terça-feira, 13 de setembro de 2016

Capítulo 2

Todo mundo tem um segredo.
Talvez vocês tenham mentido. Talvez tenham colado em um teste. Talvez – como a Pessoa Morta Não Obediente na minha frente – tenham matado alguém (espero que não, para o bem de vocês).
Mas o negócio dos segredos é que eles vêm à tona. E acreditem em mim, se vocês tiverem um segredo, ele vai acabar sendo descoberto.
E, quando isso acontecer, é provável que tudo fique bem... quer dizer, depois de terapia, ou de um tempo na cadeia, nos piores casos, ou – se vocês forem celebridades – depois de algumas entrevistas para se desculparem com os fãs decepcionados.
Não era o caso do segredo daquele cara, no entanto.
Nem com o meu. Nem toda terapia, cadeia e entrevistas do mundo seriam suficientes para aliviar o meu segredo. Ele é do tipo que todos os líderes religiosos em todas as culturas e sociedades do mundo já condenaram em diversos momentos, dizendo que é abominável, anômalo, obra do diabo.
Ao longo da história, mulheres com o meu segredo foram queimadas na fogueira, afogadas ou apedrejadas até a morte. A comunidade científica declarou que o meu segredo é “incompatível com as leis estabelecidas pela ciência”, e, portanto, não existe.
E é exatamente por isso, é claro, que escritores (e produtores, e públicos de filmes e televisão) amam o meu segredo. Só na última década, lançaram milhares de livros, séries de televisão, filmes, jogos de vídeo game e até reality shows baseados em pessoas que têm a minha habilidade secreta. E a maioria teve uma audiência decente.
Entretanto, nenhum deles acertou. Alguns chegaram bem perto. Perto até demais. Tão perto que ultimamente tenho tido que me esforçar mais para parecer a jovem maneira, reservada e estilosa de 20 e poucos anos que pareço ser... pelo menos por fora.
Apenas algumas pessoas sabem que sou estranha e bizarra por dentro. E essas pessoas todas têm motivos para guardar o meu segredo, visto que... bem, eu as ajudei a resolver os seus próprios.
Uma pessoa em especial. Que, miraculosamente, se apaixonou por mim.
Não me perguntem por quê. Eu acho que sou incrível, mas não sei direito o que ele vê em mim (a não ser o fato de eu ter salvado a vida dele algumas vezes. E ele retornou o favor).
O único motivo para não estarmos passando este dia dos namorados juntos é que ele estuda Medicina em uma instituição que fica a quatro horas, e no momento está fazendo plantões (e também entrevistas para residência).
Sim, o meu namorado está estudando Medicina. Quer ser pediatra. Quer conseguir uma residência no hospital São Francisco, que fica perto de mim (esse “programa de alocação” da residência médica é pra valer. Ele vai descobrir onde – e se – foi alocado no mês que vem), mas não estou otimista. Já tivemos tanta sorte em apenas nos acharmos, que me parece egoísmo pedir mais.
O que um cara como ele está fazendo com uma menina como eu, não sei dizer... se bem que Hector “Jesse” de Silva também tem segredos. E alguns são mais obscuros do que os meus.
Porém, certamente não mais do que os do cara com quem eu estava passando o Dia dos Namorados.
— Vamos dizer que sou a sua fada madrinha — falei para ele, pulando do túmulo do J. Charles Peterson. Eu gostaria de dizer que fiz isso com graciosidade, mas acho que não foi o caso por causa da minha bunda congelada. Tentei ser discreta, no entanto. — E estou aqui pra garantir que você chegue no baile a tempo. Só que, neste caso, o baile é o pós-vida. Vamos, se andarmos logo ainda conseguimos chegar antes da meia-noite. Só não sei se a Cinderela — apontei para o túmulo que a PMNO tinha acabado de vandalizar — vai estar esperando por você. Ou, se estiver, não sei se vai estar muito feliz.
A PMNO ainda parecia surpresa. Não era exatamente o meu tipo de Príncipe Encantado, mas sua namorada – uma boa aluna, bonita e popular – com certeza viu alguma coisa nele para amar.
— V-você consegue me ver? — gaguejou ele, olhos franzidos por trás dos óculos de aro preto. Ele estava com o figurino completo, seja lá qual fosse a impressão que estava querendo passar; talvez um tipo artista torturado/Steve Jobs, a não ser pelo fato de ser negro. Eu boto roupa preta quando vou trabalhar à noite para não ser notada pelos seguranças. Ele parecia estar de preto para expressar a obscuridade da sua alma. — Ninguém... ninguém conseguiu me ver desde o acidente.
