sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 33

Kylie olhou para trás. Foi como se o seu coração fosse sair pela boca. Mas, ao ver que era Sky, respirou aliviada.
— Você me assustou — disse ela.
Mas Sky apertou ainda mais seu braço e o alívio se desvaneceu.
— Eu... Eu preciso falar com Holiday. Ela disse que eu podia procurá-la, em caso de necessidade. A qualquer hora.
Sky continuava olhando-a fixamente, mas por fim seus dedos se afrouxaram.
— E por que precisa vê-la?
— Tive outro pesadelo. Mas deste eu me lembro. O fantasma estava nele.
Sky soltou seu braço e deu um passo para trás, como se não quisesse nada com os fantasmas de Kylie.
— Você sabe qual é a cabana dela?
— Sei — disse Kylie.
Sky acenou para que ela fosse em frente e Kylie retomou a caminhada. Mas sentia que os olhos de Sky a observavam a cada passo. Kylie não tinha certeza, mas pensou que Sky provavelmente desconfiava que ela estivesse indo encontrar algum garoto. Ou voltando do encontro. Kylie parou diante da cabana de Holiday e bateu na porta. Segundos depois, a líder do acampamento, trajando uma longa camisola, abriu.
— Kylie? — sua voz deixava transparecer sua preocupação. — Esta tudo bem?
Aquele tom aflito escancarou de novo as comportas de Kylie. Lágrimas afluíram a seus olhos e sua garganta se estreitou.
— Não — Kylie sacudiu a cabeça de um lado para o outro. — Nada está bem.
Holiday puxou-a para si e a envolveu num abraço apertado. Kylie se deixou aninhar no seio de alguém que parecia compreendê-la. Quando os braços de Holiday se soltaram, Kylie disse:
— Acho que sei o que o fantasma quer de mim.


Quando o sol surgiu, Kylie estava sentada no sofá de Holiday ainda, falando sobre o sonho. A líder do acampamento confirmou suas suspeitas. Não tinha sido um terror noturno normal e sim uma experiência fora do corpo. O fantasma introduziu Kylie em suas últimas lembranças. Para Holiday, ela estava certa: o fantasma talvez houvesse sido acusado de cometer o crime que morrera tentando impedir e agora procurava alguém para anunciar ao mundo que o vilão não era ele. No entanto, segundo Holiday, as coisas nem sempre eram assim tão fáceis.
— Você acha que ele vai tentar fazer isso de novo? — perguntou Kylie, abraçando os joelhos. Não negava que, embora o conhecesse há pouco tempo e seu coração sofresse por ele, não gostaria nada de repetir a experiência. Toda vez que se lembrava dos gritos da mulher e do momento em que puxara o gatilho para matar o agressor, sentia-se péssima.
Holiday apertou a mão de Kylie.
— Não creio que os espíritos percebam o quanto isso é difícil para nós. Às vezes, são impiedosos.
Kylie balançou a cabeça.
— Não posso continuar, Holiday. Não sou corajosa o bastante — suas emoções começaram a se agitar de novo.
Holiday suspirou.
— Você está fazendo a coisa certa, Kylie. E eu estarei aqui sempre que precisar de mim. Por que não volta para a cabana e dorme um pouco? Tire uma folga hoje para descansar.
— E se acontecer de novo?
Holiday apanhou um bloco de notas.
— Vou te dar o número do meu celular, caso precise de ajuda. É só chamar.
Seu pai não havia dito a mesma coisa? Mas outro abraço de Holiday e Kylie já se dispunha a acreditar plenamente nela.
Por volta do meio-dia, Miranda e Della trouxeram um lanche para Kylie.
— Não precisavam ter tanto trabalho — disse Kylie, pegando um pedaço de pizza.
— Você doou sangue para mim. Vou ficar agradecida pelo resto da vida — assegurou Della.
— E quanto a mim? — perguntou Miranda. — Eu também doei sangue — e mostrou o band-aid no braço.
