domingo, 18 de setembro de 2016

Capítulo 29

— Jesse.
Ele não respondeu. Em vez disso, ficou de pé e passou por mim sem falar nada; mas não, como temi inicialmente, para levantar Paul Slater da cadeira e jogá-lo pelo vidro da janela.
Para minha surpresa, Jesse passou por Paul – que havia se encolhido na cadeira, claramente esperando um golpe – e saiu do restaurante sem olhar para trás, embora eu o tivesse chamado de novo. A última coisa que vi foi ele desaparecendo pela porta da frente, os ombros largos tão tensos quanto os de um soldado em ação.
— Ai — disse Paul, se ajeitando na cadeira. Pegou a garrafa de uísque. — Essa deve ter doído, Simon.
— Cale a boca, Paul. — Eu me sentei na cadeira mais próxima. Mesmo que quisesse sair correndo atrás de Jesse (e não sei de que forma isso ajudaria), eu não tinha certeza de que minhas pernas conseguiriam me aguentar. — Eu não acredito que você acabou de fazer isso.
— Ah, por favor. — Paul colocou o pinot noir novo em uma das várias taças que estavam na frente de meu prato. — Se vocês tivessem um relacionamento tão bom assim, ele teria ficado, independentemente do que falei.
Dei uma olhada amarga nele.
— Ele foi embora para não te matar.
Paul gargalhou.
-— Provavelmente. Aposto que está esperando você no estacionamento, sendo o cãozinho leal que é. Au, au.
— Você é nojento. — Mas eu torci para que ele estivesse certo.
— Posso dar uma sugestão? Vá embora daqui comigo em meu avião. Esse cara vai virar o satanás na segunda-feira, ainda mais agora, considerando o quanto você o emputeceu. E, por mais que você tenha me aborrecido também, Simon, com seu comportamento de hoje, eu realmente detestaria te ver morrer. Não gosto de ver coisas belas sendo desperdiçadas. E, falando nisso, antes de irmos, me ajude a terminar esse vinho. A garrafa custa mil e duzentos dólares.
A criança está perdida, e muito aterrorizada, e sofrendo muito, disse tia Pru. E crianças perdidas e sofrendo às vezes podem ser muito cruéis. Elas se rebelam e machucam os outros, às vezes sem querer. Mas às vezes de propósito também.
Talvez ela realmente estivesse falando de Paul, e não de Lucia.
— Paul — falei, ignorando o vinho e pegando o celular na bolsa. — Você reconhece essa foto?
Paul olhou rapidamente para a foto na tela e deu de ombros.
— Claro. Você mostrou para o pervertido mais cedo. Por quê?
— São minhas sobrinhas. — Mostrei mais fotos das trigêmeas no celular, um breve álbum. — São as trigêmeas de Brad e Debbie Ackerman. Só que você a conheceu como Debbie Mancuso, é claro.
— Fascinante, Suze. Por que você não está bebendo o vinho? Realmente não devia deixar passar. Tem um semitom terroso muito bom.
— As filhas de Brad e Debbie são mediadoras, Paul — falei. — É por isso que estou mostrando as fotos. Sabe como isso é raro? Que haja tantos mediadores na área da baía de Monterrey? Pense. Tem você, Paul. E seu irmãozinho, Jack. E o padre Dom, é claro. E agora Jesse. Então as trigêmeas de Debbie Mancuso, que ela concebeu pouco tempo depois da formatura.
Paul havia tomado um gole do vinho de mil e duzentos dólares que pediu. Mas, quando falei formatura, ele engasgou. Conseguiu engolir tudo, menos uma gota que desceu pelo canto da boca. Ele limpou com o guardanapo e olhou para baixo a fim de garantir que não havia respingado no precioso terno.
— É mesmo? — perguntou ele. — Como disse, fascinante. Mas por que está me contando tudo isso? Não sou muito fã de crianças. Prefiro falar sobre nós dois.
— Isso tem a ver conosco — falei. Coloquei os cotovelos sobre a mesa e o queixo na mão para observá-lo com atenção. — Você, eu e Jesse, e o que vai acontecer na segunda-feira se você demolir minha casa. Se essa maldição for real e Jesse realmente começar a atacar todo mundo que ama, isso vai incluir essas crianças. Essas crianças que veem fantasmas. Como você acha que Debbie Mancuso acabou com trigêmeas que veem fantasmas? Principalmente quando ela nunca mostrou nenhum sinal de ser mediadora, e nem, como todos sabemos, meu meio-irmão Brad. Eu tinha esperanças de que você pudesse esclarecer essa questão.
— Eu? — Paul apontou para si próprio, sobrancelhas o mais alto que podiam ir. — O que eu posso saber sobre isso? Não sei nada sobre crianças.
— Até onde eu sei, a falta de informação sobre crianças nunca foi um impedimento médico para pessoas as conceberem.