Acidente. Era um belo toque.
— É claro que vejo você, gênio — falei — e não sou a única. — Apontei o dedo por cima do meu ombro, para o carvalho atrás do túmulo de J. Charles Peterson. Cementerio El Encinal queria dizer Cemitério dos Carvalhos (estou fazendo aula de espanhol para quando eu e o Jesse tivermos filhos eu conseguir entender o que ele está berrando para as crianças na sua língua nativa). — A família da sua namorada ficou cansada de ver os arranjos de flores sempre destruídos, então instalaram um sistema de câmeras três dias atrás. O seu ataquezinho nervoso está em todas as redes sociais. Passou até no jornal.
Ele olhou na direção das câmeras.
— Sério? — Mas, em vez de ficar com vergonha desse comportamento desrespeitoso no túmulo da sua amada, o rosto dele se abriu em um sorriso. — Maneiro.
O desprezo que eu vinha sentindo por ele se intensificou um pouco, o que nunca é muito bom em uma mediação. O ideal é não sentirmos nada em relação aos nossos “clientes” – nada além de compaixão.
Mas é difícil sentir compaixão por um assassino de sangue frio.
— Hum, não, não é maneiro — falei, irritada. — E não dá tchauzinho pra mamãe ainda não. Primeiro, porque eu desliguei a câmera hoje. Segundo, porque você está morto, caso ainda não tenha se tocado disso. Não tem mais presença física, pelo menos não pras pessoas que não são como eu. Quando a câmera grava você, só mostra ruído estático. As pessoas acham que é um...
— Fantasma? — Ele sorriu.
Meu Deus, esse moleque era doente.
— Alguns noticiários menos respeitados especulam que pode ser um fantasma — admiti. — Outros acham que é uma dupla de vândalos que trabalha em equipe, um destruindo as flores enquanto o outro adultera a câmera. Tem gente que acha que a família está tentando criar uma farsa com a mídia e com a polícia, que leva o vandalismo em túmulos muito a sério. Isso não é uma coisa muito legal de se fazer com pessoas que estão no período de luto pela morte da filha querida.
Pelo menos isso surtiu efeito. Ele parou de sorrir e franziu o rosto para o túmulo que havia acabado de vandalizar. Tinha uma lápide novinha, de mármore cor-de-rosa, dessas que têm uma foto ao lado do nome.
Jasmin Ahmadi, dizia o epitáfio. Querida filha, irmã, amiga. Foi-se muito cedo e deixará saudades eternas.
A foto mostrava uma garota de cabelos escuros sorrindo para a câmera, com dobrinhas nos olhos. Jasmin tinha 17 anos quando morreu.
A lápide dele estava algumas fileiras ao lado, porém era bem mais simples, feita de granito cinza com um epitáfio contendo apenas o seu nome – Mark Rodgers – e datas de nascimento e morte. Não tinha foto. O ano do nascimento dele – e a data da morte – eram os mesmos de Jasmin.
— No final das contas, o que as pessoas acham não importa — falei. — Fantasma, vândalos, tanto faz. Porque isso acaba hoje, Mark.
Em vez de pedir desculpas ou dar uma explicação para o seu comportamento, Mark só pareceu ainda mais infeliz.
— Se eles não querem que eu pegue as flores do túmulo dela, têm que parar de trazer. Principalmente ele.
Não era a resposta que eu estava esperando.
— Ele? Ele quem?
— Ele. Zack. — A boca de Mark se contorceu como se o nome fosse azedo.
Eu não fazia ideia de quem ele estava falando.
— Olha, Mark — falei —, odeio ser a responsável por dar essa notícia pra você, mas as pessoas vão deixar flores no túmulo da sua namorada. Ela era bem popular e morreu tragicamente muito cedo.
— Eu morri cedo — retrucou Mark, batendo o dedo no peito. — E, como você pode notar, não tem ninguém deixando flores no meu túmulo!
Ele apontou para o seu local de descanso de maneira acusativa. Eu não consegui ver por causa da escuridão e da neblina, mas havia dado uma olhada antes de assumir a minha posição na lápide de J. Charles Peterson, então sabia que ele estava certo.
Ninguém havia deixado nem mesmo uma pedrinha para indicar que visitaram desde o enterro.
— É — falei. — Bem, talvez você devesse ter pensado nisso antes de matar sua namorada e depois se matar só porque ela disse não pra sua proposta de casamento.

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