— O seu não era tão bom — alfinetou Della. Em seguida, voltou-se para Kylie: — Derek perguntou de você no café da manhã. Disse que precisava conversar com você a respeito de alguma coisa.
Kylie suspirou. Com tantas preocupações ainda teria de pensar em Derek?
— Ele disse qual era o assunto?
— Não, mas parece que falava sério.
— Ah! — acrescentou Miranda. — Você perdeu uma cena excitante também. Sabe Chris, o vampiro? Ele e aquele lobisomem loiro, acho que seu nome é Nathan, brigaram feio. Sky teve que intervir.
— Havia sangue por todo lado — acrescentou Della. — Um cheiro tão bom!
— Por que eles brigaram? — Kylie pôs na boca um pedaço de pizza de calabresa.
— Quer um motivo? — perguntou Miranda. — Todos sabem que vampiros e lobisomens não se dão bem. Especialmente os machos — Miranda relanceou os olhos para Della, que já fechava a cara.
— Não é verdade — disse Kylie. — Lucas chegou a dar sangue para Chris. São colegas de alojamento.
— E alguns vampiros não queriam que ele aceitasse — esclareceu Miranda.
— Por que não? — perguntou Kylie.
Miranda deu de ombros.
— Preconceito idiota. Um deles disse que não queria ficar devendo nada a um cão sarnento.
— Acho que é só boato — sugeriu Della. — Não sei se alguém realmente disse isso.
— Pode ser, mas é o que todos andam espalhando por aí. Ah, e sabe o que mais você perdeu? — Miranda começou a se agitar na cadeira. — Adivinha quem se sentou com a gente?
Kylie percebeu o brilho nos olhos de Miranda.
— Um passarinho com a asa quebrada.
Miranda sorriu de leve.
— Como sabe?
— Ela sabe porque você começou a exibir esse sorriso idiota e a dançar, sua maluca — riu Della.
— Meu sorriso não é idiota — rebateu Miranda.
— Sem brigas — interferiu Kylie. — Estou tentando digerir minha comida — um minuto depois, perguntou: — E quais são as outras novidades?
— A UPF deu as caras de novo — disse Della, agora num tom mais sério. Em seguida, levantou-se e foi para o computador. — Não ouvi nada, mas o sujeito alto e moreno não saía do pé de Holiday, dando bronca nela por alguma coisa.
Kylie tomou um gole do seu refrigerante dietético e contou a Della e Miranda o que sabia.
— Então algo esta acontecendo, garotas. E, seja lá o que for, deve ser sério. No segundo dia de acampamento, Burnett garantiu a Holiday que, se “algo”, que não sei o que é, não parasse, iriam fechar este lugar.
— Fechar? — Della se virou na cadeira. — Não podem fazer isso. Este acampamento é o que nos impede de pirar e trucidar uns aos outros.
O computador emitiu um sinal de chegada de e-mail, Della olhou para monitor e em seguida para Kylie.
— Você acaba de receber outra mensagem do seu pai.
Kylie devolveu o pedaço de pizza ao prato, perdendo subitamente o apetite. Ainda não tinha falado com o pai. Sabia que estava errada em enrolá-lo, mas o mesmo se podia dizer dele. Disse que viria no dia da visita dos pais. Isso, mais o fato de Kylie ter concluído que ele não a amava mais, tornava aquele assunto outro demônio que precisaria domar. E era o que Kylie pretendia fazer. Mais tarde. Quando pensar no caso já não a magoasse tanto.
— Holiday não parecia nada satisfeita — continuou Della. — Principalmente quando trouxeram Lucas ao escritório.
Kylie engoliu em seco.
— Conversaram com Lucas? E o que disseram?
— Não sei — respondeu Della. — Mas ele parecia muito nervoso.
Depois que Miranda e Della saíram, Kylie se estirou na cama. Mas o sono não vinha. E não apenas por temer que um certo fantasma a raptasse para outra viagem pelos caminhos tortuosos da memória. Pensou em Holiday e naquela confusão toda com a UPF. Pensou em Lucas. Teriam descoberto que os pais dele eram malandros? Será que Lucas suspeitava que Kylie é quem tinha feito fofoca a seu respeito?
