sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 31

— Não muito longe — esclareceu Lucas. Se percebeu a súbita insegurança de Kylie, disfarçou bem. — Na verdade, estão no leito de um rio fora do terreno do acampamento — acrescentou, sem olhar para ela. — Mas um trecho da cerca foi cortado e podemos atravessar.
— Será que podemos sair dos limites do acampamento?
Lucas desviou os olhos da trilha para ela.
— São só alguns metros além da cerca. Mas você é quem decide — estancou. — Há alguns dias, você me pareceu interessada no passeio. Pensei...
Kylie engoliu em seco e olhou para os lados. As narinas de Lucas se dilataram, como se estivessem captando algum cheiro estranho.
— Voltou a ter medo de mim? Caramba, pensei que já tinha superado isso!
— E superei mesmo — disse Kylie, perguntando a si mesma quando ele notara que já não se sentia insegura ao lado dele. — Eu só... Lembrei-me da cobra do outro dia — mentiu.
A suspeita nos olhos de Lucas se desvaneceu e sua expressão era quase de alívio.
— Não se preocupe, posso farejar essas coisas a um quilômetro de distância e sou mais rápido do que qualquer serpente — garantiu ele, retomando a caminhada.
Kylie o seguiu. Andaram algum tempo sem falar. O bosque parecia engolir o ruído seus passos. Lucas ia depressa, mas não o bastante para que Kylie não desse acompanhá-lo.
— Você já descobriu o que é? — perguntou ele.
— Não. Mas há uma boa chance de eu ser apenas humana — Lucas parou abruptamente e voltou-se para ela. Kylie ergueu a mão diante da testa. — Não faça isso. E não diga isso. Sei que não pareço humana. Mas, francamente, não aguento mais todas essas pessoas tentando checar minha cabeça. É tão ruim quanto garotos de olho nos meus peitos.
Logo que a última frase saiu de seus lábios, Kylie desejou não tê-la dito, especialmente porque se lembrou de Lucas admirando seus seios à noite...
— Desculpe. Acho que sei como se sente. Ter sempre alguém observando seu padrão o tempo todo — e Lucas sorriu.
Era o tipo de sorriso que fazia uma garota se derreter. Permaneceram ali pé, estudando um ao outro até que o clima ficou constrangedor. Finalmente, Lucas sacudiu a cabeça e voltou a andar. Já haviam caminhado uns trezentos metros quando Kylie percebeu um band-aid no braço de Lucas.
— Você... Deu sangue? — perguntou, apontando para seu braço.
— Ah, dei — olhou para o band-aid como se tivesse se esquecido de existência, arrancou-o e o enfiou no bolso da calça. — Quebrei o galho à toa, para Chris.
— Chris, o vampiro? — perguntou Kylie.
— É — respondeu ele, como se aquilo não fosse grande coisa. Kylie se lembrou de Derek agindo da mesma maneira.
— Você não acha isso... Estranho?
Lucas arqueou uma sobrancelha.
— Estranho? — olhou-a bem, como se não tivesse entendido a pergunta.
Kylie reconheceu que tinha sido uma pergunta idiota. Lucas se transformava em lobo. Perto disso, beber sangue era quase nada.
— Pessoas doam sangue o tempo todo, Kylie — continuou Lucas.
— Mas para salvar vidas — disse ela, apenas para romper o silêncio constrangedor.
— E vampiros morrem se não beberem sangue.
Kylie nunca havia pensado muito nisso, mas ouvi-lo mencionar o fato a deixou meio confusa.
— Eles não podem sobreviver apenas...
— Com sangue animal? — completou Lucas. — Podem e bebem sangue animal, mas, para obter uma nutrição satisfatória, precisam de um pouco de sangue humano. É a mesma coisa que doar para a Cruz Vermelha.
Sem conseguir se conter, Kylie deixou que seu próximo pensamento se traduzisse em palavras.
— Pessoas doentes não bebem isso. O líquido é injetado em suas veias.
— E que importância tem o modo como chega ao organismo? Eu não vejo nenhuma diferença.
Kylie refletiu um pouco sobre essa analogia e achou que tinha sido apressada em suas conclusões.
— Você mesma não é colega de alojamento de uma vampira? — perguntou ele.
— Sou — mas, de algum modo, em sua mente separava Della, a amiga de Della, a vampira.
— E ela ainda não te pediu para doar?
— Não — sabia por que, também. Della não ignorava como Kylie e mesmo Miranda se sentiam com relação a essa história de sangue. Por uma razão qualquer, as palavras raivosas da amiga naquela manhã cruzaram sua mente: Você ainda nos considera aberrações.
