sábado, 24 de setembro de 2016

Capítulo 3

Três dias depois, Kylie, de mala na mão, viu-se no estacionamento da ACM, onde vários ônibus do acampamento recolhiam os delinquentes juvenis. Não podia acreditar que estava ali. A mãe tinha conseguido... E o pai tinha deixado.
Kylie, que só bebia uns dois golinhos de cerveja, nunca havia realmente fumado um cigarro — e muito menos um baseado — e, estava prestes a ser despachada para um acampamento para adolescentes problemáticos.
A mãe tocou seu braço.
— Acho que estão chamando você.
Não poderia haver um jeito mais rápido de a mãe se livrar dela. Kylie evitou o toque, irritada e tão magoada que já nem sabia o que fazer. Tinha pedido, implorado, chorado — nada funcionou. Iria para o acampamento. Odiava a ideia, mas não tinha outra escolha.
Sem dizer uma palavra à mãe e jurando que não choraria na frente de tantas pessoas, Kylie endireitou o corpo e caminhou para o ônibus atrás da mulher que empunhava uma placa onde se lia: ACAMPAMENTO SHADOW FALLS.
Droga. Para que tipo de buraco estava sendo levada?
Quando entrou no ônibus, os oito ou nove adolescentes que já estavam lá ergueram a cabeça e olharam para ela. Sentiu uma coisa estranha no peito e os calafrios surgiram novamente. Nunca, em seus dezesseis anos de vida, quis tanto dar meia-volta e sair correndo. Fez um esforço para se conter e encarou...
Meu Deus, o que era aquilo?
Uma garota tinha pintado os cabelos de três cores diferentes: rosa, preto e verde-limão. Outra só usava preto — batom preto, sombra preta, calça preta e camisa de mangas compridas preta. O estilo gótico não tinha saído de moda? Onde aquela garota se inspirou para se vestir daquele jeito? Não sabia que as cores vibrantes estavam em alta? Que o azul era o novo preto?
E havia o carinha sentado bem na frente do ônibus. Tinha piercings nas duas sobrancelhas. Kylie olhou pela janela para ver se a mãe continuava lá. Sem dúvida, se ela lançasse um olhar para aquelas figuras, saberia que Kylie estava no lugar errado.
— Sente-se — disse alguém às suas costas.
Kylie virou-se e viu que era a motorista. Embora não tivesse reparado antes, percebeu que ali até a motorista era esquisita. Seus cabelos grisalhos tingidos de violeta pareciam um capacete de futebol americano. Não que Kylie a censurasse por deixar as mechas espetadas alguns centímetros. A mulher era baixinha. Nanica. Kylie olhou para seus pés, quase esperando dar com botas verdes de duende. Mas não, nada de botas de duende. Olhou para frente do ônibus.
Como aquela mulherzinha conseguia dirigir?
— Vamos, Vamos — disse a nanica. — Tenho que deixar vocês lá na hora do almoço, portanto vá andando.
Como todos os outros já estavam sentados, Kylie supôs que a mulher estivesse falando com ela. Deu alguns passos pelo corredor do ônibus, sentindo que sua vida jamais seria a mesma.
— Pode se sentar aqui comigo — disse uma voz. O garoto tinha cabelos loiros encaracolados, mais loiros até que os de Kylie, mas os olhos eram tão escuros que pareciam pretos. Deu uma tapinha no assento vazio ao lado. Kylie tentou não olhar muito, mas aquela estranha combinação de claro/escuro era irresistível. Então o garoto arqueou as sobrancelhas como se... Como se o fato de ela se sentar ao seu lado significasse que poderiam transar ou coisa parecida.
— Obrigada — Kylie deu mais alguns passos, arrastando a mala, que se prendeu na fileira de assentos onde estava o garoto. Ela se virou para puxá-la. Seu olhar se cruzou com o dele e Kylie conteve a respiração. O loiro agora tinha... Olhos verdes! Olhos verdes brilhantes, muito brilhantes.
Como aquilo era possível?
Engoliu em seco e observou as mãos dele. Talvez estivesse segurando uma caixinha de lentes de contato, que acabara de trocar... Nenhuma caixinha. O jovem arqueou de novo as sobrancelhas e, quando ela percebeu que estava olhando para ele, procurou se apressar para desprender a mala.
Passado o calafrio, seguiu para assento que ela mesma tinha escolhido. Antes de se sentar, notou outro garoto atrás, sozinho. Esse tinha cabelos castanho claros, repartidos de lado e descendo quase até as sobrancelhas escuras e os olhos verdes. Olhos verdes normais, mas a camiseta azul clara do garoto os realçava. Acenou com a cabeça para Kylie. Nada de muito esquisito, graças a Deus. Pelo menos, havia uma pessoa normal perto dela no ônibus.
Já sentada, olhou novamente para o carinha loiro. Mas ele não estava olhando para ela, por isso Kylie não pôde ver se a cor de seus olhos tinha ficado diferente de novo. Mas então reparou que a garota do cabelo tricolor tinha alguma coisa nas mãos. Conteve mais uma vez a respiração.
A garota segurava um sapo.