Sua mente se agitava e ela não sabia qual desses problemas deveria encarar primeiro. Nem como ignorá-los. Por quarenta minutos naquela manhã, ouviu Sara falar sem parar sobre Phillip, o novo garoto que estava namorando. Em seguida, ligou para a mãe e mentiu descaradamente. Tudo no acampamento era uma maravilha.
Quando ouviu baterem à porta, estremeceu, agitada. Mas mais agitada ficou ao abrir e se deparar com Lucas. Bem, fora pega desprevenida; mas não poderia estar com uma aparência melhor? Parecia ter acabado de sair da cama, o que era verdade, enquanto ele... Estava ótimo. Lucas ficou parado na soleira, com uma das mãos atrás das costas.
Kylie abriu a boca para dizer alguma coisa, mas não conseguiu balbuciar sequer uma saudação convencional. E não era só pela falta de sono. Não, era principalmente pela lembrança do beijo. E pelo fato de ele ter dito a ela que aquilo tinha sido um grande erro.
— Oi — Lucas riu como se percebesse que ela tinha ficado sem palavras. — Sua colega de alojamento, a do cabelo tricolor, me disse que você não estava passando bem.
— É, mas agora já melhorei — conseguiu murmurar Kylie. E em seguida: — É verdade que a UPF falou com você hoje?
— Não foi nada — disse ele.
Kylie sentiu que era mentira.
— Eu trouxe uma coisa pra você — continuou Lucas, abrindo seu sorriso arrasador.
Kylie sentiu-se derreter. Segurando firme o trinco da porta, perguntou.
— O quê?
— Fui à cidade comprar umas coisas para Holiday e... Encontrei isto — de repente, uma expressão de culpa se estampou em seu rosto.
Estendeu o braço. Kylie esperava ver um buquê de flores baratas, não um gatinho preto e branco, irrequieto e miando. Quase perdeu o fôlego.
— Acho melhor você pegar. Ele não gosta muito de mim.
Kylie recolheu o animalzinho e aconchegou-o ao peito. O bichinho era tão pequeno que quase cabia na palma de sua mão. Kylie acariciou sua testa e o ouviu ronronar. Será que estava sonhando? Tinha que estar, porque o gatinho se parecia em tudo com o outro, Socks. O gato que Lucas...
Kylie ergueu os olhos para ele.
— Então você se lembra?
Lucas assentiu.
— É claro que sim — houve um minuto de silêncio. — Agora preciso... Ir — afastou-se alguns passos, mas deteve-se e voltou para a porta. Encostou-se à ombreira e fitou Kylie. Algo na postura de Lucas a convenceu deque suas próximas palavras seriam muito sérias. — Kylie, juro que tentei detê-lo. Foi a primeira e a última vez que brigamos.
— Deter quem? — espantou-se ela.
— Meu pai. Ele era maior e muito mais rápido do que eu, na época. Mas tentei — recuou um passo e apontou para um canto do alpendre. — A caixa e a comida de gato estão aí.
Kylie respondeu apenas com um gesto de cabeça. Saber que tinha sido o pai de Lucas que matara Socks abalou seu mundo. Durante todos aqueles anos ela tinha presumido...
— Você quer entrar? Ajude-me com estas coisas.
Por um instante, pensou que ele aceitaria. Lucas a olhou bem fundo nos olhos e ela percebeu nos dele o mesmo desejo selvagem com que a beijara.
— Melhor não.
— Por quê? — perguntou Kylie, sabendo que ele não se recusava apenas a entrar. Estava dizendo não a todas as possibilidades que sempre fervilhavam na mente dela quando pensava nele. Não às possibilidades de mais beijos e mais intimidade.
— Não daria certo — se desculpou Lucas. — Há muita coisa me preocupando no momento. Não é uma boa hora, pode acreditar.
Kylie não poderia aceitar aquela recusa sem mais nem menos.
— Sabe o que dizem a respeito de esperar a hora certa, não sabe?
