domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 31

David não parava de pedir desculpas. Parecia estar praticamente chorando ao telefone.
E eu estava piorando tudo dizendo as coisas erradas.
— Bem, é verdade que Jesse provavelmente nunca teria sido preso por agredir Paul Slater se você não tivesse contado a ele tudo sobre a maldição — argumentei. — O que mostra que algumas coisas realmente têm de ser mantidas em segredo.
— Por favor, me desculpe, Suze! Fiquei muito preocupado. Quando você não respondeu minhas mensagens...
— Ai, meu Deus, David, eu estava brincando. — Na verdade, eu não estava brincando, mas depois do dia que tive, estava cansada demais para pensar antes de falar.
Peguei uma cerveja e uma cenoura na geladeira, botei a cenoura na gaiola de Romeo, e fui me sentar com Gina no sofá-cama. Ela estava assistindo à televisão quando cheguei em casa, mas tirou o som do programa; ela achava minhas ligações mais interessantes que os episódios gravados de The Bachelor.
— Ele só vai passar uma noite na cadeia — garanti para David. Pronto, isso saiu melhor. — Pelo menos foi o que o advogado disse.
Isso não acalmou David, no entanto.
Jake já havia contatado um de seus poderosos advogados de defesa (quando você trabalha com o tipo de coisa que meu meio-irmão mais velho trabalha, é melhor ter aconselhamento legal à disposição. Tentei não ficar nervosa quando Jake ligou para “o cara que lida com direção sob efeito de substâncias” e mandou que fosse até a delegacia para garantir que o Dr. Hector de Silva recebesse o melhor tratamento possível até o julgamento (estava marcado para a manhã seguinte).
A prisão do condado de Monterey era considerada uma das melhores instalações do tipo no estado – não que nenhuma delas fosse tão boa assim – então Jesse deu sorte nesse aspecto. Assim como vários prédios do Norte da Califórnia, a delegacia fazia parte do registro nacional de locais históricos. Cesar Chavez ficou preso ali durante o boicote do alface no Vale do Salinas. Tanto Brad quanto Jake já haviam passado algum tempo no que chamavam de “a pousada mais em conta da baía” por várias pequenas confusões e infrações.
— Jake diz que a comida deixa a desejar — falei para David ao telefone. — Mas você conhece várias pessoas interessantes.
— Isso não está me fazendo sentir melhor, Suze — disse David. — E o emprego de Jesse? Ele vai perder o emprego?
Tentei não deixar que o nervosismo que eu sentia em relação a isso transparecesse em minha voz.
— Tenho certeza de que ele vai conseguir manter o emprego. Todo mundo no hospital ama Jesse. E esse problema todo foi só um mal-entendido que aconteceu enquanto Jesse estava fora do trabalho. A acusação contra ele vai ser retirada. — Dei um gole na cerveja. — Vai dar tudo certo. Você vai ver.
— Como você conseguiu fazer isso?
— Digamos apenas que Paul ficou feliz em cooperar.
A resposta verdadeira de Paul – ou devo dizer, as respostas – à minha mensagem dizendo que era melhor ele retirar a acusação, ou eu contaria para o Rei das Mercedes a verdade sobre ele e Debbie, foram menos graciosas que isso.

El Diablo
Ok. Mas quero que você saiba que aquele animal quebrou minha mandíbula em dois lugares.
Nov 19 12:40 AM

El Diablo
E agora você viu com os próprios olhos, Simon. Ele não é o médico santinho que finge ser. Tem um demônio dentro dele.
Nov 19 12:41 AM

El Diablo
Quando precisar ser salva dele, me ligue. TALVEZ eu vá te buscar.
Nov. 19 12:42 AM

El Diablo
Mas eu provavelmente vou só deixar que ele quebre SUA mandíbula para você ver como é.
Nov 19 12:43 AM

