais saberia! Kelly, por que eu não a conheci antes? Debbie é cunhada dela! É muita coincidência. E Becca fala tão bem de Susan.
Kelly olhou para mim ameaçadoramente.
— Não sabia que Susan gostava tanto de Pilates.
— Ah — respondi, começando a me divertir com aquilo —, amo Pilates! Faço todo dia.
— Todo dia! — Lance Arthur nos guiava até as mesas e cadeiras ao lado da quadra, à sombra de um guarda-sol amarelo-claro. Alguém (a empregada ausente?) havia colocado uma jarra de limonada fresca e vários copos na mesa. Ele encheu um para mim, depois um para Kelly e um para ele. — Que maravilha. Você precisa vir fazer uma aula em nosso estúdio particular, Susan. É realmente moderno, e temos um instrutor de ponta, totalmente de ponta. Debbie e Kelly simplesmente adoram Craig, não é, Kelly?
Kelly se jogou em uma das espreguiçadeiras de estofado amarelo e disse:
— Ah, adoramos sim.
Aposto que Debbie e Kelly adoravam Craig. E aposto que Craig adorava Kelly também, ainda mais nas semanas a fio em que Lance Arthur ficava fora da cidade, a trabalho.
— Talvez eu venha mesmo — falei. — Muito obrigada pelo convite. — A limonada estava deliciosa, não muito amarga, não muito doce. E havia morangos de verdade boiando nela. Lance Arthur era um banho de classe. — Mas, olhe, não quis interromper o jogo de vocês. Na verdade, vim aqui para ver como Becca está. Tenho certeza de que Kelly contou ao senhor, Sr. Walters...
— Ah, por favor, me chama de Arthur! Qualquer amiga de Kelly é minha amiga também, Susan.
— Tudo bem, Arthur. Então, como tenho certeza de que a Kelly falou para você, Becca teve um probleminha na escola outro dia, e eu só queria fazer um acompanhamento para ver como ela está depois da visita não muito bem-sucedida do padre Dominic.
— Não foi uma coisa terrível? — Walters puxou uma das cadeiras e se sentou à mesa com expressão de preocupação. Acho que o principal motivo era que precisava de um descanso do massacre que Kelly perpetrava na quadra. Ele ainda suava profusamente, ainda mais na área do peito. — Quando Kelly me contou, fiquei simplesmente em estado de choque. Espero que tenha recebido as flores que mandei, e o cheque também.
Então ele estava falando sobre o “acidente” do padre Dominic, e não do que aconteceu com Becca.
— Foi terrível, sim — falei. Não me sentei à mesa com ele. Queria passar a menor quantidade de tempo possível na presença de Kelly. — Mas, na verdade, eu estava me referindo a Becca...
— Mas o que tem ela? — Lance olhou de meu rosto para o de Kelly. A expressão dela era indecifrável, visto que havia colocado óculos escuros de marca, com armação dourada e lentes refletoras, e pegado uma revista de moda que estava em uma mesinha ao lado. Para minha surpresa, ela havia começado a ler a revista, entediada com a conversa. — Achei que Becca estivesse se saindo melhor. Ninguém falou nada para mim!
— Becca está se saindo melhor — garanti. Fiquei com vontade de arrancar a revista da mão de Kelly e bater nela, mas apenas disse: — Eu apenas gostaria de deixar o senhor a par de uma coisa que vem me chamando atenção; que Becca se sente mais afetada pela morte de uma amiga de infância do que ela deixa transparecer. Acho que Becca e essa amiga faziam aulas de equitação na Sagrada Trindade.
Lance Arthur Walters sabia exatamente de quem eu estava falando – pontos para ele.
— Sim, claro. Lucia Martinez. É a menininha que caiu do cavalo e morreu. — Ele olhou para Kelly. — Ela era da turma de primeiro ano de Becca. Que acidente trágico. Sei que você devia ser bem nova quando aconteceu, mas talvez tenha lido sobre o assunto no jornal, Kelly.
Kelly abaixou a revista e os óculos. Parecia confusa. Era muito claro que ela só lia matérias com fotos de mulheres usando roupas de alta-costura.
— É? — perguntou ela de maneira evasiva.