— Todos os vampiros devem ter alguém que doe. Caso contrário, não podem participar dos rituais.
Kylie se lembrou de que Della não tinha comparecido ao encontro matinal costumeiro naquele dia. Estaria isso, de algum modo, ligado – desentendimento que tivera com a outra vampira? A lembrança de Della enfrentando Fredericka e protegendo Kylie de seu primo Chan lhe ocorreu na hora. Della não hesitou em ajudar Kylie, mas ainda assim não se à vontade para lhe pedir um pouco de sangue.
Você ainda nos considera aberrações.
Aquela acusação não saía da cabeça de Kylie. Não achava que Della fosse uma aberração; mas, para ser franca, também não a aceitava como era. Em resumo: Kylie não tinha sido uma amiga. Essa constatação lhe doeu como um soco no estômago.
— É seguro? — perguntou Kylie.
— O quê?
— Doar sangue para os vampiros. É seguro?
— É claro! Holiday não ia deixar, se não fosse.
A disposição para aceitar Della inteiramente fez surgirem outras perguntas na mente de Kylie.
— E como é?
Lucas deu de ombros.
— A mesma coisa que doar sangue num ambulatório.
— Não me refiro a isso. Estou me referindo à transformação em lobo. Ouvi dizer que é... — procurou escolher as palavras.
— Assustador? — perguntou Lucas, franzindo a testa.
— E doloroso — completou Kylie, decidida a não amenizar a situação.
— Acho que parece pior do que de fato é — Lucas se calou por alguns instantes e prosseguiu: — Lembra um pouco um músculo dolorido sendo massageado. Dói e é gostoso ao mesmo tempo.
— Então não é como Perry ao se transformar?
— Não, não é daquele jeito. O corpo de um metamorfo se transforma numa velocidade e nível celular totalmente diferentes. Quando nos transformamos, você pode acompanhar o processo à medida que o corpo assume a nova forma.
— Não parece nada engraçado.
— Mas é. É superengraçado — os olhos de Lucas se iluminaram e Kylie não duvidou de que ele estivesse dizendo a verdade.
— E como é depois? Uma vez transformado, você... Continua sendo você?
— Continuo sendo eu? — estranhou ele, sem entender a pergunta.
— Pensa como humano ou como lobo?
— Eu não sou humano, Kylie — explicou Lucas. — Sou um lobisomem.
Kylie sentiu seu rosto corar.
— Eu quis dizer...
— Sei — interrompeu ele, respirando fundo. — Quando mudo, meus sentidos e instintos se aguçam. Para caçar. Para acasalar. Para proteger o que é meu. Pode-se dizer que são instintos bem humanos. No entanto, em forma de lobisomem, eles são difíceis de disfarçar.
Então, talvez houvesse matado o gato movido pelo instinto de caçador, o por maldade. Até que esse pensamento lhe ocorresse, não havia percebido que estava tentando encontrar um pretexto para perdoá-lo.
O silêncio foi se tornando embaraçoso.
— E quando você está na forma humana, quais são seus dons? — perguntou Kylie.
— Audição, olfato, força e agilidade em grau elevado.
— A mesma coisa que num vampiro? — lembrou-se de Della explicando, sem convencer muito, que os vampiros eram a espécie mais rosa. Della podia estar apenas se gabando. Então se lembrou de uma das habilidades da amiga. — Você consegue ouvir meus batimentos cardíacos?
E saber também quando estou mentindo?
— Depende. Nossa força e sentidos aumentam quanto mais próximas estivermos da lua cheia. Mas, na maior parte do tempo, nossa audição mais usada para perceber a aproximação de intrusos e não coisas como batimentos cardíacos.
Kylie se lembrou de que ele tinha saltado de uma árvore na noite da fogueira e lhe pareceu estranho que ele pudesse fazer aquilo e um lobo, não. Concluiu que, certamente, havia grandes benefícios em ter dedos e polegares.
— Aqui está a cerca — disse Lucas. Em seguida, puxou uma parte do arame farpado e acenou para que Kylie passasse pelo vão entre ele e a abertura. — Cuidado para não arranhar os ombros.
A passagem era estreita. Kylie se espremeu contra Lucas e seus seios roçaram no peito dele. A sensação de calor e formigamento foi tão forte ela se sobressaltou. Antes que Kylie desse um passo, ele percebeu sua tensão e a puxou.
— Cuidado — Lucas baixou a cabeça e a olhou. Estavam tão próximos que o nariz dele se esfregou no dela. — Não vá se arranhar no arame.