Cruel. Mas bem a cara de Paul. Eu achava interessante que ele considerasse Jesse um demônio quando, para mim, estava muito claro quem dos dois era o verdadeiro príncipe da escuridão.
É claro que não compartilhei os detalhes das mensagens de Paul com David, mas o pouco que falei o preocupou mesmo assim.
— Suze! Isso não é intimidação de vítima? Você pode ter problemas.
Dei uma boa gargalhada diante da ideia de Paul ser uma vítima, embora na verdade eu não estivesse achando nada daquilo muito engraçado.
— David, você não faz ideia das coisas que fiz só nesta semana e que podem me causar problemas muito maiores.
— Bem, e a casa? E a maldição? Eu tenho conversado com Shahbaz (a gente se encontrou umas duas vezes, na verdade) e realmente parece que não existe nenhuma maneira de quebrar a maldição. Pelo menos nada que esteja escrito em documentos do Antigo Oriente. Mas eu li umas coisas sobre práticas Wicca de remoção de maldição que você podia experimentar. Sei que o padre Dominic não aprovaria, mas...
— David — falei, parando com a cerveja a caminho da boca. — Você não falou nada sobre meu dom para esse tal de Shahbaz, falou?
— Não — respondeu David, com uma voz tão cheia de culpa que eu tive certeza de que ele estava mentindo. — Quero dizer, não com tantas palavras. Mas acho que ele entenderia se eu contasse. Na verdade, ele é bastante esperto e está bem preocupado com a demolição de sua casa. Ele entende como pode ser ruim para uma pessoa ver o lar da infância sendo destruído a fim de dar espaço a prédios novos, envolvendo ou não uma maldição.
— Awn — falei, tocada pelo tom melancólico na voz do David. — Muito fofo da parte dele. Mas acho que a casa vai ser salva.
— Sério? Como? — David ficou tão surpreso que sua voz falhou.
De forma alguma eu ia contar para David que Paul era o verdadeiro pai das sobrinhas dele – ainda mais porque ele estava muito preocupado com a casa – então falei apenas:
— Parece que os planos de demolição foram adiados. Então temos tempo para pensar em algumas estratégias alternativas.
— Como você conseguiu isso, Suze?
— David, já é bem tarde aqui, então deve ser ainda mais tarde aí. Não era para você estar dormindo?
— Já falei para você, Suze, não sou mais uma criança. Eu quero ajudar!
— Acho que você já ajudou o suficiente — falei. — E não estou falando isso com sarcasmo. Sério, David, eu não sei o que faria sem você. Mas preciso ir dormir. Boa noite. — Desliguei antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
— Meu Deus. — Gina passou a tigela de pipoca amanteigada em seu colo para mim. — Pelo visto você teve uma noite espetacularmente bosta.
— Põe bosta nisso. — Enchi a mão de pipoca e coloquei de uma vez na boca. Tinha gosto de cinzas salgadas, mas era por causa dos eventos daquele dia, e não das habilidades de Gina. — Eu só preciso relaxar por, tipo, uma hora.
— Tudo bem. — Ela pegou o controle remoto. — O que você quer assistir?
— Qualquer coisa menos The Bachelor. Já lidei com solteirões demais por hoje.
— Seu desejo é uma ordem. — Ela apontou o controle para a tela e começou a zapear. — Hum, acho que as únicas opções viáveis são seu favorito, Médium, ou um daqueles programas de vestidos econômicos de casamento.
— Meu Deus. Vestidos econômicos de casamento, por favor.
Ela sorriu.
— Sabia. Vestido de casamento, então.
Assistimos àquilo até cairmos no sono; quero dizer, até uma de nós cair no sono, pelo menos. Eu me levantei devagar para não a acordar e fui para minha cama...
... mas continuava acordada uma hora depois, sem conseguir tirar uma imagem da cabeça.
Pare. Espere. Não.
Várias pessoas podiam ser culpadas por vários acontecimentos naquela noite, mas a morte de Jimmy Delgado era culpa apenas minha. Foi uma alma que não consegui salvar... não que valesse muito a pena.
Mas Jesse... o que estaria fazendo naquele momento? Será que também estava deitado na cela pensando em mim? Estaria com frio? E se não tivesse um cobertor? E se Paul não tivesse de fato retirado a acusação, como disse que ia fazer? Será que eu podia contar para alguém sobre as trigêmeas?
Eu estava me torturando com esses pensamentos quando percebi que não estava sozinha no quarto.
Eu soube quem era antes mesmo de abrir os olhos.
Apoiei-me em um dos cotovelos e olhei para ela. Mesmo tendo sentido sua presença, meu coração ainda estava batendo com força.
— Você não pode continuar fazendo isso — falei. — Vai me fazer enfartar.
Lucia não respondeu. Apenas ficou parada ao lado da cama, a aura delicada brilhando ao seu redor, olhando para mim com aqueles olhos pretos gigantes. Estava com a mesma expressão sombria de sempre, a boca no mesmo formato rosado de desaprovação.
O que fiz de errado agora? Talvez ela não gostasse do fato de eu dormir no mesmo quarto de um rato, ou com uma velha camiseta preta e um short de yoga. Ou talvez não tivesse gostado do fato de eu não ter tentado tanto assim impedir que o assassino dela se matasse. Ele jamais teria seu dia no tribunal. Pelo menos não na Terra.
— Como você entrou aqui? — Olhei em volta. Ela não deveria ter conseguido entrar no apartamento; o lugar era todo protegido contra espíritos malignos, desde sal e bênçãos a cruzes e mezuzás.
Se bem que Lucia não era exatamente um espírito maligno.