— Nas próximas semanas, talvez o senhor vá ler outras histórias referentes a pessoas que trabalhavam na Sagrada Trindade na época em que Becca e Lucia estudavam lá — falei, e comecei a mexer na bolsa. — Talvez o senhor deva considerar levar Becca para conversar com um profissional sobre como ela se sente em relação a isso tudo. Só se ela quiser; eu não a forçaria a ir. Essa pessoa é muito boa. — Finalmente consegui encontrar um cartão da Dra. Jo. Eu o coloquei na mesa ao lado da jarra de limonada. — Tenho certeza de que ela pode ajudar. Vocês todos. — Olhei diretamente para Kelly. — Ela também faz sessões em família.
Walters pegou o cartão.
— Bem, muito obrigado, é muita gentileza sua. Mas não acho que...
— É apenas uma sugestão. E onde está Becca, por falar nela? Preciso ir agora e gostaria de me despedir dela.
— Está na piscina — disse Walters. Apontou para trás enquanto lia o cartão da Dra. Jo. — Terapia em família. Você realmente acha...
— Foi um prazer conhecê-lo. Me liga para combinarmos o Pilates, Kelly. Mal posso esperar, juro! Parece muito, muito divertido.
— Ah, com certeza vou ligar, Susan — disse Kelly, ácida, e voltou para a revista.
Achei Becca assim que virei a esquina, flutuando sobre uma boia na magnífica piscina de borda infinita, com vista para o Pacífico.
Becca não estava prestando atenção nenhuma na vista, no entanto, pois estava profundamente concentrada em alguma coisa no celular. Usava biquíni vermelho e óculos escuros, e o cabelo comprido estava preso em um rabo de cavalo parecido com o da madrasta. Na verdade, se não tivessem me avisado que ela estava na piscina, eu teria passado direto, porque ela não se parecia nada com Becca.
— Não acredito. — Eu me sentei em uma espreguiçadeira. — Será que é realmente Becca Walters que estou vendo? Quase não a reconheci sem o uniforme.
Ela se assustou. Estava tão absorta no celular que nem notou minha chegada.
— Ai, meu Deus — falou ela. — Srta. Simon! O que está fazendo aqui?
Incrivelmente, ela bateu os pés até a borda da piscina, saiu e foi correndo me dar um abraço tímido e úmido.
Não sei o que deu em mim, mas eu a abracei de volta, do mesmo jeito que fiz com Lucia na noite anterior; só que não a apertei tanto. E também não chorei dessa vez.
Dava para entender por que Becca gostava de ficar na piscina incrível da família. O som da água caindo da borda infinita e batendo na bacia abaixo era quase tão relaxante quanto o bater das ondas na praia, a 90 metros dali. Havia uma brisa gostosa. Tirei o cardigã para sentir o sol nos braços. Era muito fácil escapar dos problemas em um lugar como aquele.
A não ser, é claro, que os problemas assombrassem você aonde quer que fosse.
— Você está ótima — falei para Becca, enquanto ela vestia um short cáqui e uma camiseta por cima do biquíni molhado. — Fez alguma coisa no cabelo?
Instintivamente, ela tocou o cabelo, constrangida. Vi que ainda usava o pingente de cavalo, mas agora estava para fora da camiseta, e não escondido dentro dela.
— Hum, é. Bem, lavei o cabelo e tal. Umas coisas que você falou para mim outro dia fizeram sentido, sobre viver por Lucia e cuidar mais de mim.
Tentei esconder minha surpresa.
— Ah. Que bom.
— É. Mas é difícil. — Ela mexeu no curativo do braço. Notei que era novo e de um material à prova d'água, não o que eu havia colocado. — Não faz com que eu me sinta menos culpada.
— Bem, às vezes a gente precisa tentar um dia após o outro. E até um minuto depois do outro.
— É — falou ela. — Acho que faz sentido.
Agora que eu conseguia ver mais da pele de Becca, notei que os braços e as pernas tinham marcas claras de arranhões, cicatrizes de tentativas anteriores de se punir. Elas ficariam mais fracas com o tempo e – com a quantidade suficiente de amor e ajuda da família e dos amigos – talvez até desaparecessem um dia.