Kylie assentiu com um gesto de cabeça e atravessou a cerca, que parecia eletrificada tamanho foi o estremecimento que lhe percorreu o corpo. Assim que ela chegou do outro lado, Lucas atravessou também a abertura e soltou o arame. Seus olhares se cruzaram novamente. De algum modo, Kylie sabia que ele também estava pensando em como haviam ficado tão próximos um do outro um minuto atrás. Ela ainda sentia o sangue fluir pelo seu rosto.
— Por aqui — disse Lucas, apontando o caminho e olhando de relance para seu rosto. Ela sem dúvida estava ainda mais vermelha. Em poucos instantes, chegaram à margem do riacho. Lucas examinou a água. — O nível subiu um pouco. Geralmente, não passa de alguns centímetros. As pegadas estão bem no meio do leito. A profundidade não passa de trinta centímetros, mas talvez você queira tirar o tênis para não molhar.
Kylie se sentou, tirou o tênis e as meias, e enrolou a barra da calça. Lucas, de pé à sua frente, a observava. Kylie ergueu os olhos.
— E você, não vai tirar o seu?
— Tênis molhado não me incomoda.
Kylie enfiou as meias no tênis e colocou-o longe da água. O som do riacho acariciava seus sentidos. Olhando para a corrente, perguntou:
— A cachoeira fica longe daqui?
— Cerca de um quilômetro e meio, mas dentro do terreno do acampamento.
— Já foi lá?
— Uma vez — respondeu ele.
— É tão assustador quanto as pessoas dizem?
— Um pouco. Mas não vi nenhuma sombra — riu Lucas.
Seria porque ele não conseguia ver fantasmas?
— Está pronta? — perguntou Lucas, vendo-a pensativa.
— Estou — Kylie se levantou e mergulhou os dedos dos pés no riacho. — Está frio — sorriu.
— É, mas à tarde, quando o sol esquenta, é ótimo. A cerca de meio quilômetro daqui há um lugar mais fundo, onde dá pra nadar. Eu tento ir lá pelo menos uma vez por semana.
Kylie o imaginou nadando e se recordou do seu sonho. Lucas entrou na água e, virando-se para trás, segurou a mão direita de Kylie. Ela fitou os dedos dele em volta dos seus, conservando ainda na mente a imagem dos dois mergulhados na água quase até o pescoço, seus seios apertados contra o peito dele.
— As pedras são muito lisas — advertiu Lucas, seguindo o olhar.
— Acho que consigo me equilibrar — garantiu Kylie, soltando a mão.
— Quando cair sentada, vai ver o que é bom.
— Não vou, não — disse ela, sorrindo de modo confiante. Mas, já no próximo passo, seu pé e seu orgulho escorregaram numa pedra lisa, suas pernas se projetaram para cima e para os lados, e ela caiu sentada com grande estardalhaço.
— Aí! — a água fria atravessou a calça até seu traseiro. Ouviu uma gargalhada solta e contagiante. Lucas estava de pé à sua frente, braços cruzados sobre o peito largo, os olhos azuis cheios de bom humor.
— Não ria! — ordenou Kylie, quase rindo ela própria. E, apanhando um pouco de água com a mão, arremessou nele.
Lucas riu ainda mais, mas logo lhe ofereceu a mão – que, desta vez, ela aceitou. Já de pé, ensaiava outro passo quando escorregou de novo, mas agora não caiu sozinha. Caiu em cima dele, com o rosto afundado em seu ombro. Ergueu a cabeça e viu a água passando sobre o peito de Lucas, que olhava para ela, sorrindo. E parecendo gostar daquilo.
— É o seu prêmio por rir de mim — brincou Kylie.
O peito de Lucas se dilatou debaixo dela, numa inspiração profunda. E Kylie já nem mais sentia o frio da água – sentia apenas o calor do corpo dele apertado contra o seu.
— E este é o seu por gozar da minha cara — ele a puxou um pouco para cima, até seus lábios tocarem os dela.
Kylie não procurou detê-lo. Na verdade, até subiu mais pelo corpo dele para que o beijo fosse completo. A mão de Lucas deslizou para trás de seu pescoço e endireitou-lhe a cabeça, colocando sua boca em posição mais acessível. A textura ligeiramente áspera do rosto barbeado de Lucas lhe pareceu muito agradável. A língua dele se insinuou, primeiro devagar, depois sem hesitação. Uma sensação de calor avolumou-se dentro de Kylie, que não parecia estar suficientemente aconchegada a ele. Nada daquilo lembrava os beijos e carícias que havia trocado com Trey. Mas, seus instintos pareciam clamar. Ela queria mais.