— Como posso ajudá-la, Lucia? — perguntei. Conversar com aquela criança era como conversar com o bicho de pelúcia que ela carregava; ela nunca respondia. — Você está aqui por causa de Jimmy? Hum...
Eu me lembrei, tarde demais, que só Becca já chamara o assassino de Lucia pelo nome, e nem ela gostava de fazer isso. A própria Lucia ficou traumatizada demais e nunca conseguiu chamá-lo de outra coisa a não ser “ele”.
— É por causa do, hum, homem mau?
Eu me sentei na cama, vagarosamente para não a assustar. Não havia nenhum som no quarto, a não ser minha voz e os grunhidos delicados de Romeo, que havia acordado e começado imediatamente a se limpar na gaiola.
— Porque ele foi embora, Lucia. — Era um eufemismo cabível para o que havia acontecido com Delgado. Foi. Ele foi embora. — Eu o encontrei e dei um jeito de ele nunca mais machucar nem você, nem Becca, nem ninguém, nunca mais.
Lucia continuou apenas a olhar para mim em silêncio, olhos brilhando com a mesma luminosidade do resto do corpo. Eu não conseguia decifrar sua expressão. Estava apreensiva ou insatisfeita?
— Amanhã vou lidar com o padre que também machucou Becca. Ok? — Minha voz falhou um pouco. — Não do mesmo jeito que Jimmy, mas... ele também não vai mais machucar ninguém. Desculpe as coisas terem ficado tão complicadas, e por ter levado tanto tempo para dar um jeito em tudo. Não que dê para dar um jeito no que já aconteceu, mas... bem, você sabe. Essa foi difícil, Lucia. Essa foi muito difícil mesmo.
Levantei a mão para afastar o cabelo dos olhos e percebi, quando vi meus dedos molhados, que eu estava chorando. Eu, que nunca chorava.
Todos os sinais estavam ali. Minhas bochechas estavam úmidas, minha garganta, apertada. Meus olhos ardiam.
Não era alergia. Eu estava chorando. Chorando por Lucia.
Por Lucia, por Becca ou por mim? Talvez pelas trigêmeas também, e um pouco por Jesse. Chorando por todos nós.
Lucia apenas continuou a olhar para mim, como uma coruja.
Peguei o celular, que estava na mesa de cabeceira, e passei por algumas fotos que eu havia salvado.
— Olhe, Lucia, encontrei sua família. Eles saíram da cidade, mas não foram para muito longe. Eles têm vinhedos no Norte de São Francisco. Parece bem bonito. Não têm cavalos, mas têm lhamas. Olha, tem uma foto aqui. — Virei a tela do celular para que ela pudesse ver. A luz lhe iluminou o rosto ainda mais que o próprio esplendor espectral. — Aqui está sua mãe, seu pai e seus irmãos. E, olhe, está vendo aqui? Depois que você morreu, eles adotaram duas menininhas. — Isso fez com que ela se inclinasse para mais perto. Eu finalmente consegui sua atenção.
— Eu venho pensando nisso — continuei. — Por que eles adotaram duas meninas? E acho que foi porque uma só não teria sido suficiente para tapar o buraco que se formou nos corações deles quando você foi embora. Esse é o tamanho do amor que sentiam por você.
Lucia olhou para mim e para a foto várias vezes, os olhos maiores que nunca. Mas eu ainda não sabia se ela estava entendendo. Eu mal conseguia ver por causa das lágrimas.
Como eu conseguiria me conectar a ela?
— Por favor, Lucia — falei. — Você só precisa ter um pouquinho mais de paciência e tudo vai ficar bem, eu juro. Talvez não tudo bem. Nunca vai ficar tudo bem para você, sei disso. Mas juro que vou ajudar Becca. É o que você quer, não é?
Então ela fez uma coisa que me chocou, e eu vinha trabalhando com almas havia bastante tempo. Não sabia que ainda era capaz de me chocar.
Mas Lucia conseguiu quando subiu na cama e veio até mim, braços esticados para envolver minha nuca.
Não para me estrangular, dessa vez.
Para me abraçar.
E o mais chocante foi que soltei o celular e a abracei também, uma menina morta de 7 anos que nem devia estar no meu quarto.
Aquilo era uma violação de todos os protocolos entre fantasma e mediadora – e paciente e terapeuta – que existiam no mundo. Lucia precisava passar para o outro lado e se encontrar com o grupo ao qual pertencia: com a avó que disse que ela era uma menina tão feliz. Ela já havia falecido também e provavelmente estava esperando, inquieta, que a neta se apressasse e fosse encontrá-la. Meu trabalho era garantir que isso acontecesse.
Mas lá estava eu, abraçando-a em vez de deixá-la ir, permitindo que ela apoiasse o rosto – frio e liso feito mármore – no meu, apertando-a com a mesma força que ela me apertava. Sua tristeza, profunda e escura como um túmulo, transbordou até mim...
Ou talvez a única tristeza que eu estivesse sentindo fosse a minha. Talvez ela estivesse ali o tempo todo, numa caixa bem guardada. Talvez fosse isso o que me mantivesse acordada havia tantos anos, mas eu não me permitira experimentar aquilo – até que o toque daquela bochecha fria na minha abrisse a caixa, e todas as emoções que eu guardei com tanto cuidado viessem transbordando até a superfície.
— Tudo bem, Lucia — sussurrei, balançando-a devagar de um lado para o outro. — Vai dar tudo certo. Eu prometo.
Ela se afastou de mim um pouco, depois levou uma das mãos ao meu rosto, que, ao contrário do dela, não era frio e liso feito mármore, mas sim quente e molhado.
— Eu sei — sussurrou Lucia, olhando dentro de meus olhos. Pela primeira vez desde que a conheci, ela sorriu. — Foi isso que eu vim falar para você.
Então, numa explosão de luz dourada que iluminou meu quarto como um Sol, ela se foi.

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