— Olhe, já entendi aonde você está querendo chegar, Simon, mas elas não podem ser minhas — declarou Paul. — Não me interessa o que Debbie vem contando para você. Jamais deixei de usar camisinha na vida, e por uma razão muito boa. Você sabe o quanto eu valho? Acha que não sei que existem mulheres desesperadas no país inteiro que adorariam que eu caísse na armadilha de ser pai de uns fedelhos cheios de meleca só para eu pagar algumas moedas de ouro até as crianças completarem 18 anos? Não, obrigado.
— Paul, por favor — falei, e olhei em volta para os outros clientes que o encaravam.
— Não tem ninguém montando armadilhas para você pagar nada, muito menos Debbie. Ela nunca falou nada sobre isso comigo...
— Espero que não mesmo! — Ele apontou para mim. — Sou um cara muito, muito cuidadoso.
— Paul, eu também não gosto disso. Amo essas meninas e daria tudo para que Brad fosse o pai delas. Na minha opinião, ele é o pai de verdade. Mas não biologicamente. Você mesmo admitiu que não tomou cuidado na formatura. Disse que mal se lembra do que aconteceu. Na verdade, você usou a bebedeira como desculpa para o que fez comigo. Mas não estava tão bêbado assim — continuei — para se lembrar de que, mais tarde, naquela mesma noite, Debbie Mancuso, cito, “subiu em cima de mim como se eu fosse um maldito gigolô”, fim da citação.
Paul apoiou a cabeça nas mãos.
— Ai, merda. Ok. Uma vez. Talvez eu tenha me esquecido da camisinha uma vez. Mas como ela pode ter engravidado de três crianças com uma vez?
— Adolescentes e mulheres com mais de 35 anos têm mais probabilidade de dar à luz gêmeos e trigêmeos que mulheres entre 20 e 35. — Ele olhou para mim sem acreditar. Dei de ombros. — O nome disso é ciência. É só pesquisar.
— Bem, se acha que vai conseguir um pouco de minha saliva para fazer um teste de paternidade, você está…
Eu me inclinei para a frente e peguei a taça de vinho de Paul. Derramei o conteúdo no arranjo de flores da mesa e envolvi a taça com meu guardanapo. Coloquei os dois em minha bolsa.
— Eles acham DNA para fazer teste de paternidade em todos os tipos de objetos hoje em dia, Paul — expliquei. — Custa um pouco mais e leva mais tempo, mas eles fazem.
Paul parecia que ia enfartar a qualquer momento.
— Você não pode... eu vou... meus advogados vão...
— Não vão, não. Porque o teste vai dar positivo. Aquelas meninas são suas filhas, e já estão começando a precisar de tratamento especial. Não conseguem distinguir os vivos dos mortos.
— O que você quer de mim, Suze? — perguntou ele, com as mãos à frente, palmas para cima. — Eu acho que é bem claro que não serei uma grande ajuda para elas. Não sou bom mediador.
— Não mesmo. Felizmente, elas têm uma tia dedicada que vai ensinar essas habilidades, agora que sei que é isso que elas são.
Ele pareceu aliviado.
— Ok. Sem problema. Você fez um trabalho maravilhoso com meu irmão, Jack. Ele nem fala comigo, mas tudo bem. Então elas precisam de quê? Dinheiro?
— Não. Elas já têm pais, e avós, que as amam e vão dar tudo de que precisarem nessa área... por enquanto. Mas você ainda precisa se redimir. Não acho que a ideia de você ser o pai das filhas dela já passou pela cabeça de Debbie, e, se passou, ela nunca pensou em correr atrás disso. Mas talvez ela mude de ideia, agora que você resolveu comprar propriedades em Carmel. As coisas não estão indo bem para Brad e para Debbie. Um pouco de sua grana provavelmente ajudaria a aliviar o estresse de criar trigêmeas agitadíssimas de 5 anos de idade que veem gente morta. E depois disso você pode entrar para a vida delas. E de Debbie, é claro. Talvez eu devesse contar a ela que...
Ele ficou pálido.
— Você está blefando. Brad é só seu meio-irmão, e você sabe que ele é um idiota, mas mesmo assim você o ama. Nunca faria com que ele passasse por isso.
— Não faria? Não tenho tanta certeza. Talvez ele tenha o direito de saber. E tenho certeza de que o pai de Debbie Mancuso, o Rei das Mercedes de Carmel, ficaria muito feliz em saber que as netas são suas, e não de Brad Ackerman...
— Tá bom, Simon. Já entendi, ok? Se você prometer que não vai contar para ninguém que talvez eu seja o pai dessas crianças, eu não destruo a casa 99 da Pine Crest Road.
— Ah — falei —, você definitivamente não vai destruir a casa 99 da Pine Crest Road. Quer saber por quê? Porque você vai dá-la para mim.

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