Correu os dedos pelos cabelos negros e molhados de Lucas, encantando-se com sua maciez – e com as emoções que a agitavam, a dominavam, fazendo-a se sentir mais viva do que nunca. Seus seios, pressionados contra o peito de Lucas, estavam rígidos. Talvez o sonho a inspirasse, mas a verdade é que queria ardentemente ser tocada por ele. Só quando ouviu vozes próximas é que voltou a si. Interrompendo o beijo e se afastou alguns centímetros do peito de Lucas. Ele entreabriu pálpebras e fitou-a com olhos turvos. Kylie vislumbrou neles um toque de selvageria e fome como nunca tinha visto antes. Mais que qualquer coisa, ela queria saciar aquela fome e submeter-se àquela selvageria. Então as vozes chegaram mais perto. Agora, as sensações de Kylie pareciam muito mais intensas.
Afastou-se de Lucas, tão insegura com relação a essas novas emoções quanto estivera com relação à sua capacidade de não escorregar.
— Nós deveríamos... Eu ouvi... — disse ela, levantando-se.
— Não estão vindo para cá — tranquilizou-a Lucas. Levantou-se também e fitou-a através dos cílios escuros. Respirou fundo e passou a mão pelo rosto. — Droga! — murmurou, virando-se para Kylie. — Eu provavelmente não devia ter feito isso, certo?
— Provavelmente não — concordou ela. Mas, mesmo que pudesse voltar atrás, não trocaria aquele momento por nada.
Lucas jogou os cabelos para trás, espalhando em volta gotas que refletiam a luz do sol.
— Então esqueça o que aconteceu. Apenas esqueça, está bem?
— Não acredito que possa esquecer — iria se lembrar para sempre daquele beijo e daquele momento. Pois, por mais que gostasse dos beijos de Trey, o de Lucas lhe pareceu o primeiro beijo adulto de sua vida. Seu primeiro gostinho da paixão. O beijo e o que tinha sentido eram algo mais. E, embora não estivesse pronta para “mais”, esse “mais” era o que ela desejava. Aquele, concluiu Kylie, era o verdadeiro significado da paixão.
Consciente do silêncio embaraçoso que crescia entre eles, olhou em volta.
— Onde estão as pegadas?
— Ali — disse Lucas, apontando para a margem do riacho.
Kylie caminhou até lá, devagar. Observando as pegadas, fingiu interesse por elas. De repente, Lucas estava ao seu lado, projetando uma sombra cumprida na água. Quando Kylie levantou a cabeça, o surpreendeu olhando os seus seios. Kylie baixou os olhos e notou que a água havia tornado tanto sua camisa branca quanto seu sutiã de cetim praticamente invisíveis. Os mamilos, ainda rijos, forçavam o tecido.
Cruzou os braços.
— Por que não veste a minha camiseta? — Lucas começou a tirar a camiseta azul molhada, expondo um abdome musculoso.
E, quando a camiseta subiu mais, ela teve a visão do umbigo mais bonito que jamais vira. Depois, apareceu o tórax. Sólido. Duro. Algumas gotas de água brilhavam em sua pele. O coração de Kylie acelerou de novo de paixão. Ao se dar conta do que estava fazendo, Kylie desviou os olhos.
— O melhor seria você parar de olhar para mim e continuar vestido.
— Eu poderia fazer isso. Mas os seis caras que estarão aqui em menos de trinta segundos talvez não cooperem tanto. Isso me obrigará a lhes dar uma lição.
— Pensei que não viessem para cá.
— Mudaram de direção — Lucas começou a enfiar a camiseta na cabeça dela. Kylie ergueu os braços para ajudá-lo. Vendo-a vestida, ele deu um meio sorriso e olhou para seus seios.
— Bem melhor — estendeu a mão e afastou-lhe uma mecha de cabelo molhado do rosto. — Você não tem ideia de quanto é bonita, tem?
Agora as vozes estavam bem perto da margem do riacho. Kylie nem ligou. Todos os seus instintos se concentravam no homem à sua frente e no elogio que ele tinha acabado de fazer. Lucas a fazia se sentir bonita. E sexy.
— Pronta para voltar? — perguntou ele.
Kylie assentiu, mas, antes de se virar, ouviu seu nome.
— Kylie?
Reconheceu imediatamente a voz. Voltou-se para a margem e lá estava Trey, com um ar perplexo.

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