Não uma rã — uma rã ainda seria admissível —, mas um sapo. Um sapo horroroso e coaxante. Que tipo de menina pintava os cabelos de três cores e levava um sapo para um acampamento? Que droga, talvez fosse um daqueles sapos com alucinógeno na pele, que as pessoas lambem para ficar doidonas. Tinha ouvido falar deles num seriado de crimes idiota da televisão, mas sempre achou que fosse bobagem. Não sabia o que era pior: lamber um sapo para ficar doidona ou carregar um sapo por aí só para parecer extravagante.
Colocando a mala no assento vazio do lado, para que ninguém se sentisse tentado a ocupá-lo, Kylie suspirou fundo e olhou pela janela. O ônibus ia muito rápido, embora ela não imaginasse como a motorista conseguia alcançar os pedais.
— Sabe como chamam quem vai para o nosso acampamento? — a voz vinha do lado do assento onde estava a garota com o sapo.
Kylie supôs que não era com ela, mas ainda assim virou a cabeça. Como a garota olhava diretamente para o seu rosto, achou que tinha se enganado.
— Quem? — perguntou Kylie, tentando não parecer nem muito simpática nem muito antissocial. A última coisa que queria era irritar aquelas aberrações.
— Os caras que vão para os outros acampamentos. São seis acampamentos num raio de cinco quilômetros em Fallen — com as duas mãos, ela repuxou os cabelos tricolores para a nuca e os manteve assim por alguns segundos.
Kylie notou então que a garota não estava mais com o sapo. E não havia por perto nenhuma caixa ou coisa semelhante onde ela pudesse ter guardado o bicho. Era só o que faltava. Dali a pouco um sapo com a pele cheia de alucinógenos poderia saltar em seu colo num piscar de olhos. Não que os sapos a matassem de medo ou coisa assim. Só não queria que pulassem em cima dela.
— De “osso duro de roer” — disse a garota.
— Por quê? — Kylie acomodou os pés na beira do assento, no caso de algum sapo aparecer saltitante por ali.
— O acampamento antes se chamava Bone Creek, que significa Riacho dos Ossos — explicou a garota —, por causa de uns ossos de dinossauro que acharam no local.
— Ah — interrompeu o carinha loiro —, também nos chamam de “osso duro”...
Ouviram-se risinhos maliciosos nos outros assentos.
— Qual é a graça? — resmungou a garota de preto num tom tão irritado que Kylie estremeceu.
— Não sabe o que é ter o osso duro? — continuou o Loirinho. — Então vem cá que eu te explico.
Quando ele se virou, Kylie viu de novo seus olhos. Mãe do Céu! Estavam dourados, da cor dos olhos de um felino. Lentes de contato “radicais”, sem dúvida. Só lentes poderiam produzir um efeito daqueles.
A Garota Gótica se levantou como se fosse sentar ao lado do loiro.
— Não faça isso — disse para Garota do Sapo, sem o sapo, levantando-se também e cruzando o corredor até a Garota Gótica, para sussurrar alguma coisa em seu ouvido.
— Que merda! — a Garota Gótica voltou a se sentar. Em seguida, olhou para o Loirinho e lhe apontou uma unha pintada de preto. — Nem pense em me aborrecer. Como coisas maiores que você na calada da noite.
— Alguém aí falou em calada da noite? — a voz vinha dos fundos do ônibus.
Kylie se virou para ver de quem era a voz. Outra garota, em quem Kylie não tinha reparado, levantou-se. Tinha cabelos muito pretos e usava óculos de sol quase da mesma cor. Sua pele é que a fazia parecer anormal. Pálida. Sem cor.
— Vocês sabem por que mudaram o nome do acampamento para acampamento Shadow Falls? — perguntou a Garota do Sapo.
— Não — disse alguém na frente do ônibus.
— Por causa da lenda indígena de que, no crepúsculo, se você ficar de pé debaixo da cachoeira, pode ver as sombras dos anjos da morte dançando.
Anjos da morte dançando?
O que havia de errado com aquela gente? Kylie agitou-se no assento. Seria um pesadelo? Talvez parte de seus terrores noturnos? Afundou-se no estofamento macio e tentou acordar dos sonhos do jeito que a Dra. Day tinha ensinado.
Concentração. Concentração.
Inspirou fundo pelo nariz e expirou pela boca — cantarolando baixinho, ao mesmo tempo, É apenas um sonho, não é real, não existe. Ou não estava dormindo ou sua concentração tinha embarcado no ônibus errado. Preferia muito mais sonhar num ônibus diferente. Ainda incapaz de acreditar nos próprios olhos, começou a observar os outros passageiros. O Loirinho se virou para ela e suas pupilas eram negras de novo.
De arrepiar.
Ninguém mais ali percebia que aquilo não era normal?
Virando-se de novo no assento, olhou para o garoto que havia considerado o mais normal de todos. Seus suaves olhos verdes, que lembravam os de Trey, encontraram-se com os dela. Em seguida, ele encolheu os ombros. Kylie não sabia exatamente o que significava o gesto, mas de fato o garoto não parecia nada esquisito — o que, de certo modo, o tornava tão esquisito quanto os demais. Kylie se recostou no banco e, tirando o celular da bolsa, começou a digitar uma mensagem para Sara.

Ajude-me! Enfiada num ônibus cheio de monstros. Monstros de verdade!

Kylie recebeu a resposta de Sara quase imediatamente:

Não, você é que precisa me ajudar. Acho que estou grávida.

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