— Não sei se isso vai ajudar, Becca. — Achei que era melhor falar de uma vez. — Mas vim contar para você, pessoalmente, que fui encontrar Jimmy Delgado (esse era o nome completo do homem que machucou você e Lucia), e ele está morto. Cometeu suicídio.
Becca olhou para mim da mesma maneira que Lucia, sem expressão. Senti que devia continuar.
— Talvez você veja algumas coisas nos jornais, e talvez até na televisão, porque aconteceu recentemente. — Tipo, na noite anterior. — E no futuro talvez você veja umas coisas sobre o padre Francisco sendo preso. Mas seu nome nunca vai ser conectado a nenhuma das duas histórias, a não ser, é claro, que você se apresente. Mas isso é decisão sua. Falei para seu pai agora mesmo que você era muito próxima de Lucia Martinez, mais do que ele sabia. Desculpe, Becca — adicionei, pois vi pelas suas sobrancelhas baixas que isso a aborreceu. — Mas tive de contar para ele. Seu pai a ama muito, sabia?
Segurei firme no estofado da espreguiçadeira, esperando pela reação dela. Demorou bastante tempo até que ela respondesse.
— Tá bom — falou finalmente, e começou a mexer no pingente de cavalo. — Fico feliz, acho. — Estava olhando para o Pacífico.
— Hum... feliz? Porque seu pai ama você? É claro que ama, Becca.
Ela olhou para mim.
— Não. Quis dizer que estou feliz por ele estar morto. — Ela ficou tensa e mordeu o lábio. — Peraí... isso é errado, não é? É errado ficar feliz porque alguém morreu.
Tive de conter um sorriso.
— Não acho. Não se seu motivo para estar feliz é que ele não vai mais machucar ninguém. Eu com certeza ficaria se fosse você.
— Ah. Tá bom. — Ela relaxou os ombros. — Porque não quero ser uma pessoa ruim. Por muito tempo, achei que era.
— É — falei. — Quanto a isso. Dei para seu pai o nome de uma pessoa com quem eu acho que você devia conversar caso tenha vontade de se machucar de novo. Ou em geral. Ela é muito boa para dar conselhos.
A expressão de alívio foi substituída por ansiedade.
— Por que eu não posso continuar conversando com você, desse jeito?
— Já falei para você, Becca, eu não sou terapeuta licenciada.
— Ah, é. Você é só mediadora. Só ajuda os fantasmas.
— Isso. Mas posso conversar com você sempre que quiser... como amiga.
— Talvez você possa me dar umas dicas. — Ela apontou para o celular, que havia jogado na espreguiçadeira. — Eu estava jogando seu jogo.
Levei alguns segundos para entender sobre o que estava falando.
— Médium? Já falei, esse jogo é completamente...
— Idiota, eu sei. — Ela revirou os olhos, rindo, mas o sorriso logo desapareceu. — Como... como está Lucia? Eu não... ela está aqui agora? — Ela deu uma olhada por cima dos ombros. — Eu queria falar... queria perguntar se você pode falar a ela que estou tentando, de verdade dessa vez, viver por nós duas. Eu realmente vou tentar me divertir.
Era docemente patético ver uma menina de 16 anos dizendo que ia tentar se divertir. Precisei esconder o sorriso atrás da mão, fingindo coçar o nariz.
— Becca, acho que é uma ótima ideia.
Sentindo-se encorajada, ela continuou falando.
— Eu fui convidada para uma festa hoje à noite na casa de Sean Park... não é uma festa de verdade, é só um grupo de alunos que vai jogar Médium, mas eu falei que ia, e Kelly disse que vai me levar. Também vai comigo no shopping essa tarde para eu comprar uma roupa nova e fazermos a unha.
Dessa vez, não tentei esconder minha reação.
— Ela vai?
— Vai. Ela ficou animada. Sabe muitas coisas sobre roupas e coisas de menina, e disse que sempre que eu precisar de ajuda, é só falar com ela.