Lucas fechou os olhos.
— Não posso envolver você nisso, Kylie.
— Me envolver no quê?
Abrindo os olhos, ele estendeu a mão e passou um dedo suavemente pelos lábios de Kylie.
— Você é tão inocente! E eu me sinto tão tentado! — baixou a mão. — Mas não devo. Se cuida, Kylie Galen.
Essas últimas palavras calaram fundo em Kylie, soando como um adeus. Ela o segurou pelo braço.
— Está indo embora?
Lucas fitou-a. Não disse uma palavra, nem precisava: Kylie leu a resposta em seus olhos.
— Isso tem algo a ver com a UPF? — continuou Kylie.
Lucas deu um longo suspiro.
— Não posso...
Kylie soltou seu braço.
— Eu nunca disse nada sobre você a eles ou a Holiday. Juro.
Lucas sorriu o sorriso mais triste que ela já tinha visto.
— Sei disso — e, enfiando as mãos nos bolsos das calças, olhou para Kylie. — Eu nunca pensei que você pudesse ficar mais bonita do que já aos seis anos. Mas me enganei — inclinou-se e tocou bem de leve seus lábios. Aconteceu tão depressa que Kylie mal sentiu a carícia.
Queria bem mais do que aquele beijo rápido e inocente.
— Está indo embora? — perguntou de novo.
Lucas, sem responder, virou-se para partir. Kylie continuou ali de pé, vendo-o se afastar. Ele não disse sim nem não. Mas Kylie sabia. Sabia que ele logo desapareceria de sua vida novamente.
Menos de uma hora depois, Kylie ouviu baterem outra vez na porta, com violência. Correu para atender e, mal entrou na sala, a porta se abriu com tamanha força que foi se chocar contra a parede da cabana. Kylie viu primeiro Burnett, seguido por uma Holiday extremamente abatida.
— Não entre sem ser convidado — sibilou a líder do acampamento.
— Ele esteve aqui. Posso sentir seu cheiro — retrucou Burnett, virando- se para Holiday.
— Não quero saber. Respeite a minha vontade ou irei denunciá-lo ao seu chefe.
— Você já fez isso — os olhos do vampiro se estreitaram de raiva.
— Pois farei de novo — ameaçou Holiday.
— Preciso encontrar esse pirralho — grunhiu Burnett. — Não tenho tempo para frescuras — em seguida, olhou para Kylie.
— Desculpe a intromissão — murmurou Holiday.
— O que houve? — perguntou Kylie. Já sabia quem eles estavam procurando.
Burnett deu um passo em sua direção. Holiday o segurou pelo braço e tentou puxá-lo, mas ele nem se mexeu.
— Onde está o moleque? — esbravejou Burnett.
— Kylie, você viu Lucas Parker? — disse Holiday num tom mais calmo.
Kylie engoliu em seco.
— Veio me ver há mais ou menos uma hora. Mas já foi embora.
Burnett inclinou a cabeça para um lado como se pretendesse ouvir as batidas do coração de Kylie.
— Ele disse para onde ia?
— Não — respondeu Kylie, dando graças a Deus por ele não ter dito. — Por quê? O que querem com Lucas? — Burnett continuou parado, olhando para ela. — Ele não é má pessoa — disse Kylie. Burnett se virou e saiu. Holiday deu um passo para segui-lo, mas parou e a fitou por cima do ombro. — Ele não é má pessoa — repetiu Kylie para Holiday.
— Preciso ir — disse a líder do acampamento. — Volto daqui a pouco.

Holiday foi se juntar a Burnett. Kylie continuou na sala, lembrando-se de quando Lucas tinha aparecido na cerca para aconselhá-la a não deixar seu novo gato sair. Durante todo esse tempo, ela tinha achado que suas palavras eram uma admissão de culpa. Tinha sido injusta com ele, julgando-o uma pessoa cruel. Agora, não pensava assim. Bem no fundo do coração, sabia que Lucas não tinha feito nada do que supostamente o estivessem acusando. E se fez, foi por uma boa razão.

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