Fiquei chocada, mesmo sabendo que não devia. É claro que Kelly estava finalmente formando um vínculo com Becca. Por um lado, a menina estava finalmente expressando interesse por uma coisa que também interessava Kelly – produtos de moda e de beleza. E, por outro, Becca não estava mais sendo assombrada pela guardiã fantasma cuja presença Kelly pode ter conseguido sentir. Ela não era burra. Afinal de contas, conseguiu fisgar o pai de Becca.
— Sabe — continuou ela, pensativa —, é muito estranho, mas desde que conversamos, e você me falou que os fantasmas existem e que Lucia tomava conta de mim, eu não sinto... acho que não sinto mais medo. Mesmo antes de você me falar que ele, Jimmy, estava morto, eu tinha decidido ir à festa de Sean. Você pode falar isso para Lucia, por favor, Srta. Simon? Não só que eu vou me divertir por nós duas, mas que eu também não tenho mais medo?
O sol batia na água turquesa da piscina, desenhando raios dourados de luz pelos ladrilhos de travertino do deque da piscina e nas bases das folhas de palmeira acima de nós. Eu não conseguia ver Lucia; sabia que ela havia seguido em frente na noite anterior, e que estava feliz no lugar em que estava, onde quer que fosse.
Mas eu quase senti como se ela estivesse ali... tanto que me senti inspirada a pegar a mão de Becca e fazer minha melhor imitação – tenho até vergonha de dizer – da mulher do programa de TV sobre mediação de fantasmas.
— Ela sabe, Becca. Ela já sabe. E disse obrigada. Ah, peraí... — Olhei para um local à esquerda do ombro de Becca, perto de uma cozinha a céu aberto que incluía uma churrasqueira moderníssima e um bar. — É difícil de ouvir porque ela está começando a ir. Lucia está... sim. É verdade. Ela está indo em direção à luz.
— Oh! — Becca levou uma das mãos à boca. — A vovó Anna está com ela? Lucia amava tanto a avó.
— Hum, sim. A vovó Anna está chamando. É hora da Lucia ir ficar com ela.
— E Taffy está lá também?
Hesitei.
— Quem é Taffy?
— O cavalo dela.
Merda. Esqueci do cavalo.
— Sim. Taffy também. Lucia está cercada e cheia de amor, especialmente o amor que sente por você. Um pouco dele vai ficar com você para sempre.
Ai, Deus, que coisa mais brega. Como é que a médium do programa conseguia dormir em paz?
Mas não era inteiramente mentira. E estava claramente ajudando Becca. Lágrimas de felicidade se formaram nos cantos de seus olhos. Programas como Médium davam alegria às pessoas, o que era bom (apesar do fato de a estrela cobrar pelos serviços fora do ar ainda me deixar furiosa, visto que claramente era uma charlatã).
— Lucia vai sempre estar com você, em seu...
De repente, o vento quente bateu com mais força, passando pelas folhas da palmeira lá em cima e fazendo com que a superfície da piscina ondulasse. Levantou o rabo de cavalo de Becca e me deixou cega por um instante quando jogou uma mecha grossa e escura de meu próprio cabelo sobre meus olhos.
Quando eu o afastei dos olhos, só consegui ver que todos os feixes de luz que a piscina refletia haviam mudado de lugar e, em vez de dançar no deque da piscina e embaixo das palmeiras, estavam centrados em Becca, brilhando em seu rosto e pernas e braços como dezenas de borboletas douradas descansando ali suas asas... Ou como centenas de chamas de velas circulando sua cabeça docemente, como a coroa de Santa Lucia.
Mas isso era impossível. O que estava havendo?
— Uau! — exclamou Becca, levantando os braços para ver o show incrível de luzes. — É Lucia! Estou a vendo. Estou a sentindo! Srta. Simon, ela está aqui!
Becca estava certa. Tinha alguém ali.
Mas não tinha como ser Lucia, já que ela havia passado para o outro lado na noite anterior. Era outra pessoa – alguém com poderes paranormais tão fortes quanto os de Lucia – alguém que queria dar a Becca o tipo de adeus celestial que a amiga teria dado se ainda estivesse por ali.
Alguém que tinha um cheiro suspeito de madeira queimada, camurça, baunilha, sabonete de hospital e um pouquinho de cigarro.
Jesse.

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